Por Machado de Assis (1878)
Machado de Assis (1839–1908), maior nome da prosa brasileira do século XIX, publicou Dívida extinta como conto de crítica moral e social. A narrativa aborda rivalidade, vaidade, herança e reconciliação interessada, expondo a fragilidade dos sentimentos humanos diante do dinheiro. Com ironia e observação psicológica, o autor desmonta ilusões românticas e valores burgueses.
I
Que ele era um dos primeiros gamenhos de seu bairro e outros bairros adjacentes, é coisa que não sofre nem sofreu nunca a menor contestação. Podia ter competidores; teve-os; não lhe faltaram invejosos; mas a verdade, como o sol, acabou dissipando as nuvens e mostrando a face rutilante e divina, ou divinamente rutilante, como lhes parecer mais correntio e penteado. O estilo há de ir à feição do conto, que é singelo, nu, vulgar, não desses contos crespos e arrevesados com que autores de má sorte tomam o tempo e moem a paciência à gente cristã. Pois não! Eu não sei dizer coisas fabulosas e impossíveis, mas as que me passam pelos olhos, as que os leitores podem ver e terão visto. Olho, ouço e escrevo.
E é por isso que não lhes pinto o meu gamenho de olhos derreados o fronte byroniana. De Byron é que ele não tinha nada, a não ser um volume truncado, vertido em prosa francesa, volume que ele lia e relia, a ver se extraía dele e da cabeça um recitativo à dama de seus pensamentos, que pela sua parte era a mais galante do bairro. O bairro era o espaço compreendido entre o Largo da Imperatriz e o cemitério dos Ingleses. A data... há uns vinte e cinco anos. O gamenho tinha por nome Anacleto Monteiro. Era nesse tempo um rapaz de vinte e três para vinte e quatro anos, com um princípio de barba e outro de bigode, rosto moreno, olhos de azeviche, cabelo castanho, grosso, farto e comprido, que ele arranjava em caracóis, à força de pente e banha e sobre o qual punha às tardes, o melhor de seus dois chapéus brancos. Anacleto Monteiro adorava o chapéu branco e as botas de verniz. Naquele tempo alguns gamenhos usavam umas botas de verniz de cano vermelho. Anacleto Monteiro adotou esse invento como a mais sublime das invenções do século. E tão gentil lhe parecia a idéia do cano vermelho, que nunca saía de casa sem levantar uma polegada às calças para que os olhos das damas não perdessem aquela circunstância da cor de crista de galo. As calças eram finas mas vistosas, o paletó esticado, a luva cor de canela ou de cinza, em harmonia com a gravata, que era cor de cinza ou de canela. Ponham-lhe uma bengala na mão e vê-lo-ão tal qual era, há vinte e cinco anos, o primeiro gamenho de seu bairro. Dizendo que era o primeiro não me refiro à elegância mas à audácia, que era verdadeiramente napoleônica. Anacleto Monteiro estava longe de competir com outros rapazes do tempo e do bairro, no capítulo da toilette e das maneiras; mas derrubava-os a todos no namoro. No namoro era um verdadeiro gênio. Namorava por necessidade, do mesmo modo que o pássaro canta; era índole, vocação, conformação do espírito. Que mérito ou que culpa há na mangabeira em dar mangas? Pois era a mesma coisa Anacleto Monteiro.
— Este pelintra ainda me há de entrar em casa um dia com as costelas quebradas, dizia o tio a uma parenta; mas se ele pensa que chamarei médico, engana-se redondamente. Meto-lhe o côvado e meio de pano no corpo, isso sim!
— Rapaziadas... objetava timidamente a parenta.
— Qual, rapaziadas! desaforadas, é o que deve dizer. Não respeita nada nem ninguém; é só namorar. Tudo o que ganha é para aquilo, que a senhora vê; é para adamar-se, almiscarar-se, e lá vai ele! Ah! se ele não fosse filho daquela irmã, que Deus tem!... E o sr. Bento Fagundes consolava-se das extravagâncias do sobrinho inserindo no nariz duas onças de Paulo Cordeiro.
— Deixai lá; mais dia menos dia, vem o casamento e sossega.
— Qual casamento, qual carapuça! Pois como há de casar uma cabeça de vento que namora às quatro e às cinco?
— Uma das cinco fisga-o...
— Há de ser naturalmente a pior.
— Isso lá, são desatinos. O que podemos ter por certo, é que ele não há de gastar a vida toda nisso...
— Gasta, gasta... Olhe, o barbeiro é dessa opinião.
— Deixe lá o barbeiro... Quer que lhe diga? Eu creio que, mais dia menos dia, ele está fisgado.... Já está. Há aí umas coisas que ouvi dizer na missa de domingo passado... — Que foi?
— Umas coisas...
— Diga.
— Não digo. O que for aparecerá. Talvez tenhamos casamento mais breve do que pensa. — Sim?
A sra. Leonarda fez um gesto de cabeça. O sr. Bento Fagundes esteve algum tempo a olhar as paredes; depois prorrompeu irado:
— Mas, tanto pior! Ele não está em posição de casar. Salvo se a sujeita... E o orador concluía a frase esfregando o polegar no indicador, gesto que a sra. D. Leonarda correspondeu com outro derreando os cantos da boca, e abanando a cabeça da direita para a esquerda.
— Pobre! traduziu o sr. Bento Fagundes. Olhe, se ele pensa que há de vir meter-me a mulher em casa, está muito enganado. Eu não fiz cinqüenta e quatro anos para sustentar família nova. Talvez ele pense que eu tenha mundos e fundos
— Mundos, não digo, primo; mas fundos...
(continua...)
ASSIS, Machado de. Dívida extinta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1878.