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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma noite

Por Machado de Assis (1870)

Escrita em versos por Machado de Assis (1839–1908), esta comédia dramática de inspiração clássica ambientada na ilha de Samos explora o embate entre o idealismo romântico e o pragmatismo materialista. Na trama, o poeta Cléon e o abastado Lísias disputam o amor da cortesã Mirto, que acaba por preferir as riquezas palpáveis à lírica sublime de uma ode de Anacreonte. Com fina ironia, o autor antecipa o cinismo refinado de sua fase realista, oferecendo uma leitura ágil e envolvente.

(A Manuel de Melo)

PERSONAGENS

LÍSIAS

CLÉON

MIRTO

TRÊS ESCRAVOS

A cena é em Samos.

(Sala de festim em casa de Lísias. À esquerda a mesa do festim; à direita uma mesa tendo em cima uma lâmpada apagada, e junto da lâmpada um rolo de papiro.)

Cena I

LÍSIAS, CLÉON, MIRTO

(Estão no fim de um banquete, os dois homens deitados à maneira antiga, Mirto sentada entre os dois leitos. Três escravos.)

LÍSIAS

Melancólica estás, bela Mirto. Bebamos!

Aos prazeres!

CLÉON

Eu bebo à memória de Samos.

Samos vai terminar os seus dourados dias;

Adeus, terra em que achei consolo às agonias

Da minha mocidade; adeus, Samos, adeus!

MIRTO

Querem-lhe os deuses mal?

CLÉON

Não; dois olhos, os teus.

LÍSIAS

Bravo, Cléon!

MIRTO

Poeta! os meus olhos?

CLÉON

São lumes

Capazes de abrasar até os próprios numes. Samos é nova Tróia, e tu és outra Helena. Quando Lesbos, a mãe de Safo, a ilha amena, Não vir a bela Mirto, a alegre cortesã, Armar-se-á contra nós.

LÍSIAS

Lesbos é boa irmã.

MIRTO

Outras belezas tem, dignas da loura Vênus.

CLÉON

Menos dignas que tu.

MIRTO

Mais do que eu.

LÍSIAS

Muito menos.

CLÉON

Tens vergonha de ser formosa e festejada, Mirto? Vênus não quer beleza envergonhada. Pois que dos imortais houveste esse condão De inspirar quantos vês, inspira-os, Mirto.

MIRTO

Não.

São teus olhos, poeta; eu não tenho a beleza Que arrasta corações.

CLÉON

Divina singeleza!

LÍSIAS

(à parte)

Vejo através do manto as galas da vaidade. (alto)

Vinho, escravo!

(o escravo deita vinho na laça de Lísias) Poeta, um brinde à mocidade.

Trava da lira e invoca o deus inspirador.

CLÉON

"Feliz quem, junto a ti, ouve a tua fala, amor!"

MIRTO

Versos de Safo!

CLÉON

Sim.

LÍSIAS

Vês? é modéstia pura.

Ele é na poesia o que és na formosura. Faz versos de primor e esconde-os ao profano; Tem vergonha. Eu não sei se o vício é lesbiano...

MIRTO

Ah! tu és...

CLÉON

Lesbos foi minha pátria também.

Lesbos, a flor do Egeu.

MIRTO

Já não é?

CLÉON

Lesbos tem

Tudo o que me fascina e tudo o que me mata: As festas do prazer e os olhos de uma ingrata. Fugi da pátria e achei, já curado e tranqüilo, Em Lísias um irmão, em Samos um asilo. Bem hajas tu que vens encher-me o coração!

LÍSIAS

Insaciável! Não tens em Lísias um irmão?

MIRTO

Volto à pátria.

CLÉON

Pois quê! tu vais?

MIRTO

Em poucos dias...

LÍSIAS

Fazes mal; tens aqui os moços e as folias, O gozo, a adoração; que te falta?

MIRTO

Os meus ares.

CLÉON

A que vieste então?

MIRTO

Sucessos singulares.

Vim por acompanhar Lísicles, mercador De Naxos; tanto pode a constância no amor! Corremos todo o Egeu e a costa iônia; fomos

Comprar o vinho a Creta e a Tênedos os pomos. Ah! como é doce o amor na solidão das águas! Tem-se vida melhor; esquecem-se-lhes as mágoas. Zéfiro ouviu por certo os ósculos febris, Os júbilos do afeto, as falas juvenis;

Ouviu-os, delatou ao deus que o mar governa A indiscreta ventura, a efusão doce e terna. Para a fúria acalmar da sombria deidade, Nave e bens varreu tudo a horrível tempestade. Foi assim que eu perdi a Lísicles, assim Que eu semimorta e fria à tua plaga vim.

CLÉON

O coitada!

LÍSIAS

O infortúnio os ânimos apura;

As feridas que faz o mesmo Amor as cura; Brandem armas iguais Aquiles e Cupido. Queres ver noutro amor o teu amor perdido? Samos o tem de sobra.

CLÉON

Eu, Mirto, eu sei amar;

Não fio o coração da inconstância do mar. Não tenho galeões rompendo o seio a Tétis, Estrada tanta vez ao torvo e obscuro Letes. Aqui me tens; sou teu; escreve a minha sorte; Podes doar-me a vida ou decretar-me a morte.

MIRTO

Mas, se eu volto...

CLÉON

Pois bem! aonde quer que te vás

Irei contigo; a deusa indômita e falaz

Ser-me-á hóspede amiga; ao pé de ti a escura Noite parece aurora, e é berço a sepultura.

MIRTO

Quando fala o dever, a vontade obedece; Eu devo ir só; tu fica, ama-me um pouco e esquece.

LÍSIAS

Tens razão, bela Mirto; escuta o teu dever.

CLÉON

Ai! é fácil amar, difícil esquecer.

LÍSIAS

(a Mirto)

Queres pôr termo à festa? Um brinde a Vênus, filha Do mar azul, beleza, encanto, maravilha; Nascida para ser perpetuamente amada.

A Vênus!

(Depois do brinde os escravos trazem os vasos com água perfumada em que os convivas lavam as mãos; os escravos saem levando os restos do banquete. Levantam-se todos.)

Queres tu, mimosa naufragada,

Ouvir de hemônia serva, em lira de marfim,

Uma alegre canção? Preferes o jardim?

O pórtico talvez?

MIRTO

Lísias, sou indiscreta;

Quisera antes ouvir a voz do teu poeta.

LISIAS

Nume não pede, impõe.

CLÉON

O mando é lisonjeiro.

LÍSIAS

Pois começa.

Cena II

Os mesmos, um ESCRAVO

ESCRAVO

Procura a Mirto um mensageiro.

MIRTO

Um mensageiro! a mim!

LÍSIAS

Manda-o entrar.

ESCRAVO

Não quer.

LÍSIAS

Vai, Mirto.

MIRTO

(saindo)

Volto já.

(sai o escravo)

Cena III

LÍSIAS, CLÉON

CLÉON

(olhando para o lugar onde Mirto saiu)

Oh! deuses! que mulher!

LÍSIAS

Ah! que pérola rara!

CLÉON

Onde a encontraste?

LÍSIAS

Achei-a

Com Partênis que dava uma esplêndida ceia; Partênis, ex-bonita, ex-jovem, ex-da-moda, Sabes que Vê fugir-lhe a enfastiada roda; E, para não perder o grupo adorador,

Fez do templo deserto uma escola de amor. Foi ela quem achou a náufraga perdida,

(continua...)

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