Sermão da Sexagésima PADRE ANTôNIO VIEIRA (1655) O “Sermão da Sexagésima”, de Padre Antônio Vieira, foi proferido em 1655, na Capela Real de Lisboa, durante a Quaresma. Nesse contexto, Vieira critica a falta de eficácia dos pregadores e busca orientar a Igreja sobre como tornar a pregação mais convincente. O sermão discute, principalmente, as causas do fracasso da palavra de Deus e defende uma pregação clara, objetiva e fundamentada no Evangelho. Este sermão pregou o Autor no ano de 1655, vindo da Missão do Maranhão, onde achou as dificuldades que nele se apontam, as quais vencidas, com novas ordens reais voltou logo para a mesma Missão.  Semen est Verbum Dei1 §I O pregador evangélico será pago não só pelo que semeia como pelas distâncias que percorre, e não volta nem mesmo diante das dificuldades que a natureza lhe apresenta: as pedras, os espinhos, as aves, o homem. Cristo ordenou que se pregasse a todas as criaturas porque há homens-brutos, homens-pedras, e homenshomens. O que aconteceu com a semente do Evangelho aconteceu com os missionários do Maranhão. Não age mal o pregador que volta à busca de melhores instrumentos. Este sermão servirá de prólogo aos outros sermões quaresmais. E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso ouditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe. Ecce exiit qui seminat, seminare: Diz Cristo que saiu o pregador evangélico a semear a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas faz também caso de sair: Exiit, porque no dia da messe, hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que despendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus, até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho, há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear, são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair são os que se contentam com pregar na pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura, e hão-lhes de contar os passos. Ah! dia do juízo! Ah! pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço, os de lá, com mais passos: Exiit seminare. Mas daqui mesmo vejo que notais, e me notais, que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz que tornou, porque os pregadores do Evangelho, os homens que professam pregar e propagar a fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais de Ezequiel, que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus, e significavam os pregadores do Evangelho, que propriedades tinham? Nec revertebantur cum ambularent: uma vez que iam, não tornavam (Ez. 1,12). As rédeas por que se governavam, era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto; mas esse espírito tinha impulsos para os levar, não tinha regresso para os trazer, porque sair para tornar, melhor é não sair. Assim argúis com muita razão, e eu também assim o digo. Mas pergunto: e se esse semeador Evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado, se se armassem contra ele os espinhos, se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos, que havia de fazer? Todos estes contrários que digo, e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou ele a semear, diz Cristo, mas com pouca ventura. Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos: Aliud cecidit inter spinas, et sim ul exortae spinae suffocaverunt iílud. Outra parte caiu sobre as pedras, e secou-se nas pedras por falta de umidade: Aliud cecidit super petram, et natum aruil, quia non habebat humorem. Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens, e comeram-no as aves: Aliud cecidit secus viam, ei concuícatum esi, ei volucres coeli comederuni illud. Ora, vede como todas as criaturas do mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas, quantas há no mundo, se reduzem a quatro gêneros: criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras, e não há mais. Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma. A natureza insensível o perseguiu nas pedras; a vegetativa, nos espinhos; a sensitiva, nas aves; a racional, nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no, e os homens? Pisaram-no: Concuícatum est ab hominibus, diz a glosa. Quando Cristo mandou pregar os apóstolos pelo mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: Ide, e pregai a toda a criatura (Mc. 16,15). Como assim, Senhor? Os animais não são criaturas? As árvores não são criaturas? As pedras não são criaturas? Pois hão os apóstolos de pregar às pedras? Hão de pregar aos troncos? Hão de pregar aos animais? Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho; porque, como os apóstolos iam pregar a todas as nações do mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas; haviam de achar homens-homens, haviam de achar homens-brutos, haviam de achar homens-troncos, haviam de achar homens-pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas? Grande desgraça! Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido, e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruil, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suifocaveruni iííud; trigo comido: Volucres coeli comederuni iílud; trigo pisado: Concuícatum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da Missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na Ilha dos Aroás; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocantins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas, matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Natum aruit quja non habebat humorem? E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Concuícatum est? Não me queixo, nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados. Agora torna a minha pergunta. E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a casa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás? Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel, com quem argílistes, temos a prova. Já vimos, como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, quando iam, não tornavam: Nec revertebantur cum ambuíarent (Ez. 1,12). Lede agora dois versos mais abaixo e vereis que diz o mesmo texto que aqueles animais tornavam à semelhança de um raio ou corisco: Ibant et revertebantur in simil itud inem fuíguris coruscantis (Ez. 1,14). Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimau nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade que nesta quarta e última parte do trigo se restouraram com vantagem as perdas dos demais; nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheuse, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento. Etfecitfructum centuplum. Oh! que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh! que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira, porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos; dá-me grande exemplo o semeador, porque depois de perder a primeira, a segunda, e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram as pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, por que se perderá também? Por que não dará fruto? Por que não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Por que não terá também o seu outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as discretas, só essas são as que duram, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o mundo, Será bem que o mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há de ser. Eis aqui por que eu dizia ao princípio que vindes enganados como pregador. Mas para que possais ir desenganados como sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei de pregar, e aos mais que ouvirdes esta quaresma. §II Semen est verbum Dei. O trigo do Evangelho é a palavra de Deus; os espinhos, as pedras, os caminhos e a terra boa, os diversos estados do coração do homem. Se a palavra de Deus é tão eficaz, por que vemos tão pouco fruto? O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo, que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias, e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados, e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam, e nestes é pisada a palavra de Deus, porque ou a desatendem, ou a desprezam. Finalmente a terra boa são os corações bons, ou os homens de bom coração, e nestes prende e frutifica a palavra divina com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum. Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o mundo fora santo. Este argumento da fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do mundo, os reis renunciando os cetros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas. E hoje? Nada disto. Nunca na igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva; não há um moço que se arrependa; não há um velho que se desengane; que é isto? Assim como Deus não é hoje menos onipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa, se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, por que não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta tão grande e tão importante dúvida será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós: a mim, para aprender a pregar; a vós, para que aprendais a ouvir. §III Tal deficiência pode provir ou de Deus, com a graça, ou do pregador com a doutrina, ou do ouvinte, com entendimento. Deus porém não falta: ele é o sol e a chuva, e o Evangelho não fala das sementes que se perdem por falta das influências do céu. A culpa portanto é ou do pregador ou dos ouvintes. Mas mesmo os piores ouvintes, os espinhos e as pedras, hão de aceitar a palavra de Deus. Segue-se pois que a culpa é do pregador Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há de haver três concursos: há de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho, e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho, e tem olhos, e se é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo há mister luz, há mister espelho, e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si, e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora, suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador, e do ouvinte, por qual deles havemos de entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? Primeiramente, por parte de Deus não falta, nem pode faltar. Esta proposição é de fé definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo, que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E por que se perderam estas três? A primeira perdeu-se porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens, e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo, mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por cousa do sol ou da chuva. A cousa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois por que não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por cousa do sol ou da chuva? Porque o sol e a chuva são as influências da parte do céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta do céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do céu, isso nunca é, nem pode ser. Sempre Deus está pronto de sua parte com o sol para aquentar, e com a chuva para regar, com o sol para alumiar, e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos2. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus, que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et nonfeci? – disse o mesmo Deus por Isaias.3 Sendo pois certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador, ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por falta dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto; mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por falta dos ouvintes. Provo. Os ouvintes ou são maus, ou são bons: se são bons, faz neles grande fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruiL O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum frcitfiuctum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra não frutificou, mas nasceu, porque a palavra de Deus é tão fecunda, que nos bons faz muito fruto, e é tão eficaz, que nos maus, ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus são as pedras e os espinhos. E por quê? Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos, e ouvintes de vontades endurecidas, são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica: Aliud cecidit inter spinas. O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou a vós, e não é assim: vós sois o que picais o sermão. Por isso são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo podese ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras. A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Phamonis4. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas seremos mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras. Pudéramos argüir ao lavrador do Evangelho, de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. E tanta a força da divina palavra, que sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. E tanta a força da divina palavra, que sem arrancar, nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos, corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus, e tende confiança; tomai exemplo nestas mesmas pedras e nestes espinhos. Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu, mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem, e esses mesmos espinhos o coroem. Quando o semeador do céu deixou o campo, saindo deste mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa5.E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa, se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce, não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes. Supostas estas duas demonstrações, suposto que o fruto e efeito da palavra de Deus não fica nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por conseqüência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis cristãos por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis pregadores por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa nossa. §IV No pregador deve-se considerar a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa: uma coisa é o semeador, outra o que semeia; uma coisa é o pregador outra o que prega. As ações é que dão ser ao pregador: Hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. De nada vale a funda de Davi sem as pedras. Até o Filho de Deus, enquanto Deus, não é obra de Deus, é palavra de Deus. No céu Deus é necessariamente amado porque é Deus visto, o que não acontece na terra onde é apenas Deus ouvido. Os sermões fazem pouco efeito porque não são pregados aos olhos mas aos ouvidos. Seguir o exemplo do Batista. Os ouvintes e as ovelhas de Jacó. Contra esse argumento lá o exemplo do profeta Jonas. Mas como em um pregador há tantas qualidades e em uma pregação há tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? No pregador podem-se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa que é, a ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas circunstâncias temos no Evangelho. Vamo-las examinando uma por uma, e buscando esta cousa. Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos, eram varões apostólicos e exemplares, e hoje os pregadores são eu e outros como eu? Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit qai seminat semiitare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença: uma coisa é o soldado, e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador, e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador, e outra o que semeia: uma coisa é o pregador, e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome, o que semeia e o que prega é ação, e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? E o conceito que de sua vida têm os ouvintes. Antigamente convertia-se o mundo; hoje por que se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos; antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obras são tiro sem bala: atroam mas não ferem. A funda de Davi derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo senão com a pedra: infixus est lapis in fronte ejus6. As vozes da harpa de Davi lançavam fora os demônios do corpo de Soul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua7. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar, que é falar, faz-se com a boca: o pregar, que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras: para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus multiplicou cento por um. Que quer isso dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras? Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede, se podem ser só palavras? Quis Deus converter o mundo, e que fez? Mandou ao mundo seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: Gertitum, nonfactum. O Filho de Deus enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est8 De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras, não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do mundo. Verbo divino é palavra divina, mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. No céu ninguém há que não ame a Deus, nem possa deixar de o amar. Na terra há tão poucos que o amem; todos o ofendem. Deus não é o mesmo, e tão digno de ser amado no céu como na terra? Pois como no céu obriga e necessita a todos ao amarem, e na terra não? A razão é porque Deus no céu é Deus visto; Deus na terra é Deus ouvido. No céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos: Videbimus eum sicut est9 na terra entra-lhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos: Fides ex ouditu10 E o que entra pelos ouvidos, crê-se, o que entra pelos olhos, necessita. Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros. Vai um pregador pregando a Paixão, chega ao pretório de Pilatos, conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria, diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros; ouve aquilo o ouditório muito atento. Diz que teceram uma coroa de espinhos, e que lha pregaram na cabeça; ouvem todos com a mesma atenção. Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nela uma cana por cetro; continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes. Corre-se neste passo uma cortina, aparece a imagem do Ecce homo: eis todos prostrados por terra, eis todos a bater nos peitos, eis as lágrimas, eis os gritos, eis os alaridos, eis as bofetadas. Que é isto? Que apareceu de novo nesta igreja? Tudo o que descobriu aquela cortina tinha já dito o pregador. Já tinha dito daquela púrpura, já tinha dito daquela coroa e daqueles espinhos, já tinha dito daquele cetro e daquela cana. Pois se isto então não fez abalo nenhum, como faz agora tanto? Porque então era Ecce homo ouvido, e agora é Ecce homo visto; a relação do pregador entrava pelos ouvidos, a representação daquela figura entra pelos olhos. Sabem, padres pregadores, porque fazem pouco abalo os nossos sermões? Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Porque convertia o Batista tantos pecadores? Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos. As palavras do Batista pregavam penitência: Agite poenitentiam: Homens fazei penitência (Mt. 3,2) e o exemplo clamava: Ecce homo: eis aqui está o homem que é o retrato da penitência e da aspereza. As palavras do Batista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula, e o exemplo clamava: Ecce homo: eis aqui está o homem que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras do Batista pregavam composição e modéstia, e condenavam a soberba e a vaidade das galas, e o exemplo clamava: Ecce homo: eis aqui está o homem vestido de peles de camelo, com as cerdas e cilicio à raiz da carne. As palavras do Batista pregavam despegos e retiros do mundo, e fugir das ocasiões e dos homens, e o exemplo clamava: Ecce homo: eis aqui o homem que deixou as cortes e as cidades, e vive num deserto e numa cova. Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra, como se hão de converter? Jacó punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam, e daquii procedia que os cordeiros nasciam manchados11. Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma coisa é o semeador e outra o que semeia, como se há de fazer fruto? Muito boa e muito forte razão era esta de não fazer fruto a palavra de Deus, mas tem contra si o exemplo e experiência de Jonas (Jon. 1,2-4). Jonas, fugitivo de Deus, desobediente, contumaz, e ainda depois de engolido e vomitado, iracundo, impaciente, pouco caritativo, pouco misericordioso, e mais zeloso e amigo da própria estimação que da honra de Deus e salvação das almas, desejoso de ver sovertida a Nínive, e de a ver soverter com seus olhos, havendo nela tantos mil inocentes. Contudo, este mesmo homem com um sermão converteu o maior rei, a maior corte e o maior, reino do mundo, e não de homens fiéis, senão de gentes idólatras. Outra é logo a cousa que buscamos. Qual será? V O estilo: deve ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo compara o pregar ao semear uma arte sem arte. A coisa está no cair está na queda, na cadência, no caso. O mais antigo pregador o céu, semeador de estrelas. Deve-se pregar como quem semeia e não como quem azuleja ou ladrilha. Não fazer do sermão um xadrez. As palavras devem ser como as estrelas: claras e distintas. O enigma dos nomes próprios desbatizando os santos. O argumento é bom, mas há autores que o contradizem. Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit qui seminat seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes, tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitetura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geografia tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte: caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho. Caía o trigo nos espinhos, e nascia: Aliud cecidit inter spinas, et simul exortae spinae. Caía o trigo nas pedras, e nascia: Aliud cecidit super petram, et natum. Caía o trigo na terra boa, e nascia: Aliud cecidit in terrwn boiram, et natum. Ia o trigo caindo e ia nascendo. Assim há de ser o pregar. Hão de cair as coisas e hão de nascer, tão naturais, que vão caindo, tão próprias, que venham nascendo. Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa! Ver vir os tristes passos da Escritura, como quem vem ao martírio; uns vêm acorrentados, outros vêm arrastados, outros vêm estirados, outros vêm torcidos, outros vêm despedaçados; só atados não vêm. Há tal tirania? Então no meio disto: Que bem levantado está aquilo! Não está a coisa no levantar, está no cair: Cecidit. Notai uma alegoria própria de nossa língua. O trigo do semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu: para o sermão vir nascendo, há de ter três modos de cair. Há de cair com queda, há de cair com cadência, há de cair com caso. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas, porque hão de vir bem trazidas, e em seu lugar; hão de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão de ser escabrosas, nem dissonantes; hão de ter cadência. O caso é para a disposição, porque há de ser tão natural e tão desafetado que pareça caso e não estudo. Cecid ii; cecidit; cecidit. Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mimo estilo do mais antigo pregador que houve no mundo. E qual foi ele? O mais antigo pregador que houve no mundo foi o céu: Coeli enarrant gloriam Dei, et opera manuom ejus annuntiat firmamentum, diz Davi12.Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter palavras. Se tem, diz o mesmo Davi: tem palavras e tem sermões, e mais, muito bem ouvidos: Non sunt loquelbe, neque sermones, quorum nou oudiantur voces eorum.13 E quais são estes sermões e estas palavras do céu? As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, como estilo que Cristo ensinou na terra? Um e outro é semear: a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo (Jz. 5,20). Todas as estrelas estão por sua ordem, mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, da outra há de estar negro; se de uma parte está dia, da outra há de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrario? Aprendamos do céu o estilo da disposição e também o das palavras. Como hão de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo da pregação; muito distinto, e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo: as estrelas são muito distintas e muito claras e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem, e tão alto que tenham muito que entender nele os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para a sua lavoura, e o mareante para a sua navegação, e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler, nem escrever; entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: estrelas, que todos as vêem, e muito poucos as medem. Sim, padre: porém esse estilo de pregar, não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto; os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito ceirado. É possível que somos portugueses, e havemos de ouvir um pregador em português, e não havemos de entender o que diz? Assim como há léxicon para o grego, e calepino para o latim, assim é necessário haver um vocabulário do púlpito. Eu ao menos o tomara para os nomes próprios, porque os cultos têm batizados os santos, e cada autor que alegam é um enigma. Assim o disse o Cetro penitente; assim o disse o Evangelista Apeles; assim o disse a Águia de África, o Favo de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro. Há tal modo de alegar! O Cetro penitente dizem que é Davi, como se todos os cetros não foram penitentes; o Evangelista Apeles, que és. Lucas; o Favo de Claraval, S. Bernardo; a Águia de Africa, Santo Agostinho; a Púrpura de Belém, S. Jerônimo; a Boca de Ouro, S. Crisóstomo. E quem quitaria ao outro cuidar que a Púrpura de Belém é Herodes, que a Águia de África é Cipião, e que a Boca de Ouro é Midas? Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bartolo e Baldo, havíeis de fiar dele o vosso pleito? Se houvesse um homem que assim falasse na conversação, não o havíeis de ter por néscio? Pois o que na conversação seria necedade, como há de ser discrição no púlpito? Boa me parecia também esta razão, mas como os cultos pelo polido e estudado se defendem com o grande Nazianzeno, com Ambrósio, com Crisólogo, com Leão, e pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino, com Tertuliano, com Basfiio de Sclêucia, com Zeno Veronense, e outros, não podemos negar a reverência a tamanhos autores, posto que desejáramos, nos que se prezam de beber destes rios, a sua profundidade. Qual será logo a cousa de nossa queixa? §VI A matéria: o sermão deve ter um só assunto, uma só matéria. O semeador semeava trigo, e só. Se lançasse à terra grande variedade de sementes, nada colheria. Exemplos do Batista e de Jonas. O sermão e a árvore. Os ensinamentos dos clássicos pagãos e dos Padres da Igreja. Esta porém não é ainda a cousa da falta de frutos da palavra de Deus. Será pela matéria, ou matérias, que tomamos pregadores? Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos, e quem levanta muita caça e não segue nenhuma, não é muito que se recolha com as mãos vazias. Boa razão é também esta. O sermão há de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos gêneros de sementes, senão uma só: Exiit qui seminat seminare semen. Semeou uma semente só, e não muitas, porque o sermão há de ter uma só matéria, e não muitas matérias. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste gênero. Como semeiam tanta vanedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nou fizesse um bordo para o Norte, outro para o Sul, outro para Leste, outro para Oeste, como poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento; que se há de colher senão vento? O Batista convertia muitos em Judéia; mas quantas matérias tomava? Uma só matéria: Parate viam Domini14. a preparação para o reino de cristo. Jonas converteu os ninivitas; mas quantos assuntos tomau? Um só assunto: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur15. a subversão da cidade. De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto, e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos nenhum. O sermão há de ser de uma só cor, há de ter um só objeto, um só assunto, uma só matéria. Há de tomar o pregador uma só matéria; há de defini-la, para que se conheça; há de dividi-la, para que se distinga; há de prová-la com a Escritura, há de declará-la com razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com as cousas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências, que se hão de seguir, com os inconvenientes, que se hão de seguir, com os inconvenientes, que se devem evitar; há de responder às dúvidas, há de satisfazer às dificuldades, há de impugnar e refutar com toda a força de eloqüência os argumentos contrários, e depois disto há de colher, há de apertar, há de concluir, há de persuadir, há de acabar. Isto é sermão, isto é pregar, e o que não é isto, é falar demais alto. Não nego, nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão de nascer todos da mesma matéria, e continuar, e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem troncos, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há de ser o sermão: há de ter raízes fortes e sólidas, porque há de ser fundado no Evangelho; há de ter um tronco, porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria. Deste tronco hão de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela. Estes ramos não hão de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras. Há de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há de ter flores, que são as sentenças; e, por remate de tudo, há de ter frutos, que é o fruto, e o fim a que se há de ordenar o sermão. De maneira que há de haver frutos, há de haver flores, há de haver varas, há de haver folhas, há de haver ramos, mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser, porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, a que podemos chamar Árvore da vida, há de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos, mas tudo isto nascido e formado de um só tronco, e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Semimore semen. Eis aqui como hão de ser os sermões; eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles. Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente, não só com os preceitos de Aristóteles, dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática observada do principe dos oradores evangélicos, S. João Crisóstomo, de S. Basílio Magno, S. Bernardo, S. Cipriano, e com as famosíssimas orações de S. Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas. E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho, S. Gregório, e muitos outros, se achamos Evangelhos apostilados com nomes de sermões e homilias, uma coisa é expor, e outra é pregar, uma ensinar, e outra persuadir. E desta última é que eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo Antônio de Pádua e S. Vicente Ferrer. Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira cousa que busco. §VII A Ciência: será a falta de ciência a cousa da esterilidade da palavra de Deus? O pregador deve pregar do seu e não do alheio; deve lutar com as próprias armas, como Davi que recusou as armas de Soul. Cristo encontrou os apóstolos refazendo as suas redes;como as redes, a pregação deve ter chumbo e cortiça. Na descida do Espírito Santo as línguas de fogo desceram sobre a cabeça dos apóstolos e não sobre as línguas, para significar que o que sai da boca pára nos ouvidos, mas o que sai pela boca, mas da cabeça, convence o entendimento. Razão por que desceu uma língua sobre cada apóstolo. O Batista, entretanto, contraria esta asserção do autor. Será porventura a falta de ciência, que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram, e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão como suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há de pregar o seu, e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: Semen suum. Semeou o seu, e não o alheio, porque o alheio e o furtado não é bom para semear, ainda que o furto seja de ciência. Comeu Eva o pomo da ciência, e queixava-me eu antigamente desta nossa Mãe; já que comeu o pomo, por que lhe não guardou as pevides? Não seria bem que chegasse a nós a árvore, já que nos chegaram os encargos dela? Pois, por que o não fez assim Eva? Porque o pomo era furtado, e o alheio é bom para comer, mas não é bom para semear; é bom para comer; porque dizem que é saboroso; não é bom para semear, porque não nasce. Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce em casa, mas esteja certo que se nasce, não há de deitar raízes: e o que não tem raízes, não pode dar frutos. Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto: porque pregam o alheio e não o seu: Semen soum. O pregar é entrar em batalha com os vícios; e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória16. Quando Davi saiu a campo como gigante, ofereceu-lhe Soul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja Davi. As armas de Soul só servem a Soul, as de Davi a Davi, e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. Pregador que peleja com as armas alheias, não hajais medo que derrube gigante. Fez Cristo aos apóstolos pescadores de homens, que foi ordenálos de pregadores. E que faziam os apóstolos? Diz o texto, que estavam: Reficientes retia sua: Refazendo as redes suas17.. Eram as redes dos apóstolos, e não eram alheias. Notai: Retia sua. Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custaram o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas, e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias, ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque, nesta pesca de entendimentos, só quem sabe fazer a rede, sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? Do fio e do nó se compõe a malha. Quem não enfia, nem ata, como há de fazer rede? E quem não sabe enfiar, nem sabe atar, como há de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras mais superficiais e mais leves, e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça. As razões não hão de ser enxertadas, hão de ser nascidas. O pregar, não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento. Veio o Espírito Santo sobre os apóstolos, e quando as línguas desciam do céu, cuidava eu que lhes haviam de pôr na boca, mas elas foram-se pôr na cabeça. Pois por que na cabeça, e não na boca, que é o lugar da língua? Porque o que há de dizer o pregador, não lhe há de sair só da boca; há-lhe de sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca pára nos ouvidos: o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento. Ainda têm mais mistério estas línguas do Espírito Santo. Diz o texto, que não se puseram todas as línguas sobre todos os apóstolos, senão cada uma sobre cada um: Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum18. E por que cada uma sobre cada um, e não todas sobre todos? Porque não servem todas as línguas a todos, senão a cada um a sua. Uma língua só sobre Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André; outra língua só sobre André, porque a língua de André não serve a Filipe; outra língua só sobre Filipe, porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu; e assim dos mais. E se não, vede o estilo de cada um dos apóstolos sobre que desceu o Espírito Santo. Só de cinco temos escrituras, mas a diferença com que escreveram, como sabem os doutos, é admirável. As penas todas eram tiradas das asas daquela Pomba Divina, mas o estilo, tão diverso, tão particular, e tão próprio de cada um, que bem mostra que era seu. Mateus fácil, João misterioso, Pedro grave, Jacó forte, Tadeu sublime, e todos com tal valentia no dizer, que cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio e cada razão um triunfo. Ajuntai a estes cinco, S. Lucas e S. Marcos, que também ali estavam, e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu S. João no Apocalipse: Locuta sunt septem tonitrua voces suas19 Eram trovões que falavam e dearticulavam as vozes, mas estas vozes eram suas: Voces suas, suas, e não alheias, como notou Ansberto: Non alienas, sed suas. Enfim, pregar o alheio é pregar o alheio, e com o alheio nunca se fez coisa boa. Contudo eu não me firmo de todo nesta razão, porque do grande Batista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías, como notou S. Lucas, e não com outro nome, senão de sermões: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum, sicut scriptum est in libto sermonun Jsaiae Pmphetae20. Deixo o que tomau S. Ambrósio de S. Basilio, S. Próspero, e Beda, de Santo Agostinho, Teofilato, e Eutímio, de S. João Crisóstomo. VIII A voz: antigamente a primeira qualidade do pregador era bom peito. Como se definiu o Batista. O pregador, voz que arrazoa e não voz que brada. Contudo às vezes valem mais os brados que a razão, como no julgamento de Cristo. Definição de Isaias contrária ao exemplo de Jesus, de Moisés, e de outros patriarcas e profetas. Conclusão: a cousa da falta de fruto dos sermões não está nem na pessoa, nem no estilo, nem na matéria, nem na ciência, nem na voz do pregador Será finalmente a cousa que há tanto buscamos a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente como o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes mais os brados que a razão. Boa era também esta, mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos que não era oficio de boca. Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu no semeador verdadeiro, que é Cristo. Tanto que Cristo acabou a parábola, diz o Evangelho que começou o Senhor a bradar: Haec dicens clamabat (Lc. 8,8). Bradou o Senhor, e não arrazoou sobre a parábola, porque era tal o ouditório, que fiou mais dos brados que da razão. Perguntaram ao Batista, quem era? Respondeu ele: Ego vox clainantis in deserto (Jo. 1,23): Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto. Desta maneira se definiu o Batista. A definição do pregador, cuidava eu que era voz que arrazoa, e não voz que brada. Pois porque se definiu o Batista pelo bradar, e não pelo arrazoar, não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Batista pregava. Vede-o claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam, lavou as mãos, e disse: Ego nullam cousam invenio in homine isto (Lc. 23,14): Eu nenhuma cousa acho neste homem. Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora que fosse crucificado: At illi magis clamabant: crucifigatur (Mt. 27,23). De maneira que Cristo tinha por si a razão, e tinha contra si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados que a razão. A razão não valeu para o livrar, os brados bastaram para o pôr na cruz. E como os brados no mundo podem tanto, bem é que bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem. Por isto Isaias chamau aos pregadores nuvens: Qui sunt isti, qui ut nubes volant?21 A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio: relâmpago para os olhos trovão para os ouvidos, raio para o coração: com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere a um, o relâmpago a muitos, a trovão a todos. Assim há de ser a voz da pregador: um trovão da céu que assombre e faça tremer o mundo. Mas que diremos à oração de Moisés: Concresat ut pluvia doctrina meo; fluat ut ros elo quium meum (Dt. 32,2)? Desça minha doutrina como chuva da céu, e a minha voz e as minhas palavras como orvalho, que se destila brandamente e sem ruído? Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo, tão celebrado par Isaias: Non clamabit neque oudietur vox ejusforis (Is. 42,2): Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada, que se não possa ouvir fora? E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra, e se mete na alma. Em conclusão, que a cousa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus nem é a circunstância da pessoa: Qui seminat, nem a do estilo: Seminare, nem a da matéria: Semen, nem a da ciência: Suum, nem a da voz: Clamabat. Moisés tinha fraca voz. Amós tinha grosseiro estilo, Salomão multiplicava e variava os assuntos, Balaão não tinha exemplo de vida, o seu animal não tinha ciência, e contudo todos estes, falando, persuadiam e convenciam22. Pois se nenhuma destas razões que discorremos, nem todas elas juntas são a cousa principal, nem bastante, do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a verdadeira cousa? §IX A verdadeira razão: as palavras dos pregadores são palavras de Deus, mas não são a palavra de Deus. As Escrituras, quando não tomadas em seu verdadeiro sentido, podem transformar-se em palavras do demônio, como no caso da tentação de Cristo. Analogia entre o pináculo do Templo e o púlpito. Os pregadores e as duas falsas testemunhas do julgamento de Cristo. Admoestação de S. Paulo. Excelência dos comediógrafos pagãos sobre os maus pregadores. As palavras que tomei por tema o dizem: Semen est Verbum Dei. Sabeis, cristãos, a cousa, por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus, como dizia, é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavra de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos de palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem colligent (Os. 8,7), diz o Espírito Santo: Quem semeia ventos, colhe tempestades. Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta em vez de colher frutos? Mas, dir-me-eis: padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus. Qui habet sennonem meum, loquatur serutonem meus23 disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavra de Deus, mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavra do demônio. Tentou o demônio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo quod procedit de Dei24. Esta sentença era tirada do capítulo oitavo do Deuteronômio. Vendo o demônio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-o ao templo, e alegando o lugar do salmo novento diz-lhe desta maneira: Mitte de aeorsum; scriptum est enim quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis (SI. 90,11): Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal. De sorte que Cristo defendeu-se do diabo com a Escritura, e o diabo tentou a Cristo com a Escritura Todas as Escrituras são palavra de Deus; pois se Cristo toma a Escritura para se defender do diabo, como toma o diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido. E as mesmas palavras que, tomadas em verdadeiro sentido, são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do diabo. As mesmas palavras, que tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então o diabo quis derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do Templo. O pináculo do Templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-o no Templo; no deserto tentou-o com a gula, no monte tentou-o com a ambição, no Templo tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé. Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome) dizei-me: estes assuntos inúteis, que tantas vezes levantais, essas empresas, ao vosso parecer agudas, que prosseguis, achaste-las alguma vez nos profetas do Testamento Velho, ou nos apóstolos e evangelistas do Testamento Novo, ou no Autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Gênesis até a última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais. Nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendemos Padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo, porque muitas vezes as tomais pelo que soam, e não pelo que significam, e talvez nem pelo que soam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos de que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem. E então ver cabecear o ouditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplousos. Oh! que bem levantou o pregador! Assim é: mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me. Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas: Novissime venerunt duo falsi testes (Mt. 26,60). Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os judeus destruíssem o Templo, ele o tomaria a reedificar em três dias. Se lermos o evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o Templo dentro de três dias, e isso mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui (Jo. 2,21). Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo, – falava o Senhor do templo místico de seu corpo, o qual os judeus destruíram pela morte, e o Senhor o reedificou pela ressurreição, e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro, e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah! Senhor, quantos falsos testemunhos vos levantam! Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito logo, que as nossas imaginações e as nossas vaidades e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus! Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! Pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus curo sanam doctrinam non sustinebunt (2 Tim. 4,3): Virá tempo, diz S. Paulo, em que os homens não sofrerão a doutrina sã: Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes ouribus: mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais do que adular-lhes as orelhas: A veritate quidem ouditun avertent, ad fabulas outem convertentur: fecharão os ouvidos à verdade e abri-los-ão às fábulas. Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento, e quer dizer comédia, e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são subtilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade: são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia, e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente, era acabarem-se as comédias em Portugal, mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se, passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plouto, de Terêncio, de Sêneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros e muito mais sólidos do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria, por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano e gentio que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes sobre cristão religioso! Pouco disse S. Paulo em lhes chamar comédia, porque muitos sermões há que não são comédia: são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência, e todos, desde o dia em que os professamos, mortalhas) a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio. E quando este se rompeu, que é o que se ouve? Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse, e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajas e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do céu, que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto, e com as ações havia de fazer em pó e em cinza os vícios. Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós, que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afetada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter Cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas. Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia o rei veste como rei e fala como rei, o lacaio veste como lacaio e fala como lacaio, o rústico veste como rústico e fala como rústico, mas um pregador vestir como religioso e falar como... não o quero dizer por reverência ao lugar. Já que o púlpito é teatro e o sermão comédia, sequer não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar, não nos prezamos de seus filhos? Pois por que os não imitamos? Por que não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja, e eu, que tenho o mesmo hábito, por que não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito? X Não fazer caso das zombarias dos ouvintes: a doutrina que eles desestimam, essa é a mais proveitosa; é como o trigo que caiu no caminho. O pregador é o médico: não deve procurar agradar mas curar Diferença entre dois famosos pregadores de Coimbra. Esperança de melhores frutos para a quaresma que se inicia. Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh! boa razão para um servo de Jesus Cristo! Zombem e não gostem embora, e façamos nosso ofício. A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é a mais proveitosa e a que mais hão mister. O trigo que caiu no caminho, comeram-no as aves. Estas aves, como explicou o mesmo Cristo, são os demônios que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens: Venit diabolus et tollit verbum de corde eorum. Pois por que não comeu o diabo o trigo que caiu entre os espinhos, ou o trigo que caiu nas pedras, senão o trigo que caiu no caminho? Porque o trigo que caiu no caminho: Conculcatum est ab hominibus: pisaram-no os homens, e a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam, essa é a de que o diabo se teme. Desses outros conceitos, desses outros pensamentos, dessas outras subtilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme, nem se acoutela o diabo, porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão de tirar as almas das unhas. Mas daquela doutrina que cai: secos viam; daquela doutrina que parece comum: secas viam, daquela doutrina que parece trivial: secas viam, daquela doutrina que parece trilhada: secos viam, daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação (que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam) essa é a de que o demônio se receia e se acoutela; essa é a que procura comer e tirar do mundo. E por isso mesmo, essa é a que deviam pregar os pregadores, e a que deviam buscar os ouvintes. Mas se eles não o fizerem assim, e zombarem de nós, zombemo-nos tanto de suas zombarias como dos seus aplousos. Per infamiam, et bonan famam, diz S. Paulo (2 Cor. 6,8). O pregador há de saber pregar com fama e sem fama. Mais diz o apóstolo: há de pregar com fama e com infâmia. Pregar o pregador para ser afamado, isso é mundo, mas infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama, isso é ser pregador de Jesus Cristo. Pois o gostarem ou não gostaremos ouvintes! Oh! que advertência tão digna! Que médico há que repare no gosto do enfermo quando trata de lhe dar saúde? Sarem, e não gostem; salvem-se, e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas. Quais vos parecem que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho? Explicando Cristo a parábola, diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto: Hi sunt qui cum goudio suscipiunt verbum. Pois será bem que os outros ouvintes gostem, e que no cabo fiquem pedras? Não gostem, e abrandem-se; não gostem, e quebrem-se; não gostem, e frutifiquem. Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra: Et fructum afferunt in patientia, conclui Cristo26. De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme, quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte, quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atônito, sem saber parte de si, então é a pregação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et frucium afferunt in patientia. Enfim, para que os pregadores saibam como hão de pregar, e os ouvintes a quem hão de ouvir, acabo com um exemplo de nosso Reino, e quase de nossos tempos. Fregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos: não os nomeio porque os hei de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador, e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador, quando ouço outro, saio muito descontente de mim. Com isto tenho acabado. Algum dia vos enganastes tanto comigo que saíeis do sermão muito contentes do pregador; agora quisera eu desenganarvos tanto, que saíreis muito descontentes de vós. Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender dos nossos sermões: não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições, e enfim todos os seus pecados. Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós. Si hominibus placerem, Christi servus non essem (Gal. 1, 10), dizia o maior de todos os pregadores, S. Paulo: Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus. – Oh! contentemos a Deus, e acabemos de não fazer caso dos homens! Advirtamos que nesta mesma igreja há tribunas mais altas que as que vemos: Spetaculum facti suminus Deo, angelis et hominibus27. Acima das tribunas dos reis, estão as tribunas dos anjos, está a tribuna e o tribunal de Deus, que nos ouve e nos há de julgar. Que conta há de dar a Deus um pregador no dia do juízo? O ouvinte dirá: não mo disseram; mas o pregador? Vae mihi, quia tacui (Is. 6,5): Ai de mim que não disse o que convinha! – Não seja mais assim por amor de Deus e de nós. Estamos às portas da quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.