Por Machado de Assis (1886)
Machado de Assis (1839–1908), mestre do realismo, publicou Pobre cardeal! em 1886, na Gazeta de Notícias, no Rio de Janeiro. O conto explora, com ironia, a influência das aparências e da memória na justiça, revelando como simpatias pessoais podem interferir no julgamento moral e social.
Martins Netto costumava dizer que era o homem mais alegre do século, e toda a gente confirmava essa opinião. Ninguém lhe vira nunca nenhuma sombra de melancolia. Já maduro, era ainda o melhor acepipe dos jantares, um repositório de ditos picantes, anedotas joviais, repentes crespos e crus; mas, além disso, que é a despesa exterior da alegria, ele a tinha em si mesmo, no sangue e na vida. Pouco antes de morrer, em 1878, dizia ele a um amigo íntimo, que lhe invejava o temperamento:
— Sou alegre, muito alegre; mas se disser a você que a isto mesmo devo uma grande amargura...
Calou-se, deu duas voltas, e tornou ao amigo:
— Vou contar-lhe uma coisa secreta, como se me confessasse a um padre. Sabe que fui um dos julgadores do famoso processo de letras falsas João da Cruz, em 1851. Houve nessa sessão do júri muitas causas importantes, que eu julguei com a inflexibilidade do costume, e condenei muita gente, do que me não arrependo.
Na véspera de entrar o processo do João da Cruz, estive com um tal capitão José Leandro, que morava na Rua da Carioca; falamos do processo, das letras, de mil circunstâncias, que me esqueceram, e, finalmente, do próprio João da Cruz, que o capitão José Leandro dizia conhecer desde menino. O pai deste capitão foi um general português, que veio com o rei em 1803, e aqui casou pouco depois com uma senhora de Cantagalo. José Leandro era menino quando João da Cruz apareceu em casa dele, na Rua de Mata cavalos; lembrava-se que ele os festejava e adulava muito; lembrava-se também que ali pelos fins de 1816 andava João da Cruz muito por baixo, beirando a miséria, roupa de ano, amarela de uso, mal remendada...
E então, para mostrar-me que o João Da Cruz nascera com o gênio da fraude e da duplicidade, contou-me que um dia, em 1817, estando ele e a mãe em casa, apareceu ele ali angustiado, desvairado, bradando:
— Pobre cardeal! pobre cardeal! Ah! minha senhora D. Luísa, que grande desgraça! pobre cardeal!
D. Luísa levantou-se assustada, e perguntou-lhe o que era, se falava do general...
— Não, acudiu João da Cruz, não é nada com o digno marido de V. Excia.; falo do cardeal! pobre cardeal!
— Mas que cardeal?
João da Cruz tinha-se sentado, suspirando grosso, esfregando os olhos com um trapo de lenço. A dona da casa respeitou-lhe a dor, que parecia tão profunda e deixou-se estar de pé, esperando. Mas não tardou que ouvissem no saguão da casa um rumor de espada; era o general que entrava. Daí a pouco estava ele à porta da saleta, e dizia à mulher, que acabara de morrer o núncio, cardeal Caleppi; morrera de um ataque apoplético.
D. Luísa olhou espantada para ele e para João da Cruz. Foi só então que o general o viu, a alguma distancia, de pé, cheio de respeito e melancolia.
— V. Excia. já sabe então da triste notícia? Morreu um santo homem, santo e magnífico, sem desfazer nas pessoas que me ouvem; ah! um varão digno do céu!
— Entrou aqui, disse D. Luísa, há poucos instantes, fora de si com a morte do cardeal... Eu nem me lembrava que cardeal podia ser. Se ele tivesse dito que morreu o núncio...
— É verdade que entrei fora de mim; a tal ponto, que pratiquei a grosseria de sentar-me diante de V. Excia., estando V. Excia. de pé; mas a dor desvaira. Acabavam de dar-me a notícia, ali ao pé da Lagoa da Sentinela, e fiquei como não podem imaginar; fiquei tonto, entrei aqui tonto.
O general sentou-se espantado; disse ao João da Cruz que se sentasse também, e perguntou-lhe desde quando conhecia o cardeal, e se era assim tão amigo dele. João da Cruz não respondeu logo verbalmente; fez primeiro um gesto de afirmação e saudade; depois levou o trapo aos olhos. Dona Luísa, sentada ao lado do marido, olhava compassivamente para o pobre homem. Este, afinal, confessou que era amigo do grande prelado, por benefícios que recebera dele em Lisboa. Aqui não o procurou senão duas vezes: logo que chegou, em 1814, e quando uma vez Sua Eminência estivera doente. Se nunca falou disso ao honrado general, foi porque as humilhações por que passou e lhe trouxeram o conhecimento e o trato do cardeal (que Deus tinha!) foram amargas e dolorosas.
— Bem, mas agora...
— Agora direi tudo, se V. Excia. assim o ordena.
E depois de limpar os olhos vermelhos:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Pobre cardeal!. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 1886.