Por Machado de Assis (1872)
Uma jovem vaidosa e cortejada desafia as expectativas familiares e as convenções sociais ao manipular habilmente as atenções de múltiplos pretendentes em uma trama de falsas aparências e artimanhas amorosas. Com fina ironia e sátira aos costumes da burguesia fluminense do século XIX, Machado de Assis (1839–1908) constrói um divertido retrato sobre a dissimulação. O desfecho surpreendente subverte o papel tradicional reservado às heroínas românticas da época, servindo como um convite irônico e provocador à leitura.
I
Havia grande agitação em casa do comendador Nunes, em certa noite de abril de 1860. Não era comendador o sr. Nicolau Nunes, era apenas oficial da Ordem da Rosa, mas todos lhe davam o título de comendador, e o sr. Nunes não resistia a esta deliciosa falsificação. A princípio reclamou sorrindo contra a liberdade dos amigos, que desta maneira emendaram a parcimônia do governo. Mas os amigos insistiam no tratamento, e até hoje ainda se não descobriu o meio de recusarmos uma coisa que desejamos do fundo d’alma ser comendador, e quando falou ao seu compadre, o conselheiro F., foi com a mira na comenda. O conselheiro empenhou-se com o ministro, e este apenas consentiu em dar o hábito ao sr. Nunes. Graças aos empenhos, pôde o candidato obter o oficialato. Era ele um homem de 45 anos, um tanto calvo, bem apessoado, nariz não vulgar, se atendermos no tamanho, mas vulgaríssimo se lhe estudarmos a expressão. O nariz é um livro, até hoje pouco estudado pelos romancistas, que aliás se presumem grandes analistas da pessoa humana. Eu, quando vejo alguém pela primeira vez, não lhe estudo a boca nem os olhos, nem as mãos; estudo-lhe o nariz. Mostra-me o nariz, e eu direi quem és.
O nariz do comendador Nunes era a coisa mais vulgar deste mundo; não exprimia coisa nenhuma de jeito, nem de elevação. Era um promontório, nada mais. E, todavia, o comendador Nunes tirava grande vaidade do nariz, por lhe haver dito um sobrinho que era nariz romano. Havia, é verdade, uma corcova no meio da extensa linha nasal do comendador Nunes, e naturalmente foi por zombaria que o sobrinho chamou àquilo romano. A corcova era um acervo de protuberâncias irregulares e impossíveis. Em suma, podia-se dizer que a cara do comendador Nunes era composta de dois Estados divididos por uma cordilheira extensa.
Fora destas circunstâncias nasais, nada havia que dizer da pessoa do comendador Nunes. Era boa figura e boa alma.
Dizer quais eram os seus meios de vida, e o seu passado, importa pouco para a nossa história. Basta dizer que se quisesse deixar de trabalhar, já tinha que comer, e deixar aos filhos, e à esposa.
A esposa do comendador Nunes era uma rechonchuda senhora de 46 anos, relativamente fresca, pouco amiga de brilhar fora de casa, e toda dada aos cuidados do governo doméstico. O seu casamento com o comendador Nunes foi feito contra a vontade do pai, pela razão de que, nesse tempo, Nunes não tinha vintém. Mas o pai era boa alma, e apenas soube que o genro ia fazendo fortuna, fez as pazes com a filha. Morreu nos braços de ambos.
Amaram-se muito os dois esposos, e os frutos desse amor foram nada menos de dez filhos, dos quais apenas escaparam três, Luísa, Nicolau e Pedrinho. Nicolau tinha 20 anos, Pedrinho 7, e apesar desta notável diferença de idade não se pode dizer quem tinha mais juízo, se Pedrinho, se Nicolau.
Desejoso de o ver em boa posição literária, Nunes mandara o filho passar alguns anos na Academia de São Paulo, e realmente ele os passou ali, até obter uma carta de bacharel. O diploma dado ao jovem Nicolau podia fazer crer que ele de fato sabia alguma coisa; mas era completa ilusão. Nicolau saiu sabendo pouco mais ou menos o que sabia antes de lá entrar.
Em compensação, ninguém era mais versado no esticado das luvas, no talhado da casaca, no apertado da bota, e outras coisas assim, em que Nicolau era mais que bacharel, era doutor de borla e capelo.
Luísa tinha 18 anos, e podia-se dizer que era a flor da família. Baixinha e delgada, um tanto pálida e morena, Luísa inspirava facilmente simpatia, e mais do que simpatia a quem a visse pela primeira vez. Vestia bem, mas aborrecia o luxo. Tocava piano, mas aborrecia a música. Alguns caprichos tinha que, à primeira vista, poderiam desagradar à gente, mas, bem pesadas as coisas, as suas qualidades venciam os caprichos; o que era uma grande compensação.
D. Feliciana tinha na filha todas as suas esperanças de imortalidade. Dizia ela que a sua ascendência era uma linha não interrompida de donas-de-casa. Queria que a filha fosse uma digna descendente de tão preclaro sangue, e continuasse a tradição que recebera. Luísa dava esperança disso.
Tal era a família Nunes.
II
Como ia dizendo, grande era a agitação em casa do comendador Nunes em certa noite de abril de 1860.
A causa desta agitação era nada menos que a apresentação de um rapaz, recentemente chegado do Norte, parente remoto dos Nunes e indigitado noivo da menina Luísa. Chamava-se Alberto o rapaz, e tinha seus 27 anos feitos. A natureza o dotara de uma excelente figura e de um bom coração. Não escrevi à toa estes qualificativos; o coração de Alberto era bom, mas a figura era muito melhor.
O pai do candidato escrevera dois meses antes ao comendador Nunes uma carta em que lhe anunciava a vinda do filho, aludia às conversas que tiveram ambos os velhos acerca do enlace matrimonial dos pequenos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma loureira. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 10, n. 4, p. 110-128, abr. 1872.