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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Última Jornada

Por Machado de Assis (1875)

Machado de Assis (1839–1908) é o autor do poema “Última jornada”, integrante do livro Americanas. O texto aborda, em tom elegíaco e narrativo, a morte e o sacrifício de um personagem indígena, refletindo sobre honra, finitude e destino. O poema dialoga com o indianismo oitocentista, reinterpretado com sobriedade e reflexão moral.

Ils croyent les âmes eternelles, et celles qui ont bien merité des dieux estre logees à l’endroict du ciel où le  soleil se leve; les mauldictes, du costé de l’occident.  

MONTAIGNE, Essais, liv, I c. XXX  

I

E ela se foi nesse clarão primeiro,

Aquela esposa mísera e ditosa;

E ele se foi o pérfido guerreiro.


Ela serena ia subindo e airosa,

Ele à força de incógnitos pesares

Dobra a cerviz rebelde e lutuosa.


Iam assim, iam cortando os ares,

Deixando em baixo as fértiles* campinas,

E as florestas, e os rios e os palmares.


Oh! cândidas lembranças infantinas!

Oh! vida alegre da primeira taba!

Que aurora vos tomou, aves divinas?


Como um tronco do mato que desaba,

Tudo caiu; lei bárbara e funesta:

O mesmo instante cria e o mesmo acaba.


De esperanças tamanhas o que resta?

Uma história, uma lágrima chorada

Sobre as últimas ramas da floresta.


A flor do ipê a viu brotar magoada,

E talvez a guardou no seio amigo,

Como lembrança da estação passada.


Agora os dois, deixando o bosque antigo,

E as campinas, e os rios e os palmares,

Para subir ao derradeiro abrigo,

Iam cortando lentamente os ares.



II


E ele clamava à moça que ascendia:

“— Oh! tu que a doce luz eterna levas,

E vás viver na região do dia,


Vê como rasgam bárbaras e sevas

As tristezas mortais ao que se afunda

Quase na fria região das trevas!


Olha esse sol que a criação inunda!

Oh quanta luz, oh quanta doce vida

Deixar-me vai na escuridão profunda!


Tu ao menos perdoa-me, querida!

Suave esposa, que eu ganhei roubando,

Perdida agora para mim, perdida!


Ao maldito na morte, ao miserando,

Que mais lhe resta em sua noite impura?

Sequer alívio ao coração nefando.


Nos olhos trago a tua morte escura.

Foi meu ódio cruel que há decepado,

Ainda em flor, a tua formosura.


Mensageiro de paz, era enviado

Um dia à taba de teus pais, um dia

Que melhor fora se não fora nado.


Ali te vi; ali, entre a alegria

De teus fortes guerreiros e donzelas,

Teu doce rosto para mim sorria.


A mais bela eras tu entre as mais belas,

Como no céu a criadora lua

Vence na luz as vividas estrelas.


Gentil nasceste por desgraça tua;

Eu covarde nasci; tu me seguiste;

E ardeu a guerra desabrida e crua.


Um dia o rosto carregado e triste

À taba de teus pais volveste, o rosto

Com que alegre e feliz dali fugiste.



Tinha expirado o passageiro gosto,

Ou o sangue dos teus, correndo a fio,

Em teu seio outro afeto havia posto.


Mas, ou fosse remorso, ou já fastio,

Ias-te agora leve e descuidada,

Como folha que o vento entrega ao rio.


Oh! corça minha fugitiva e amada!

Anhangá te guiou por mau caminho,

E a morte pôs na minha mão fechada.


Feriu-me da vingança agudo espinho;

E fiz-te padecer tão cruas penas,

Que inda me dói o coração mesquinho.


Ao contemplar aquelas tristes cenas,

As aves, de piedosas e sentidas,

Chorando foram sacudindo as penas.


Não viu o cedro ali correr perdidas

Lágrimas de materno amado seio;

Viu somente morrer a flor das vidas.


O que mais houve da floresta em meio

O sinistro espetáculo, de certo

Nenhum estranho contemplá-lo veio.


Mas, se alguém penetrasse no deserto

Vira cair pesadamente a massa

Do corpo do guerreiro; e o crânio aberto,


Como se fora derramada taça,

Pela terra jazer, ali chamando

O feio grasno do urubu que passa.


Em vão a arma do golpe irão buscando,

Nenhuma houve; nem guerreiro ousado

A tua morte ali foi castigando


Talvez, talvez Tupã, desconsolado,

A pena contemplou maior do que era

O delito; e de cólera tomado,


Ao mais alto dos Andes estendera

O forte braço, e da árvore mais forte

A seta e o arco vingador colhera;


As pontas lhe dobrou, da mesma sorte

Que o junco dobra, sussurrando o vento,

E de um só tiro lhe enviou a morte.”


Ia assim suspirando este lamento,

Quando subitamente a voz lhe cala,

Como se a dor lhe sufocara o alento.


No ar se perdera a lastimosa fala,

E o infeliz, condenado à noite escura,

Os dentes range e treme de encontrá-la.


Leva os olhos na viva aurora pura

Em que vê penetrar, já longe, aquela

Doce, mimosa, virginal figura.


Assim no campo a tímida gazela

Foge e se perde; assim no azul dos mares

Some-se e morre fugidia vela.


E nada mais se viu flutuar nos ares;

Que ele, bebendo as lágrimas que chora,

Na noite entrou dos imortais pesares,

E ela de todo mergulhou na aurora.

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