Por Gregório de Matos (1696)
Este conjunto de poemas, pertencente à vasta produção satírica e lírica de Gregório de Matos (1636-1696), foi composto no século XVII, na Bahia colonial. Em um contexto de festividades, jornadas ao campo e eventos sociais em Salvador, o poeta utiliza uma linguagem coloquial e mordaz para retratar o cotidiano, os costumes e as contradições da elite baiana e da população local. O tema central é o registro burlesco do viver baiano seiscentista, expondo excessos, vícios e a hipocrisia social.
3 – PANÇA FARTA E PÉ DORMENTE
Descreve o Poeta as festas ...
Manuel Pereira Rabelo, licenciado
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi
DESCREVE A CONFUSÃO DO FESTEJO DO ENTRUDO.
Filhós, fatias, sonhos, mal-assadas,
Galinhas, porco, vaca, e mais carneiro,
Os perus em poder do Pasteleiro,
Esguichar, deitar pulhas, laranjadas.
Enfarinhar, pôr rabos, dar risadas,
Gastar para comer muito dinheiro,
Não ter mãos a medir o Taverneiro,
Com réstias de cebolas dar pancadas.
Das janelas com tanhos dar nas gentes,
A buzina tanger, quebrar panelas,
Querer em um só dia comer tudo.
Não perdoar arroz, nem cuscuz quente,
Despejar pratos, e alimpar tigelas,
Estas as festas são do Santo Entrudo.
DESCREVE A JOCOZIDADE, COM QUE AS MULATAS DO BRASIL BAYLÃO O PATURI.
Ao som de uma guitarrilha,
que tocava um colomim
vi bailar na Água Brusca
as Mulatas do Brasil:
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi!
Não usam de castanhetas,
porque cos dedos gentis
fazem tal estropeada,
que de ouvi-las me estrugi:
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi.
Atadas pelas virilhas
cuma cinta carmesim,
de ver tão grandes barrigas
lhe tremiam os quadris.
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi.
Assim as saias levantam
para os pés lhes descobrir,
porque sirvam de ponteiros
à discípula aprendiz,
Que bem bailam as Mulatas,
que bem bailam o Paturi.
DESCREVE O POETA HUMA JORNADA, QUE FEZ AO RIO VERMELHO COM HUNS AMIGOS, E TODOS OS ACONTECIMENTOS.
1
Amanheceu finalmente
o Domingo da jornada
co'a mais feia madrugada,
que viu nunca o Oriente:
bufava o Sul de valente,
de soberbo o mar roncava,
ninguém a briga apartava,
e eu perplexo, mudo, e quedo
entre valor, e entre medo
en salgo, y no salgo estava.
2
Resolvi-me, e levantei-me,
posto que o quente da cama
com Gonçalo, e com sua ama
dizendo estava, comei-me:
vesti-me, e aderecei-me:
batem os pais de ganhar,
mandei-lhes abrir, e entrar,
estava a rede à parede,
e em pondo o vulto na rede,
comecei de caminhar.
3
Cheguei a São Pedro, e em vão
busquei os mais companheiros,
que devendo ir os primeiros,
não tinham ido até então:
entrei na imaginação
de se acaso me enganassem,
e acaso as bestas faltassem,
que havia eu de fazer,
e foi fácil resolver,
que por bestas lá ficassem.
4
Assim o cri, e era assim,
pois o pouco espaço andado
veio o Jardim esbofado
mais rosado, que um jardim:
não vem mais outro rocim?
lhe perguntei com desdém:
ele respondeu, não vem;
estive aguando os canteiros,
e não acho os companheiros,
pois não me cheira isto bem.
5
Isto dito, assoma o Freitas,
e eu disse entre duvidoso,
o Gil é-me belicoso
mas tem cara de maleitas:
chegou, e as minhas suspeitas
veio tanto a confirmar,
que disse, que o seu tardar
fora causado, e nascido
de o rocim lhe haver fugido,
indo ao Tororó parar.
6
Quem deu tão ruim conselho
(disse eu) a esse catrapó,
pois quer ir ao Tororó,
antes que ao Rio Vermelho?
mas um cavalo tão velho,
que já por cerrado perde,
que muito, que se deserde
do vermelho, e seus primores,
se deixa todas as cores
um cavalo pelo verde.
7
Que é do Gil? não aparece.
E o Guedes? fica sem besta.
Eia pois, vamo-nos desta,
que o sol trepa, e a calma cresce;
quem não aparece, esquece;
vamo-nos sem conclusão;
com que eu na rede um cação,
e os dous nas duas cavalas
fazíarnos duas alas,
e as alas meio esquadrão.
8
Assim fomos caminhando
sobre os dous cavalos áscuas
alegres como uas páscoas,
ora rindo, ora zombando:
eu que estava perguntando
pela viola, ou rabil,
quando ouvimos bradar Gil,
que recostado à guitarra
garganteava a bandarra
letrilhas de mil em mil.
9
Olá, ô! chegou o Tudesco:
e já ele entre nós vinha
posto sobre uma tainha,
feito Arião ao burlesco:
riu-se bem, falou-se fresco,
e eu da viola empossado
cantava como um quebrado.
tangia como um crioulo,
conversava como um tolo,
e ria como um danado.
10
Apertamos logo o trote,
e em breve fomos chegados,
onde éramos esperados
pelo ilustre Dom Mingote:
ali o nosso sacerdote,
vendo a nova arquitetura
da casa da Virgem pura,
se apeou por venerá-la,
os mais puseram-se em ala,
passei eu, e houve mesura.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Pança farta e pé dormente. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.