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#Baladas#Literatura Brasileira

Sabina

Por Machado de Assis (1875)

Machado de Assis (1839–1908) é o autor de “Sabina”, poema do livro Americanas. O texto recria, em tom lírico e narrativo, a figura feminina indígena, explorando temas como amor, sacrifício e choque cultural no contexto da formação do Brasil. A composição dialoga com o indianismo, mas revela a visão crítica e refinada do poeta.

Sabina era mucama da fazenda;

Vinte anos tinha; e na província toda

Não havia mestiça mais à moda,

Com suas roupas de cambraia e renda.


Cativa, não entrava na senzala,

Nem tinha mãos para trabalho rude;

Desbrochava-lhe a sua juventude

Entre carinhos e afeições de sala.


Era cria da casa. A sinhá-moça,

Que com ela brincou sendo menina,

Sobre todas amava esta Sabina,

Com esse ingênuo e puro amor da roça.


Dizem que à noite, a suspirar na cama,

Pensa nela o feitor; dizem que um dia,

Um hóspede que ali passado havia,

Pôs um cordão no colo da mucama.


Mas que vale uma jóia no pescoço?

Não pôde haver o coração da bela.

Se alguém lhe acende os olhos de gazela,

É pessoa maior: é o senhor moço.


***


Ora, Otávio cursava a Academia.

Era um lindo rapaz; a mesma idade

Co’as passageiras flores o adornava

De cujo extinto aroma inda a memória

Vive na tarde pálida do outono.

Oh! vinte anos! Ó pombas fugitivas

Da primeira estação, porque tão cedo

Voais de nós? Pudesse ao menos a alma

Guardar consigo as ilusões primeiras,

Virgindade sem preço, que não paga

Essa descolorida, árida e seca

Experiência do homem!


***


Vinte anos

Tinha Otávio, e a beleza e um ar de côrte

E o gesto nobre, e sedutor o aspecto;

Um vero Adônis, como aqui diria

Algum poeta clássico, daquela

Poesia que foi nobre, airosa e grande

Em tempos idos, que ainda bem se foram...

Também eu a adorei, uma hora ao menos,

E suspirei destes remotos climas

Pelas formosas ribas do Escamandro,

Onde descia, entre soldados gregos,

A moça Vênus; frívolo suspiro

Que não pode acordar dos seus sepulcros

Esses numes brincões da velha idade,

Mortos por seus pecados — que os tiveram,

E por sossego nosso. Eram amáveis

E belos no seu tempo; hoje fariam

Igual papel ao do tardio máscara

Que, ao desdobrar a aurora os panos de ouro,

Entre madrugadores se aventura.


***



Cursava a Academia o moço Otávio;

Ia no ano terceiro: não remoto

Via desenrolar-se o pergaminho,

Prêmio de seus labores e fadigas;

E uma vez bacharel, via mais longe

Os curvos braços da feliz cadeira

Donde o legislador a rédea empunha

Dos lépidos frisões do Estado. Entanto,

Sobre os livros de estudo, gota a gota

As horas despendia, e trabalhava

Por meter na cabeça o jus romano

E o pátrio jus. Nas suspiradas férias

Volvia ao lar paterno; ali no dorso

De brioso corcel corria os campos,

Ou, arma ao ombro, polvorinho ao lado,

À caça dos veados e cotias,

Ia matando o tempo. Algumas vezes

Com o padre vigário se entretinha

Em desfiar um ponto de intrincada

Filosofia, que o senhor de engenho,

Feliz pai, escutava glorioso,

Como a rever-se no brilhante aspecto

Do suas ricas esperanças.


***


Era

Manhã de estio; erguera-se do leito

Otávio; em quatro sorvos toda esgota

A taça de café. Chapéu de palha,

E arma ao ombro, lá foi terreiro fora,

Passarinhar no mato. Ia costeando

O arvoredo que além beirava o rio,

A passo curto, e o pensamento à larga,

Como leve andorinha que saísse

Do ninho, a respirar o hausto primeiro

Da manhã. Pela aberta da folhagem,

Que inda não doura o sol, uma figura

Deliciosa, um busto sobre as ondas

Suspende o caçador. Mãe d’água fora,

Talvez , se a cor de seus quebrados olhos

Imitasse a do céu: se a tez morena,

Morena como a esposa dos Cantares,

Alva tivesse; e raios de ouro fossem

Os cabelos da cor da noite escura,

Que ali soltos e úmidos lhe caem,

Como um véu sobre o colo. Trigueirinha,

Cabelo negro, os largos olhos brandos

Cor de jabuticaba, quem seria,

Quem, senão a mucama da fazenda,

Sabina, enfim? Logo a conhece Otávio,

E nela os olhos espantados fita

Que desejos acendem. — Mal cuidando

Daquele estranho curioso, a virgem

Com os ligeiros braços rompe as águas,

E ora toda se esconde, ora ergue o busto,

Talhado pela mão da natureza

Sobre o modelo clássico. Na oposta

Riba suspira um passarinho; e o canto,

E a meia luz, e o sussurrar das águas,

E aquela fada ali, tão doce vida

Davam ao quadro, que o ardente aluno

Trocara por aquilo, uma hora ao menos,

A Faculdade, o pergaminho e o resto.


***


Súbito erige o corpo a ingênua virgem;

Com as mãos, os cabelos sobre a espádua

Deita, e rasgando lentamente as ondas,

Para a margem caminha, tão serena,

Tão livre como quem de estranhos olhos

Não suspeita a cobiça...Véu da noite,

Se lhos cobrira, dissipara acaso

Uma história de lágrimas. Não pode

Furtar-se Otávio à comoção que o toma;

A clavina que a esquerda mal sustenta

No chão lhe cai; e o baque surdo acorda

A descuidada nadadora. Às ondas

A virgem torna. Rompe Otávio o espaço

Que os divide; e de pé, na fina areia,

Que o mole rio lambe, ereto e firme,

Todo se lhe descobre. Um grito apenas

Um só grito, mas único, lhe rompe

Do coração; terror, vergonha... e acaso

Prazer, prazer misterioso e vivo

De cativa que amou silenciosa,

E que ama e vê o objeto de seus sonhos,

Ali com ela, a suspirar por ela.


***


“Flor da roça nascida ao pé do rio,

Otávio começou — talvez mais bela

Que essas belezas cultas da cidade,

Tão cobertas de jóias e de sedas,

Oh! não me negues teu suave aroma!

Fez-te cativa o berço; a lei somente

Os grilhões te lançou; no livre peito

De teus senhores tens a liberdade,

A melhor liberdade, o puro afeto

Que te elegeu entre as demais cativas,

(continua...)

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