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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Lovaina

Por Mário de Andrade (1917)

Escrito por Mário de Andrade (1893–1945), um dos expoentes do Modernismo brasileiro, o poema "Lovaina" compõe a obra "Há uma gota de sangue em cada poema", que reflete as angústias e brutalidades da Primeira Guerra Mundial. Com um tom pacifista e comoção humanitária, o texto denuncia a violência, as ruínas e as "hecatombes monstruosas" do conflito. Uma leitura visceral e indispensável sobre as dores do mundo.

Abriam-se inda no ar alguns obuses,
como flocos de paina;
e, ao barulhar bramante do barulho,
tetos tombavam, e brotavam luzes;
onde fora Lovaina…

– Mas no meio do entulho,
nas avenidas e nas alamedas
tresloucadas, sem rumo,
onde ladrava, sob o fumo,
a cainçalha das labaredas;
mas pelas vastas praças atupidas
de destroços heris de monumentos;
nas ruas de comércio, onde mil vidas
jaziam, envolvidas
na mortalha dos desmoronamentos;
mas nos palácios, nas mansardas,
nos esqueletos das habitações,
nas escolas estraçalhadas,
nos átrios, nos terraços, nas escadas,
no torvelim dos mortos e das fardas,
na boca muda dos canhões,
naquele hediondo incêndio triunfal:
não calculei ao desastroso mal
toda a incomensurável extensão!
Não vi o exício duma grei humana,
o destino infeliz duma raça espartana,
o fim terrível duma geração!
Se houve crime nefando,
não lhe medi a imensidade:
só, dentre as ruínas da universidade,
eu vi os grandes livros fumegando!

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