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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Era perto de dez horas da noite. Em casa do major Damazio tudo repousava em profundo silencio. As creanças dormião o somno suave e tranquillo da innocencia. Rozaura que tinha o seu aposento em um pequeno quarto immediato á alcova de sua senhora, apezar dos transes e inquietações por que passara, ha muito que adormecera. Havia chorado um pouco antes de conciliar o somno pensando nas perseguições de Moraes, e mais ainda nos desabrimentos da senhora; mas graças aos seus quatorze annos, á pureza de seu coração e á tranquillidade de seu espirito, a insomnia lhe era desconhecida.

Só Adelaide velava reflectindo nas ingratidões e desvarios do marido e na pretendida deslealdade de Rozaura, da qual a cegueira do

chime lhe fazia formar tão máo conceito. Todavia quando com o espirito mais calmo se lembrava da physionomia de menina tão cheia de pudor e candura, de suas maneiras tão honestas e recatadas, de sua indole tão docil e fagueira, repugnava-lhe a idea do móo procedimento que lhe attribuia em seus accessos de despeito, e um mysterioso sentimento de benevolencia e ternura como que a obrigava a innocentar no intimo da alma a desventurada cscravinha. Á força de entregar-se ao embate de tantas tribulações e dissabores, Adelaide havia chorado, e encostada a um bufete tinha os olhos rubros e humidos quando Lucinda entrou-lhe pelo quarto.

— Santa Virgem ! — exclamou a preta obscrvando a physionomia alterada e os olhos macerados da senhora. — O que é que lhe aconteceo, sinhásinha?

— Nada Lucinda ; -— absolumente nada.

Nada !! não me engana ; . . . como é que sinhásinha então está assim com os olhos vermelhos e cheios d'agua!

—- É verdade, Lucinda ; estava pensando cm cousas bem desagradaveis, e creio que chorei um pouco... mas...

— Mas o que, sinhásinha ? . . . não me esconda nada, não ; póde sem susto abrir seu coração com sua preta. Não quero ver sinhásinha chorando assim; o que é que mecê tem?

Lucinda, como o leitor sabe, fora outróra em 'circumstancias bem criticas a amiga dedicada, a leal confidente, e a unica depositaria do maior ou antes do unico segredo de Adelaide. Esta portanto não tinha razão para recusar-se a explicar-lhe o motivo de seus desgostos, e naquella occasião até estimou o apparecimento e a interpellação da escrava, porque tinha realmente necessidade de desabafar com alguem as maguas que lhe opprimião o coração. E com quem melhor poderia ella abrir sua alma, do que com a velha e leal escrava, que de tanto lhe tinha valido nos mais apertados e melindrosos transes de sua vida intima

Assim a preta, que viéra para fazer uma revelação, teve de ouvir em primeiro logar as confidencias e queixumes da senhora ; tanto melhor para Lucinda, que assim se achava ern mais favoraveis disposições para entrar com sua senhora em conversação confidencial. Adelaide, com algum vexame e embaraço, mas em poucas e rapidas palavras, expoz á escrava o motivo de seus desgostos; contou não só as inipudentes tentativas que seu marido fazia quasi á sua vista, para seduzir Rozaura, como tambem as desconfianças que nutria a respeito desta.

Eu sei já disso tudo, sinhásinha, — disse Lucinda ; mecê tem razão contra sinhô moço; com effeito elle tem andado muito mal . Mas a respeito da pobre menina, sinhásinha anda muito enganada. Si sinhésinha soubesse quem é esta Rozaura...

— Sei bem, Lucinda ; ella me parece muito boa rapariga, cuidadosa, diligente e muito carinhosa com as creanças, mas... desconfio...

Deixa dessas desconfianças, sinhásinha, Rozaura não é capáz disso. Si sinhásinha soubesse tudo, como eu sei, em vêz de zangar-se com ella, havia de trazel-a mesmo dentro do seio, como si fosse sua filha.

A estas palavras Adelaide sentia um estremecimento involuntario.

— Como si fosse minha filha! porque dizer isto, Lucinda ?

—- Sim, senhora, — insistio a escrava, como si fosse sua filha, e sinhásinha havia dc arrepender-se mil vezes de tel-a em tão ruim conta.

Ha ahi uma cousa que eu devo por força contar á sinhásinha, si não quizer botar minha alma no inferno.

O que é? conta, Lucinda..., será ainda alguma desgraça?.

— Não, sinhásinha, não é nenhuma desgraça; antes pelo contrario é cousa de lhe dar muito gosto e alegria.

— Devéras, Lucinda ! ...pois conta de pressa o que é isso.

Lucinda então acocorando - se aos pés da senhora, e abafando a voz para não accordar as creanças e Rozaura, que dormia alli bem perto, contou por miudo tudo quanto nessa tarde se tinha passado entre ella e Rozaura e a plena convicção em que estava á vista de tão vehementes indicios, de que a escrava que o senhor Moraes havia comprado não era outra sinão a filha de Adelaide, que ella Lucinda havia exposto em casa de Nha-Tuca e que, não se sabe com que interesse ou para que fim, fizerão passar por morta.

(continua...)

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