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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Mariana, apelidada a rola

Por Gregório de Matos (1696)

Este conjunto de textos, atribuído a Gregório de Matos (século XVII, Brasil Colônia), integra sua lírica satírica. Produzidos na Bahia, os poemas satirizam Mariana, apelidada de "Rola", criticando sua ascensão social através de relações de interesse, especialmente com o mercador inglês Thomaz Patrício. O autor expõe o ambiente de hipocrisia, futilidade e ambição da elite baiana, utilizando o deboche para desmascarar falsas fidalguias e escândalos morais da época.

"Foy Dama, em quem admirou esta cidade huma prodigiosa transmutação: porque sendo em suma pobreza pouco parecida, aconteceu, que pedindo huma esmolla a Thomaz Patrício mercador Inglêz chamado Mazullo, por ter hum esquipatico nariz, se namorou della de tal sorte, que dispendeo com ela grosso cabedal, trajando ricas, e custosas galas, e assim se fêz admiravelmente formosa. Esta algumas vezes he tratada pelo seu nome, e outros pelo poético disfarce de Anarda."
(Manoel Pereira Rabelo, Licenciado)

"Também você tem licença
(me disse a Môça) porque
onde há lei de cortesia
não val comigo outra lei"

"Era uma estrêla? pior,
a estrêla que tem que ver?"

FOI VISTA ESTA DAMA PELO POETA EM CASA DE HUA AMIGA INDO DIVERTIR-SE AO CAMPO COM CERTO SUGEYTO.

ROMANCE

Eu vi, Senhores Poetas,
quarta-feira pelas três
do presente mês, que corre,
o prodígio, que direi.

Ia eu por certo bairro,
que agora calar convém,
porque o lanço me não furtem,
ao campo a espairecer.

Acompanhava-me entonces
um amigo, que à mi fe
e douto disto de fêmeas,
porque as conhece el por el.

Eis que em frente de uma porta,
que sua urupema tem,
ouvimos um ruge-ruge
da sêda de um guarda-pé

Chegou logo o tal amigo,
que no que toca a saber
segredos, de quem será,
e grandíssimo corcês.

Chegou, como tenho dito,
e mesurado de pés
abriu a urupema, e disse,
sois vos, Dona Bersabé!

Ao que ela respondeu logo,
esta sou: entre você;
ia ele ja quase entrando,
quando eu da rua gritei:

"Tá, que não é cortesia
entrar só vossa mercê,
deixando-me a mim na rua,
que de inveja morrerei"

"Também você tem licença
(me disse a Môça) porque
onde há lei de cortesia
não val comigo outra lei."

Palavras não eram ditas,
quando eu logo a quatro pés
me emboquei pela urupema,
tomei vênia, e me assentei.

Fitei os olhos na Môça
e embasbacado de a ver
estive co'a alma no papo
morrerei não morrerei.

Mas subindo-me a memória,
que era obrigado por fé
servir ao menos sete anos
Jacó a bela Raquel;

Acordei do paracismo,
e fiz tanto por viver,
que estou capaz de pintar-vos
quao jeitosa a Môça é.

Era, se creio a meus olhos,
e e crível o meu pincel,
Anjo disfarcada em Dama,
ou flor mentida em mulher.

Era um sol: mal a comparo:
porque o sol que tem que ver,
tendo a caraça redonda
mascarada de ouropel?

Era uma estrêla: pior,
a estrêla que tem que ver?
é pisca em anoitecendo,
e vesga ao amanhecer.

Era uma jóia; mal disse;
porque com quatro vinténs
se compra uma boa jóia,
e esta Môça nem com dez.

Era um diamante; tampouco,
que o diamante vem a ser
um parto bruto da terra,
e ela imagem de Deus é.

Eu digo desta vez: era
Maria: mas não sei, em que
se me pega a voz, que enfim
não acabo de o dizer.

Digo, que era Mariana
"disse-o?" que remédio tem?
já dei co segrêdo em terra;
mal fiz: mas aliviei.

É linda; e que manso o digo:
tem garbo: e como que o tem,
e bonita, não sei como,
e tem gravea como quê.

Mais que o favor, e o carinho
da mais formosa mulher
val de Mariana um riso:
que digo um riso? um desdém.

Neste estado ia o debuxo
dêste meu tosco pincel,
quando pela porta entrou
todo o firmamento a pé.

Entrou uma linda Môça,
que mora logo através,
pela porta do quintal,
traidoramente fiel.

Fizemos-lhe a reverência,
e ela com gentil prazer
nos disse "as de vossarcedes,
e nos as de vossarcê."

Foi-se a ela o meu amigo
quel Pirata Dunquerqué,
e a rendeu a bom partido,
porque pediu bom quartel.

Estimei a ocasião,
porque co'a outra fiquei
tão só, que os meus segredinhos
lhe pude entonces dizer.

Fretam-nos finalmente
para a semana, que vem,
que por estar achacada,
de achaque se quis valer

A outra Môça do amigo
ficou fretada também
para qualquer outro dia,
porque bem sabe em qualquer.

Isto, Senhores Poetas,
é, o que a quarta passei,
e o que suceder à quinta
direi a vossas mercês.

RECOLHIDO O POETA A SUA CASA ASSASMENTE NAMORADO QUE HAVIA VISTO: NAO PÓDE SOCEGAR SEU AMANTE GENIO, QUE LHE NÃO MANDASSE NO OUTRO DIA ESTE ENCARECIMENTO DE SEU AMOR.

SONETO

Ontem quando te vi, meu doce emprêgo,
Tão perdido fiquei por ti, meu bem,
Que parece, êste amor nasce, de quem
Por amar-te já vive sem sossêgo,

Essa luz de teus olhos me tem cego,
E tão cego, Senhora, êles me têm,
Que é fineza o adorar-te, e assim convém,
A ti, ó rica prenda, o desapêgo.

(continua...)

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