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#Contos#Literatura Brasileira

Felicidade pelo casamento

Por Machado de Assis (1866)

Machado de Assis (1839–1908), um dos maiores escritores brasileiros, aborda em “Felicidade pelo casamento” a formação do amor conjugal como caminho de realização afetiva e moral. O texto acompanha a passagem da introspecção solitária à plenitude do matrimônio, refletindo valores sentimentais do século XIX. O conto foi publicado no Rio de Janeiro, em 1866, no Jornal das Famílias, periódico voltado à literatura e costumes.

C’attache à elle avec tant de force et qui souffre avec tant de bonheur son étreinte, que rien ne puisse plus les séparer... 

Jules Simon 


Acontecimentos imprevistos obrigaram-me a deixar a província e estabelecer-me algum tempo na corte. Foi isto no ano de 185... Os acontecimentos a que me refiro eram relativos à minha família, cujo chefe já não existia. Tinha eu ordem de demorar-me um ano na corte, depois do que voltaria à província. 

Devo referir uma circunstância de interesse para o caso. Um de meus tios tinha uma filha de vinte anos, talvez bonita, mas em quem eu não reparara nunca, e a quem tinha simples afeição de parente. Era do gosto do pai que nos casássemos, e não menos do gosto dela. Duas ou três vezes que me falaram nisso respondi secamente que desejava ficar solteiro; não instaram mais; mas a esperança nunca a perderam, nem o pai nem a filha. 

A explicação da minha recusa e do desamor com que eu via a minha prima estava no meu gênio solitário e contemplativo. Até aos quinze anos fui tido por idiota; dos quinze aos vinte chamavam-me poeta; e, se as palavras eram diferentes, o sentido que a minha família lhes dava era o mesmo. Era pouco de ser estimado um moço que não comungava nos mesmos passatempos da casa e via correr as horas na leitura e nas digressões pelo mato. 

Minha mãe era a única a quem tais instintos de isolamento não davam para rir nem para desamar. Era mãe. Muitas vezes, alta noite, quando os meus olhos se cansavam de percorrer as páginas de Atalá ou Corina, abria-se a porta do gabinete e a sua figura meiga e veneranda, como a das santas, vinha distrair-me da cansada leitura. Cedia às suas instâncias e ia repousar. 

Ora, é preciso dizer, para encaminhar o espírito do leitor nesta história, que dois anos antes do tempo em que começa, tinha eu tido uma fantasia amorosa. Fantasia amorosa digo eu e não minto. Não era amor; amor foi o que eu depois senti, verdadeiro, profundo, imortal. 

Para mostrar a graduação dos meus sentimentos depois desse episódio, e até para melhor demonstrar a tese que serve de título a estas páginas, devo transcrever para aqui dois manuscritos velhos. Cada um tem a sua data; o primeiro é uma lamentação, o segundo é uma resignação. Há um abismo entre ambos, como há um abismo entre aquele tempo e o tempo de hoje. 

Eis o que, logo após a fantasia amorosa de que falei, veio achar-me a escrever minha adorada mãe. 

* * * 

Estou só. Ouço bater o mar que se quebra na praia a cinqüenta passos de mim. É o único rumor que nesta hora quebra o silêncio da noite. Fora desse sinto apenas o leve ruído da pena que corre no papel. Escrevo sem assunto e em busca de assunto. Que há de ser? Sobre a mesa tenho duas pilhas de livros. De um lado a Bíblia e Pascal, do outro Alfredo de Vigny e Lamartine. É obra do acaso e não parece: tal é o estado do meu espírito. Os três primeiros livros me chamam à contemplação ascética e às reflexões morais; os três últimos despertam os sentimentos do coração e levam meu espírito às mais elevadas regiões da fantasia. 

Quero entranhar-me no mundo da reflexão e do estudo, mas o meu coração, solteiro talvez, talvez viúvo, pede-me versos ou imaginações. Triste alternativa, que para nenhuma resolução me guia! Este estado, tão comum nos que realmente se dividem entre sentir e pensar, é uma dor d’alma, é uma agonia do espírito. 

De onde estou vejo o mar; a noite é clara e deixa ver as ondas que se vão quebrar à areia da praia. Uma vez solto onde irás tu, meu pensamento? Nem praias, nem ondas, nem barreiras, nem nada; tudo vences, de tudo zombas, eis-te aí livre, a correr, mar em fora, em busca de uma lembrança perdida, de uma esperança desenganada. Lá chegas, lá entras, de lá voltas ermo, triste, mudo, como o túmulo do amor perdido e tão cruelmente desflorado! 

Ânsia de amar, ânsia de ser feliz, que haverá no mundo que mais nos envelheça a alma e nos faça sentir as misérias da vida? Nem é outra a miséria: esta, sim; este ermo e estas aspirações; esta solidão e estas saudades; esta tão própria sede de uma água que não há tirá-la de nenhuma Noreb, eis a miséria, eis a dor, eis a tristeza, eis o aniquilamento do espírito e do coração. 

Que é o presente em tais casos? O vácuo e o nada; no passado o luzir leve e indistinto quase de uma curta ventura que passou; no futuro a estrela da esperança cintilante e viva, como uma lâmpada eterna. De onde estamos, um ansiar sem tréguas, uns íntimos impulsos a ir buscar a felicidade remota e esquiva. Do passado ao futuro, do futuro ao passado, como este mar que invade estas praias agora, e amanhã irá beijar as areias opostas, tal é a vacilação do espírito, tal é a vida ilusória do meu coração. 

* * * 

(continua...)

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