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#Contos#Literatura Brasileira

Onze anos depois

Por Machado de Assis (1875)

Machado de Assis (1839–1908), expoente do Realismo brasileiro, publicou “Onze anos depois” no Jornal das Famílias, no Rio de Janeiro, em 1875. O conto explora reencontros, memória e traição, ao narrar o conflito entre amizade e desejo amoroso. Com ironia e análise psicológica, o autor revela as ambiguidades morais e a fragilidade dos sentimentos humanos.

I

— Alves!

— Moreira!

Soltados estes dois gritos, os dois indivíduos, a quem pertenciam aqueles nomes, trocaram um formidável abraço, com palmadas nas costas, a despeito de se passar a cena na Rua do Ouvidor, às duas horas da tarde. Abraçados e palmejados os dois amigos (eram evidentemente amigos) tornaram a exclamar:

— Ora o Alves!

— Ora o Moreira!

— Há dez anos... Dez ou onze? Onze, creio eu, onze anos que nos não víamos... Foi em 1860 que eu saí daqui... e fui...

— Gozar a vida, maganão!

— Oh! um pouco! disse Moreira suspirando... Posso dizer que nada.

— Impossível!

— É a pura verdade. Alguma coisa me diverti, é certo; nem é possível que um homem, a não ser um misantropo, deixe de se divertir na Europa... Mas se soubesses a causa que me levou daqui...

— Que foi?

— Saberás depois. Por agora, dize-me: estás casado?

— Há cinco anos.

— Tens algum filho?

— Não.

— Livre! livre, e não foste ainda à Europa.

— Ainda não posso, mas não estou longe disso. Sabes que um advogado, que não herdou bens de fortuna, precisa primeiro acumular algum cabedalzinho; trato disso agora... Que calor! Anda tomar alguma coisa...

— Conversar apenas contigo, respondeu Moreira dando o braço ao amigo e dirigindo-se com ele para a casa do Carceller.

Ambos eles iam contentes e palreiros. Regulavam pela mesma idade, trinta a trinta e três anos; eram igualmente magros, não muito, e quase de igual altura. Moreira vestia mais apuradamente que Alves, trazia certo cunho parisiense, que de todo faltava ao amigo. Moreira nada tomou no Carceller enquanto Alves sorvia deliciosamente um sorvete de ananás. Veio cada um deles com a história daqueles anos em que se não tinham visto. Alves tinha menos que contar; o principal assunto foi o casamento, que se passou de uma maneira singular, porque não precedeu nenhum namoro entre ele e a mulher. A mulher era uma moça, assaz bonita, que vivia retiradamente, com a mãe, e parecia ter jurado não comungar nunca nos altares do matrimônio. Alves freqüentava a casa, como advogado da mãe, num processo em que um sujeito possuidor de quinhentos contos queria tirar-lhe uma casa que valia vinte, e a que ele tinha tanto direito como o grão-turco. Alves venceu o processo, e não foi esse o único triunfo obtido, porque a mãe, no dia em que ele lhe foi levar a notícia da sentença final, chamou-o de parte e disparou-lhe estas palavras:

— Doutor, se os laços da família nos ligarem, como já nos ligam os do coração... Alves recuou. D. Mariana olhava para ele como quem esperava uma resposta; o advogado não teve remédio senão dizer alguma coisa.

— Minha senhora, murmurou ele, eu não teria dúvida nenhuma em corresponder ao que me propõe se o meu coração já não estivesse ligado a outra pessoa... D. Mariana suspirou.

— Bem sabe que estas coisas, continuou Alves, exigem como condição indispensável o concurso do coração.

Parou, cobrou ânimo e prosseguiu:

— No entanto, o seu afeto podia fazer muito em meu favor; e se eu não posso ter a honra de ser seu marido...

Aqui as sobrancelhas de D. Mariana descreveram a figura de dois acentos circunflexos, a boca assumiu a forma de um O, e o dr. Alves, pasmado daquele pasmo, deu à sua fisionomia um ar de ponto de interrogação.

Deste ponto de interrogação passou a um ponto de admiração, quando D. Mariana lhe explicou que não era para ela que propunha o casamento, mas para sua filha, pois notara que o advogado alguma simpatia lhe votava, e ela por outro lado desejava vê-la feliz. O dr. Alves respirou e confirmou a simpatia a que aludira a sra. D. Mariana, acrescentando que a maior fortuna da sua vida seria desposar a formosa D. Eulália.

— Nem está longe disso, respondeu a mãe.

— Deveras?

— Parece-me que sim.

A boa velha calou-se alguns instantes, abriu as asas a um suspiro, que naturalmente ficou vagabundando no ar, e a despeito da cabeleira postiça que trazia e da tosse que a mortificava, fez ao futuro genro estas revelações:

— Fez mal em atribuir-me um pensamento que não tive; eu não me propunha a casar, nem me casarei jamais, enquanto me restar memória do meu prezado Tibúrcio, que está no céu. Propostas tive, decerto, e mais de uma, e não há muitos meses, mas uma viúva de quarenta anos não deve casar (ela tinha cinqüenta e oito). De que me serviria agora unir os meus dias a um mancebo? Cedo envelheceria e ele aí ficava na força da idade a pagar com desprezos o amor que eu lhe tivesse...

O dr. Alves lembrava-se apenas deste resumo do discurso que lhe fizera D. Mariana, o qual não durou menos de dezoito minutos. A razão era clara; todo ele era agora Eulália; amava a moça em segredo, e nunca chegara a declarar-se por ver que ela se mostrava fria com ele. Seu propósito era, apenas acabasse o processo, não freqüentar mais a casa; imagina-se facilmente o alvoroço com que ele ouviu a proposta de D. Mariana no momento em que todas as suas mal nascidas esperanças haviam morrido em botão.

Dois dias depois, a boa velha deu parte ao dr. Alves de que Eulália estava disposta a casar com ele.

(continua...)

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