Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Cheguei ontem, senhora, e meu primeiro cuidado foi correr a depositar meus respeitos aos pés da viúva do meu melhor amigo.
– Obrigada, senhor, respondeu Mariana a tremer; é muito lisonjeiro para mim, que me coubesse aqui o seu primeiro cuidado. Vejo que se não esqueceu de nós...
– Oh!... nunca!... exclamou o mancebo animando-se.
– E também nós, senhor, nunca!...
Sem se poder explicar a razão, Celina sentou-se por seu turno perturbada, começou a corar muito e conheceu que não podia ficar ali mais tempo.
Aquela cena de amor como que ofendia sua inocência de virgem. Ela ergueuse e disse a Mariana:
– Devo mandar participar a meu avô a visita do senhor?...
– Sim, murmurou a viúva.
Celina deixou a sala.
Henrique e Mariana ficaram a sós por cinco minutos. Mariana não era mais uma senhora casada.
Quando, no fim dos cinco minutos, entrou na sala o avô da “Bela Órfã”, Mariana já sabia que três anos de ausência não tinham podido arrefecer a paixão ardente que lhe votava Henrique.
Era um amor que recomeçava.
CAPÍTULO IV
DIA DE FINADOS
HÁ NO ANO dois dias que são verdadeiramente pomposos na cidade do Rio de Janeiro: o de quinta-feira de Endoenças e o da comemoração dos defuntos.
No primeiro deles adora-se o lenho sagrado, imagem daquele em que no Gólgota foi crucificado o Filho da Rainha das Virgens.
O segundo pertence à religião dos túmulos.
Pois com serem tão grandiosos e sublimes, tão cheios de íntima dor, e de tremenda verdade os pensamentos que presidem esses dois dias, ainda assim há neles sacrilégio e vaidade.
Há o sacrilégio dos homens e a vaidade das mulheres e de quase todos.
Uma multidão de mancebos corre um por um todos os templos na quinta-feira santa, e sem que os intimide nem contriste o aspecto solene das igrejas, o efeito dessas mil luzes que se queimam nos altares, e o profundo silêncio que neles reina; no meio dos poucos a quem um verdadeiro sentimento religioso afasta da terra e aproxima do céu, eles profanam o santuário requestando as mulheres e zombando dos mistérios.
E as mulheres, as mulheres em quem a religião, além de um dever, é ainda, mais que em todos, uma necessidade e um encanto, têm entre si muitas que olham a noite sagrada como o ensejo feliz de ostentar suas graças e suas galas; e lá mesmo, no seio dos templos, suas orações não chegam nunca ao céu, porque as desconceituam as murmurações que de envolta com elas caem na terra.
E o dia de finados, o dia de luto que os homens têm tornado de festa; o dia do pó, a recordação do nada que somos, é em nosso tempo a demonstração viva e solene do muito que pretendemos ser.
Uma palavra diz tudo: no dia da comemoração dos defuntos, a vaidade dos vivos levanta seu trono sobre o túmulo dos mortos.
E portanto ainda nesses dois solenes dias nós demonstramos crime e fraqueza.
Em quinta-feira de Endoenças nós somos sacrílegos.
Em 2 de novembro de todos os anos nós somos, pelo menos, vaidosos.
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Havia chegado o dia 2 de novembro de 1846.
Tinha-se, pouco mais ou menos, passado mês e meio depois daquela manhã em que Cândido, da fresta de sua janela, observara em êxtase a “Bela Órfã” passeando no seu jardim.
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Desde o romper da aurora que os bronzes de todas as igrejas da capital do Brasil gemiam com seu dobre lúgubre, longo e monótono.
Multidão imensa de homens e mulheres, todos vestidos de luto, saíam ou entravam em turmas pelas portas dos templos como ondas negras.
Apesar de sua vaidosa ostentação, de sua inoportuna riqueza, os jazigos ofereciam um aspecto sublime e melancólico: era o aspecto da morte.
O cemitério de S. Francisco de Paula estava semeado de túmulos e repleto de povo.
Os curiosos que o visitavam cediam à força do império da morte; obumbravam-se.
Os órfãos e as viúvas, os pais que haviam perdido seus filhos, choravam e rezavam.
A despeito das galas e do luxo de alguns imensos mausoléus, o pó, o nada humano parecia transudar por entre as molduras douradas, e uma caveira se mostrava triunfante de sobre as colunas de ébano.
Nos túmulos humildes, sem pompa de luxo, cobertos de roxos amarantos e tristíssimas perpétuas, como que o gênio da saudade estava aí sentado para intermediário entre a dor do vivo e a alma do- morto. O túmulo sem pompa era a expressão da saudade do vivo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.