Por Machado de Assis (1861)
Machado de Assis (1839–1908) escreveu Desencantos, fantasia dramática que examina o confronto entre idealismo e pragmatismo nas relações amorosas e sociais. Por meio de diálogos irônicos e situações de desencanto progressivo, o texto reflete sobre amor, casamento, ambição política e amadurecimento moral, revelando o olhar crítico e sutil do autor sobre os valores do seu tempo.
A Quintino Bocaiúva
Fantasia dramática
PERSONAGENS:
CLARA DE SOUZA
LUÍS DE MELO
PEDRO ALVES
PRIMEIRA PARTE
Em Petrópolis
(Um jardim. Terraço no fundo.)
Cena I
CLARA, LUÍS DE MELO
CLARA
Custa a crer o que me diz. Pois, deveras, saiu aborrecido do baile?
LUÍS
É verdade.
CLARA
Dizem entretanto que esteve animado...
LUÍS
Esplêndido!
CLARA
Esplêndido, sim!
LUÍS
Maravilhoso!
CLARA
Essa é pelo menos a opinião geral. Se eu lá fosse, estou certa de que seria a minha.
LUÍS
Pois eu lá fui e não é essa a minha opinião.
CLARA
É difícil de contentar nesse caso.
LUÍS
Oh! não.
CLARA
Então as suas palavras são um verdadeiro enigma.
LUÍS
Enigma de fácil decifração.
CLARA
Nem tanto.
LUÍS
Quando se dá preferência a uma flor, à violeta, por exemplo, todo o jardim onde ela não apareça, embora esplêndido, é sempre incompleto.
CLARA
Faltava então uma violeta nesse jardim?
LUÍS
Faltava. Compreende agora?
CLARA
Um pouco.
LUÍS
Ainda bem!
CLARA
Venha sentar-se neste banco de relva, à sombra desta árvore copada. Nada lhe falta para compor um idílio, já que é dado a esse gênero de poesia. Tinha então muito interesse em ver lá essa flor?
LUÍS
Tinha. Com a mão na consciência, falo-lhe a verdade; essa flor não é uma predileção do espírito, é uma escolha do coração.
CLARA
Vejo que se trata de uma paixão. Agora compreendo a razão por que não lhe agradou o baile, e o que era enigma, passa a ser a coisa mais natural do mundo. Está absolvido do seu delito.
LUÍS
Bem vê que tenho circunstâncias atenuantes a meu favor.
CLARA
Então o Senhor ama?
LUÍS
Loucamente, e como se pode amar aos vinte e dois anos, com todo o ardor de um coração cheio de vida. Na minha idade o amor é uma preocupação exclusiva, que se apodera do coração e da cabeça. Experimentar outro sentimento, que não seja esse, pensar em outra coisa, que não seja o objeto escolhido pelo coração, é impossível. Desculpe se lhe falo assim...
CLARA
Pode continuar. Fala com um entusiasmo tal, que me faz parecer estar ouvindo algumas das estrofes do nosso apaixonado Gonzaga.
LUÍS
O entusiasmo do amor é porventura o mais vivo e ardente.
CLARA
E por isso o menos duradouro. É como a palha que se inflama com intensidade, mas que se apaga logo depois.
LUÍS
Não aceito a comparação. Pois Deus havia de inspirar ao homem esse sentimento, tão suscetível de morrer assim? Demais, a prática mostra o contrário.
CLARA
Já sei. Vem falar-me de Heloísa e Abelardo, Píramo e Tisbe, e quanto exemplo a história e a fábula nos dão. Esses não provam. Mesmo porque são exemplos raros, é que a história os aponta. Fogo de palha, fogo de palha e nada mais.
LUÍS
Pesa-me que de seus lábios saiam essas palavras.
CLARA
Por quê?
LUÍS
Porque eu não posso admitir a mulher sem os grandes entusiasmos do coração. Chamou me há pouco de poeta; com efeito eu assemelho-me por esse lado aos filhos queridos das musas. Esses imaginam a mulher um ente intermediário que separa os homens dos anjos e querem-na participante das boas qualidades de uns e de outros. Dir-me-á que se eu fosse agiota não pensaria assim; eu responderei que não são os agiotas os que têm razão neste mundo.
CLARA
Isso é que é ver as coisas através de um vidro de cor. Diga-me: sente deveras o que diz a respeito do amor, ou está fazendo uma profissão de fé de homem político?
LUÍS
Penso e sinto assim.
CLARA
Dentro de pouco tempo verá que tenho razão.
LUÍS
Razão de quê?
CLARA
Razão de chamar fogo de palha ao fogo que lhe devora o coração.
LUÍS
Espero em Deus que não.
CLARA
Creia que sim.
LUÍS
Falou-me há pouco em fazer um idílio, e eu estou com desejos de compor uma ode sáfica.
CLARA
A que respeito?
LUÍS
Respeito à crueldade das violetas.
CLARA
E depois ia atirar-se à torrente do ltamarati? Ah! Como anda atrasado do seu século!
LUÍS
Ou adiantado...
CLARA
Adiantado, não creio. Voltaremos nós à simplicidade antiga?
LUÍS
Oh! Tinha razão aquela pobre poetisa de Lesbos em atirar-se às ondas. Encontrou na morte o esquecimento das suas dores íntimas. De que lhe servia viver amando sem esperança?
CLARA
Dou-lhe de conselho que perca esse entusiasmo pela Antiguidade. A poetisa de Lesbos quis figurar na história com uma face melancólica; atirou-se de Leucate. Foi cálculo e não virtude.
LUÍS
Está pecando, minha senhora.
CLARA
Por blasfemar do seu ídolo?
LUÍS
Por blasfemar de si. Uma mulher nas condições da décima musa nunca obra por cálculo. E V. Exa., por mais que [não] queira, deve estar nas mesmas condições de sensibilidade, que a poetisa antiga, bem como está nas de beleza.
Cena II
LUÍS DE MELO, CLARA, PEDRO ALVES
PEDRO ALVES
Boa tarde, minha interessante vizinha. Sr. Luís de Melo!
CLARA
Faltava o primeiro folgazão de Petrópolis, a flor da emigração!
PEDRO ALVES
Nem tanto assim.
CLARA
Estou encantada por ver assim a meu lado os meus dois vizinhos, o da direita e o da esquerda.
PEDRO ALVES
Estavam conversando? Era segredo?
CLARA
Oh! não. O Sr. Luís de Melo fazia-me um curso de história depois de ter feito outro de botânica. Mostrava-me a sua estima pela violeta e pela Safo.
PEDRO ALVES
E que dizia a respeito de uma e de outra?
CLARA
(continua...)
ASSIS, Machado de. Desencantos: fantasia dramática. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1861.