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#Contos#Literatura Brasileira

Duas Juízas

Por Machado de Assis (1871)

Machado de Assis (1839–1908), principal escritor do Realismo brasileiro, é autor do conto Duas juízas, sátira moral sobre vaidade, rivalidade feminina e falsa devoção religiosa. Com ironia fina, o narrador revela como interesses mundanos se escondem sob práticas piedosas, expondo contradições sociais do Segundo Reinado. O texto exemplifica o humor crítico e a observação psicológica característicos do autor.

Uma era a Devoção de Nossa Senhora das Dores, outra era a Devoção de Nossa Senhora da Conceição, duas irmandades de damas estabelecidas na mesma igreja. Qual igreja? Este é justamente o ponto falho do meu conto; não posso lembrar-me em qual das nossas igrejas era. Mas, pensando bem, que necessidade há de saber-lhe o nome? Uma vez que eu diga os outros e todas as circunstâncias do acontecimento, do caso, o resto pouco importa. 

No altar da esquerda, à entrada, ficava a imagem das Dores, e no da direita a da Conceição. Esta posição das duas imagens definia até certo ponto a das Devoções, que eram rivais. Rivalidade nestas obras de culto e religião não pode ou não deve dar de si se não maior zelo e esplendor. Era o que acontecia aqui. As duas Devoções brilhavam de ano para ano; e que era tanto mais admirável quanto que o ardor fora quase repentino e recente. Durante longos anos, as duas associações vegetaram na obscuridade; e, longe de serem contrárias, eram amigas, trocavam obséquios, emprestavam alfaias, as irmãs de uma iam, com as melhores toilettes, às festas da outra. 

Um dia, a Devoção das Dores elegeu para juíza uma senhora D. Matilde, pessoa abastada, viúva e fresca, ao mesmo tempo que a da Conceição punha à sua frente a esposa do comendador Nóbrega, D. Romualda. O fim de ambas as Devoções era o mesmo: era dar mais alguma vida ao culto, desenvolvê-lo, comunicar-lhe certo esplendor que não tinha. Ambas as juízas eram pessoas para isso, mas não corresponderam às esperanças. O que fizeram no seguinte ano foi pouco; e, ainda assim, nenhuma das Devoções pôde dispensar os obséquios da congênere. Enfim, Roma não se fez num dia, repetiram as devotas de ambas, e esperaram. 

Na verdade, as duas juízas tinham distrações noutras partes; não podiam subitamente cortar por hábitos antigos. Note-se que eram amigas, andavam muita vez juntas, encontravam-se em bailes, e teatros. Eram também bonitas e vistosas; circunstância que não determinara a eleição, mas agradou às eleitoras, tão certo é que a beleza não é só um ornato profano, e, posto que a religião exija principalmente a perfeição moral, os pintores não se esquecem de pôr o arrependimento de Madalena dentro de belas formas. 

Vai senão quando, D. Matilde, presidindo a uma sessão de mesa administrativa da Devoção das Dores, disse que era preciso cuidar seriamente de levantar a associação. Todas as companheiras foram do mesmo parecer, com grande contentamento, porque realmente não desejavam outra coisa. Eram pessoas religiosas; e, salvo a secretária e tesoureira, viviam na obscuridade e no silêncio. 

— As nossas festas, continuou D. Matilde, têm sido muito descuidadas. Não vem quase ninguém a elas; e da gente que vem pouca é a de certa ordem. Vamos trabalhar. A deste ano deve ser esplêndida. Há de pontificar monsenhor Lopes; estive ontem com ele. A orquestra deve ser de primeira qualidade; podemos ter uma cantora italiana. 

E foi por diante a juíza, dando os primeiros lineamentos do programa. Em seguida, adotaram certas resoluções: — alistar novas devotas — e D. Matilde indicava as suas amigas da alta sociedade —, fazer entrar as anuidades atrasadas, comprar alfaias porque, ponderou a juíza, “não é bonito estarmos a viver de 

Coisa interessante! Quinze dias depois, ou três semanas, quando muito, a outra Devoção celebrava uma sessão da mesa administrativa em que D. Romualda exprimia iguais sentimentos, propunha uma reforma análoga, espertava o espírito religioso das companheiras para o fim de celebrar uma festa digna delas. D. Romualda também prometeu fazer entrar um certo número de devotas abastadas e briosas. 

Dito e feito. Nem uma nem outra das duas juízas deixou de cumprir o prometido. Era uma ressurreição, uma vida nova; e justamente o fato da vizinhança das duas Devoções serviu-lhes de estímulo. Ambas souberam dos planos, ambas tratavam de levar a cabo os seus com mais particular fulgor. 

D. Matilde, que a princípio não cuidava daquilo principalmente, daí a pouco não pensava em mais nada. Não rompeu com outros hábitos; mas não lhes deu mais do que se dá a um costume. O mesmo acontecia a D. Romualda. As duas associações estavam contentíssimas, porque, em verdade, a maior parte das devotas não o eram só de nome. Uma delas, pertencente à Devoção das Dores, que supunha continuar a antiga troca de serviços, lembrou que se pedisse não sei o que à outra devoção. D. Matilde repeliu com desdém: 

— Não; antes vendamos a última jóia. 

(continua...)

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