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#Contos#Literatura Brasileira

Onda

Por Machado de Assis (1867)

Machado de Assis (1839–1908), maior nome do Realismo no Brasil, publicou “Onda” no Jornal das Famílias em 1867, no Rio de Janeiro. O conto retrata, com ironia, a volubilidade amorosa e o jogo de aparências nos salões da elite, expondo vaidade, sedução e interesse nas relações afetivas, em uma crítica sutil aos costumes sociais do século XIX.

Na pia chamara-se Aurora; Onda era o nome que lhe deram nos salões. Por quê? A culpa era dela e de Shakespeare; dela, que o mereceu ; de Shakespeare, que o aplicou à instabilidade dos corações femininos.

Tinha um coração capaz de abrigar seiscentos cavaleiros em dia de temporal, e até sem temporal. Batessem-lhe à porta, que a hospitaleira castelã abria sem maior indagação. Dava ao peregrino água para os pés, pão alvo e vinho puro para o estômago, leito macio e aquecido para o corpo. Mas, depois disto, fechava-se muito bem fechada em sua alcova, e, rezando a Deus pela paz dos viajantes alojados, dormia tranqüila em seu leito solitário.

De tais facilidades em dar asilo a uns, mesmo quando outros ainda estavam sob o teto hospitaleiro, é que lhe nasceu a denominação que serve de título a estas páginas. Pérfida como a onda, disse um dia um dos enganados, vendo-a passar em um carro e indo parar à porta do Wallerstein.

O nome pegou.

Ora, vejamos, em minha imparcialidade de historiador, se esta denominação lhe quadrava.

Coitadinha! não precisava muito tempo para ler-lhe nos olhos, adivinhar-lhe os gestos, traduzir-lhe nos sorrisos, a vivacidade, a dissimulação, a afabilidade que constituem o tipo da moça namoradeira.

Via-se que ela conhecia a fundo esta arte de atrair e prender os corações e as vontades com um simples volver de olhos, um simples meneio de leque.

Dera-lhe Deus uma beleza que era a sua base de operações. Não é que a beleza seja absolutamente necessária. Sei de alguém que reconheceu uma mulher cujas feições examinadas, uma por uma, não tinham traço algum de beleza; mas que sabia mover uns olhos que Deus lhe deu e de que ela, seja dito em honra da verdade, fazia um mau uso. Tão mau, que este alguém em questão, depois de se apaixonar por eles, achou-se um dia sem coração e sem futuro...

Se era assim com aquela, o que não seria com esta, que, além de um par de olhos vivíssimos, formosíssimos, eloqüentíssimos, possuía as verdadeiras formas de beleza feminina?

Onda sabia que tinha os olhos bonitos: volvia-os a cada momento; sabia que possuía mãos de princesa : concertava os cabelos de minuto a minuto ; sabia que possuía uns dentes e uma boca divinos: sorria a propósito de cada coisa; sabia que os seus pés eram dos mais perfeitos: procurava não sujar o vestido quando descia do carro.

De modo que, amigos ou estranhos, pobres ou ricos, poetas ou prosas, velhos ou moços, todas as criaturas que pertenciam ao sexo do autor e do leitor destas linhas, ficavam fascinados, presos, apaixonados.

Ela cuidava extremamente de pôr em relevo a sua beleza mediante os inventos da arte. Era assinante dos melhores jornais de modas e freguesa das melhores casas de novidades elegantes. Distinga-se porém: a minha heroína era casquilha para ser namoradeira, o que é alguma coisa diferente da casquilha por casquilhice. Se me é lícito aplicar uma fórmula séria, direi que há entre as duas espécies a diferença que vai do princípio de arte pela arte ao princípio de arte pela moral.

Onda sabia que o espírito do homem deixa-se prender facilmente pelos atrativos artificiais juntos aos atrativos naturais, e não deixava de aumentar pela cifra da elegância a unidade da beleza com que a natureza a dotara.

Acrescente-se a isto, que Onda possuía um gosto apuradíssimo. Mesmo na escolha dos mais simples trajares revelava-se nela a discrição, o acerto, a boa mão, para usar de uma expressão popular.

Ora, não se resiste facilmente a quem reúne tantos predicados; e se a simples presença bastava para prender, o que não era quando aquela boca se abria, como uma taça de mel do Himeto, e destilava, não digo palavras, gotas de pura ambrosia do céu? Assim que, naquelas guerras de amor, a presença era o primeiro ataque, a palavra a batalha campal. Ninguém saía delas são e salvo; saía-se ferido, e, o que é mais, sem esperanças de chegar a coronel. O tempo dava alguma confiança aos que se enamoravam dela em virtude de uma reflexão que lhes parecia justa; e era que nem toda a vida Onda faria de sua beleza uma simples rede para passatempo. Esta esperança fortificava as coragens e inspirava as constâncias. O próprio tempo os ia desenganando até a hora em que se deu o episódio que vou narrar em poucas palavras. No momento em que Onda, completando vinte e cinco anos, pareceu chegar à idade razoável de passar do capricho ao amor sério e digno, apareceu na intimidade da família desta misteriosa donzela um rapaz, que meses antes chegara de uma longa viagem à Europa à custa de um tio desembargador.

Antes de pisar o reino da nova Diana já Ernesto (é o nome do herói) sabia com quem ia lidar. Meia dúzia de logrados tiveram cuidado de instruí-lo da alcunha e das qualidades da moça.

Ernesto, depois de ouvir as narrações e as imprecações de todos, puxou uma fumaça, e brandindo um chicotinho de junco, olhou para os seis e disse-lhes:

- Não quero argüí-los de fraqueza ou inépcia ; mas façamos uma aposta: o que perdem se eu conseguir domar essa gentil pantera?

(continua...)

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