Por Machado de Assis (1875)
Machado de Assis (1839–1908) aborda, em “A Cristã-Nova”, o drama da intolerância religiosa e da perseguição inquisitorial, centrado na figura da mulher judia convertida. Integrante do livro Americanas, o poema alia temática histórica a um tom lírico-trágico, revelando sensibilidade ética e crítica social já presentes na poesia inicial do autor.
...essa mesma foi levada cativa para uma terra estranha.
NAHUM, cap. III, v. 10
PARTE I
I
Olhos fitos no céu, sentado à porta,
O velho pai estava. Um luar frouxo
Vinha beijar-lhe a veneranda barba
Alva e longa, que o peito lhe cobria,
Como a névoa na encosta da montanha
Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite,
E silenciosa: a praia era deserta,
Ouvia-se o bater pausado e longo
Da sonolenta vaga — único e triste
Som que a mudez quebrava à natureza.
II
Assim talvez nas solidões sombrias
Da velha Palestina
Um profeta no espírito volvera
As desgraças da pátria.
Quão remota
Aquela de seus pais sagrada terra,
Quão diferente desta em que há vivido
Os seus dias melhores! Vago e doce,
Este luar não alumia os serros
Estéreis, nem as últimas ruínas,
Nem as ermas planícies, nem aquele
Morno silêncio da região que fora
E que a história de todo amortalhara.
Ó torrentes antigas! águas santas
De Cédron! Já talvez o sol que passa,
E vê nascer e vê morrer as flores,
Todas no leito vos secou,16 enquanto
Estas murmuram plácidas e cheias,
E vão contando às deleitosas praias
Esperanças futuras. Longo e longo
O devolver dos séculos
Será, primeiro que a memória do homem
Teça a mortalha fria
Da região que inda tinge o albor da aurora.
III
Talvez, talvez no espírito fechado
Do ancião vagueavam lentamente
Estas idéias tristes. Junto à praia
Era a austera mansão, donde se via
Desenrolarem-se as serenas vagas
Do nosso golfo azul. Não a enfeitavam
As galas da opulência, nem os olhos
Entristecia co’o medonho aspecto
Da miséria; não pródiga nem surda
A fortuna lhe fora, mas aquela
Mediana sóbria, que os desejos
Contenta do filósofo, lhe havia
Dourado os tetos. Guanabara ainda
Não era a flor aberta
Da nossa idade, era botão apenas,
Que rompia do hastil, nascido à beira
De suas ondas mansas. Simple e rude,
Ia brotando a juvenil cidade,
Nestas incultas terras, que a lembrança
Recordava talvez do antigo povo,
E o guau alegre, e as ríspidas pelejas,
Toda essa vida que morreu.
IV
Sentada
Aos pés do velho estava a amada filha,
Bela como a açucena dos Cantares,
Como a rosa dos campos. A cabeça
Nos joelhos do pai reclina a moça,
E deixa resvalar o pensamento
Rio abaixo das longas esperanças
E namorados sonhos. Negros olhos
Por entre os mal fechados
Cílios estende à serra que recorta
Ao longe o céu. Morena é a face linda
E levemente pálida. Mais bela,
Nem mais suave era a formosa Ruth
Ante o rico Boaz, do que essa virgem,
Flor que Israel brotou do antigo tronco,
Corada ao sol da juvenil América.
V
Mudos viam correr aquelas horas
Da noite, os dois: ele voltando o rosto
Ao passado, ela os olhos ao futuro.
Cansam-lhe enfim ao pensamento as asas
De ir voando, através da espessa treva,
Frouxas as colhe, e desce ao campo exíguo
Da realidade. A delicada virgem
Primeiro volve a si; os lindos dedos
Corre-lhe ao longo da nevada barba,
E — “Pai amigo, que pensar vos leva
Tão longe a alma?” Estemecendo o velho:
— “Curiosa! — lhe disse —, o pensamento
E como as aves passageiras: voa
A buscar melhor clima. — Oposto rumo
Ias tu, alma em flor, aberta apenas,
Tão longe ainda do calor da sesta,
Tão remota da noite... Uma esperança
Te sorria talvez? Talvez, quem sabe,
Uns namorados olhos que me roubem,
Que te levem... Não córes*, filha minha!
Esquecimento, não; lembrança ao menos
Ficar-te-á do paterno afeto; e um dia,
Quando eu na terra descansar meus ossos,
Haverás doce bálsamo no seio
Da afeição juvenil... Sim; não te acuso;
Ama: é a lei da natureza, eterna!
Ama: um homem será da nossa raça...”
VI
Estas palavras tais ouvindo a moça,
Turbada os olhos descaiu na terra,
E algum tempo ficou calada e triste,
Como no azul do céu o astro da noite,
Se uma nuvem lhe empana a meio a face.
Súbito a voz e o rosto alevantando,
Com dissimulação — pecado embora,
Mas inocente: — “Olhai, a noite é linda!
O vento encrespa molemente as ondas,
E o céu é todo azul e todo estrelas!
(continua...)
ASSIS, Machado de. A cristã-nova. In: ASSIS, Machado de. Americanas. Rio de Janeiro: Garnier, 1875.