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#Contos#Literatura Brasileira

O escrivão Coimbra

Por Machado de Assis (1906)

Machado de Assis (1839–1908), maior nome do Realismo brasileiro, publicou “O escrivão Coimbra” no Almanaque Brasileiro Garnier, no Rio de Janeiro, em 1906. O conto retrata a obsessão de um escrivão pela loteria, explorando fé, acaso e ilusão. Com ironia e análise psicológica, o autor critica a persistência humana diante da esperança e revela as contradições entre descrença e superstição.

Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com

eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã — ou depois — um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.

Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinqüenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo. Não deixou logo a irmandade; a esposa pôde contê-lo no exercício do cargo de mesário e levava-o às festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá. Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religião. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.

Aos sessenta anos, já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade, e depois a solidão vieram apurando aquele costume, e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.

Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas lá aparecia alguém que o convidava a ficar com um bonito número, comprava o número e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos. O escrevente juramentado, um Amaral que ainda vive, foi o demônio tentador nos seus desfalecimentos. Tão depressa descobriu a devoção do escrivão, começou a animá-lo nela, contando-lhe lances de pessoas que tinham enriquecido de um momento para outro.

— Fulano foi assim, Sicrano assim, dizia-lhe Amaral expondo a aventura de cada um. Coimbra ouvia e cria. Já agora cedia às mil maneiras de convidar a sorte, a que a superstição pode emprestar certeza, número de uns autos, soma de umas custas, um arranjo casual de algarismos, tudo era combinação para encomendar bilhetes, comprá-los e esperar. Na primeira loteria de cada ano comprava o número do ano; empregou este método desde 1884. Na última loteria de 1892 inventou outro, trocou os algarismos da direita para a esquerda e comprou o número 2981. Já então não cansava por duas razões fundamentais e uma acidental. Sabeis das primeiras, a necessidade e o costume; a última é que a Fortuna negaceava com gentileza. Nem todos os bilhetes saíam brancos. Às vezes (parecia de propósito) Coimbra dizia de um bilhete que era o último e não compraria outro se lhe saísse branco; corria a roda, tirava cinqüenta mil-réis, ou cem, ou vinte, ou ainda o mesmo dinheiro. Quer dizer que também podia tirar a sorte grande; em todo caso, aquele dinheiro dava para comprar de graça alguns bilhetes. “ era a sua própria expressão. Uma vez a sorte grande saiu dois números adiante do dele, 7377; o dele era 7375. O escrivão criou alma nova.

Assim viveu os últimos anos do Império e os primeiros da República, sem já crer em nenhum dos dois regimes. Não cria em nada. A própria justiça, em que era oficial, não tinha a sua fé; parecia-lhe uma instituição feita para conciliar ou perpetuar os desacordos humanos, mas por diversos e contrários caminhos, ora à direita, ora à esquerda. Não conhecendo as Ordenações do Reino, salvo de nome, nem as leis imperiais e republicanas, acreditava piamente que tanto valiam na boca de autores como de réus, isto é, que formavam um repositório de disposições avessas e cabidas a todas as situações e pretensões. Não lhe atribuas nenhum ceticismo elegante; não era dessa casta de espíritos que temperam a descrença nos homens e nas coisas com um sorriso fino e amigo. Não, a descrença era nele como uma capa esfarrapada.

(continua...)

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