Por Machado de Assis (1876)
Este conto de Machado de Assis (1839–1908), publicado originalmente entre dezembro de 1875 e fevereiro de 1876 no Jornal das Famílias, narra as peripécias de Gustavo, um jovem bacharel que, ao perder um singelo mimo — uma fita azul bordada por sua noiva Marianinha —, desencadeia uma busca frenética e cômica que beira o absurdo. Com fina ironia, Machado disseca a vaidade masculina, os jogos de sedução do Segundo Reinado e a importância desproporcional atribuída a detalhes triviais em relacionamentos.
CAPÍTULO PRIMEIRO
Marianinha achou um dia na cesta de costura um pedaço de fita azul. Era naturalmente resto de algum cinto ou coisa que o valha. Lembrou-se de bordar na fita dois nomes: Marianinha e Gustavo.
Gustavo! (interrompe neste ponto o leitor) mas por que Gustavo e não Alfredo, Benedito ou simplesmente Damião?
Por uma razão muito clara e singela, leitor ignaro; porque o namorado de Marianinha não se chamava Alfredo, nem Benedito, nem Damião, mas Gustavo; não Gustavo somente, mas Gustavo da Silveira, rapaz de vinte e sete anos, moreno, cabelo preto, olhos idem, bacharel, aspirante a juiz municipal, tendo sobre todas estas qualidades a de possuir umas oitenta apólices da dívida pública.
Amavam-se estas duas criaturas, se assim se pode dizer de um capricho começado num baile e não sei se destinado a morrer numa corrida. A verdade é que no curto espaço de três meses haviam já trocado cinqüenta cartas, algumas compridas, todas cheias de protestos de amor até à morte. Gustavo dizia-lhe mais de uma vez que ela era o anjo com que ele sonhara durante toda a vida, e ela retribuía-lhe esta fineza dizendo a mesma coisa, mas com estilo diferente, sendo o mais espantoso deste caso que nem ele nem ela haviam sonhado com nenhum anjo. Acrescentarei até que o jovem Gustavo havia já feito a mesma revelação a quatro namoradas, o que diminui a sinceridade da que fazia agora à quinta. Excluídas porém estas e outras flores de retórica, a verdade é que eles pareciam gostar um do outro, e se quiserem saber mais alguma coisa leiam a novela para diante.
Lembrou-se a Marianinha de bordar o nome do namorado e o seu no pedaço de fita azul; bordou-os com linha de seda branca, e com tanta perfeição o fez, que teve vontade de ir mostrar o trabalho à avó. A idéia porém de que a Sr.ª D. Leonarda lhe passaria uma áspera repreensão a demoveu do intento e a obra ficou inédita até passar às mãos do jovem Gustavo.
Não pense a leitora que a Sr.ª D. Leonarda ignorasse absolutamente o namoro da neta. Oh! não! A Sr.ª Leonarda, além de ser excelente doceira, tinha o olho mais perspicaz deste mundo. Percebeu o namoro e calou-se a ver (dizia ela) em que paravam as modas. Já estava de longa data acostumada a estes romances da neta, e só lastimava não ver o capítulo do fim.
“A culpa é dela, pensava a Sr.ª D. Leonarda. Quem há de querer casar com uma estouvada daquele gênero, que ainda bem não acabou um namoro, já começa outro?”
Indiretamente fazia-lhe sentir esta censura toda íntima, dizendo-lhe às vezes:
— O Major Alvarenga (era o defunto esposo da Sr.ª D. Leonarda) foi o primeiro e último namoro. Vi-o num dia de entrudo; casamo-nos logo depois da Páscoa. Hoje, as moças gostam de andar de namoro em namoro, sem acabar de escolher um. Por isso muitas ficam para tias.
Ora, é de notar que o bacharel Gustavo caíra-lhe em graça, e que de todos os namorados de Marianinha era este o que mais adequado lhe parecia. Não aprovaria certamente a idéia da fita bordada com os dois nomes, porque a Sr.ª D. Leonarda tinha como teoria que uma moça apenas deve olhar para o namorado; escrever-lhe era já atrevimento, e (usemos os seus próprios termos) e profunda imoralidade. Mas desejava e muito que aquele casamento se fizesse, porque, mais que nenhum outro, o genro lhe parecia de feição. Com um pouco mais de ardor da parte dos dois namorados, estou certo de que nem escreveria estas páginas; tinham casado, estavam com filhos, vivendo em paz. Não precipitemos entretanto os acontecimentos, esperemos ao segundo capítulo.
CAPÍTULO II
Gustavo foi à casa de D. Leonarda na quinta-feira seguinte, isto é, dois dias depois do dia em que Marianinha acabava de bordar os dois nomes na fita azul.
— Tenho uma coisa para lhe dar, disse a moça.
— Ah! O que é?
— Adivinhe.
— Não posso adivinhar.
— Adivinhe.
— Um par de botões?
— Não.
— Uma flor?
— Não.
— Uma charuteira?
— Não.
— Não posso... Ora, espere... Será?... não... não é.
— Não é o quê?
— Um lenço de assoar.
— Ora! respondeu Marianinha encolhendo os ombros.
E tirou do bolso a fita azul com os dois nomes bordados.
— Bonito! exclamou Gustavo.
— É uma lembrança para se não esquecer de mim.
— Oh! querida! pois eu hei de nunca esquecer-me de você. Não é você o anjo... Aqui entrava a qüinquagésima edição do sonho que ele não tivera nunca.
Gustavo disfarçadamente beijou a fita azul e guardou-a no bolso, de maneira que o não visse a Sr.ª D. Leonarda.
Marianinha ficou muito contente com o bom agasalho que tivera a sua lembrança não menos que com o elogio da obra, tão certo é que o amor não dispensa a vaidade, antes esta é muita vez complemento daquele.
— Que lhe darei eu para que se não esqueça de mim? disse Gustavo daí a pouco, em ocasião em que pôde murmurar-lhe estas palavras.
— Nada, disse a moça sorrindo.
— Ama-me então como sempre? perguntou ele.
— Como sempre!
Todo o resto do diálogo foi assim por este gosto, como naturalmente o leitor e a leitora compreendem, se é que já não passaram pelo mesmo como eu sou capaz de jurar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. História de uma fita azul. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, dez. 1875 a fev. 1876.