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#Comédias#Literatura Brasileira

Lição de Botânica

Por Machado de Assis (1906)

Machado de Assis (1839–1908), um dos maiores escritores brasileiros, é autor da comédia Lição de botânica, peça em ato único. Publicada originalmente no Rio de Janeiro, em 1906, a obra satiriza o cientificismo excessivo e os conflitos entre razão, afeto e convenções sociais. Com humor refinado e diálogos irônicos, o texto discute o embate entre amor e ciência, convidando o leitor a refletir sobre os limites do saber racional.

Pessoas:

D. Helena D. Cecília D. Leonor Barão Sigismundo de Kernoberg

Lugar da cena: Andaraí

Ato Único

Sala em casa de D. Leonor.

Portas ao fundo, uma à direita do espectador.

Cena I D. Leonor, D. Helena, D. Cecília D. Leonor entra, lendo uma carta, D. Helena e D. Cecília entram do fundo.

D. HELENA

— Já de volta!

D. CECÍLIA, a D. Helena, depois de um silêncio

— Será alguma carta de namoro?

D. HELENA, baixo

— Criança!

D. LEONOR

— Não me explicarão isto?

D. HELENA

— Que é?

D. LEONOR

— Recebi ao descer do carro este bilhete. “Minha senhora. Permita que o mais respeitoso vizinho lhe peça dez minutos de atenção. Vai nisto um grande interesse da ciência.” Que tenho eu com a ciência?

D. HELENA

— Mas de quem é a carta?

D. LEONOR

— Do Barão Sigismundo de Kernoberg.

D. CECÍLIA

— Ah! O tio de Henrique!

D. LEONOR

— De Henrique! que familiaridade é essa?

D. CECÍLIA

— Titia, eu...

D. LEONOR

— Eu quê?... Henrique!

D. HELENA

— Foi uma maneira de falar na ausência... Com que então o Sr. Barão Sigismundo de Kernoberg pede-lhe dez minutos de atenção, em nome e por amor da ciência. Da parte de um botânico é por força alguma égloga1.

D. LEONOR

— Seja o que for, não sei se deva receber um senhor a quem nunca vimos. Já o viram alguma vez?

D. CECÍLIA

— Eu nunca.

D. HELENA

— Nem eu.

D. LEONOR

— Botânico e sueco: duas razões para ser gravemente aborrecido. Nada, não estou em casa.

D. CECÍLIA

— Mas quem sabe, titia, se ele quer pedir-lhe... sim... um exame no nosso jardim?

D. LEONOR

— Há por todo esse Andaraí2 muito jardim para examinar.

1 Poesia pastoril. Também pode ser grafada como écloga.

D. HELENA

— Não, senhora, há de recebê-lo.

D. LEONOR

— Por que?

D. HELENA

— Porque é nosso vizinho, porque tem necessidade de falar-lhe, e, enfim, porque, a julgar pelo sobrinho, deve ser um homem distinto.

D. LEONOR

— Não me lembrava do sobrinho. Vá lá; aturemos o botânico. (Sai pela porta do fundo, à esquerda.)

Cena II

D. Helena, D. Cecília

D. HELENA

— Não me agradeces?

D. CECÍLIA

— O quê?

D. HELENA

— Sonsa! Pois não adivinhas o que vem cá fazer o barão? D. CECÍLIA — Não.

D. HELENA

— Vem pedir a tua mão para o sobrinho.

D. CECÍLIA

— Helena!

D. HELENA, imitando-a

— Helena!

D. CECÍLIA

— Juro...

D. HELENA

— Que não o amas.

D. CECÍLIA

— Não é isso.

D. HELENA

— Que o amas.

D. CECÍLIA

— Também não.

D. HELENA

— Mau! alguma coisa há de ser. Il faut qu’une porte soit ouverte ou fermée. Porta neste caso é o coração. O teu coração há de estar fechado ou aberto... D. CECÍLIA — Perdi a chave.

D. HELENA, rindo

— E não o podes fechar outra vez. São assim todos os corações ao pé de todos os Henriques. O teu Henrique viu a porta aberta, e tomou posse do lugar. Não escolheste mal, não; é um bonito rapaz.

D. CECÍLIA

— Oh! uns olhos!

D. HELENA

— Azuis.

D. CECÍLIA

— Como o céu.

D. HELENA

— Louro...

D. CECÍLIA

— Elegante...

D. HELENA

— Espirituoso...

D. CECÍLIA

— E bom.

D. HELENA

— Uma pérola. (Suspira.) Ah!

D. CECÍLIA

— Suspiras?

D. HELENA

— Que há de fazer uma viúva, falando... de uma pérola?

D. CECÍLIA

— Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira grandeza.

D. HELENA

— Não tenho, não; meu coração já não quer jóias.

D. CECÍLIA

— Mas as jóias querem o teu coração.

D. HELENA

— Tanto pior para elas: hão de ficar em casa do joalheiro.

D. CECÍLIA

— Veremos isso. (Sobe.) Ah!

D. HELENA

— Que é?

2 Bairro residencial da Zona Norte do Rio de Janeiro, próximo à Tijuca.

D. CECÍLIA, olhando para a direita

— Um homem desconhecido que lá vêm; há de ser o barão.

D. HELENA

— Vou avisar titia. (Sai pelo fundo, esquerda.)

Cena III

D. Cecília, Barão

D. CECÍLIA

— Será deveras ele? Estou trêmula... Henrique não me avisou de nada... Virá pedir-me?... Mas não, não, não pode ser ele... Tão moço... (O barão aparece.) BARÃO, à porta, depois de profunda cortesia — Creio que a Excelentíssima senhora D. Leonor Gouveia recebeu uma carta... Vim sem esperar a resposta.

D. CECÍLIA

— É o Sr. Barão Sigismundo de Kernoberg? (O barão faz um gesto afirmativo.) Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (À parte.) Devo estar vermelha... BARÃO, à parte, olhando para Cecília — Há de ser esta.

D. CECÍLIA, à parte

— E titia não vem... Que demora! Não sei que lhe diga... estou tão vexada... (O Barão tira um livro da algibeira e folheia-o.) Se eu pudesse deixá lo... É o que vou fazer... (Sobe.)

BARÃO, fechando o livro e erguendo-se

— V. Exa. há de desculpar-me. Recebi hoje mesmo este livro da Europa; é obra que vai fazer revolução na ciência; nada menos que uma monografia das gramíneas, premiada pela Academia de Estocolmo.

D. CECÍLIA

— Sim? (À parte.) Aturemo-lo, pode vir a ser meu tio.

BARÃO

— As gramíneas tem ou não tem perianto3? A princípio adotou-se a negativa, posteriormente...V. Exa. talvez não conheça o que é perianto... D. CECÍLIA — Não, senhor.

BARÃO

— Perianto compõe-se de duas palavras gregas: peri, em volta, e anthos, flor.

D. CECÍLIA

— O envólucro da flor.

BARÃO

— Acertou. É o que vulgarmente se chama de cálice. Pois as gramíneas eram tidas... (Aparece D. Leonor ao fundo.) Ah!

Cena IV

Os mesmos, D. Leonor

D. LEONOR

— Desejava falar-me?

BARÃO

— Se me dá essa honra. Vim sem esperar resposta à minha carta. Dez minutos apenas.

(continua...)

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