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#Contos#Literatura Brasileira

Filosofia de um par de botas

Por Machado de Assis (1878)

Machado de Assis (1839–1908) publicou o conto Filosofia de um par de botas em 1878, na revista O Cruzeiro, no Rio de Janeiro. Com humor e alegoria, o texto reflete sobre a vaidade, o envelhecimento e as vicissitudes sociais, dando voz a objetos para ironizar a condição humana e a transitoriedade do prestígio e da utilidade.

Uma destas tardes, como eu acabasse de jantar, e muito, lembrou-me dar um passeio à Praia de Santa Luzia, cuja solidão é propícia a todo homem que ama digerir em paz. Ali fui, e com tal fortuna que achei uma pedra lisa para me sentar, e nenhum fôlego vivo nem morto. — Nem morto, felizmente. Sentei-me, alonguei os olhos, espreguicei a alma, respirei à larga, e disse ao estômago: — Digere a teu gosto, meu velho companheiro. Deus nobis haec otia fecit. 

Digeria o estômago, enquanto o cérebro ia remoendo, tão certo é, que tudo neste mundo se resolve na mastigação. E digerindo, e remoendo, não reparei logo que havia, a poucos passos de mim, um par de coturnos velhos e imprestáveis. Um e outro tinham a sola rota, o tacão comido do longo uso, e tortos, porque é de notar que a generalidade dos homens camba, ou para um ou para outro lado. Um dos coturnos (digamos botas, que não lembra tanto a tragédia), uma das botas tinha um rasgão de calo. Ambas estavam maculadas de lama velha e seca; tinham o couro ruço, puído, encarquilhado. 

Olhando casualmente para as botas, entrei a considerar as vicissitudes humanas, e a conjecturar qual teria sido a vida daquele produto social. Eis senão quando, ouço um rumor de vozes surdas; em seguida, ouvi sílabas, palavras, frases, períodos; e não havendo ninguém, imaginei que era eu, que eu era ventríloquo; e já podem ver se fiquei consternado. Mas não, não era eu; eram as botas que falavam entre si, suspiravam e riam, mostrando em vez de dentes, uma pontas de tachas enferrujadas. Prestei o ouvido; eis o que diziam as botas: 

BOTA ESQUERDA. Ora, pois, mana, respiremos e filosofemos um pouco. 

BOTA DIREITA. Um pouco? Todo o resto da nossa vida, que não há de ser muito grande; mas enfim, algum descanso nos trouxe a velhice. Que destino! Uma praia! Lembras-te do tempo em que brilhávamos na vidraça da Rua do Ouvidor? 

BOTA ESQUERDA. Se me lembro! Quero até crer que éramos as mais bonitas de todas. Ao menos na elegância... 

BOTA DIREITA. Na elegância, ninguém nos vencia. 

BOTA ESQUERDA. Pois olha que havia muitas outras, e presumidas, sem contar aquelas botinas cor de chocolate... aquele par... 

BOTA DIREITA. O dos botões de madrepérola? 

BOTA ESQUERDA. Esse. 

BOTA DIREITA. O daquela viúva? 

BOTA ESQUERDA. O da viúva. 

BOTA DIREITA. Que tempo! Éramos novas, bonitas, asseadas; de quando em quando, uma passadela de pano de linho, que era uma consolação. No mais, plena ociosidade. Bom tempo, mana, bom tempo! Mas, bem dizem os homens: não há bem que sempre dure, nem mal que se não acabe. 

BOTA ESQUERDA. O certo é que ninguém nos inventou para vivermos novas toda vida. Mais de uma pessoa ali foi experimentar-nos; éramos calçadas com cuidado, postas sobre um tapete, até que um dia, o dr. Crispim passou, viu-nos, entrou e calçou-nos. Eu, de raivosa, apertei-lhe um pouco os dois calos. 

BOTA DIREITA. Sempre te conheci pirracenta. 

BOTA ESQUERDA. Pirracenta, mas infeliz. Apesar do apertão, o dr. Crispim levou-nos. BOTA DIREITA. Era bom homem, o dr. Crispim; muito nosso amigo. Não dava caminhadas largas, não dançava. Só jogava o voltarete, até tarde, duas e três horas da madrugada; mas, como o divertimento era parado, não nos incomodava muito. E depois, entrava em casa, na pontinha dos pés, para não acordar a mulher. Lembras-te? 

BOTA ESQUERDA. Ora! por sinal que a mulher fingia dormir para lhe não tirar as ilusões. No dia seguinte ele contava que estivera na maçonaria. Santa senhora! 

BOTA DIREITA. Santo casal! Naquela casa fomos sempre felizes, sempre! E a gente que eles freqüentavam? Quando não havia tapetes, havia palhinha; pisávamos o macio, o limpo, o asseado. Andávamos de carro muita vez, e eu gosto tanto de carro! Estivemos ali uns quarenta dias, não? 

BOTA ESQUERDA. Pois então! Ele gastava mais sapatos do que a Bolívia gasta constituições. 

BOTA DIREITA. Deixemo-nos de política. 

BOTA ESQUERDA. Apoiado. 

BOTA DIREITA (com força). Deixemo-nos de política, já disse! 

BOTA ESQUERDA (sorrindo). Mas um pouco de política debaixo da mesa?... Nunca te contei... contei, sim... o caso das botinas cor de chocolate... as da viúva...

(continua...)

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