Por Gregório de Matos (1696)
Este conjunto de poemas é atribuído a Gregório de Matos (1636-1696), o "Boca do Inferno", figura central do Barroco brasileiro. Os textos foram produzidos na Bahia, no século XVII, possivelmente em um contexto de convivência social da elite soteropolitana. A obra reflete o dilema amoroso, a frustração do eu lírico diante de impossibilidades amorosas, a observação do cotidiano e a reflexão moral, típicas da lírica satírica e amorosa do poeta em sua vivência na sociedade colonial baiana.
Pertende o Poeta casar-se com esta Senhora, e por se achar alcançado em annos, e abatido em bens, Introduzio amizade com seo Irmão o Capitão Francisco Moniz de Souza fazendo especial menção delle na festa das virgens e depois com hum soneto, e varias obras pertendendo assim introduzir-se naquella casa. Posto com effeyto nella, vio huma manhãa de Natal as tres Irmãas, a cuyas vistas fez as seguintes décimas
Manuel Pereira Rabelo, licenciado
que digo eu? este mundo inteiro
namorei eu tão primeiro,
que nisto de namorar
podeis vós comigo estar
a soldada de Escudeiro.
são feias, mas são mulheres
VIO HUMA MANHÃA DE NATAL AS TRES IRMÃAS, A CUJAS VISTAS FEZ AS SEGUINTES DÉCIMAS.
1
Numa manhã tão serena
como entre tanto arrebol
pode caber tanto sol
em esfera tão pequena?
quem aos pasmos me condena
da dúvida há de tirar-me,
e há de mais declarar-me,
como pode ser ao certo
estar eu hoje tão perto
de três sóis, e não queimar-me.
2
Onde eu vi duas Auroras
com tão claros arrebóis,
que muito visse dois sóis
nos raios de três Senhoras:
mas se as matutinas horas,
que Deus para aurora fez,
tinham passado esta vez,
como pode ser, que ali
duas auroras eu vi,
e os sóis eram mais de três?
3
Se lhes chamo estrelas belas,
mais cresce a dificuldade,
pois perante a majestade
do sol não luzem estrelas:
seguem-se-me outras seqüelas,
que dão mais força à questão,
com que eu nesta ocasião
peco à Luz, que me conquista,
que ou me desengane a vista,
ou me tire a confusão.
4
Ou eu sou cego em verdade
e a luz dos olhos perdi,
ou tem a luz, que ali vi,
mais questão, que a claridade:
cego de natividade
me pode o mundo chamar,
pois quando vim visitar
a Deus em seu nascimento,
me aconteceu num momento,
vendo a três luzes, cegar.
AO MESMO ASSUMPTO.
Debuxo singular, bela pintura,
Adonde a Arte hoje imita a Natureza,
A quem emprestou cores a Beleza,
A quem infundiu alma a Formosura.
Esfera breve: aonde por ventura
O Amor, com assombro, e com fineza
Reduz incompreensível gentileza,
E em pouca sombra, muita luz apura.
Que encanto é este tal, que equivocada
Deixa toda a atenção mais advertida
Nessa cópia à Beleza consagrada?
Pois ou bem sem engano, ou bem fingida
No rigor da verdade estás pintada,
No rigor da aparência estás com vida.
AO MESMO ASSUMPTO
Vejo-me entre as incertezas
de três Irmãs, três Senhoras,
se não três sóis, três auroras,
três flores, ou três belezas:
para sóis têm mais lindezas
que aurora mais resplandor,
muita graça para flor,
e por final conclusão
três enigmas do Amor são,
mais que as três cidras do Amor.
PONDERA AGORA COM MAIS ATTENÇÃO A FORMOSURA DE D. ANGELA.
Não vi em minha vida a formosura,
Ouvia falar nela cada dia,
E ouvida me incitava, e me movia
A querer ver tão bela arquitetura.
Ontem a vi por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma Mulher, que em Anjo se mentia,
De um Sol, que se trajava em criatura.
Me matem (disse então vendo abrasar-me)
Se esta a cousa não é, que encarecer-me.
Sabia o mundo, e tanto exagerar-me.
Olhos meus (disse então por defender-me)
Se a beleza hei de ver para matar-me,
Antes, olhos, cegueis, do que eu perder-me.
RETRATA O POETA AS PERFEIÇÕES DE SUA SENHORA A IMITAÇÃO DE OUTRO SONETO QUE FEZ FELIPPE IV À HUMA DAMA SOMENTE COM TRADUZI-LO NA LINGUA PORTUGUEZA
Se há de ver-vos, quem há de retratar-vos,
E é forçoso cegar, quem chega a ver-vos,
Se agravar meus olhos, e ofender-vos,
Não há de ser possível copiar-vos.
Com neve, e rosas quis assemelhar-vos,
Mas fora honrar as flores, e abater-vos:
Dois zéfiros por olhos quis fazer-vos,
Mas quando sonham eles de imitar-vos?
Vendo, que a impossíveis me aparelho,
Desconfiei da minha tinta imprópria,
E a obra encomendei a vosso espelho.
Porque nele com Luz, e cor mais própria
Sereis (se não me engana o meu conselho)
Pintor, Pintura, Original, e Cópia.
NO DIA EM QUE FAZIA ANNOS ESTA DIVINA BELLEZA; ESTE PORTENTO DE FORMOSURA DONA ANGELA, POR QUEM O POETA SE CONSIDERAVA AMOROSAMENTE PERDIDO, E QUASI SEM REMEDIO PELA GRANDE IMPOSSIBILIDADE DE PODER LOGRAR SEUS AMORES: CELEBRA OBSEQUIOSA, E PRIMOROSAMENTE SUAS FLORENTES PRIMAVERAS COM ESTA LINDISSIMA CANÇÃO.
1
Pois os prados, as aves, as flores
ensinam amores,
carinhos, e afetos:
venham correndo
aos anos felizes,
que hoje festejo:
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem atentos
as aves canoras
as flores fragrantes
e os prados amenos.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Ângela. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.