Por Machado de Assis (1867)
Machado de Assis (1839–1908), expoente do Realismo brasileiro, publicou “O Último dia de um poeta” no Jornal das Famílias em 1867. O conto aborda a morte, a desilusão amorosa e o conflito entre ideal e realidade, acompanhando as reflexões de um jovem poeta enfermo. Entre memória, dor e redenção, o texto convida à reflexão sobre amor, ilusão e amadurecimento.
I
São nove horas da manhã.
Entra-me o sol vivo e ardente pelas frestas das venezianas. Parece que me convida a deixar o leito, e como que a reviver. Reviver! é esta a palavra: reviver quando estou certo de que poucos dias ou apenas horas me separam da sepultura. Não parece um escárnio da morte? Não parece que para melhor sentir o que vou perder, deixando a vida, quer a morte que eu toque pela última vez os tesouros da felicidade que me ficam na terra? Melhor fora, decerto, para minha perfeita contrição, que a natureza me surgisse nos últimos dias com o seu aspecto mais sombrio e aflitivo. Então cuidaria, ao sair do mundo, que deixava um pesadelo e uma angústia, e que ia respirar os ares puros de uma vida sem igual.
Depois...
II
Abramos a janela.
Oh! como está bonito o dia! O céu azul, o sol afogueado, a folhagem palpitando de alegria agita-se ao sopro de um vento plácido e suave. Estas trepadeiras enchem-me o quarto de perfume; lá vejo o tanque calmo e límpido em que eu me banhava em pequeno. É o mesmo ainda. As paredes de pedra têm um aspecto mais venerável, mas tudo isso, aquela murta que o rodeia, aquelas roseiras que ali brotam e enfloram sem cuidado de ninguém, tudo isso me lembra o tempo de minha meninice.
Mais longe vejo a mangueira grande, onde eu passava as tardes, abraçado ao balanço rústico que meus irmãos impeliam no meio da gritaria geral.
A verdura, a água, a árvore, a flor, tudo me lembra a dita do tempo em que sem cuidados nem remorsos eu só cuidava em ser feliz e amar os meus.
Onde foi agora esse tempo? Passou como passaram as folhas de todos estes arbustos; mas os arbustos, se perderam umas ganharam outras, e nem houve, neste abençoado clima, espaço algum entre a queda das primeiras e o abrir das últimas. Só em mim, ilusões e esperanças que me caíram uma vez, não me renasceram mais, e eu fiquei, como tronco árido e seco, chorando o que fui, chorando o que sou, chorando o que hei de ser.
Mas o que dói é esta alegria universal, esta placidez com que a natureza vem assistir à minha morte, garrida e alegre como se fora um espetáculo. Ó mãe cruel, que não honras a morte de teus filhos com uma lágrima de dor e um suspiro de mágoa... Parece que te apraz criá-los para matá-los, produzi-los com uma ilusão, absorvê-los com um desengano, verdadeira condenação dos que não aguardavam esse desengano e acreditaram nessa ilusão...
Também eu te mereci esta ironia? também. Que outro absorveu mais essa ilusão do que eu? Que outro sorriu mais à idéia do desengano do que eu? Tens direito, ó natureza, a vestires hoje as tuas melhores galas para assistir, não a morte da alma, essa já morreu, mas a do corpo, que se vai finar miseravelmente como um inseto pisado pela dama distraída!
III
Sinto-me fraco.
Vou sentar-me.
Esta cadeira alta, forrada de couro, molde antigo, foi de meu finado avô. Feliz homem que pôde chegar à mais avançada idade e só morrer quando o mundo lhe começava a ser pesado. Todas as glórias da vida, gozou-as na plena liberdade de um espírito que se não acovardava e de um coração que não sentia o espinho da desilusão. Essa impavidez serviu-lhe de amparo; com essa segurança inteira é que atravessou os anos, sem nada deixar do que levava, porque também levava muito pouca coisa.
Tenho defronte de mim um espelho. Vejo ali refletida metade do corpo; tenho vontade de ir ver o resto. Que feições apresentarei hoje? Serão as mesmas quebradas e mortais de ontem? Serão as mesmas animadas e vivas de há três dias? Uma ou outra coisa, que importa isso? O espinho da morte sinto eu dentro de mim agudo, dilacerante, mortal... Que valem as feições? Esperanças ou terrores para o moribundo, sintomas ou provas para a ciência. Nada mais.
Sinto passos. Abre-se a porta. É minha mãe!
IV
— Ah! minha mãe!
— Que tens? Estás melhor?
— Não sei. Talvez que sim.
— Deixa dar-te um beijo; estás muito melhor... Olha-te ao espelho.
O espelho responde-me como minha mãe. Estou muito melhor; minhas feições são outras. Como que renasço. Principalmente esta visita de minha mãe é que me dá vida... Oh! se eu morresse longe dela! tudo se altera, tudo se corrompe, tudo se desnatura, mas o amor daqueles que nos deram o ser, esse nunca; é o amor por excelência: o amor que preside ao berço, vela na infância, ama na mocidade e consola nas desilusões como estas em que me vou do mundo.
Tudo se alegrou à entrada de minha mãe. Coitada! tem os olhos vermelhos de chorar: foi por mim. Lágrimas sinceras as que ela derramou! Nestas creio. Saltam espontâneas dos olhos quando o coração já se acha demasiado cheio; e só corações tais se podem encher desse modo.
Como ela me olha! Parece que procura adivinhar nas minhas feições a hora da nossa eterna separação! Não, não nos abandonemos à dor; a mesma separação pede agora toda a efusão dos sentimentos, toda a expansão das almas...
— Meu filho, não sentes vontade de passear?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O último dia de um poeta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.