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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Celina tornou-se pela segunda vez muito corada, e sem poder ocultar um movimento de desgosto, disse:

– Eras casada nesse tempo, Mariana.

– É verdade, respondeu a viúva. Escuta o que eu precisava dizer a uma amiga, , ara que ela ficasse conhecendo meu coração, e depois falasse muitas vezes comigo sobre o meu amor.

Celina fitou os olhos em Mariana, que começou logo a falar.

– A história da minha vida, Celina, se assemelha à de um número imenso de moças. Não te cansarei, pois, alongando-a. Aos quatorze anos já o meu espelho me tinha dito que era bela, e desde que o soube, sonhei, como todas nós sonhamos aos quatorze anos, sonhei como tu sonhas aos dezesseis, com um mancebo formoso e interessante, que o céu por força deveria ter formado de propósito para mim; que seria meu esposo, que me amaria com ardor indizível em meu primeiro dia de noivado, e que daí a cem anos, ele e eu, moços sempre, ele sempre com seus vinte anos, e eu sempre com meus quatorze anos, belos e felizes nos amaríamos com o mesmo ardor indizível do primeiro dia de noivado. Fui amada, requestada, e às vezes feliz. Recebi cem proposições de casamento. De seu lado meu pai rejeitou cinqüenta, que eram feitas por mancebos gentis, namorados, bailistas; e que, segundo dizia meu pai, sabiam tudo, tudo, menos trabalhar. Por minha parte rejeitei as outras cinqüenta que me eram dirigidas por nobres e ricos senhores de cabelos grisalhos e elegantes carruagens, que, em minha opinião, mereciam tudo, tudo, menos o meu amor. Enfim cheguei aos meus vinte e quatro anos... oh Celina! eu tive medo, quando um dia me lembrei que tinha já vinte e quatro anos e estava ainda solteira!...

Celina notando no tom sério com que Mariana pronunciou aquelas últimas palavras, não pôde deixar de sorrir-se.

– É porque tu não sabes, Celina, o que se passou então dentro de mim. Nas sociedades parecia-me ouvir dizer – coitada! – quando eu passava perto de um círculo de cavalheiros; eu julgava-me ofendida no meu orgulho, rebaixada na convicção que eu tinha de ser bela; bela sim, e mais bela que as outras, quando eu via entrar na sala pelo braço de seus maridos minhas companheiras de colégio, algumas mais moças que eu e nenhuma tão bonita como eu mesma me supunha!... Oh Celina!... eu sentia que o sangue me estava subindo à cabeça naqueles terríveis momentos; concebia desejos de matar-me, e às vezes fugia para o toilette, e chorava como chora uma criança em desespero!...

A “Bela Órfã” começava a ouvir com interesse a relação daqueles segredos íntimos de um coração de mulher.

– Em outras ocasiões, prosseguiu Mariana, conversava-se familiarmente em uma roda de moças; passava-se da discussão sobre o último sarau a falar-se acerca de vestidos e modas, e enfim se sucedia cair a conversação a respeito de idades, era para mim um suplício acerbo obrigarem-me a dizer a minha. Eu mentia, Celina, eu dizia que tinha dezoito anos, e dentro de mim sofria horríveis torturas, vendo como aquelas que me conheciam, sorriam-se e beliscavam-se ouvindo-me mentir diante delas!

– Uma vez, continuou a viúva, era em um brilhante sarau; Matilde, a minha melhor amiga, passeava conversando comigo; de repente parou, e como inspirada por um demônio, disse-me: – Ah! é verdade, Mariana, é preciso cuidares de casar-te; estás te fazendo velha!... – Oh!... então eu tive vontade de matar a minha melhor amiga. Fugi daquele sarau... disse que estava doente; meu pai trouxe-me para casa cheio de cuidados; eu corri a esconder-me no meu quarto, e passei a noite inteira chorando. No outro dia (foi certamente o meu destino, Celina) meu pai mandou-me chamar à sala; estava com ele um homem que eu havia encontrado algumas vezes mas que nenhuma atenção me merecera: esse homem vinha pedir a minha mão; meu pai deu-me a liberdade de responder, e eu, sem perguntar quem ele era, qual o seu nome e o emprego que na sociedade exercia, disse-lhe que – sim! – e passado um mês eu era mulher de um homem que não amava, e de quem podia ser filha.

– Mas foi uma loucura!... exclamou Celina.

– Oh! sim, foi, e caro tive eu de pagá-la. Eu tinha feito, sem o pensar, o sacrifício de minha vida; não me era porém então doloroso, porque meu coração estava livre... eu não amava. Mas parece que Deus quis castigar-me de pronto; porque Deus, Celina, não abençoa a união daqueles que se não amam. Logo na noite de nossas núpcias, meu marido me apresentou um mancebo de nome Henrique, e me convidou a abraçar nele o seu primeiro amigo; e nessa mesma noite, portanto, vi um homem que preferi a meu marido. E daí por diante todos os dias sempre esse mancebo belo, nobre, ardente, de olhos tão lindos, e um sorrir tão meigo, se apresentava diante de mim, ao pé de meu marido pálido, abatido, com os cabelos começando a embranquecer, sem espírito para compreender a mulher que desposara, e sem poder ser amado por ela!

– Oh! devia ser horrível!... murmurou a “Bela Órfã”.

(continua...)

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