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#Baladas#Literatura Brasileira

Guilherme

Por Mário de Andrade (1917)

Escrito por Mário de Andrade (1893–1945), um dos expoentes do Modernismo brasileiro, o poema "Guilherme" compõe a obra "Há uma gota de sangue em cada poema", que reflete as angústias e brutalidades da Primeira Guerra Mundial. Com um tom pacifista e comoção humanitária, o texto denuncia a violência, as ruínas e as "hecatombes monstruosas" do conflito. Uma leitura visceral e indispensável sobre as dores do mundo.

Ser feliz é ser grande. Imenso de alma,
inda que o corpo se lhe dobre…
É alcançar a região etérea e calma,
onde a alma viva enfim, nua e desimpedida…
Indiferentemente
ou sendo rico, ou sendo pobre,
ser feliz é encontrar no fim da vida,
de torna-viagem para a povoação,
a inflexível consciência, e encará-la de frente:
e ajoelhar para a coroação.

Ser grande é ser bom. Justo
na maneira de agir e no discernimento…
Não é apenas plagiar Alexandre ou Augusto,
sem que de glória e honras se farte:
antes é mitigar o humano sofrimento,
e ter o bem como estandarte.
Ser grande é compartir o choro largo
do mundo; agindo de tal forma,
a deixar para o fraco uma lei e uma norma,
e um beijo doce em cada lábio amargo…
É pela força real das sábias energias,
apagar o sarcasmo e as ironias…
É, pelo amor que aleita e orvalha,
e pelo gênio cálido e eficaz
pôr sobre a inveja uma eternal mortalha,
e erguer, sobre a mortalha, a figura da paz.

E, não pensando em si, dar a felicidade,
– conhecendo que a glória apenas dura
o quarto-de-hora desta vida,
no minuto sem fim da eternidade –
desdenhar para si toda ventura;
desatulhar a estrada interrompida;
e, sem baquear na faina um só instante,
para que o povo passe adiante
terraplenar os Pireneus e o Jura:
é ter a luz e compreender a luz,
é ser bom finalmente, é ser Jesus!…

– Mas o pior dos homens deste mundo,
o menor, o mais triste, o mais mesquinho,
deve de ser o homem que andando seu caminho,
é infecundo no espírito, e fecundo
só nos desvairos e erros que pratica;
deve de ser o homem que andando seu caminho,
faz desgraçado quem se lhe aproxima;
e à própria caravana, inumerável, rica,
faz tomá-lo por Deus, e a enlouquece e dizima…
Infeliz! Pensa em luz, e engendra escuridades;
quer replantar o bem, o mal deita raízes!…
– Certo: é a maior das infelicidades
fazer dos outros homens infelizes.

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