Rozaura, a enjeitada BERNARDO GUIMARãES (1883) Rozaura, a enjeitada narra a história de uma jovem marcada pelo abandono desde o nascimento, enfrentando preconceitos e dificuldades sociais. A trama acompanha seus sofrimentos, amores e desafios, explorando temas como identidade, honra e destino. Ambientada no Brasil do século XIX, a obra combina drama e crítica social ao retratar desigualdades e valores da época. CAPITULO PRIMEIRO Doze annos depois. Erão passados doze annos depois dos acontecimentos, que acabámos de narrar. Em uma sala mobiliada com bastante luxo, si bem quc não com muito gosto, em um sobrado da rua de S. Bento na cidade de S. Paulo, uma linda menina de dez annos estava sentada ao piano dedilhando com volubilidade c bem pouca attenção as lições de Iliinten. A' direita, ao pé delia achava—se t,ambem sentada cm uma cadeira, com a mão na facc c acotovelada sobre a mesa do piano, uma senhora, que poderia ter quando muito trinta annos, e que parecia observar com certo orgulho e complacencia o estudo da gentil menina. Era uma senhora morena, de physionomia regular e sympathica, de grandes olhos negros e languidos e que tinha bem conservada ainda uma belleza, que no viço dos annos devia ter sido das mais encantadoras. Pelo primoroso cuidado com que se trajava, pelas maneiras e ademanes um tanto affectados, via-se que ainda predominava nella esse fundo de vaidade inseparavel das moças formosas, mesmo quando essa formosura já vae declinando para o occaso. A desta porém ainda não declinava; nem cans, nem rugas, nem macilencia denunciavão nella a epoca da decadencia. Não era já a tenra e mal aberta flór, brilhante de viço e frescura, e ainda rociada das perolas da aurora ; mas sim a flór, que alardeia desabrochadas em toda a sua plenitude as petalas formosas ao fulgor de um bello sol de estio. Brincavão tambem em torno della pela sala entrando e sahindo mais tres creanças de mais tenra idade, interrompendo a cada passo com suas travessuras o estudo da pianista, que em vão zangava-se e ralhava com ellas. Estella, — disse a moça com voz suave estendendo a mão e fazendo parar de chofre os roseos dedinhos da menina, que esvoaçavão ligeiros como borboletas sobre o teclado, estás hoje muito rudesinha; disseste muito mal esse ultimo compasso; repete ainda uma voz; não quero que a mestra venha ralhar comtigo. — Ora, mamãe! — replicou a menina dando um muchocho, — estes meninos estão a toda a hora me atrapalhando... Tambem não sei porque é que papae hoje está tardando tanto. Ah! logo vi ; teus dedos estão correndo pelas teclas, emquanto teu sentido mesmo anda bem longe, tontinha ! — Não, mamãe; estou esperando papae para jantar ; estou com saudade delle, e tambem com fome. Olha, mamãe, — accrescentou apontando para um lindo pendulo, que estava sobre um aparador: — jâ são quasi quatro horas. — Qual saudade, nem fome! . . . estás com sentido é na mulatinha, que teu pae foi com— prar para ti, e que prometteo trazer hoje. Socega esse coraçãosinho, que ella ha de vir ; sinão por hoje, ha de ser amanhã, porque já está comprada e paga. — Ah! já faz hoje mais de oito dias, que papae está comprando essa mulatinha, e nunca mais ella vem. É porque ainda não tinha encontrado uma que servisse; mais agora já achou, já comprou, e ha de vir. — Bravo! bravo! mamãe, — exclamou Estella saltando do tamborctinho, e indo envolver com os braços o collo da mãe encarando-a tão de perto, que quasi a beijava ; — ella é bonitinha? já é grande? . . . como se chama? eu queria que ella fosse do meu tamanho. Mamãe ha de dar a ella um vestido bem bonito para ella andar commigo na rua, não ha de, mamãe? — Hei de, hei de, sim, minha filha. Arrc lá ! suffocas-me com tantas perguntas. Neste ponto da conversação ouvio-se rumor de gente, que vinha subindo a escada. — Escuta, — continuou a senhora, ha do ser teu pae, que chega. Estella e seus irmãosinhos correrão logo para o topo da escada; a mãe deixou-se ficar sentada em seu logar. Dahi a instantes entrou na sala um homem dc bella presença e elegantemcnt,e trajado. — Entra, Rozaura; é aqui que está tua senhora, — dizia clie, voltando-se para traz. Entrou logo após elle, acompanhada pelas creanças, uma linda creatura, em cuja descripção é mistér determo—nos um pouco. Era uma menina, que parecia ter quatorze annos, de bello porte, cabellos de azeviche, não mui finos e sedosos, mas espessos e de um brilho refulgente como o do aço polido. — Os olhos grandes e da mesma côr dos cabellos tinhão tal expressão de ingenuidade e doçura, que captavão logo a sympathia a affeição de todos. A bocca pequena, com labios carnudos do mais voluptuoso e encantador relevo formava com o queixo algum tanto pronunciado c o nariz recto e afilado um perfil das mais delicadas e harmoniosas curvas. A tez do rosto e das mãos era de um moreno algum tanto carregado ; mas quem embebesse olhar curioso pelo pouco que se podia entrever do collo por baixo do corpilho do vestido, bem podia adivinhar que era o sol, que a tinha assim crestado, e que sua cor natural era fina e mimosa como a do jambo. Não trazia mantilha, esses dous covados de panno ou baeta, em que não andou thesoura nem agulha, e com que as escravas e as mulheres de baixa classe em S. Paulo usavão embrulhar a cabeça e os hombros ; em vez della trazia sobraçado um bonito chale de lã, e trajava um vestido côr de rosa ; a linda e opulenta madeixa era o unico ornato de sua cabeça, e os pés calçavão chinelos de marroquim vermelho. Trajada com tal singeleza e dotada de tanta graça e formosura Offerecia um interessante e gentil modelo de camponeza digno de occupar a attenção e o pincel do mais habil artista. Os meninos rodeavão a rapariga com ar de estupefacção e a comtemplavão com a mais viva curiosidade. Ella parou defronte da senhora, fitou-lhe os olhos meigos, e tomou-lhe a benção com um ar ao mesmo tempo terno c submisso. Ao pôr os olhos na menina, a senhora sentio-se assaltada de estranha emocão, ou porque a sympathica physionomia da escrava, e a encantadora in oenuidade, que respirava em toda sua angelica figura, lhe tocasse o coração, ou porque o seu lindo rosto lhe des pertasse n'alma vaga reminiscencia de alguma pessoa que conhecera. Emfim não podia capacitar-se de que aquella formosa e interessante rapariga fosse a escrava destinada á sua filha. Que menina é esta: que o senhor nos traz, senhor Moraes? perguntou ella ao marido. Que é da escravinha, que está mpre a prometter á Estellinha ella está sompre a amofinar-me com suas impaciencias. — Pois não está aviante de teus olhos?! respondeo e marido apreciando com desvanecimento a sorpresa da mulher. Eu tinha promettido á Estella uma joia, e não ahi qualquer creoula beiçuda, ou mula encarapinhada. Custou-me, porém sempre achei. Que tal te parece? . . . — Muito lindasinha. Como se chama Rozaura. — Rozaura ! . . . até o nome é bonito. Vem cá, Rozaura; não sou eu a tua senhora ; tua senhora é esta menina,- — accrescentou pegando Estella pelo braço e collocando-a defronte de Rozaura. Então a gentil escravinha com singeleza e desembaraço infantil acocorou-se sobre o largo tapete junto ao piano, sentou Estella sobre o seu regaço e envolvendo-a com os braços beijou-a em ambas as faces exclamando : — Esta é que é minha sinhásinha ! ... como é tão bonitinha ! . . A linda escrava tambem nesse momento sentia banhar-se-lhe o coração em effluvios de estranha ternura, que lhe humedecia os olhos, e ora acariciando a filha, ora olhando para a mãe, julgava-se como que arrebatada a um mundo estranho. Estella retribuía com mudos affagos as caricias da escrava. A senhora com a face na mão contemplava com a mais benevola e terna complacencia aquella scena encantadora, c não se fartava de olhar para Rozaura, que com modos tão meigos e naturacs lhe affagava os filhinhos, como si já os conhecesse de longa data. Está bom, disse a senhora levantando-se, -— são horas de jantar. Estella, vae chamar Lucinda. A menina correo para o interior da casa, e dahi a momentos reappareceo com a preta velha, que já conhecemos. — Lucinda, — disse a dona da casa, leva esta menina para dentro, mostra-lhe toda a casa, e trata bem della ; de hoje em diante ella faz parte da familia ; é a mocama de sinhá Estelinha. A preta estatalou os grandes olhos esbuga lhados sobre a rapariga. — Hé! ha ! — exclamou ella admirada — Como é isso, sinhá ! pois essa menina é captiva mesmo? . . é a mocama, que sinhó comprou . , cruz! . . . parece mais outra sinhásinha. Vamos, minha filha, vamos para dentro, — continuou Lucinda, tomando a mão de -Rozaura e conduzindo-a para o interior da casa. Os meninos as acompanhárão, pulando de contentes. — Não achas, Adelaide, — disse Moraes á sua mulher, logo que se achárão sós, — não achas que não era possivel encontrar peça mais linda para a nossa Estellinha? como ella ficou satisfeita com a sua faceira mocama!... — Na verdade é muito linda creatura, — respondeo Adelaide. — Até faz pena ver no captiveiro uma menina tão mimosa. Si ella fóli boa mesmo, como parece, hei de tratal-a com todo o carinho, mais como uma companheira, uma irmã de meus filhos, do que como escrava; e até, si fór possivel, o meu desejo é dar-lhe a liberdade. Uma creatura tão bella e interessante não nasceo para o captiveiro. — Oh! quanto a isso, mais devagar, minha querida. Poderemos forral-a lá pelo tempo adiante, si efla o merecer. Custou-nos uma somma consideravel, e não é para já largarmos mão delia. Não pude arrancai-a das garras do casmurro do senhor, sinão por dous contos e quinhentos mil reis. Como teu pae deo-me carta branca e disse-me que não olhasse a dinheiro, mais que me pedissem, eu daria. — Muito mais que isso vale ella, — retorquio Adelaide. — Por mim não a largarei mais nunca, nem por quanto dinheiro ha neste mundo. CAPITULO II O senhor Moraes. Agora, que temos apresentado ao leitor Adelaide casada e com quatro filhinhos, vivendo com certo luxo e ostentação no centro da cidade tranquilla e feliz ao menos apparentemente no seio de sua familia, forçoso nos é voltar atráz uns doze a treze annos a fim de explicar que factos se derão para operar essa transformação no destino de uma mulher, que tanto nos interessa. O major Damazio voltára de sua excursão commercial depois de uma ausencia de seis a sete mezes. Encontrou Adelaide já completamente restabelecida dos incommodos da maternidade, si bem que acabrunhada ainda por certo languor e abatimento. provenientes mais dos soffrimentos do espirito, do que de incom modos physicos, e não lhe entrou pela mente nem a mais leve suspeita do mysterioso acontecimento, que lhe tinha maculado o sanctuario da familia. Felizmente tambem nada tinha transpirado em publico a respeito da fraqueza da infeliz moça. A discreçào de Lucinda, a vida solitaria e retrahida de Adelaide, a imbecilidade da tia Eulalia, e a morte immediata da pobre creança, que cahio do seio materno á sepultura, fizerão com que o publico, sempre avido de escandalos, ficasse em perfeita ignorancia desse facto, e a filha do major conservasse intacta e immaculada sua reputação aos olhos do mundo. Adelaide não fallou mais no seu proposito de entrar para um recolhimento, ou porque de facto semelhante resolução, não sendo firme nem sincera, se tinha desvanecido em seu espirito, ou porque não tendo conseguido riscar do coração a lembrança de seu amante, queria ganhar tempo nutrindo a esperança de poder talvez um dia unir ao delle o seu destino. O major tambcm por sua parte nem de leve tocava em tal assumpto. Tendo para si que a filha se achava inteiramente curada da louca paixão que concebera pelo joven capatáz, não perdia a esperança de vel-a um dia casada com algum alto personagem, que viesse dar mais honra e lustre á sua arvore genealogica. Conrado, sahindo de S. Paulo em uma peregrinação sem rumo e sem destino certo, de diversas localidades, em que se achava, tinha por vezes dirigido cartas á sua amante para serem entregues cautelosamente por intermedio de terceiro; mas infelizmente nenhuma dellas, á excepção da que escrevera antes de partir communicando-lhe a sua retirada de S. Paulo, ou porque fossem interceptadas em virtude de precauções tomadas pelo major, ou por qualquer outra fatalidade, poude chegar ás mãos de Adelaide. Esta tambem via-se na impossibilidade de escrever-lhe por não saber o que era feito delle, nem a que ponto dirigir suas cartas. Assim se passarão perto de dous annos, sem que se désse alteração alguma na triste sorte de Adelaide, sem que ella pudesse obter a mais vaga, a mais ligeira informação a respeito do destino de Conrado. No fim desse tempo porém espalhou-se em S. Paulo a noticia de que Conrado, girando em negocio de muladciro pela provincia da Bahia, havia fallecido no Sincorá de uma febre perniciosa. Esta triste nova, que bem depressa chegou aos ouvidos de Adelaide, foi um golpe doloroso, que por muito tempo a acabrunhou, e apagou-lhe da alma toda a esperança de felicidade na terra. Mas Adelaide, si era de temperamento vivo e ardente, facil de inflammar-se em paixões fogosas, não tinha essa sensibilidade profunda, que nem o tempo nem as circumstancias podem obliterar, e que mesmo debaixo das ruinag de todas as esperanças conserva sempre viváz e ardente o sentimento do primeiro amor, como o fogo debaixo das cinzas. Sua alma era, como seu corpo, robusta e resistente; os choques podião prostral-a, mas não a esmagavão. Amava com ardor e com todas as forças de sua alma ao amigo da infancia, ao amante da juventude; suas lagrimas e sua saudade forão sinceras e pungentes, mas com o volver dos tempos forüD-se mitigando, a resignação veio por fim, e Adelaide animou-se de coragem para viver. A casa do major Damazio, que durante muito tempo se tinha tornado uma especie de cremiterio, foi gradualmente se fazendo mais accessivel á sociedade e mais animada. A lembrança dos remoques e epigrammas dos estudantes e das pretenções do capataz ia pouco a pouco se apagando. O major, que nunca perdia a esperança de achar para sua filha um noivo de alta jerarchia, começava a attrahir de novo e convidar a jantar alguns amigos, não excluindo mesmo, mas com algum escrupulo na escolha, alguns jovens da classe academica. Adelaide nada havia perdido dc sua formosura e attractivos apezar dos transes dolorosos, por que havia passado , sua robusta organisação havia zombado dos trabalhos e contratempos, e a flor de sua belleza alardeava-se ainda tão esplendida e viçosa como d'antes. Sómente os soffrimentos lhe havião estampado na physionomia e nas maneiras um ar mais grave e melancolico, que ainda mais realçava seus encantos. Entre os moços que frequentavão a casa do major, havia um, que sinceramente apaixonado da belleza de Adelaide se fez notar por seus obsequios e homenagem e por sua assiduidade. Era um terceiro-annista de bella e agradavel presença, de maneiras sympathicas, e posto que não fossc rico, tinha a fortuna dc assignar-se com o appelido de Bueno de Moracs, um dos nomes heraldicos de mais distincção na provincia de S. Paulo. Alem disso, sendo aspirante ao pergaminho de bacharel cm direito, tinha aberta diante de si a carreira das honras e grandezas, c o bom major podia bem nutrir a esperança de ter um dia um genro deputado, presidente, ministro, senador e por fim até mesmo visconde e marquez. Damazio, que tambem assignava-se Bueno, descobrio logo entre elle e o futuro genro corto gráo dc parentesco, e o doce nome de primo e prima substituirão dahi em diante os nomes proprios entre os dous namorados. Adelaide não se desagradou do moço, a qual na verdade, além dc sua bonita figura e maneiras agradaveis, e insinuantes parecia ser dotado de boas e solidas qualidades. É verdade que não concebeo por elle uma dessas paixões profundas e vehementes, como a que Conrado lhe havia inspirado, mas votava-lhe essa estima calma, porém terna e affectuosa, que é a meu lhor garantia da paz e felicidade da vida conjugal. Havendo pois commum accordo entre todas as partes interessadas, contractou-se e cclebousc dentro de poucos dias o casamento da senhora Dona Adelaide Florisbclla Bueno dc Aguiar com o senhor Francisco Ribeiro Bueno de Moraes. É quasi escusado dizer que houve banqueto profuso e baile esplendido, aos quaes forào convidados o compadre Tobias, o presidente da provincia, os lentes da Academia, as familias mais gradas da cidade, e a nata da classe academica. Bueno de Moraes era de intelligencia um pouco menos que mcdiocre tanto assim, que apezar de contar já os seus vinte e sete annos, apenas á custa de muito patronato e de muito alisar os bancos da Academia tinha podido içar—se até o terceiro anno. Si já era por natureza algum tanto avesso ás lettras, a vida matrimonial, e a tal ou qual opulencia, que entrou a fruir, acabárão de lhe tirar completamente o gosto pelo estudo. Perdeo o anno, e não poude fazer acto. Declarou a seu sogro que não podia mais continuar no curso academico ; que já possuia instrucção bastante para seguir a carreira que melhor lhe conviesse, e, conhecendo o fraco de seu sogro, apontou— lhe diversos exemplos de homens que sem possuirem pergaminho algum tinhão attingido ás mais altas posições sociacs. O sogro, posto que bastante contrariado, não desesperava, c perguntou-lhe em que desejava empregar se Moraes respondeo-lhe que precisava adquirir por seus proprios esforços alguma fortuna, que é a primeira base de uma boa posição social, e que sentia-se com decidida vocação para a carreira commercial, para a qual desde o berço propendião todas as suas inclinações. O major, accedento a seus desejos, aconselhou-lhe que começasse pelo negocio de muladeiro que no seu entender era o que mais depressa podia enriquecer, e para prova dava o seu proprio exemplo. Moraes acceitou o conselho, e aproveitou-se da bolsa e dos largos abonos que o sogro lhe facilitava; mas como homem, que tinha ainda menos pratica de negocios do que dos livros, em menos de dous annos deo litteralmente com todos os burros n'agua, e o sogro teve de sangrar sua burra em quantia consideravel a fim de desempenhar o genro para com seus freguezes de Sorocaba e Curitiba. Entretanto o luxo e a opulencia continuavão a reinar na mesma escala no seio daquella familia com aprazimento do major e muito éspecial agrado de Moraes, cuja occupação dahi em diante cifrava-se em frequentar bailes e theatros, em alguns passeios com a familia, ou em brodios de estudantes, a cuja classe ainda se julgava filiado, e cujos habitos não tinha de todo perdido. Assim se passava o tempo, e entretanto a fortuna do major, que elle havia accumulado á custa de peniveis trabalhos durante uma longa vida de actividade e economia, lá se ia escoando de um modo rapido e assustador. Já alquebrado pelos annos o major não podia mais entregar-se á vida laboriosa e fragueira de outrora; sentia no entanto a necessidade sinão de augmentar, ao menos conservar e manter no mesmo estado per meio de alguma especulação vantajosa um patrimonio, de que dependia o futuro de sua descendencia e que seu genro, longe de fazer prosperar, só sabia dilapidar. Portanto para por um paradeiro ao desmantelamento de sua fortuna, lembrou-se de abrir no pavimento terreo da casa nobre, em que agora o encontramos com toda a familia, um vasto armazem de seccos e molhados, em que por cautéla figurava como socio de seu genro, em cuja gerencia não confiava muito. Alli, à testa de seu estabelecimento, o velho major, que para o commercio tinha bastante tino e aptidão, podia tudo superintender, e vedar que o genro compromettesse por suas imprudencias os interesses da casa. Graças a esse expediente o major poude se abrigar de uma ruina inevitavel, e Moraes achou uma occupação digna e honesta, com a qual podia manter decentemente e mesmo assegurar o futuro da familia sem metter a mão no patrimonio do velho. Passarão-se assim alguns annos de vida folgada e tranquilla, durante os quaes a prole de Moraes foi-se augmentando até a época a que somos chegados, CAPITULO III Ciumes. A acquisição da linda escrava Rozaura foi um motivo de festa por muitos dias na familia do major. Era um mirno, que ha muito o avô desejava fazer à Estella, linda e interessante netinha, que era o seu idolo ; e para esse fim tinha dado amplas autorisações ao genro. O mimo excedeo a sua expectativa, e valia realmente um thesouro. Rozaura nos primeiros dias foi antes o enlevo e admiração da familia, do que a escrava da casa. Adelaide a tratava com carinho maternal ; Lucinda a rodeava de cuidados e procurava adivinhar-lhe os desejos ; as creanças não comião um doce, uma golodice qualquer, que não repartissem com ella; o major a chamava de minha tetéia, e o senhor Moraes ficava ás vezes a contemplal-a com ar tão terno e embevecido, que não deixava de causar displicencia e inquietação à Adelaide. E Rozaura merecia bem essas contemplações e deferencias. Activa, intelligente et habilidosa, não se recusava a serviço algum. Na cozinha ajndava a tia Lucinda com tal geito e desembaraço, que fazia pasmar a velha preta. Ne sala engomava, cosia e bordava de modo que encantava a sua senhora. Aos trabalhos mais delicados, como aos mais rudes e fragueiros se offerecia e prestava não só com promptidão, como tambem com certo 'ar affectuoso, que fazia crer que tomava gosto em seu captiveiro. Tratava das creanças com tal amabilidade, geito e carinho, que parecia não uma rapariga de quatorze annos, mas uma provecta mãe de familia, Reunindo-se a estas qualidades adoraveis o porte e o rosto de uma donzella que poderia figurar em um salão aristocratico, póde-se fazer idea do thesouro inapreciavel, que graças ao dinheiro do major eàs diligencias de seu genro era hoje propriedade da casa. Quando estava em companhia, Rozaura era sempre alegre, meiga e affavel ; mas Lucinda e mesmo Adelaide a tinhão sorprehendido a sós scismando tristemente, e ás vezes com as lagrimas nos olhos. — Que tens, Rozaura, que estás ahi tão triste e amuada e quasi a chorar Q — perguntou-lhe uma vez Adelaide com ternura. — Nada, minha sinhá , é porque estava mc lembrando de minha mãe, que já morreo. — Ora ! não chores ; — replicou Adelaide pousando a mão sobre a linda cabecinha de Rozaura. Eu tambcm quasi não conheci mãe, e não estou chorando. Não chores mais não ; eu tambem sou tua mãe. E com estas doces palavras a menina sc consolou e recobrou seu ar sereno e jovial. Este estado de paz e bemaventurança domestica infelizmente não poude durar por muito tempo. A força de contemplar todos os dias as bellezas plasticas da formosa Rozaura, Moraes se foi deixando arrastar por uma paixão insensata e frenetica por ella. Ou fosse um amor verdadeiro, intimo e profundo, que lhe revolucionasse a alma, o que era bem possivel á vista da seductora belleza da captiva, ou fosse o demonio da libidinagem, que lhe turvava o espirito e lhe inflammava o sangue, o que é ainda mais provavel, o certo é que Moraes, sem attender nem ao menos ás conveniencias e ao decoro da familia, deixou entrever a cega paixão que o dominava. Um dia não podendo mais conter-se declarou suas impudicas intenções á ingenua e virtuosa escrava, que mal as podia comprehender. Senhor quasi absoluto da casa fazia quotidianamente á inexperta rapariga pomposas promessas de liberdade, dinheiro e mil felicidades, ás quaes a singela menina oppunha sempre a mais rude e obstinada negativa. Com as repulsas e esquivanças ainda mais recrudecia a febre de ardente sensualismo que abrazava o sangue de Moraes ; depois de ter empregado em vão todos os meios de seducção a seu alcance, lançou mão tambem da mais terriveis ameaças. Si não cederes a meus desejos, Rozaura, dizia-lhe elle nos transportes de sua insensata e lasciva paixão, — vendo-te ahi a qualquer senhor libertino e sem coração, que fará comtigo o que eu não posso, nem tenho animo de fazer; que te amarrará de pés e mãos, e fará de ti o que muito bem quizer. — Senhor, — respondia a escrava com uma resolução e firmeza para admirar em sua edade e condição, — é escusado ameaçar-me, pcrdc seu tempo ; nunca cederei, nunca ! faça de mim o que quizer, tenho fé que Deus me hade valer. Moraes rugia de raiva e desespero, mas emn assim deixava de proseo•uir cada vez com mais ardor em seus assaltos brutaes contra a pudicicia da gentil escrava. Estes torpes manejos' por mais que Moraes se esforçasse por occultal-os não puderão escapar por muito tempo á sagacidade de Adelaide, que depressa colheo provas manifestas do indigno procedimento de seu marido. Ella amava-o sinceramente, e esta triste descahida do esposo magoou-lhe cruelmente o coração. Ha doze annos era casada, e nunca até alli a mais ligeira nuvem de discordia viera perturbar a harmonia conjugal, e toldar a serenidade do lar domestico. Foi portanto um rude golpe para sua alma, golpe, que a feria e humilhava ao mesmo tempo, ver a paz, que até então tinha reinado no seio da familia, perturbada por tão ignobil e vergonhoso motivo. Era Adelaide, como sabemos, de temperamento ardente e irascivel ; não sabia abafar seus resentimentos ; elles fazião explosão com violencia. Todavia desta vez corando por seu marido, o pejo e o pundonor tolherãolhe a principio as expansões de despeito e indignação, de que trazia saturado o coração. A tal ponto porém chegárão os desmandos do senhor Moraes, que ella não poude conter-se por mais tempo. Rubra de pejo e de resentimento exprobrou ao marido seus vergonhosos desvarios. — O senhor, disse ella depois de amargas queixas e pungentes invectivas, quer me pôr na dura necessidade de communicar tudo a meu pae, a fim de que elle mande para longe, forre ou venda essa pobre menina, causa por certo innocente de semelhantes escandalos, e isto seria uma crueldade. Não, meu, amigo, accrescentou ella ameigando a voz e abraçando o marido, — espero que não continuará mais nesse máo caminho. É tua mulher quem te pede em nome de nosso amor de doze annos, em nome de nossos innocentes filhinhos. Moraes sentio-se algum tanto abalado com estas ternas e sentidas palavras da esposa, e quasi sentio remorsos por affligil-a tanto com seu máo procedimento. — Minha querida Adelaide, — disse com a mais bem fingida e refinada hyprocrisia que se póde imaginar, como pudeste dar entrada cm teu coração a tão injustas suspeitas contra teu marido como pudeste imaginar nessa louca cabecinha que eu seja capaz de ter tão depravadas intenções contra uma pobre e interessante menina, que só me inspira compaixão, interesse e sympathia ! . . . Gosto muito de Rozaura, acho-a muito engraçada e bonitinha, amo-a mesmo si assim o queres, mas com esse amor, de qun fallava um dos meus collegas, mettido a poéta ; amo-a como se ama as flÔres do campo, as estrellas do céo, o canto dos passarinhos; amo-a como se ama tudo quanto é bello na creação. É verdade, que ás vezes procuro beijal-a na fronte e mesmo na face mas ella foge toda espantadiça e coitadinha, não sabendo talvez que a procuro beijar, como beijo a meus filhinhos. Ah ! senhor, — disse a moça fitando os lindos olhos no marido como procurando ler-lhe no fundo da alma, será sincero o que me está dizendo ? Juro pelo nosso amor, minha Adelaide. Adelaide pareceo convencida e tranquillisada com as palavras do marido, e os dois esposos reconciliados se abraçarão em mutua effusão de ternura. Mas o ciume é como um cancro; quando uma vez se agarra ao coração nunca mais se pôde extirpar completamente ; por mais habil que seja a mão do operador, lá ficão raizes e filamentos imperceptiveis, dos quaes renasce e se alimenta a chaga devoradora. Moraes na persuasão de ter illudido sua mulher e dissipado completamente suas desconfianças, abandonou-se dahi em diante com mais desembaraço ainda ás expansões de sua louca paixão pela formosa escrava, e redobrou de ardis, seducções, promessas e ameaças para rendel-a a seus impudicos desejos. A' proporção porém de seus esforços, com grande desesperação sua mais recrescia a reluctancia da honesta e innocente menina. Mac o ciume não dorme, tem vista aguda e ouvido delicadíssimo. Adelaide a despeito dos protestos do marido que a tranquiÍlizárão momentaneamente, não deixava dc espiar seus passos com disfarce e fina sagacidade, e á vista do que ia observando, não podia convencer-se de que a affeição, que elle consagrava Rozaura, fosse amor puro e innocente, que procurava apparentar, Receando, porém, quc o ciume lhe estivesse allucinando algum tanto o espirito. fazendo-lhe dar grandes proporções a cousaà insignificantes, decidio-se a interrogar a propria Rozaura sobre esse particular para acabar de uma vez com tão cruciantes incertezas. Como se póde imaginar, foi um passo beni difficil e penivel para ella entabolar conversaçao a esse respeito com uma escrava, e com uma quasi creança ; mas era forçoso para descobrimento da verdade e socego de seu coração. — Rozaura, — disse ella um dia á escrava ; os meninos estavão ausentes e Rozaura sentada a seus pés sobre um tapete se occupava em trabalhos de agulha ; — parece que o senhor Moraes te persegue e atormenta com caricias excessivas. Vejo-te ás vezes correr delle assustada, como lebre que foge ao cão. Que te quer elle ? não me dirás, Rozaura Fazendo estas perguntas Adelaide procurava em vão disfarçar o amargor de suas palavras com certo tom de gracejo. Não sei, minha senhora ; — respondeo a escrava corando muito e com visivel perturbagão; — elle gosta muito de brincar commigo ; mas eu tenho muido medo e respeito d'elle, e por isso fujo para perto de minha senhora. — Fazes bem, Rozaura ; mas tudo isso não passará de mero brinquedo . estàs bem certa disso? — Eu acho que não passa de brinquedo : quer brincar commingo, como brinca com sinhá Estellinha. — E elle não te diz nada não te declara cousa alguma ? . . . — Eu mesmo não sei o que elfe diz ; não escuto nada, e vou correndo para longe, por que tenho muito respeito, e. . . A pobre escravinha queria ainda dizer muita cousa, mas dc embaraçada não sabendo explicar-se, nada mais poudc dizer c parou na reticencia, esperando mais alguma pergunta. Adelaide porém não quiz insistir mais ; uma sinistra desconfiança lhe havia atravessado o espirito ; a boa e simples Rozaura não quiz declarar á sua senhora toda a verdade, porque apezar de sua pouca edade era assisada e discreta, e não queria atear o facho da discordia no seio da familia com suas hesitações, porém com suas respostas timidas e evasivas teve a infelicidade de produzir um effeito mil vezes peor do que aquelle que desejava evitar. Notando as phrases indecisas, a perturbação e enleio de Rozaura, entrou pelo espirito de Adelaide a suspeita de que Rozaura era cumplico na deslealdade de seu marido, ou que pelo menos acceitava sem repugnancia seus affagos, e por isso procurava encobrir-lhe a verdade. Julgou-se duplamente ultrajada em seu pundonor de esposa, e em sua qualidade de senhora, e tomou dahi cm diante tal indisposição contre a pobre escrava, que começou a tratal-a não só com indifferença, mas com tão pronunciada malevolencia, que esmagava o ilinocente coração de Rozaura. E verdade que no fundo de sua alma não se extinguira de todo esse sentimento de terna sympathia, que Rozaura lhe havia inspirado desde a primeira vezem que a vira ; mas a cegueira do ciume suffocava quasi sempre esse sentimento, e a fazia tratar a escrava com o mais cruel desabrimento e aspereza. O máo humor de Adelaide subia de ponto, e já não havia naquella casa a bonança, união e contentamento de outros tempos. Adelaide ralhava sempre ; os meninos andavão espantados e em gritos vendo a bella captiva sempre amuada e chorosa, e a mãe a mimoseal-a com os edificantes epithetos de delambida, tarasca e outros quejandos, que elles felizmente não podião comprehender. O major estranhava mas nem de leve suspeitava o verdadeiro motivo da mudança de humor de sua filha, e perguntando a si mesmo a causa desse phenomeno, o attribuia á volta de lua, e talvez a algum novo astro, ainda em gestação, que vinha augmentar a brilhante pleiade de sua illustre descendencia. Moraes, sem deixar de activar suas diligencias para seduzir a infeliz menina, todavia andava cabisbaixo e desconfiado. Assim Rozaura vivia em continua tribulação entre as perseguições do senhor e a rispidez e malevolencia da senhora. O demonio da discordia tinha roçado sua aza negra por aquelle lar, ha pouco tão feliz, alegre e esperançoso. CAPITULO IV Descoberta. Perseguições e tentativas as mais audaciosas não cessavão por parte de Moraes, que cada vez mais fascinado pelos provocadores encantos da captiva já tinha perdida a cabeça e pervertido o coração. Um dia, aproveitando occasião, que lhe pareceo azada, seus esforços tocárão a excessivo gráo de audacia e violencia ; a menina a muito custo poude escaparlhe dos braços toda desalinhada e com as roupas dilaceradas. Não teve animo de correr para junto de sua senhora naquelle estado de agitação e desalinho, receiosa de provocar uma scena do mais deploravel e vergonhoso escandalo, e talvez das mais terriveis consequencias. Erào quatro para cinco horas da tarde. Rozaura arrojou-se anhclante e tremula, como corsa escapada ás garras do jaguar, para um quarto interior, que era occupado por Lucinda, que nessa hora estava a fiar em um fuso de mão. Rozaura entrou bruscamente e atirou-se desatinada sobre a cama da velha preta, arquejante e abafando lagrimas e soluços que lhe empolavão os seios e lhe queimavão as palpebras. — Que é isso, menina exclamou a preta, levantando-se assustada e chegando-se para perto de Rozaura. — O que é que te aconteceo? Rozaura debruçada sobre a cama, escondendo o rostro e o seio, nada respondia e continuava a chorar e soluçar. Lucinda pegou-lhe brandamente nos braços, que estavão cruzados sobre o peito, e com carinho a fez sentar-se. O corpilho do vestido da menina todo lacerado e descosido deixava ver completamente nús os brancos e mimosos seios, que arfavão violentamente, tremulos e medrosos como duas alvas pombas, que se recolhem ao ninho fugindo ás garras do gravião. De subito Lucinda soltou um grito de espanto, como si um raio luminoso lhe tivesse atravessado o espirito. — Ah ! . . . meu Deos ! exclamou ella, espera, menina ; deixa ver o que é isto que você tem aqui debaixo do peito esquerdo. A preta abaixou o rosto sobre o peito de Rozaura, e observou com attenção. Jesus ! . sancto nome de Jesus ! murmurou ella com voz sumida, quasi fallando comsigo mesma, Que é isto, Deus grande !? será possivel, que esta Rozaura seja a filha de sinhá Adelaide ! . . . Rozaura, o que foi isto ; conta-me, — continuou ella com voz mais clara ; —o que é que você tem ? . . . sinhá te ralhou? Não, — respondeo soluçando a pobre menina;—sinhá não me ralha; meu é senhor que me persegue. — Ah ! coitadinha ! . . . logo vi. Você pensa que eu já não percebi a má tenção de sinhó moço ? . cruz... ! que homem ruim é aquelle ! mas socega, minha filha, não ha de ser nada, Eu vou buscar roupa para você mudar, e depois você ha de me contar uma cousa. — Pois sim, tia Lucinda ; vae mesmo, vae me buscar outro vestido, que eu assim não posso apparecer; o que é que sinhá Adelaide ha de pensar de mim vendo-me neste estado Lucinda, como o leitor deve lembrar-se, foi quem recebeo nos braços, quando veio á luz do mundo, a mimosa e infeliz creança fructo dos amores clandestinos de Conrado e Adelaide ; foi ella quem lavou, pensou, vestio e depois expoz, com boas e louvaveis inten.ções, a miscra recem-nascida á porta de NhaTuca. Tinha-lhe feito impressão e trazia gravado na lembrança um signalsinho muito distincto, que a creança tinha do lado esquerdo pouco mais ou menos na altura do coração, em forma de cruz semelhando um habito do cruzeiro. Rozaura appresentava agora um signal em tudo igual e semelhante, si bem que um pouco deslocado. Demais Lucinda já havia notado uma tal ou qual semelhança das feições de Rozaura com as de Adelaide e mais ainda com as de Conrado. Entretanto estava certissima que vira estendida em seu pequeno feretro ornado de flÔres e capellas o cadaver da filhinha de sua sinhá. A preta entrou a scismar sobre esta estranha coincidencia, e uma forte supposição, quasi com o caracter da certeza, penetrou-lhe no espirito. Rozaura era a engeitada ; Rozaura cra a filha de Adelaide e Conrádo; a creança que vira morta, era outra. — Anda, minha filha, toma, muda essa roupa, — disse Lucinda entrando e entregando a Rozaura um vestido. — Agora, — continuou ella depois de ter ajudado a menina a vestir-se. — agora você ha de me dizer uma cousa, que ainda não me disse, porque eu ainda não perguntei. Donde é que você é ?. . . quem foi teu sinhô ou tua sinhá, que tp vendeo para sinhô Moraes. . você é daqui mesmo de S. Paulo .. falla verdade, minha filha. Tia Lucinda, que precisão tenho eu de mentir? sou mesmo aqui de S. Paulo; sou cria da casa de uma mulher velha, que mora na beira da estrada, que vae para as bandas de Jundiahy, chamada Nha- Tuca. Minha mãe morreo, já vae para cinco annos... — E de que cor era tua mãe? . . . — atalhou Lucinda. — Minha mãe minha mãe era... um pouco mais trigueira do que eu. — Ah! logo vi ; era mulata, — murmurou comsigo a preta. — O que eu desconfio, vae tomando rumo. E depois, minha filha. — E depois, eu havia de ter uns dez annos, minha sinhá me vendeo a um homem velho, que costumava comprar para vender por fóra combois de escravos. Elle a mulher delle ficárão gostando de mim, me estimavão muito, c não me querião vender por nada. Si não fossc o senhor Moraes, que tanto teimou e offereceo tanto dinheiro, elles não me vendião. Mas escuta, menina; você nunca ouvio dizer que lá na casa de Nha-Tuca, quando você nasceo, aconteceo alguma cousa ? . . . — Não, tia Lucinda ; não me lembro de nada. Puxa pela memoria, menina; lembra bem... talvéz... Ah! Ah! agora me lembro, tia Lucinda, — replicou Rozaura batendo na alva testa com os rosados dedinhos ; — a cr ol'a me lembro que lá em casa de sinhá velha ouvi contar que no dia em que eu nasci, appareceo na porta de casa uma menina engeitada, que morreo no mesmo dia. Sancto nome de Jesus ! . . murmurou Lucinda benzendo-se. Eis ahi como são as cousas deste mundo ? . . . Ah ! Rozaura ! Rozaura . está me parecendo que essa menina engeitrada não morreo nada. — Como assim, tia Lucinda! . . . — Não sei, minha filha, mas tenho cá minhas scismas... Deixa estar, menina; ou cu não sou filha de minha mãe, ou hei de desmanchar esta candonga, seja lá como fôr. Neste momento appareceo Estella, que vinha charnar Rozaura, e Lucinda achando-se a sós ficou a banzar sobre o estranho caso, que acabava de presenciar, e quanto mais scismava, mais se convencia de que Rozaura era a filha de Adelaide, que ella havia exposto, na porta da casa da velha Gertrudes. — Deus de misericordia ! pensava ella. Como é que póde acontecer uma cousa destas a mãe, sem saber, comprar sua propria filha e tel-a em casa como escrava ! . . . E ha de continuar a tel-a nessa conta sem nunca poder saber a verdade !? . . . Não; isto não póde continuar assim... Deus não quer isto. Agora, que pouco mais ou menos já dei na malhada, hei de botar tudo isto em pratos limpos, custe o que custar, Assim reflexionando, a preta começou a excogitar os meios que empregaria para rasgar completamente o véo daquelle mysterio, que um acaso, ou antes um assignalado favor da providencia lhe ia revelando. Para Lucinda já era fóra de duvida que Rozaura era a filha de Adelaide; mas nem a sua convicção pessoal, nem sua mera asseveração, nem mesmo a allegação dos vehementcs indicios, que corroboravão sua suspeita, serião sufficientes para restituir Rozaura á posicão que pelo nascimento lhe era devida. Depois de muito pensar convenceo -se de que ella, pobre e ignorante escrava, por si só nada podia fazer de acertado e efficáz naquella con junctura; pensou que o melhor expediente, de que podia lançar mão, era communicar immediatamente sua descoberta a Adelaide. Esta, em vista de tão valentes indicios, sem duvida não hesitaria em reconhecer quanto era natural e plausivel a supposição da escrava. Demais a boa e sensivel preta, que apezar de sua condição conhecia os mais delicados sentimentos do coração humano, sabia que a ser exacto o que suppunha, a voz da natureza, esse poderoso instincto que jamais engana, juntando-se a tantas outras provas auxiliares, viría cortar toda a duvida e dizer a ultima palavra. Firme em seu proposito Lucinda esperou peIas horas mais adiantadas da noite, em que o senhor Moraes sahia a passeio, como era de costume, e em que as creanças estavão dormindo, para fazer á sua sinhá a revelação do mysterio, que lhe preoccupava o espirito. CAPITULO V Confidencia. Era perto de dez horas da noite. Em casa do major Damazio tudo repousava em profundo silencio. As creanças dormião o somno suave e tranquillo da innocencia. Rozaura que tinha o seu aposento em um pequeno quarto immediato á alcova de sua senhora, apezar dos transes e inquietações por que passara, ha muito que adormecera. Havia chorado um pouco antes de conciliar o somno pensando nas perseguições de Moraes, e mais ainda nos desabrimentos da senhora; mas graças aos seus quatorze annos, á pureza de seu coração e á tranquillidade de seu espirito, a insomnia lhe era desconhecida. Só Adelaide velava reflectindo nas ingratidões e desvarios do marido e na pretendida deslealdade de Rozaura, da qual a cegueira do chime lhe fazia formar tão máo conceito. Todavia quando com o espirito mais calmo se lembrava da physionomia de menina tão cheia de pudor e candura, de suas maneiras tão honestas e recatadas, de sua indole tão docil e fagueira, repugnava-lhe a idea do móo procedimento que lhe attribuia em seus accessos de despeito, e um mysterioso sentimento de benevolencia e ternura como que a obrigava a innocentar no intimo da alma a desventurada cscravinha. Á força de entregar-se ao embate de tantas tribulações e dissabores, Adelaide havia chorado, e encostada a um bufete tinha os olhos rubros e humidos quando Lucinda entrou-lhe pelo quarto. — Santa Virgem ! — exclamou a preta obscrvando a physionomia alterada e os olhos macerados da senhora. — O que é que lhe aconteceo, sinhásinha? — Nada Lucinda ; -— absolumente nada. Nada !! não me engana ; . . . como é que sinhásinha então está assim com os olhos vermelhos e cheios d'agua! —- É verdade, Lucinda ; estava pensando cm cousas bem desagradaveis, e creio que chorei um pouco... mas... — Mas o que, sinhásinha ? . . . não me esconda nada, não ; póde sem susto abrir seu coração com sua preta. Não quero ver sinhásinha chorando assim; o que é que mecê tem? Lucinda, como o leitor sabe, fora outróra em 'circumstancias bem criticas a amiga dedicada, a leal confidente, e a unica depositaria do maior ou antes do unico segredo de Adelaide. Esta portanto não tinha razão para recusar-se a explicar-lhe o motivo de seus desgostos, e naquella occasião até estimou o apparecimento e a interpellação da escrava, porque tinha realmente necessidade de desabafar com alguem as maguas que lhe opprimião o coração. E com quem melhor poderia ella abrir sua alma, do que com a velha e leal escrava, que de tanto lhe tinha valido nos mais apertados e melindrosos transes de sua vida intima Assim a preta, que viéra para fazer uma revelação, teve de ouvir em primeiro logar as confidencias e queixumes da senhora ; tanto melhor para Lucinda, que assim se achava ern mais favoraveis disposições para entrar com sua senhora em conversação confidencial. Adelaide, com algum vexame e embaraço, mas em poucas e rapidas palavras, expoz á escrava o motivo de seus desgostos; contou não só as inipudentes tentativas que seu marido fazia quasi á sua vista, para seduzir Rozaura, como tambem as desconfianças que nutria a respeito desta. Eu sei já disso tudo, sinhásinha, — disse Lucinda ; mecê tem razão contra sinhô moço; com effeito elle tem andado muito mal . Mas a respeito da pobre menina, sinhásinha anda muito enganada. Si sinhésinha soubesse quem é esta Rozaura... — Sei bem, Lucinda ; ella me parece muito boa rapariga, cuidadosa, diligente e muito carinhosa com as creanças, mas... desconfio... Deixa dessas desconfianças, sinhásinha, Rozaura não é capáz disso. Si sinhásinha soubesse tudo, como eu sei, em vêz de zangar-se com ella, havia de trazel-a mesmo dentro do seio, como si fosse sua filha. A estas palavras Adelaide sentia um estremecimento involuntario. — Como si fosse minha filha! porque dizer isto, Lucinda ? —- Sim, senhora, — insistio a escrava, como si fosse sua filha, e sinhásinha havia dc arrepender-se mil vezes de tel-a em tão ruim conta. Ha ahi uma cousa que eu devo por força contar á sinhásinha, si não quizer botar minha alma no inferno. O que é? conta, Lucinda..., será ainda alguma desgraça?. — Não, sinhásinha, não é nenhuma desgraça; antes pelo contrario é cousa de lhe dar muito gosto e alegria. — Devéras, Lucinda ! ...pois conta de pressa o que é isso. Lucinda então acocorando - se aos pés da senhora, e abafando a voz para não accordar as creanças e Rozaura, que dormia alli bem perto, contou por miudo tudo quanto nessa tarde se tinha passado entre ella e Rozaura e a plena convicção em que estava á vista de tão vehementes indicios, de que a escrava que o senhor Moraes havia comprado não era outra sinão a filha de Adelaide, que ella Lucinda havia exposto em casa de Nha-Tuca e que, não se sabe com que interesse ou para que fim, fizerão passar por morta. — Meu Deus! meu Deus ! exclamou a moça levantando as mãos ao céo. Será possivel ! ter sem o saber comprado como escrava minha propria filha l... Ah! si assim é, Lucinda, foi Deus, foi a divina providencia, que se servio das más intenções de meu marido e fez Rozaura correr para junto de ti naquelle estado afim de tudo se descobrir. Sem isso era bem possivel que elle ficasse por muito tempo, talvez por toda a vida, condemnada ao captiveiro e isto em casa de sua mãe, no meio de suas irmãs ! . . . ah ! só de pensar nisto arripião-se-me as carnes, e se me espedaça o coração Mas agora sinhásinha só tem motivo para dar graças a Deus, que não permittio que assim acontecesse. É verdade, Lucinda. Ah ! Rozaura ! Rozaura ! minha infeliz filhinha, continuou Adelaide estendendo os braços para o lado, em que dormia Rozaura ; —perdoa-me; enganarão-me; eu não podia saber do teu destino ; mas hoje graças a Deus, vejo-te viva e perto de mim ! Mas ah ! isto parece-me impossivel, continuou ella a braços ainda com a incredulidade ; viste bem esse signa], Lucinda ? quem sabe si não ha algum engano do tua parte? quasi todo o mundo nasce com algum signalsinho no corpo. — Isso é verdade; mas no mesmo lugar do mesmo tamanho e do mesmo feitio, sinhásinha? ! e demais a mais acontecer que no Inesmo dia em que Rozaura nasceo, morreo uma creança engeitada em casa de Nha Tuca?! Imagina bem, sinhásinha, e verá si ahi anda alguma tramada, ou não. Demais disso, repara bem na carinha de Rozaura, sinhásinha, e me diga com quem ella dá ares. Elle se parece com sinhásinha um pouco porém ainda mais com certa pessoa, que mecê bem sabe. — Sim ! sim ! cala-te Lucinda ; tudo isso é verdade,—disse Adelaide arquejando de emoção. — Além disso desde a primeira vêz que puz os olhos em Rozaura, comecei a sentir por ella uma affeição e ternura de mãe... oh ! Lucinda ! . . . não ha duvida mais para mim... Rozaura é minha filha. A sorpresa e emoção de Adelaide erão extremas. Muito havia ella soffrido por amor daquelle primeiro fructo de um amor infeliz ; os longos annos que havião decorrido, a felicidade conjugal que havia encontrado, os carinhos do pae e do esposo, as caricias dos filhinhos não tinhão podido apagar a lembrança da innocente e infeliz menina, que do seio materno passára a braços estranhos e delles ao tumulo, nem estancar de todo o pranto, que tão dolorosa recordação ás vezes lhe arrancava ao coração. Nesses ultimos dias principalmente, e depois que Moraes, desmentindo o seu passado se entregava a desregramentos indisculpaveis, soffria mais cruelmente que nunca, e sentindo o remorso atassalhar-lhe a alma attribuia sua desgraça a castigo de Deus pelas fraquezas de sua mocidade. — Rozaura, minha filha, perdoa-me ! exclamava ella com lagrimas nos olhos querendo precipitar-se no quarto vizinho a ir abraçar a menina, que dormia o somno dos anjos. Lucinda a custo poude conter e acalmar sua senhora. —Não, minha sinhá; não accorde a menina ainda não ; deixe ella dormir. Por emquanto é bom que ella não saiba nada do que se passa. Antes de tudo é preciso procurar modos de tiral-a do captiveiro e justificar que ella nasceo livre. Mas je vae ficando tarde, e sinhó Moraes não pode tardar por ahi. Amanhã nós precisamos conversar para ver como se ha de arrumar isso, ouvio sinhá sinhá ! A preta tomou a benção e retirou-se. Dahi a pouco chegou o senhor Moraes, que fatigado dos passeios tratou immediatamente de deitar-se, e em breve adormeceo profundamente, Adelaide porém com o espirito superexcitado pelo singular e estranho acontecimento que acabava de lhe ser revelado, não podia conciliar o somno. Por tres vezes levantou-se c tomando a lampada, que ardia sobre um bufete, emquanto todos dormião, dirigia-se pé ante pé para o quarto de Rozaura, e alli sentando-se de mansinho á beira da cama da menina adormecida ficava por longo tempo a contemplar-lhe o rosto angelico que lhe despertava n'alma recordações a um tempo tão triste e tão suaves. Da terceira vez, que lá foi, o semblante da gentil escrava appresentava um aspecto ainda mais risonho e encantador; um sonho celestial parecia illuminar-lhe a physionomia. Adelaide a contemplava absorta e enlevada, e a muito custo continha-se para não estreitala nos braços e cobril-a de beijos. Dir-se-ia que a filha, apezar de ter os olhos cerrados, estava vendo com os olhos d'alma o rosto da mãe, que a contemplava, procurava sorrir-lhe e se esforçava por lançar-lhe ao collo os braços entorpecidos peio somno. De feito passados alguns instantes os braços de Rozaura fizerão um pequeno movimento para se erguerem, e a rosada boquinha entreabrio-se mostrando os alvos dentes n'um sorriso cheio de caricias e meiguice. Adelaide não poude conter—se; abaixou o rosto sobre o de Rozaura, e a mãe em um assomo de ineffavel ternura encostou sua bocca á da filha, o colheo nos labios della aquelle angelico sorriso, como o colibri colhe a gotta de mel no calis de uma rosa. Rozaura accordou e abrio os olhos; mas já Adelaide, medrosa como o amante que tivesse furtado um beijo á amada adormecida, tinha apagado a lampada rapidamente e se esgueirado para sua alcova. CAPITULO VI Um sonho realidade. A descoberta que Lucinda acabava de fazer, havia collocado Adelaide na mais singular e complicada situação. O vivo prazer que experimentava vendo sua filha como que resuscitada, e além disso crescida, vigorosa e bella como um anjo, era contrabalançado por considerações que o leitor bem póde avaliar. Tinha sua filha em casa, é verdade, mas como escrava, como propriedade, como um movel. Era-lhe possivel talvez libertal-a á força de instancias e supplicas para com seu pae e seu marido e depois conservava por tempo indefinido cm casa junto a si, mas como liberta, e não como filha, não como irmã dc seus outros filhinhos. Bern sc vê que isto só poderia suavisar um pouco a sorte da infeliz engeitada, mas seria dolorosissimo para um coração materno. Era mistério menos que se verificasse que Rozaura, — embora não se declarasse ser filha de Adelaide, não nascera captiva, e que só um cruel e inexplicavel destino a fizera passar por tal, e como tal ser vendida de mão em mão. Demais, esse facto de que somente Adelaide e Lucinda se achavão intimamente convencidas, não estava comprovado, sináD pelos indicios, aliás robustissimos, em que se firmara a velha escrava. Essas provas porém não erão ainda peremptorias, e não constituião sinão presumpções muito fortes em favor da supposição de Lucinda. Sem algum documento escripto, sem alguma justificação irrefragavel, essa supposicão podia cahir por terra, como mero embuste de ne ora velha, e a condição de escrava da pobre Rozaura, não tendo nenhum fundamento solido para ser contestada, nem ao menos poderia ser posta em litigio. Não erão porém só esses os maiores embaraços, com que luctava o espirito atribulado da pobre senhora. Mesmo que Rozaura fosse reconhecida livre e nascida de paes livres, jamais poderia ser reconhecida como sua filha, sem que Te revelasse a nodoa do seu passado, e sem incorrer no desprezo e talvez no odio de um e outro. Poderia ella confessar a um ou a outro a sua falta com esperança de obtér indulgencia e perdão ? . . . Era principalmente para com o esposo que a posição de Adelaide se tinha tornado uma das mais difficeis e angustiosas, que se póde imaginar. Confessar ao marido uma falta, que ha mais de doze annos lhe havia occultado, era um passo arriscadissimo, a que jamais se abalançaria. Tinha vergonha, e tambem muito medo da colera do marido. Quando se ama uma mulher, que se julga pura, o ciume não perdoa nem mesmo as frequezas do passado. Luctando com estas angustias do coração e perplexidades do espirito, Adelaide, que nem um momento adormecera, esperou anciosa o alvorecer do dia. Rozaura com um semblante risonho e tranquillo foi a primeira que lhe veio pedir a benção. Adelaide olhou para ella com enternecimento e alegrou o coração da pobre menina. Adelaide esperava com impaciencia uma occasião opportuna, em que achando-se a sós com Lucinda, se aconselhasse com ella a fim de combinar os meios de salvar Rozaura das garras do captiveiro e fazel-a reconhecer como livre de nascimento sem comprometter a honra de Adelaide ; sem revelar o triste acontecimento, que até alli felizmente havia dormido na sombra do mais profundo mysterio. Temos fallado muito de Lucinda, e temos visto ella fazer um papel importante nesta historia sem lhe darmos o devido appreço. Era uma creoula velha, que havia amamentado sinhá Adelaide, e que a queria como filha. Tinha muito juizo, muito boa alma e muito boas intenções. Além disso a velha creoula era dotada de tal ronha, penetração e finura para negocios difficeis, como os de que vamos tratando, que faria inveja ao mais habil diplomata. Lucinda porém differia dos diplomatas em só empregar o seu talento a bem da paz e da prosperidade da familia, de que fazia parte, e não em multiplicar difficuldades alimentando o espirito de discordia. Rozaura, que tinha accordado alegre e risonha com um passarinho, que saúda uma bella aurora, apenas tomou a benção a Adelaide, correu logo a tagarebar com Lucinda. — Tia Lucinda, não sabe? . . tive esta noite um sonho, o mais bonito deste mundo, um sonho, que me fez chorar de alegria. — Devàras, menina bem bom é isso. Então que foi?... — Adivinhe, tia Lucinda. — Não sou adivinhadeira... mas de certo você sonhou com os anjinhos do céo, minha menina. Que mais podia você sonhar? . . . É quasi isso mesmo, tia Lucinda. Eu sonhei que estava debruçada na janella olhando para o céo. Era de noite. Eu estava namorando as estrellas.,. — Bonito namoro, interrompeu a creoula, de certo ellas tambem te estavão namorando. Comecei a lembrar-me de minha mãe, que já morreu, — continou a menina sem dar muita attenção á lisonjeira replica da creoula, quando uma nuvem cheia de luz se apresentou no céo mesmo defronte de meus olhos. Esta nuvem veio descendo pouco a pouco até chegar bem perto de mim. Dentro della vinha uma mulher. A principio fiquei com medo ; mas essa mulher tinha um ar muito meigo, e disseme com brandura : — Minha filha, não chores mais tua mãe; eu não morri, não ; fui ao céo, e agora volto para ficar comtigo. Si ella não tivesse dito que era minha mãe, eu não a conhecia. Era uma mulher muito mais moça e muito mais bonita que a defuncta mamãe. Tinha os cabellos bem compridos e soltos, e a cór mais clara. Queria abraça-la, mas não podia ; ella chegou bem pertinho e deu—me um beijo na bocca. Acordei, mas até agora ainda me parece que estou sonhando aquelle sonho. — Devéras . — disse Lucinda: e quem sabe, si esse sonho não era verdade ! — Como!... isso não é possível!... — Deixa estar minha menina; esse teu bonito sonho é ao menos de muito bom agouro. — Deus o permitta, tia Lucinda. Neste momento appareceu Adelaide, e depois de ter encarregado a Rozaura de cuidar do almoço, chamou Lucinda a seu quarto. O marido e o pae tinhão descido para a loja ; os meninos alegres e descuidosos brincavão pela casa. Lucinda antes de tudo contou a sua sinhá o sonho de Rozaura. — Que singular coincidencia ! — exclamou Adelaide commovida até o intimo da alma. Havia de ser por certo no momento, em que eu estava perto della allumiando-lhe o rosto, e que ella rio-se para mim sonhando, e eu beijei-lhe a bocca. — Ah! minha sinhásinha!... que me está dizendo? issó é devéras?.. — É a pura verdade, Lucinda ; fui por tres vezes com a luz na mão espiar o somno de. .. de minha filha, sim de minha filha ; hoje estou certissima de que Rozaura e minha filha. — E sinhásinha não está vendo que ahi anda o dedo de Deus. Bem estava eu dizendo ainda agora á Rozaura que aquelle sonho tão bonito bem podia ser uma verdade ; e era mesmo, mais do que eu pensava. Essa mãe, que não morreo, e que ella estava vendo, quem era mais senão sua mãe verdadeira, sinão sinhásinha mesmo? — isso, Lucinda; parece que Deus por fim se compadece de mim, e nos quer favorecer, e tenho esperança de que Rozaura ainda ha de ser muito feliz. Mas vamos ao que agora mais importa ; o que havemos de fazer a bem de Rozaura ? pensaste nisso, Lucinda? Ah! sinhásinha, eu banzei a noite inteira parafuzando na imaginação um modo de arranjar isso, sem que sinhásinha fique mal, e só achei um furo. Qual é elle? falla, Lucinda. — Talvez sinhásinha não ache bom mas eu não vejo outro remedio. — Não tenhas receio, falla, Lucinda ; para conseguir a liberdade e fazer a felicidade de mi' nha filha, estou disposta a tudo. — Está direito, e mesmo eu penso que é de nossa obrigação fazer o que me veio cá na idéa. O que é então, Lucinda? estou impaciente por saber. — Sinhásinha sabe que sinhá Rozaura não e sua só... Pois de quem mais é'? Ui sinhásinha pois não é tambem de nho Conrado? — Ah ! por certo, — respondeo Adelaide corando e baixando os olhos. — Nesse caso nós devemos participar tudo a elle. Si elle não puder nos guiar e ajudar neste negocio, ninguem mais. Elle é rico, e tem muito boas amizades na terra ; e demais sinhásinha bem póde imaginar, quanto elle é capaz de fazer sabendo que tem uma filha linda e mimosa, e que essa filha está no captiveiro. — Tens muita razão, Lucinda; e eu que nem nisso havia pensado ! mas a fallar-te com franqueza repugna-me bastante dar esse passo. Não vá elle agastar-se commigo, ficar nos tendo odio e desprezo por termos engeitado a menina, e no excesso de sua indignação revelar tudo a meu pae e a meu marido, e expôr-me á vergonha e desprezo de todos aqui. Ah I Lucinda, tenho muite medo. — Nem pensar nisso, sinhásinha ; eu conheço muito nhó Conrado ; elle é incapaz disso. Tem muito bom coração aquelle moço, e bastante juizo para N er que sinhásinha não podia criar sua filha. O que depois aconteceo, não foi pop culpa nossa. Mas elle de certo me ha de ter odio por terme casado com outro. — Qual odio, sinhásinha! então elle não ha de saber que aqui correo como certo que elle tinha morrido ! Por fim de contas não vejo sinào elle, que póde e deve amparar a pobre Rozaura. Deixa tudo por minha conta, sinhásinha ; hoje mesmo eu vou conversar com nhô Conrado; primeiramente hei de sondar elle com geito, e depois si eu perceber nelle boa disposição, como espero, conto-lhe tudo sem esconder nem disfarçar cousa nenhuma. Sinhásinha me manda hoje de tarde á rua para qualquer serviço, e eu vou direitinho á casa de nhO Conrado, e logo de noite lhe venho dar conta do que se passar. — Pois sim, Lucinda; agora comprehendo que é indispensavel fazer tudo quanto dizes ; eu, fraca mulher, nada posso fazer em beneficio de minha infeliz filha. Elle é pae, deve e pôde fazer tudo. Deus nos ha de favorecer, Lucinda ; confiemos nelle. CAPITULO VII Conrado capitalista. Já que Conrado, que por tanto tempo passava por morto, agora nos apparece de novo vivo, rico e feliz ao menos na apparencia, é nos indispensavel dar conta por alto ao leitor de como essa noticia se propagou com caracter de tanta veracidade, e do que succedeo ao amante de Adelaide, depois que tão ignominiosa e brutalmente foi expellido da casa do major. Conrado sahio de S. Paulo com o desespero na alma e a mais pungente dÔr cravada no coração. Tinha bastante dinheiro para um rapaz solteiro, e achando-se inteiramente isento de dividas e compromissos, sahio a divagar pelo mundo sem destino certo a ver si pelas distracções das viagem conse o uir mitigar a magua, que lhe atormentava a existencia. Assim andou por espaço de dous annos peregrinando pelas provincias do Rio de Janeiro, Minas e Bahia, dispendendo a pequena fortuna, que em seis mezes o amor lhe fizera adquirir para ir depor aos pés de sua querida Adelaide, mas a despeito de todas as suas tentativas não conseguia esquecer-se da formosa companheira c amiga de sua infancia, da apaixonada e extremosa amante, que na mocidade lhe vertera pelos caminhos da vida o perfume do amor e da felicidade. Escreveo-lhe por diversas vezes, esperando sempre uma resposta, que nunca lhe chegou, porque como sabemos Adelaide não recebera nenhuma de suas cartas. No fim de dous annos chegou-lhe ás mãos uma carta, não dirigida a elle, que em S. Paulo passava por morto, mas a um paulista então residente no Sincorá, onde Conrado tambem se achava, na qual entre outras cousas se noticiava o casamento de Adelaide. Este rude e doloroso golpe o prostrou por muito tempo, sua razão esteve a extinguir-se, e sua existencia vacillou ás bordas da sepultura; seus amigos e mesmo os medicos, quo o assistião, chegarão a desesperar de sua vida, Mas sua juvenil e robusta organização não permittio que succumbisse aos soffrimentos physicos e moraes, que o atormentavão. Restabelecco-sc si bem que com custo e lentidão, e logo que sentio-se com o juizo mais firme c a saude mais vigorosa, começou a pensar no que deveria fazer. O amor de Adelaide não era para elle (lalli em diante mais do que um tumulo, sobre o qual não deveria derramar nem as lagrimas da compaixão, nem as flÔres da saudade, mas sim calcal-o aos pés com odio e com desprezo. Suas magoas desde então converterão-se em rancor e desejos de vingança. Protestou do fundo d'alma que tomaria do major Damazio, autor principal dos seus infortunios a mais solemne e cabal vingança ; não vingança sanguinosa, Conrado não tinha instinctos de ferocidade, mas vingança moral abatendo-lhe o orgulho e esmagando-o debaixo do peso da mais pungente humilhação. Nada lhe era mais facil; o major em sua vida passada offerecia largas brechas, pelas quaes podia ser atacado e abatido até o rez do chão. Para esse fim só lhe era mistér agora tornar-se rico o mais que lhe fosso possivel, Não possuia dinheiro sufficiente para entrar em altas especulações ; mas jà era muito conhecido e considerado entre os estancieiros de Curitiba, e não lhe faltava credito, graças ao feliz exito de seus primeiros negocios. Entrou de novo na vida de muladeiro, e cm poucos annos adquiri uma fortuna, que naquella epoca em S. Paulo bem se podia dizer colossal. O que o amor outrora lhe fizera alcançar, hoje o obtinha em mais alta escála o desejo dc vingança. Achando-se já sufficientemente rico para passar vida independente entre os esplendores de luxo e da opulencia, deixou a vida fragueira de muladeiro, e veio estabelecer se na capital da provincia, onde comprou no centro da cidade um vasto predio, que ornou e mobiliou com todo o luxo e magnificencia. Possuia uma cocheira sempre guarnecida dos mais bellos e vi oorosos animaes, e um formoso e elegante caleche, no qual se apavonava com aristocrarico desplante com personagens altamente collocadas, percorrendo as ruas mais publicas da cidade. Com esta ostentação que nem estava em seu caracter lhano e despretencioso, nem se harmonisava com suas idéas eminentemente democraticas tinha somente em vista esmagar a estolida vaidade do major, ao qual pretendia não só humilhar, como tambem expor ao ultimo ridiculo perante a sociedade paulistana. Tres ou quatro vezes mais rico do que elle, conhecendo a baixa linhagem de que procedia o seu velho ex-patrão e sabedor de todas as suas manias e de seus precedentes, Conrado jogava com inquestionavel superioridade, e o capatáz outrora achincalllado e expellido podia acrora calcar aos pés a philaucia ridicula e imbecil de seu antigo patrão. Todavia as vingativas intenções, com que chegara a S. Paulo, esmorecerão e esfriárão completamente com as informações que tevc logo depois da sua chegada. Só então soube que ha muito tempo passava por morto. Este boato, que correra em S. Paulo e fôra geralmente acreditado, tivera por origem o facto de ter realmente morrido no Sincorá um outro negociante do mesmo nome e da mesma provincia que Conrado, e tendo chegado essa noticia a S. Paulo, onde o outro era desconhecido, todos facilmente acreditárão que o fallecido era o amante de Adelaide. O major Damazio foi o mais empenhado em propalav esta noticia, que muito estimou, fingindo até ter recebido cartas que confirmavão, pois elle até scria capaz de invental-a só para destruir as esperanças que sua filha por ventura ainda nutrisse a respeito do capatáz. O tempo, os trabalhos e os soffrimentos não tinhão podido extinguir de todo no coração de Conrado aquelle amor profundo e ardente, que concebera por aquella que fôra o enlevo de seus primeiros annos, e o sonho inebriante de sua mocidade, amor de que conservava ainda amarga e saudosa recordação, Ao saber em S. Paulo que Adelaide fôra illudida como todos, acreditando em sua morte, que não de muito bom grado consentira em se casar, e que como esposa e mãe tinha tido sempre uma vida honesta e exemplar; teve dobrado motivo para lastimar sua sorte por ter perdido aquelle anjo que o céo lhe havia destinado, e que a estolida vaidade de um pae insensato lhe havia roubado para sempre. Desvaneceo-se dc todo o despeito, que conservava contra Adelaide, perdoou-lhe de todo o seu coração, mas sua animosidade contra o majar por isso mesmo mais recrudesceo, e si o poupou, e não levou sua vingança ao extremo que desejava, foi em attenção á estima e consideração que lhe merecia a filha. A unica e ligeira vingança, de que usava, era quando repoltreando em seu lindo caleche em companhia de pessoas de alta consideração, si por acaso encontrava pelas ruas o major, o saudava con a ponta dos dedos, dizendo—lhe com zombeteira familiaridade Adeus, major; como vae essa bizarria ! — O major horrorizava-se como si tivesse visto o diabo, enterrava ainda mais o chapéo na cabeça, e seguia seu caminho a tossir, escarrar e resmungar, com o que muito Conrado se divertia. Conrado era capitalista ; não tinha armazem, nem loja; sua fortuna girava productivamente, sem que suas mãos morenas c musculosas, mas delicadas, precisassem descalçar a luva para pegar no covado. Era correspondente de grande numero de estudantes, com os quaes entretinha relações de amizade. Os estudantes o estimavão e frequentavão, não só por suas bellas qualidades, como cambem porque Conrado atravéz das vicissitudes de sua vida agitada soubera cultivar seu espirito, amava e leitura e apreciava a sociedade dos litteratos. Muitos e vantajosos casamentos se lhe tinhão offerecido; mas a todos elle se havia esquivado ; a triste recordação de seu primeiro amor tão malaventurado o fazia recuar ante a idéa do casamento. Achava-se elle pois nesta brilhante e invajavel situação, quando se derão os factos, que temos referido, e que vierão de novo pôl-o em contacto, ainda que em condições bem differentes, com a familia do major, com a qual suas relações ha mais de doze annos achavão-se quebradas. Na tarde pois desse mesmo dia, em que Lucinda teve com sua senhora a conversação, de que demos conta no capitulo antecedente, a velha escrava foi baterá porta do aristocratico predio em que Conrado residia. Era já sol posto, e felizmente para Lucinda, achava-se Conrado sósinho em seu salão de visitas, donde ainda ha pouco se tinhão retirado alguns illustres personagens. Estava clle nessa occasião meio reclinado em um sophá, justamente embebido em ternas e dolorosas recordações dos amores de sua mocidade, da sua querida Adelaide, aos pés da qual com quanto prazer não teria deposto toda aquella riqueza e opulencia, de que gozava, si uma estrella funesta não tivesse vindo perturbar o seu destino, e entenebrecer para sempre os horizontes de sua vida Quando um criado veio annunciar-lhe que uma preta velha o vinha procurar e desejava como um grande favor fallar-lhe em particular. Conrado que era bomfazejo e esmolér, julgou que seria alguma desgraçada, como tantas outras, a quem costumava fazer generosas esmólas. Quando porém depois de a ter feito entrar no salão, reconheceo a velha escrava do major, sentio um choque inexplicavel. Oh! és tu, Lucinda! exclamou com sorpreza e emoção. — Tu em Ininha casa! É uma grande novidade. Há mais de doze anos que não fallo com pessoa alguma de lua casa, á excepção do teu hello senhor, a quem ás vezes comprimento, quando o encontro na rua. — É mesmo, nhô Conrado, é mesmo uma grande novidade, que hoje me traz á sua casa. Devéras! deve ser mesmo assim, pois já vão para seis annos , que moro aqui em S. Paulo, e é a primeira vez que vens á minha casa. —Podia e devia ter vindo ha mais tempo si ha mais tempo tivesse sabido da grande novidada, que hoje me traz aqui; mas só hontem é que vim a saber. Enches—me de curiosidade, Lucinda ; senta-te ahi n'uma cadeira e vamos á tua novidade. És uma excellente rapariga, e cstou certo que por tua vontade só eu não teria soffrido o que soffri em casa de teu senhor. Mas antes dc (judo, (lize-me, como vac tua senhora? goza saude, c vive satisfeita? — Ella vae indo bom, louvado seja Deos. Mccê ainda se lembra d'ella? Como não, Lucinda? replicou Conrado algum tanto desconfiado da pergunta; — lembro-me sempre della e com muita saudade, mas com amor não; bem vés que isso hoje é imnossivel. Mecé não me entende ; eu queria saber si não ficou querendo mal a ella pelo que aconteceo. — Por ella ter-se casado? — Senhor, sim. — A dizer-te a verdade, Lucinda, a principio fiquei com bastantc odio (lella, porque não sabia das tramoias, que cá se armárão dando-me por morto. Mas dcpois que soube de tudo, perdoei-lhe do fundo d'alma, e só fiquei corn urn grande pesar, que ha de durar sempre em meu coraçã(E e um grande odio e rancor, que tambem nunca se ha de extinguir, contra teu senhor, que foi o unico causador de toda nossa desgraça. — Mecê tem toda a razão, nhÔ Conrado; meu sinhô velho é homem que não tem coracão. Como mecês dois se querião bem desde creança, ah ! meu Deos! nunca vi um amor assim. Si ao menos sinhá Adelaide lhe tivesse dado uma filhinha. como mecé havia de querer bem a ella ! . .. Que lembrança é essa, Lucinda lhou Conrado atonito e estremecendo ao ouvir taes palavras. — Que queres dizer com isso Q mas bem ves que isso era impossivel. — Mas faça de conta, — insistio a preta com certo sorriso, que fez scismar a Conrado ; si assim acontecesse... si um filho ou uma filha... — Oh ! si assim fosse, seria para mim uma grande consolação, a unica talvez, que poderia mitigar a dór profunda, que sempre me acompanhará por ter perdido Adelaide. Tu tens razão, eu sou como o viuvo que perdeo a esposa idolatrada ainda na flor dos annos, sem que de sua união ficasse um fructo, em que empregasse os extremos de seu coração. Olha, Lucinda, — continuou elle abrindo um cofreSinho e tirando delle um papel, que embrulhava um pequeno ramalhete de flores mur chas, que estavão quasi pulverísadas. — Ves estas flores murchas? ja nem se sabe o que são. Foi ella, que m'as deo no jardim da chacara um dia, em que declarou-me francamente o seu amor. No dia em que eu soube do casamento de Adelaide, quiz deitar fóra estas flóres; mas não tive animo, parecia que o meu coração adivinhava que ella era innocente. É tudo que resta de nosso antigo amor; são estas flóres murchas e poidas, fiel emblema de minhas illusões perdidas, de minhas esperancas esmagadas pelas mãos do destino. Si eu conservo com tanto amor e tao religioso cuidado estas reliquias mortas de nossa affeiçào. de que extremos, de que adorações nao rodearia o fructo vivo e animado de nosso amor! . .. Mas Deus assim nao permittio; nem isso era possivel... Conrado interrompeo-se; a ernoção, que se apoderava de sue alma com aquellas recordaçõeg, provocavão-lhe as lagrimas. Pousou a fronte sobre a almofada do sophá, e escondeo o rosto entre as mãos procurando dominar sua perturbação. Lucinda o contemplava com ay satisfeito e enternecido, e nao quiz perturbal-o em sua passageira scisma; as cousas corpiño do modo o mais propicio papa o intento, que alli a trouxera. Mas dize-me, Lncinda, — disse bruscamente Conrado, levantando a cabeça da almofada, — a que proposito te veio essa lembrança de um filho meu e de Adelaide, de uma cousa impossivel ? Impóssivel Ah! meu branco, perdão, eu sei de tudo. — De que, Lucinda? — exclamou o moço impacientando-se. — Não se zangue com sua preta, nhÔ Conrado, disse Lucinda abafando a voz e com ar supplicante. — Eu sei de tudo o que mecê sabe, e de mais alguma cousa, que mecê ainda não sabe. — Matas-me a paciencia!... falla de uma vez, Lucinda. — Pois bem, eu vou fallar bem claro. Sinhá Adelaide teve uma filha, que nasceo poucos mezes depois que mecê desappareceo de S. Paulo. — Que estás dizendo, Lucinda! — gritou Conrado levantando-se de um salto, e collocando-se defronte da preta arquejante e pallido de sorpreza e emoção. — Adelaide teve uma filha... de mim? — Pois de quem mais, nhO Conrado'?... — E é viva ainda? — É sim, senhor. — E onde está ella? — Lá em casa. — Em casa de quem? — De meu senhor ; com sinhá Adelaide. — Sancto Deos!... como póde ser isto!... minha filha, si a tenho, deve estar já entrada em quatorze annos ; entretanto ha mais de cinco annos, que moro aqui S. Paulo, nunca me constou que em casa do major existisse essa menina. Oh! porque não me contarão isso ha mais tempo?... — Ah! meu senhor moço ! quer mecê creia, quer não creia, é porque nós tambem não ficamos sabendo de tal cousa, sinão de hontem para hoje, e ha apenas um mez que a menina está lá em casa. E saiba mais uma cousa, que lhe vae doer bastante no coração, mas tenha paciencia, é preciso que saiba de tudo para poder valer á sua filha. Saiba que sua filha foi para lá como escrava, e como escrava là está até agora. — Como escrava!... minha filha como escrava! e em casa de sua propria mãe tu estás zombando commigo, Lucinda! explicame isso já, si não queres me pôr doido. — Tenha paciencia, nho Conrado; sente-se outra vez no seu canapé, socegue seu coração, que eu lhe vou contar tudo o que aconteceo depois que mecê se foi embora de S. Paulo. — Sim ! sim ! . . . conta-me tudo, e depressa, que estou morrendo de impaciencia. Conrado chamou um creado, e ordenou-lhe que dissesse a quem quer que o procurasse,que não se achava em casa. Interessava-lhe ao ultimo ponto a narração que ia escutar, e não lhe convinha por modo algum ser interrompido. Não quiz que se accendessem luzes no salão, — pois já vinha descendo a noite, re— commendou que todos os famulos e escravos se recolhessem ao fundo do edificio, trancou algumas portas, e voltou para junto de Lucinda. Todas estas precauções, inspiradas pelos nobres e delicados sentimentos de Conrado, erão necessarias, porque só elle devia ouvir o que a preta ia revelar; tratava-se da honra de uma senhora, a quem muito amára, a quem muito estimava ainda, e cuja reputação até aquella data se tinha conservado illibada. Que diabo de negocio terá elle com aquella bruxa velha? murmuravão entre si os creados curiosos e pasmados de tão estranha e mysteriosa conferencia. CAPITULO VIII Revelação. Lucinda contou minuciosamente a Conrado tudo, o que havia succedido em casa do major desde a época em que aquelle repellido com brutal tenacidade em suas pretenções á mão de Adelaide vira-se forçado a retirar-se de S. Paulo. Informou-o das rigorosas medidas e precauções que o major tomára a fim de interceptar toda e qualquer communicação entre os dous amantes, de modo que não lhes foi possivel nem mesmo fazel-o sabedor do grave e melindroso estado em que se achava Adelaide. Si não fosse a dilatada e opportuna viagem que fizera o major, e os cuidados e precauções tomadas por ella, Lucinda, não sabe o que teria sido da honra e mesmo da vida da pobre sinhá, que teria talvez succumbido victima da colera do pae. Narrou-lhe como em uma noite Adelaide, assistida unicamente por ella, tinha dado á luz com feliz successo uma linda e vigorosa menina, que nessa mesma madrugada pela deploravel necessidade das circumstancias expôz occultamente em casa de uma vizinha, conhecida pelo nome de Nha-Tuca, que passava por uma senhora honesta e caridosa. Em casa desta mulher ficava-lhes facil velar sobre a sorte de creança, ter frequentes noticias della, soccorel-a por meios occultos e indirectos, e vel-a mesmo de quando em quando, sem suscitar desconfianças ; que nesse mesmo dia porém indo á casa de Nha-Tuca colher disfarçadamente alguma noticia da engeitada, soube que tinha morrido, e vendo em uma sala o cadaver já amortalhado de uma creança recem nascida, acreditou pia— mente, que era o da filha de Adelaide, Voltou a casa com essa triste nova. Passarão-se dous annos, sem que recebessem noticia alguma de Conrado, até que correo em S. Paulo como certa e confirmada por todos a noticia de seu fallecimento. Adelaide passou mais dous annos de tristeza e abatimento, deplorando a perda do amante e da infeliz filhinha, recusando alguns casamentos vantajosos, até que emfim se resolveu, não sem alguma reluctancia, a casar-se com o senhor Moraps, do qual tem tido até o presente quatro filhinhos. A primeira, linda menina, por nome Estella, que é o mimo da casa, e o idolo dos paes e do avó, mostrou ultimamente com insistencia o desejo de possuir uma mulatinha, que lhe servisse de mucama, que a acompanhasse á escola, á missa e os passeios. O avô, que se desejava adivinhar os pensamentos da netinha, deo ordem franca ao €rcnro para procurar e comprar, fosse por que preço fosse, a mais linda mulatinha, que pudesse encontrar. O senhor Moraes, depois de muito procurar, acertou de encontrar com effeito a mais linda joia que se póde imaginar, comprou para escrava de sua filha a filha de sua mulher, a irmã de seus filhos quem tal creria . É uma menina branca, mimosa, rozada e linda como um anjo, — dizia Lucinda. — Tem cabellos soltos, pelle fina... encheo as vistas e fez a admiração de toda a gente de casa... os meninos, coitadinhos, sem saberem que ella é irmã delles, já lhe querem muito bem, por que ella não só é bonita como muito boasinha. Conrado mal respirava ouvindo esta tosca mas fiel descripçào de sua filha. Basta, Lucinda, basta ! interrompeu elle impacientado, agora só quero que me digas por que meio descobriste que essa menina é a filha de Adelaide. Lucinda continuando revelou a Conrado as desconfianças, que lhe haviãD atravessado o espirito ao observar a notavel semelhança que as feições de Rozaura tinllào com as de Adelaide e mais ainda com as de Conrado. Por fim contou-lhe como havia adquirido a certeza de que Rozaura era a filha de Adelaide, em razão do Signal que na vespera havia descoberto no peito da menina, e por certas perguntas que tinha feito, e cujas respostas combinavão perfeitamente com suas supposições. — Deus me perdoe! concluio ella, — si juro falso... mas posso... devo jurar. . . Juro• que Rozaura é a filha de sinhé Adelaide, que fizerão baptizar como escrava. Conrado escutou com a mais profunda attencão a longa narrativa, que a preta lhe fez em linguagem simples e expressiva, e de que demos um rapido resumo, por já ser conhecida do leitor. Elle conhecia bem Lucinda, essa boa e fiel escrava, que creára Adelaide com o leite de seus peitos, e que sempre lhe fôra tão dedicada. Não lhe era possivel duvidar de suas deposições. Apenas a interrompera uma ou outra vez com interjeições de pasmo ou de dó, de despeito ou de colera, —- Oh! meu Deus! meu Deus! — exclamou elle, quando Lucinda terminou. — Minha filha escrava! escrava de outros e por fim ser vendida á sua propria mãe Ah! maldito major! tu só és responsavel perante Deus e a humanidade de tão estranha desventura. Foste tu, e mais ninguem, que reduziste tua neta á condição de escrava. Mas eu juro por Deus e por tudo quanto ha sagrado, minha filha, a filha de Adelaide, em poucos dias será reconhecida livre, como nasceu, e não como liberta, custe o que custar, dinheiro, lagrimas, sangue mesmo, si fór preciso, Lucinda; tu bem vês, Deus nos favorece, e tu tens sido em tudo isto o instrumento da sua providencia. — Sim, nhÔ Conrado; ao menos assim parece; mas tenha dó de sinhá Adelaide; não a ponha a perder; ella, coitada, não tem culpa de nada. — Sim, Lucinda, bem sei, e não quero comprometter a honra e reputação de que goza Adelaide; mas não sei... si isso será possivel... Dize-me uma cousa; ainda existe essa mulher, chamada Nha-Tuca. — Não lhe sei dizer, nhô Conrado. Pensando que a engeitada tinha morrido deveras, não me importei mais com tal mulher; nunca mais fui por aquellas bandas, e nem tenho perguntado por ella a ninguem. — Máo — disse Conrado estremecedo; — si ella não é viva a cousa não está muito bem parada. Só ella poderia desembrulhar este mysterio e converter em certeza o que por ora não passa de uma conjectura. — Não se afflija, nhô Conrado; bem póde ser que ella ainda viva na mesma casa. Amanhã vou saber. Pois sim, Lucinda; vê modos de lá ir o mais breve, que te fÔr possivel, e verificar si é viva ou não essa mulher. Ajuda-me nesta empresa; eu não posso ter nem mais um instante de socego, emquanto não vir minha filha restituida á condição em que nasceu, á sombra deste telhado partilhando commigo destes bens, que deo-me a fortuna; vae, eu saberei recompensar os teus serviços. — Ah! nhó Conrado! pois é preciso paga? . . pois ella tambem não é o mesmo que minha filha? não basta a alegria, que eu hei de ter? deixe-se disso, nhÔ Conrado; sua escrava está prompta para tudo que mecê determinar. Amanhã é domingo : costumo sempre ir ouvir missa em Santa Iphigenia, e tenho de ir á chacara. Da chacara á casa de Nha-Tuca é um pulo. Amanhã pela tardinha, ás mesmas horas que hoje vim, aqui estou para dar parte a mecê do que souber. Aqui te espero. Si por felicidade ainda elle fôr viva, exista ella onde existir, irei immediatamente procural-a, e com um punhal em uma das mãos e urna bolsa bem recheiada na outra, forçal-a-ei a vomitar a confissão da execravel atrocidade, que commetteo. Mas antes disso irei amanhã mesmo, vencendo minha repugnancia, cruzar a soleira daquella casa, sepulchro de minha felicidade, e proporei ao tal senhor Moraes a compra de sua escrava; não quero que ella continue nem mais um só dia no captiveiro. Vou comprar minha filha a peso de ouro ! . . . Depois tratarei de provar aos olhos da sociedade que ella nasceu livre. Ah! nhÔ Conrado, eu acho que sinhô Moraes não vende a menina nem por quanto ouro ha neste mundo. — Julgas isso ! . . . peor para elle. Declararei que Rozaura é minha filha, e como pae tenho o direito de reclamal-a. Si nem assim quizer cedela, lhe direi que tenho certeza de que nasceu de mãe livre, o que tratarei de provar perante os tribunaes, ainda que para isso seja preciso despender tudo quanto possuo. — Mas sinhá Adelaide! . . . coitada ! — Não tocarei no nome de Adelaide; minha bocca jamais revelará quem é a mãe de minha filha, salvo no caso que isso seja absolumente necessario. — Permitta Deus que não seja. — Neste caso é bem triste a collisão em que me verei, — entre a honra de uma mulher, que amei, que amo ainda, e a liberdade de minha filha Que partido posso eu tomar? A propria Adelaide, creio eu, não hesitará em confessar sua falta, si assim fór preciso para arrancar sua filha ao captiveiro. —É assim mesmo, nhÔ Conrado; é uma lastima; mas tenho fé que Deus não ha de permittir que isso seja preciso. Lucinda voltou para a casa contentissima pelo feliz resultado da commissão de que se havia encarregado. Ao ver que Conrado nenhum rancor guardava contra Adelaide, e que pelo contrario só tinha para com ellas palavras de affectuosa ternura e de triste e saudosa recordação, seu coração nadava em jubilo. Apressou-se em communicar tudo á sua senhora, que nasceu de mãe livre, o que tratarei de provar perante os tribunaes, ainda que para isso seja preciso despender tudo quanto possuo. — Mas sinhá Adelaide! . . . coitada ! — Não tocarei no nome de Adelaide; minha bocca jamais revelará quem é a mãe de minha filha, salvo no caso que isso seja absolumente necessario. — Permitta Deus que não seja. — Neste caso é bem triste a collisão em que me verei, — entre a honra de uma mulher, que amei, que amo ainda, e a liberdade de minha filha Que partido posso eu tomar? A propria Adelaide, creio eu, não hesitará em confessar sua falta, si assim fór preciso para arrancar sua filha ao captiveiro. —E assim mesmo, nhÔ Conrado; é uma lastima; mas tenho fé que Deus não ha de permittir que isso seja preciso. Lucinda voltou para a casa contentissima pelo feliz resultado da commissão de que se havia encarregado. Ao ver que Conrado nenhum rancor guardava contra Adelaide, e que pelo contrario só tinha para com ellas palavras de affectuosa ternura e de triste e saudosa recordação, seu coração nadava em jubilo. Apressou-se em communicar tudo á sua senhora, que sentio acudirem-lhe aos olhos lagrimas de enternecimento, e estremeceu em sua consciencia de honesta e leal esposa, receando que se ateassem de novo debaixo das cinzas as mal extinctas chammas de seu primeiro amor. Si bem que contente e esperançada pelo modo por que as cousas se ião encaminhando, bem mal dormida passou Lucinda essa noite, atormentada pela incerteza de achar ou não viva Nha-Tuca, esperando com a mais viva impaciencia o alvorecer do dia.  CAPITULO IX Na missa. O mesmo acontecia a Conrado, que passou uma noite agitadissima. A revelação que Lucinda acabava de fazer-lhe, parecia-lhe um sonho, e punha-lhe o espirito quasi em delirio. A's tristes recordações do passado vinhão juntar-se agora as apprehensões do futuro, e toda a noite passou elle a cogitar nos meios mais convenientes e efficazes que deveria empregar para fazer reconhecer sua filha como livre de nascimento, sem comprometter a reputação de Adelaide. Volvendo tambem ás vezes suas vistas para o passado, enxergava nesse estranho acontecimento um castigo da providencia, que assim punia o orgulho, fatuidade e dureza desse homem, que tanto blazonava de branco e fidalgo do mais puro sangue, fazendo que sua baeta até a edade de quatorze annos vivesse na humilhante condição de escrava até por fim ser vendida como tal á sua propria mãe para servir de mocamba a uma irmã sua. Conrado em vão se deitava procurando conciliar o somno pela leitura de algum livro; não conseguia achar distracção alguma ás vivas preoccupações que lhe agitavão o espirito. Levou quasi toda a noite a passear por todas as salas e corredores de sua vasta habitação, consultando a miudo o relogio e a contar essas horas que para elle se escoavão com desesperadora lentidão. Assim esperou elle o fim dessa noite angustiosa, que, apezar de correr o mez de novembro, pareceu-lhe mais longa do que uma noite de junho. Emfim alvoreceu bella e risonha a aurora desse dia que tão anciosamente aguardava, e que tão decisiva influencia tinha de exercer sobre seu destino e sua futura felicidade. Era um domingo. A uma noite brusca chuvosa havia succedido um dia limpo e sereno. O sinos das diversas egrejas dobravão e repicavão alegremente, e o povo, que acudia ás missas matinaes, começava a cruzar por todas as ruas da cidade. O coração de Conrado expandio—se em palpites de prazer e de esperança. — Perdi a amante, que devia ser minha esposa, murmurou comsigo; mas o céo teve piedade de mim e preservou-me a filha, que hoje ou amanhã terei a ventura de acolher em minha casa, e apertar em meus braços. Como era por demais cedo para ir á casa d" major, Conrado tratou de vestir-se para ir á missa da Sé, que os sinos annunciavão, e isto não só para matar o tempo, que tão lento lhe corría, como tambem a fim de implorar a protecção do Áltlssimo para o bom exito do melindroso negocio em que se achava tão vivamente empenhado. Tendo entrado na egreja, depois de feita uma curta oração, começou a passear olhares indifferentes pelos diversos grupos de mulheres que se achavão sentadas pela nave á espera da missa. Subito deo com os olhos em um grupo que fixou-lhe a attenção. Compunha-se elle de uma senhora ainda moça, alta, esbelta e formosa, de quatro galantes creanças e de ulna rapariga, que lhes servia de mocamba, tão branca e tão linda, que si não fôra o trajo mais simples e modesto, c a posição, que occupava atráz do grupo, a tomarieis segurament,e por uma irmã mais velha dos outros meninos. Com aquella vista Conrado estrcmcceo e sentio calafrios; na mãe de familia reconhecera immediatamente Adelaide; mas toda a sua attenção a principio concentrou-se na mocamba. Era Rozaura; não podia haver a menor duvida, era sua filha ; era ella, que alli estava servindo de escrava á sua mãe e a seus irmãos Durante toda a missa o mancebo não arredou os olhos daquelle interessante grupo, que representava para sua alma um passado cheio de saudosas e amargas recordações, e um futuro cheio de anciedade e inquietação. Rozaura trajava um singelo vestido de chita fina, azul-claro, apertado á cintura por uma fita côr de rosa; os cabellos negros e lisos no alto da cabeça, presos por uma fita da mesma cor, descião-lhe soltos pelos hombros caracolando em abundantes e luzidios cachos. A mantilha de lã escura, que trazia em volta do pescoço, em razão da frescura da manhã, ainda mais fazia sobresahirem as linhas harmoniosas de seu busto encantador. De joelhos, com a cabeça inclinada, os braços cruzados por baixo dos seios, só lhe faltavão as azas para que a julgasseis um serafim em altitude de adoração. Conrado a contemplava cheio de enlevo e orgulho, ao mesmo tempo que se lhe confrangia o coração ao considerar que por um singular capricho da sorte essa tão linda creatura, tendo nascido livre, estava reduzida á escravidão, e era captiva de sua mãe. Não ha expressões que possão interpretar em toda a sua intensidade as vivas emoções que assaltárão o espirito do mancebo, ao ver diante de si, ajoe- lhadas ante o altar de Deos, a amante, que o céo lhe destinara para esposa, e que lhe arrancarão dos braços para entregal-a a outrem, e a filha, que logo ao nascer escapára aos braços maternos para ser por meio da mais abominavel machinação reduzida ao captiveiro. Os olhos de Conrado ião de Rozaura a Adelaide, e de Adelaide a Rozaura, e confrontando as feições de uma e de outra não poude deixar de reconhecer a notavel semelhança que entre ellas existia. Já nenhuma duvida lhe restava no espirito; a voz da natureza acabava de confirmar de um modo irrefragavel as supposições de Lucinda, e lhe bradava dentro d'alma : é tua filha. Ainda nada tinha sido revelado a Rozaura a respeito do seu nascimento e verdadeira condição, e nem convinha que o fosse, emquanto esse facto não estivesse verificado por meio de provas evidences e irrecusaveis. Por isso Adelaide, posto que em sua consciencia já tivesse plena e intima convicção de que Rozaura era sua filha, continuava ainda a tratal-a como escrava, si bem que com o mesmo mimo e carinho que prodigalisava aos outros filhos. As duas mulheres corn a attenção concentrada nos actos religiosos não olhavão em derredor, e por isso não notarão a presença do homem que com tanta persistencia as observava. Terminada a missa, Conrado esperou que ellas sahissem, e as foi acompanhando cm certa distancia até sumirem-se a seus olhos, dobrando o angulo• da Rua Direita com a de S. Bento, na qual residia Adelaide. Desejaria nunca mais perder de vista aquellas duas mulheres, ás quaes seu destino se prendia por laços de tanto affeito e de tanto mysterio. Mas não era chegada ainda a occasião, e Conrado, que morava na Rua Direita, entrou em casa unicamente para ganhar tempo, e para não fazer uma visita demasiado matinal, esperou que soassem dez horas. As dez horas e um quarto entrava elle na loja do senhor Moraes.Estava este sentado no mostrador e quasi sósinho, pois o unico caixeiro, que alli existia, estava quasi sumido a um canto entre fardos e rolos de fazenda a olhar para as prateleiras. Depois de se terem cumprimentado friamente como pessoas que apenas se conhecião, Conrado declarou a Moraes que desejava ter com elle uma conversação particular. Moraes o levou a um gabinete no fundo da loja. — Consta-me, disso Conrado, — quc va possue uma linda cscravinha que comprou a um senhor... não me lembra agora o nome. — Ao senhor Basilio, morador na rua do Tabatinguéra; atalhou Moraes; — mas a que vem agora essa pergunta? — Vem muito a proposito, e é até necessaria, porque é justamente a respeito dessa... Conrado não teve animo de pronunciar a palavra — escrava, — que lhe queimava os labios fallando de sua filha. — A respeito dessa menina, — continuou elle corcluindo a phrase, — que venho conversar com va sa . — Ah — murmurou Moraes, que desde começo desta conversação, por uma vaga desconfiança e sem saber bem porque, começava a sentir-se constrangido e contrariado. — Tenha paciencia, senhor Moraes ; escutc-me alguns momentos, que em poucas palavras vou lhe explicar tudo. Essa menina, si é a mesma que eu penso, tem todo o direito á liberdade, e eu tenho o mais vivo desejo, tenho mesmo obrigação de compra-la afim de restituila á liberdade. Não olho a preço; exija, senhor Moraes, que será immediatamente satisfeito. — Sinto não poder satisfazer os seus desejos, senhor Conrado; não ha dinheiro que compre essa rapariga ; é um mimo, que meu sogro fez a uma filha minha, e nem ella, nem eu, nem minha mulher estamos dispostos a vendel-a, nem mesmo quando Vª nos trouxesse todos os thesouros das Mil e uma noites. — Devéras com effeito ! exclamou Conrado, com um sorriso algum tanto sarcastico ; Mas talvez essa menina não seja a mesma que eu penso; va Sa não poderá fazer-me o favor de mandar chamal-a q desejo muito vel-a, porque si não fór a que eu supponho, é escusado incommodal-o por mais tempo. Oh! porque não! — disse Moraes, que chamando o caixeiro deo-lhe um recado e dahi a momentos, Rozaura compareceo á presença de Conrado. Ao encarar aquelle homem, que nunca tinha visto, e que fitava nella um olhar penetrante, mas affectuoso e terno, a joven escrava sentio indizivel ccmmoção e tomou a benção; á maneira dos escravos, abaixou os olhos e corou. Vendo agora face a face e tão perto de si aquelle rosto, em que ao lado da belleza resumbrava toda a candura e innocencia de uma alma angelica, Conrado a muito custo poude conter e dissimular sua emoção. — Encantadora menina ! — murmurou elle, voltando-se para Moraes, que fez um gesto de displicencia. O primeiro impulso de seu coração foi de apertal-a nos braços, e depor-lhe na fronte o primeiro beijo do amor paterno ; mas conteve-se, porque ainda não era a occasião propria para a expansão de seus affectos. — Como te chamas, menina? — perguntou elle a Rozaura com voz afTectuosa. — Rozaura, uma sua escrava, — respondeo a menina. — Rozaura! bonito nome!... que edad? tens? — Devo ter quatorze pouco mais ou menos Em que logar nasceste? . . . — Nasci aqui mesmo perto da cidnde em uma casa, que fica para as bandas de N. Senhora do O. Quem era teu primeiro senhor? . . . — Era uma mulher chamada Nha-Tuca, que me vendeo, quando fiz dez annos, a um velho chamado Basilio, morador na rua do Tabatinguera, e este foi que me vendeo para o senhor Moraes. Conheceste tua mãe? Conheci, sim senhor, eu tinha sete para oito annos, quando ella morreo. — Não te lembras da cor e da figura, que tinha ? — Muito mal; só me lembro que era mulata clara... — Pobresinha ! reflectio comsigo Conrado. — Era presciso ter alma bem negra para reduzir á escravidão e á orphandade uma tão linda e interessante creatura, que aliás nasceo livre e ainda tem o pae e a mãe vivos ! Moraes escutava com especial desagrado e estranheza este interrogatorio, do qual não podia comprehender a importancia, nem o alcance. — Senhor Moraes, disse Conrado voltando-se para elle, — estou satisfeito e ficolhe obrigado. Pelas perguntas, que fiz, e pelas respostas, que a menina me deo, fico sufficientemente inteirado do que me convinha saber. Póde mandal-a retirar-se. Senhor Moraes, — continuou elle depois —- tenho o maior emque Rozaura se retirou, penho em libertar esta menina: já lhe disse que não recuo diante do preço, pop exagerado que seja. Creio tambem que va nenhum interesse pôde ter em conserval„a no captiveiro, e que tem alma bastante nobre e generosa para não desejar ver por mais tempo em tão aviltante condição uma menina tão linda e tão digna de melhor sorte. E a mesmissima rapariga que eu suppunha, e tenho motivos muito particulares e poderosos para tratar de sua liberdade. Si va sa, — respondeo seccamente Moraes. , — tem motivos poderosos para querer libertar essa rapariga, eu tambem os tenho e muito poderosos para não cedel-a por preço nenhum. Demais fique, va Sa sabendo que embora seja ella escrava é tratada com toda a brandura e carinho, como si fosse uma filha. Tambem nós prétendemos dar-lhe a liberdade; mas é cedo ainda ; Rozaura é muito creança; precisa ainda ser vigiada e educada, e está em nossa casa como si fosse nossa tutellada. — Pois bem, senhor Moraes; fico sciente de quaes sejão os motivos, por que não quer ceder-me a menina ; concordo que não deixão de ser poderosos, e mesmo não duvido que Vª Sª se acha possuido das melhores intenções a respeito dessa escrava; mas eu tenho uma razão muito mais attendivel e muito poderosa que qualquer outra, e diante da qual espero que sa , si é homem de bem e de consciencia, como creio, não hesitará um só momento em satisfazer o meu desejo. — Eu ! . . . talvez... mas não comprehendo, que possa haver essa razão tão forte ; . . — É muito simples ; e para que não pense que sou levado a dar este passo por algum motivo menos nobre e honesto, aqui lhe declaro immediatamente e sem rebuço : sou pae de Rozaura. va pae de Rozaura ! exclamou Moraes atonito e desconcertado, com esta brusca e inesperada declaração. É possivel, mas... é bem difficil de acreditar-se. Ve duvida Q pois saiba que não tenho o costume de mentir, nem mesmo em cousas triviaes, quanto mais quando se trata de negocio tão serio, — replicou Conrado assumindo um tom de voz e uma attitude grave e imponente. — Sim! bem póde ser, — disse Moraes balbuciando. Nada mais natural, e mais commum, do que... a gente. . . ter filhos naturaes, mesmo com escravas; mas va poderá provar... — Posso. — Pois bem; mesmo que o prove, que direito lhe assiste para exigir de mim a entrega de sua filha, que é minha escrava? . . . A estas palavras os olhos de Conrado se incenderão em subitos lampejos de indignação e cólera. — Sua filha, que é minha escrava ! . . . esta phrase cruel doeo-lhe mais que o mais pungente e feróz insulto, e- atravessou-lhe o coração como lamina de ferro em braza. Entretanto, uma simples declaração lhe era bastante para fulminar alli mesmo o orgulhoso senhor que usava para com elle de semelhante linguagem. Forçoso porém lhe era por emquanto sopear os impetos de sua indignação ; não devia e nem convinha fazer essa declaração sinão em ultimo caso, e quando já tivesse provas irrefragaveis para confirmal-a. — Julguei que va fosse mais razoavel, senhor Moraes, — retorquio Conrado refreando a custo sua colera. Mas já que a declaração que acabo de fazer-lhe, de que essa menina é minha filha, não é bastante para fazel-o largar mão della, fique sabendo mais que a essa rapariga, que tem como escrava, nasceo livre, de pae e mãe livres, e que não foi sinão em consequencia de uma execranda e infernal machinação que ella desde a infancia se acha reduzida a essa triste condição; o que tudo osso e hei de provar. va não quer cedel-a por dinheiro; bem pois ver-se-ha obrigado a entregal-a sem indemnisação alguma. — Isso é que eu duvido, senhor Conrado; a descendencia dessa rapariga é conhecida c notoria, como ve acaba de ouvir da bocca della mesma. E' filha de uma mulata já fallecida, que era escrava de uma senhora por nome Gertrudes, pessoa que eu mesmo conheci, e que é geralmente conhecida pelos habitantes de S. Paulo, e que talvez ainda exista para confirmar o que digo. — Deus assim o permitta, murmurou Conrado. Quanto ao pae, continuou Moraes pouco nos importa saber quem elle foi, por que como va de certo não ignora partus ventrem sequitur, — a cria segue a condição da mãe. — Sei bem disso, senhor Moraes ; mas va S a está bem certo de que Rozaura é réalmente filha dessa mulata escrava, pertencente á tal Nha-Tuca?.. — Tanto quanto se póde estar certo de uma cousa evidente e incontestavel. Á maternidade é cousa que não se póde pôr em duvida. — Pôde-se muito, e hei de provar que a verdadeira mãe de Rozaura não é essa que se lhe attribue, não é essa escrava de Nha-Tuca, mas uma mulher livre — Mas quem lhe disse isso? quem é essa mulher ?... — Ah! senhor Moraes praza ao céo que ve ss sempre ignore quem é ella?... — E por que razão? que quer dizer isto, senhor? não me explicará 'P — Nada, senhor Moraes; são lembranças tristes, que me attribulão o espirito, — respondeo Conrado arrependido da exclamação, que lhe escapára. Mas emfim, como de fórma alguma quer acceder aos desejos, não quero importunal•o por mais tempo, e vou tratar da liberdade de minha filha pelos meios a meu alcance. — Faça o que entender, replicou seccamente Moraes. E esses dous homens, que ha pouco se tinhão comprimentado com frieza e indifferença, despedirão-se agora em tal tom de máo humor e desabrimento, que fazia presagiar entre elles a mais pertinaz e encarniçada luta. Conrado voltou para a casa summamente contrariado e afflicto com as formaes e terIninantes negativas de Moraes. Não obstante o tom de seguridade com que fallára a este, não deixava de nutrir serios receios a respeito da possibilidade de provar a condição livre de Rozaura. A sua principal esperança repousava sobre a existencia dessa mulher, que a tinha reduzido á escravidão, e da qual espeava arrancar com promessas ou ameaças a confissão de seu crime. As outras provas que podia adduzir, não constituião sinão presumpções, em verdade mui vehementes, mas que podião ser contestadas e infirmadas vantajosamente. O Signal que Rozaura tinha no peito, bem podia ser uma coincidencia devida ao acaso, e demais allegadD por uma simples escrava pouco valor podia ter, até mesmo poderia ser considerado como mero embuste de sua invenção para favorecer sua companheira de captiveiro. A semelhança que se notava entre as feições de Adelaide e de Rozaura, era uma circumstancia, em que nem de leve pretendia tocar, uma vez que pudesse obter o reconhecimento da liberdade de sua filha sem declarar sua maternidade, e por consequencia sem comprometter a reputação de Adelaide. O facto de ter nascido uma creança escrava no mesmo dia e na mesma casa, em que morria uma engeitada tamioem não autorizava a assacar contra uma pobre velha a imputação do hediondo crime de ter substituido pela engeitada a creança morta. Era preciso um depoimento formal de qualquer testemunha insuspeita, que confirmasse as fortes presumpções resultantes de todas estas circumstancias . A unica pessoa, talvez, que á excepção de Nha- Tuca, poderia depor sobre o facto com plena sciencia e consciencia, era a supposta mãe de Rozaura ; mas essa ha muito tempo já não existia. Conrado avaliava em seu espirito todos esses prós e contras, e dando talvez a estes maior peso o valor do que realmente mereciño, aflli— gia-se em extremo mas não sem fundamento, porque si já não existisse a velha Nha-Tuca, o negocio do reconhecimento de Rozaura como livre de nascimento difficilmente poderia ser encaminhado com esperança de exito feliz. Ora nada era mais natural e mesmo provavel do que o facto de já ser fallecida aquella mulher, que, segundo lhe dissera Lucinda, ha quatorze annos já era velha e adoentada, Emquanto Conrado espera com a mais viva impaciencia a hora em que a velha escrava tem de vir dar conta de sua commissão, acompanhemo-la nos passos que deo para desempenhal-a. CAPITULO X Estará viva ou não ? Emquauto Conrado sofrego e ancioso dava estes passos na cidade, não menos solicita e inquieta andava a boa Lucinda lá pelos lados da freguezia de Nossa Senhora do O. Nessa manhã, como promettera, foi a Sancta Iphigenia, onde ouvio missa ás nove horas, e dahi seguio em marcha a mais accelerada que lhe foi possivel, pela estrada de Jundiahy. Não tomou pelo caminho da chacara do major; nada tinha lá que fazer; continuou direito pela estrada real até a altura, que era bem conhecida, onde existia a casa de Nha-Tuca. Não é possivel explicar qual foi o seu espanto e consternação, quando ao chegar alli não avistou sinão ruinas. Da casa não restavão sinão os esteios carbonisados e algumas paredes derruidas; o tecto tinha desabado, as cercas estavão arrombadas, e o abandono, a solidão e a tristeza reinavam naquelle sitio, que outróra fôra uma vivenda tão ruidosa, alegre e animada. A casa de Nha-Tuca era erma tapéra, onde não se via viva alma, a quem se pudesse dirigir qualquer pergunta. A tal espectaculo um frio e angustioso desalento se apoderou do coração de Lucinda, que quasi desfalleceo. Sentou-se á l)eira da estrada em frente das ruinas, e poz-se a reflectir. Lembrou-se de que a uns quinhentos passos mais ou menos pela estrada adiante havia tambem á beira do caminho a casa do um francez, que tinha negocio. Era o vizinho mais proximo de Nha-Tuca, e devia saber qual tinha sido o destino dessa mulher. A casa tinha sido queimada, não havia duvidar; mas isso não queria dizer que a dona tambem já não existisse. Lucinda reanimou-se de um resto de esperança, levantou-se e poz-se a caminhar para diante. Como era domingo, á porta da taverna do francez havia numeroso concurso de gente. Erão de dez para onze horas; grande numero de caipiras da vizinhança, que já tinhão ouvido missa, uns na cidade, outros na capella de Nossa Senhora do Ó, alli se achavào a palestrar e a molhar a guela para empurrar o domingo, conforme a phrase vulgar. — Bom ! — murmurou Lucinda comsigo. — No meio de tanta gente é impossivel que não haja alguem que me saiba dizer o que é feito de Nha-Tuca. Dirigio-se pois resolutamente para a venda, comprou uma quitanda, bebeo um golo de vinho para cobrar alento, e depois, dirigindose aos circumstantes com uma hesitação e receio facil de comprehender-se, mas difficil de explicar-se : — Mecês não me saberão dizer, — perguntou ella, — que fim levou uma mulher velha, que morava aqui para atráz, chamada Nha— Tuca A companhia, que alli se achava, trazia já a cabeça bastante aquecida pelos frequentes tra— gos, com que no correr da conversação ião molhando a palavra. A pergunta de Lucinda portanto, em vez de obter resposta, foi rccebida entre mil risadas e apodos zombeteiros, que confundirão e desorientarão completamente a pobre preta. — He ! ha! minha tia ! pois tu ainda perguntas por essa brucha esconjurada! dizião — Cruz! arreda daqui, rapariga; só o nome dessa mulher traz máo azar; vou-me embora. — E eu tambem ; já a pinga que tomei, está me fervendo na garganta sb de ouvir esse nome. Antes o diabo me appareça. — Quem sabe, minha tia, si mecê tambem é do rodinha das pretas feiticeiras, que moravão com essa velha de uma figa? — Eu não! Cruz Ave Maria! — exclamou Lucinda espavorida. — Pois então que diabo de negocio tens com essa carcassa excommungada, de que ninguem quer ouvir nem o nome? — Ué ! meu branco. ... conheci ella n'outro tempo! agora estou perguntando; que mal faz isso?. .. — Não passaste pela casa della ahi na estrada ? — Passei, senhor sim ; mas a casa está toda queimada, e lá não encontrei viva alma. — A casa ardeo ha de haver tres para quatro annos. Assim tambem dcve arder a dona nas caldeiras do cão tinhoso. — Então ja morreo?! exclamou Lucinda transida de susto. A boa preta interessava-se pela vida dessa mulher perversa c detestada, como si ella lhe fôra mãe idolatrada, Não sei, nem quero saber, — respondeo o caipira sem reparar na cornmoção de Lucinda. — Si não deo ainda, não tardará muito em dar a alma ao diabo que a carregue. Mas emfim... balbuciou Lucinda. — Mas emfim, interrompeo o interlocutor, — si quer saber mais alguma cousa, vá acolá naquella casinha; não está vendo? é lá que a brucha mora, si é que o diabo ainda não a carregou. Dizendo isto, o homem apontava para um miseravel casebre, coberto de capim, que se avistava a uns trezentos passos de distancia, e algum tanto arredado do caminho. — Ali, meu Deus ! naquelle pobre ranchinho! — exclamou Lucinda. — Coitada! ella que era tão bem arranjada como são as cousas deste mundo! — Cala-te dahi; si tu a conhecesses melhor não estavas ahi com tanta pena della. Ou és da mesma laia, ou não conheces bem a tal brucha. — Mas eu desejava tanto saber si ainda é viva. Pois vá lá saber, — respondeo brutalmente o interlocutor. — Mas olha que não te agarre ellas pelas orelhas, e não te leve comsigo para os infernos, — accrescentou outro caipira. Atarantada com tantas chufas, e apavorada com o medonho retrato que fazião de NhaTuca, a pobre Lucinda não sabia o que devia acreditar, nem o que devia fazer. Bem via que aquella gente estava toda com a cabeça esquentada com as amiudades libações alcoolicas, e que todos aquelles ditos contra a pobre velha poderião não ser mais que meros gracejos inspirados pela bebida; mas por outro lado a antiga casa de Nha-Tuca, que acabava de ver cm ruinas e quasi toda devorada pelo incendio, e o miseravel ranchincho que lhe estavão mostrando como sua nova vivenda, tornavão mais que provavel o que estavão dizendo os caipiras. Esteve por algum tempo em estado de hesitação olhando para a casinha como querendo resolver-se a lá ir; mas faltava-lhe o animo. Por fim um homem algum tanto edoso, que alli estava na roda, porém com a cabeça mais calma e fresca do que seus companheiros, observando a anciosa inquietação em que se achava a creoula, para saber ao certo a sorte da velha, compadeceo-se della, e chamando-a de parte assegurou-lhe que aquelle ranchinho era de facto a actual morada de Nha-Tuca, que ainda era viva, mas que ha muitos dias se achava ás portas da morte. Contou-lhe mais em poucas palavras que essa mulher tinha perdido tudo quando possuia c cahido na mais profunda miseria, vendo morrerem uma por uma em pouco tempo de molestias ruins o contagiosas todas as suas escravas, que constituião seu principal cabedal ; que tambem de certo tempo em diante fôra dimiuuiDdq rapidamcntc toda a freguezia de seu negocio, até que por fim para cumulo de males pegou-lhe fogo na casa, que ardeo toda em uma noite, mal podendo escapar os moradores, e que Nha-Tuca, vendo-sc reduzida á ultima poDreza, se havia refugiado naquelle ranchinho que por compaixão lhe ha• vião cedido, e onde vivia das mingoadas esmoIas, que bem pouca gente lhe dava; que dois dias antes morrera de repente a unica escrava que lhe restava, que lhe fazia companhia e esmolava para ambas, si bem que em estado quasi tão lastimoso como a senhora. O povo attribuia todas essas desgraças a castigo pelas maldades que essa mulher tinha praticado, e que por muito tempo andárão encobertas. Por isso todos fugião della, e a deixavão abando nada naquelle miseravel ranchinho, onde se achava morrendo á mingoa. Lucinda não quiz ouvir mais nada, si bem que o velho se mostrasse disposto a narrar-lhe por miudo todas as horriveis façanhas daquella execravel mulher. Pedio desculpa allegando que era captiva e morava longe, despedio-se, e si depressa tinha vindo, mais depressa voltou para a cidade, onde chegou pela volta do meio dia. A noticia de que Nha-Tuca estava viva, mas ás portas da morte, dava-lhe azas, e a robusta creoula, a despeito de sua edade e corpulencia, em menos de meia hora venceo a distancia de mais de meia legoa, que a separava da cidade. Conrado, com o espirito desasocegado e entregue a crucis tribulações, achava-se em caso pensando no modo por que havia de passar as longas horas que ainda tinhão de decorrer até o prazo em que Lucinda promettera voltar com a resposta tão impacientemente esperada, quando inesperadamente a creoula, que o creado da porta tinha ordem de deixar entrar a qualquer hora que apparecesse, se lhe apresenta arquejante de cansaço e coberta de suor. O que é isto, Lucinda? — perguntou o moço sobresaltado. — Que novidade temos?... vens tão cansada e tão antes da hora marcada!... — Socega seu coração, Nhó Conrado. — respondeo Lucinda a offegar. — O negocio não vae mal por ora. .. Vim depressa e antes da hora, por que assim era preciso. A mulher ainda vive... — Vive' louvado seja Deos ! — exclamou Conrado levantando as mãos ao céo; — tudo está remediado. Rozaura, minha filha, vaes ser livre e restituida aos braços de teu pae!... — Vive, sim senhor; mas está mal, quasi a morrer. Deixemos de mais conversa. NhÔ Conrado é preciso ir lá já e já, quanto antes; a cada momento ella póde expirar. — Tens razão, Lucinda; tens razão; vou já. Conrado chamou immediatamente o seu pagem, e deo-lhe ordem para que sellasse depressa o seu melhor cavallo. Einquanto isto se fazia, Lucinda dava a Conrado as indicações necessarias, para que acertasse com o logar em que se achava situado o rancho de NhaTuca. Lueinda retirou-se para a casa, e Conrado partio a galope para as bandas da freguezia de Nossa Senhora do O. CAPITULO XI Nha-Tuca e sua choupana. Ainda alguns caipiras ociosos e folgazões se achavão reunidos junto á porta da taverna do francez, uns conversando, outros cochilando, outros cantando e tocando viola sentados no patamar, quando virão despontar na volta da estrada pelo lado da cidade um cavalleiro, que vinha a grande galope, e que em poucos instantes veio esbarrar diante delles o seu lindo e garboso cavallo alazão, todo arquejante e coberto de espuma. Era um mancebo de trinta e tantos annos; de porte esbelto, de physionomia nobre e sympathica, e que trajava com primoroso esmero e elegancia. Pódem fazer-me o favor de mostrar—me onde mora por aqui uma pobre velha, que se acha muito mal, chamada Nha-Tuca? perguntou o cavalleiro, depois de ter saudado cortezmente a comitiva. Os caipiras fitárão sobre elleum olhar espantado, e o deixárão por alguns instantes esperando a resposta. Cada qual queria responder, mas revolvendo o chapéo entre as mãos, e olhando, ora para o elegante cavalleiro, ora uns para os outros, ora para o chão, ficárão como engasgados, esperando cada um que o seu vizinho o antecipasse na resposta. Si esses mesmos homens ainda ha pouco estranhárão altamente .que Lucinda lhes pedisse novas de Nha-Tuca, quanto maior não devia ser seu pasmo e sorpreza, quando virão aquelle nobre cavalleiro perguntar com tanto interesse e açodamento pela brucha excommungada, que era objecto de asco e desprezo para todo o mundo por aquella redondeza. A este porém não ousárão responder com apodos e galhofas, como fizerão com a pobre creoula. — Está alli mesmo á vista, patrão ; é acolá, — respondeo por fim um delles, apontando para o rancho de Nha-Tuca. O cavalleiro agradeceo com um gesto, e tocou o cavallo a galope para o sitio indicado. Ché ! que cousa, Deus do céo ! um moço tão chibante e luzido, que terá que fazer na casa daquella velha tartaruga amaldiçoada ? disse um dos da roda, apenas o cavalleiro se distanciou. — Quem sabe si é parente, nhó Tico ?... ponderou outro. A velha já foi rica, e diz que é filha de muito boa gente. — Ché ! que esperança, nhÔ Neco ! Nha Tuca ter um parente daquella qualidade!... fóra o irmão, que ella matou, nunca teve parente mais nenhum, que eu saiba. Não é nada disso, gente; o que eu estou lembrando é que aquelle moço é alguem, a quem a velha fez alguma maldade, e que lhe vem pedir contas na hora da morte. Fóra do que já anda ahi na bocca do povo, na casa daquella velha fazia-se muita cousa ruim, que até hoje ninguem sabe. — Isso é que bem póde ser, NhÔ Quim ; mas já agora não arredo pé daqui, emquanto não ficar sabendo em que isto se para. Aquelle moço de certo não ha de ficar toda vida em casa da brucha ; ha de voltar e por fim de contas sempre se ha de saber alguma cousa. — E eu tambem daqüi não saio, emquanto elle não voltar ; estou afflicto por saber em que dá esta embrulhada. — E eu tambem, — repetirão todos os outros. — Valnos ver em que isto dá. Emquanto os caipiras ião discutindo e commentando neste gosto a visita de Conrado á casa de Nha-Tuca, resolvidos a esperarem alli a pé firme o resultado da mesma, o mancebo apeara-se junto ao rancho da infeliz velha, e batendo palmas pedio licença em voz bem alta. A misera mulher, que, segundo parecia, alli jazia ha dois dias no leito da- miseria e do soffrimento sem ouvir voz humana, estremeceo de prazer ao perceber que lhe batião á porta. — Quem é Q póde entrar, -— respondeo de dentro uma voz fraca, tremula e esganiçada. Foi bem difficil a Conrado dar com a entrada do rancho, a qual consistia em alguns páos a pique soltos, e que não se distinguião bem do resto da parede. Era mistér afastal-os para um e outro lado a fim de franquear uma estreita entrada. Conrado, que conhecia muito esse genero de portas por tel-as muitas vezes em ranchos de roça, abrio-a e não sem custo penetrou no interior da choupana, esfregando o panno de sua fina casaca nos immundos páos daquella hedionda pocilga. Posto que não houvesse no rancho uma só janella ou fresta FOI' onde penetrasse francamente o ar e a luz, comtudo as paredes formadas de páos roliços mal unidos entre si deixavão entrar claridade bastante, para que Conrado, depois que se foi affazendo á meia luz que alli reinava, pudesse distinguir com facilidade os objectos. Era a palhoça dividida em dois compartimentos eguaes por meio de uma esteira de taquára. No primeiro, para o qual dava a porta unica da casa, por onde Conrado tinha entrado, via-se no chão um cinzeiro apagado; e junto delle um colchão esfrangalhado rodeado de algumas cuias e cacos de panella, Era sem duvida a miseravel encherga, da qual ha dous dias tinha sido transferida para a sepultura a ultima companheira e complice da desgraçada velha. Achavão-se junto ao cinzeiro, quando Conrado entrou, um cãosinho mofino e coberto de gafeira, procurando no borralho extincto algum resto de calor, e um lagarto, que sem duvida por alli rondava á caça de baratas e outros insectos, em que a choupana devia abundar. O lagarto esgueirou-se subtilmente, e desappareceo com a celeridade que lhe é propria ; o cão porém levantou—se e abanando a cauda olhava para o visitante com olhos supplicantes, como quem lhe pedia pelo amor de Deus um bocado de alimento. Conrado não lhes deo attenção, e dirigio-se para uma abertura que dava communicação com o outro compartimento. O espectaculo, que alli se lhe offereceo aos olhos, era indescriptivel pela sua hediondez, e capaz de fazer recuar de horror as almas mais corajosas e caritativas. Em um giráo firmado sobre quatro toscas e grossas forquilhas fincadas no chão, estava estendida a misera velha em cima de uma encherga de palhas de milho, tão esfarrapada e poida, que mais parecia um montão de lixo. Alli agonisava ella ha dous dias como um esqueleto embrulhado em andrajos asquerosos. Ao pé della á cabeceira o unico movel que existia, era um tamborete estropiado, sobre o qual se via uma tosca tigella de barro, vazia ! . . . Nem uma gotta de agua alli havia para a misera enferma ! . . . Em torno pelo immundo e estreito cubiculo não se viam sinão alguns trapos asquerosos espalhados pelo chão. A estes contristadores e repugnantes accessorios, si juntarmos a figura cadaverica e a physionomia repulsiva da velha, teremos um painel, que nenhum pincel humano é capaz de reproduzir em toda a sua lugubre e sinistra realidade. Para receber o hospede desconhecido, que tão inesperadamente a vinha visitar, a enferma se reanimou um pouco, e conseguio levantar algum tanto sobre um montão de roupas velhas, que lhe servião de travesseiro, o busto livido e descarnado. A magreza, a velhice e a doença ainda mais fazião resaltar as linhas duras e angulosas de sua physionomia ignobil e repellente. Os olhos pequenos e extinctos mal se podião divisar por debaixo das arcadas superciliares proeminentes e ossudas. O que mais porém contribuia para dar-lhe ao semblante uma expressão de fealdade, que incutia terror e repugnancia, erão os dentes, que ella ainda os tinha todos, grandes, salientes e amarellos. Como seus labios finos e mirrados como duas tiras de velho per o•aminho, contrahidos pela macilencia e pela febre, não podendo serrar-se, conservavão-se entre-abertos, um certo sorriso funebre e sinistro parecia estar fixo sobre sua bocca agonisante. Si não fosse o poderoso incentivo, que alli o levava, Conrado teria recuado diante de tão lastimoso e repulsivo quadro, e deixando uma generosa esmola á cabeceira da enferma ter-seia retirado immediatamente, Mas era instigado por um motivo imperioso, pelo qual affrontaria mesmo todos as tramas e perigos, por mais temerosos que fossem. — O senhor, quem quer que é, póde chegar, — disse com voz rouca e arquejante a infeliz velha, vendo Conrado parar ao limiar da entrada do quarto. — Não tenha susto ; eu sou uma pobre velha desgraçada, que em castigo de meus pcccados aqui vivo a penar desamparada por todos, e morrendo aos poucos no fundo desta cama. .. Senhor meu, tenha piedade desta pobre velha... foi Deus, quem o mandou aqui... Ha dous dias, que aqui não vem creatura viva nem para me dar um golo de agua pelo amor de Deus. Apezar do exterior repugnante da velha, e do crime inqualificavel, de que era responsavel para com elle, Conrado não poude deixar de apiedar-se do estado de profunda miseria e desamparo, em que jazia aquella desg'raçada creatura, e exprobrou no intimo d'alma a dureza dos vizinhos que tão deshumanamentc assim a deixavão perecer. — Sim, minha velha, respondeo elle avizinhando-se do leito ; — eu me compadeço sinceramente de sua disgraça, e é por isso que venho hoje aqui com disposição de procurar allivio a seus soffrimentos, e prestar-lhe todos os soccorros de que necessitar. — Ah ! meu senhor ! Deus lhe dê muita saude e largos annos de vida ! Eu estou já com os pés na sepultura, e bem pouca cousa posso precisar neste mundo. O de que mais preciso é que Deus me perdoe os muitos e enormes peccados que commetti em minha vida. Ah ! meu Deus ! . . . quem me dera um padre para me confessar ! — Por esse lado socegue seu coração ; hoje mesmo lhe hei de trazer um padre, e estou prompto a fazer tudo o mais que a senhora exigir para allivio de seus soffrimentos e socego de sua consciencia. Oh ! meu senhor ! .., meu bemfeitor ! . . . Deus lhe dará o pago por essa obra de caridade. — Sim, mas quero tambem da senhora uma recompensa, que lhe é muito facil, e da qual depende todo o socego e felicidade de minha vida. Quero lhe pedir um favor. .. — A mim, meu senhor ! . . . que favor l! posso eu fazer, eu pobre velha desvalida, com os pés na sepultura?... — Eu lh'O vou dizer já sem mais rodeios, porque não devemos perder tempo. A senhora commetteo na sua vida um acto altamente criminoso, cujo segredo não póde levar para a sepultura sem causar a desgraça de toda a minha vida e a da innocente victima desse acto execrando. Não se lembra ? — Ah ! meu Deus eu pratiquei tantas acções ruins qual dellas será ! . . . — Eu lhe vou avivar a memoria. Não se lembra de que na noite de vinte e quatro para vinte e cinco de novembro, fazem agora justamente quatorze annos, — amanheceo exposta na porta de sua casa uma menina recém-nascida?... Oh ! si me lembro ! meu Deus ! meu Deus ! e com que remorsos ! . . . é por essa e por outras muitas maldades, que pratiquei, que hoje me acho aqui penando desta maneira, ai ! meu Deus, e sem ter um confessor !... — Tenha paciencia ; o confessor ha de vir. Agora conte-me com franqueza e verdade o que é feito dessa creança? A justiça humana já nada tem que ver com a senhora ; é perante o tribunal divino que em breve lalvez terá de responder. Si não confessa o seu crime a fim de remediar o mal immenso que fez, e que até hoje pesa sobre essa infeliz creatura, não póde esperar salvação para sua alma. — Graças, meu Deus ! mil graças vos sejão dadas ! — exclamou a velha, levantando ao céo as descarnadas mãos, e exhalando um forte suspiro, com que parecia alliviar o coração de um peso enorme, que o opprimia. — Graças a Deus que em minha ultima hora me permitte desmanchar o mal que fiz. Meu senhor, pelo amor de Deus, perdoe-me ; minha vida foi toda um tecido de perversidades. Essa menina não morreo, como eu fiz acreditar. Nessa mesma noite em que ella appareceo engeitada á porta de minha casa, uma mulata, minha escrava, tinha tido uma creança, que morreo logo depois de nascida, e eu. . . meu Deus ! . . . que vergonha ! que abominação ! . . — Diga, diga tudo, senhora, instou Conrado. — É preciso que não occulte nada para descargo de sua consciencia e para se poder remediar o mal que fez. — E eu fiz baptisar a engeitada como filha da escrava, e fiz constar que a engeitada é que tinha morrido. — E que nome deo á menina? — Rozaura. — E depois vendeo-a, não é assim? É verdade, meu senhor. — E a quem vendeo-a ? — A um senhor Bazilio, morador na rua do Tabatinguera. — Justamente ! é ella ! — exclamou Conrado com intimo e profundo jubilo. — Não se póde mais oppôr a minima duvida a respeito da origem de Rozaura. Estou satisfeito, senhora; eu vou neste mesmo instante buscar um padre para ouvil-a de confissão, e tambem mandar-lhe alguns meios de tratar-se. Em menos de duas horas estarei de novo aqui ccrm o padre e mais duas pessoas, porque me é de absoluta necessidade, que a senhora repita diante de testemunhas a confissão que acaba de fazer-me em particular, para conseguir a liberdade da menina, que a senhora condemnou á escravidão. Está disposta a isso. minha senhora ? — Porque não, meu senhor ! . . . nem ha cousa que eu mais deseje. Prouvera a Deus que eu pudesse desfazer assim todas as outras maldades que pratiquei ! . ah! meu Deos ! perdão! misericordia ! . . — Pois bem ; até breve. — Deus o acompanhe, e o traga a salvamento, meu senhor. Ao sahir fóra da palhoça, Conrado consultou o relogio ; erão quasi duas horas, — Temos ainda muito tempo, — pensou elle ; — ás quatro horas posso estar de volta aqui com o padre ; os dias são grandes ; das quatro até a noite tudo póde ficar arranjado, salvo si a velha expira antes disso. Durante a visita, apezar da preoccupaçüo que lhe dominava o espirito, ou em razão dessa mesma preoccupagüo, Conrado examinado com attenção o estado da enferma e apezar de não ser medico, comprehendeo que elle era gravissimo, e que naquelle caso não havia mais cura possivel. Todavia reflectio que o estado de prostração em que a via, podia ser resultado não só da molestia, como tambem da inanição a que a tinha reduzido o abandono e privação absoluta, ha que a dois dias se achava condemnada. Si a deixasse naquelle desamparo, em que a tinha encontrado, corria risco de achal-a na volta sinão morta, pelo menos impossibilitada de fazer de modo intelligivel a declaração que era o alvo de todos os seus esforços. Montou a cavallo e parou de novo á porta da taverna do francez. Os freguezes, que alli encontrára, ainda lá se achavão a pé quêdo, esperando a sua volta. — Então, meu amo, como vae a velha tinhosa? ainda o diabo não a carregou ? ousou perguntar um, a quem as excessivas libações tinhão tornado por demais desembaraçado. Conrado franzio o sobrolho, e sem responder directamente á tão brutal pergunta, dirigindo-se a todos exprobrou-lhes sem aspereza nem grosseria, mas em termos ener— gicos e severos, sua deshumanidade para ccli) aquella desgraçada mulher, fazendo-lhes ver que não era proprio de chrjstños deixar morrer á mingoa e ao desamparo uma creatura humana, por meis perversa que tenha sido em sua vida. A molestia, a edade, o sexo e a extrema pobreza- em que vivia e ia morrer, erão bastantes para seu castigo, e a tornavào digna da commiseração de todo o mundo. Aquelles que assim a maltratavão, tornavão-se tão bons como ella e dignos da mesma sorte. Os caipiras, ouvindo as palavras severas, mas cordiaes e sensatas do mancebo, sentirão mais compuncção e arrependimento do que se ti-vessem escutado as ameaçadoras vociferações do mais rochenchudo e atrabilario capuchinho. Procurarão desculpar-se com a reputação de que gozava a velha, de ser brucha, feiticeira, e de ter pacto com o diabo; mas emfim todso voltárão-se ás boas com o gentil e generoso cavalleiro, que os affagou com uma generosa molhadura, pedindo-lhes que não continuassem a ter em tão má conta uma pobre mulher velha, que estava ás portas da morte. Todos protestarão quo não continuario a ter o mesmo procedimento, declarando-se promptos a fazer tudo que Conrado determinasse. Conrado chamou de parte o francez, dono da taverna, e dando-lhe uma somma de dinheiro mais que sufficiente, pedio-lhe que acudisse de prompto á doente com algum cordial ou algum caldo, que a confortasse, visto que ella estava morrendo mais de fraqueza e inanição do que mesmo da doença. Recommendou-lhe lambem que mandasse immediatamente varrer e aceiar a immunda pocilga, em que jazia a misera velha, e collocar lá duas outras cadeiras ou tamboretes, porque dentro de duas horas ao mais tardar tinha de voltar com um padre para ouvil-a de confissão. Tenha paciencia, — disse elle ao tavernoivo ; — não se poupe a despeza nem a trabalho, que tudo hei de remunerar generosamente, e além disso lhe ficarei tão agradecido por tudo que fizer por essa mulher, como si fosse um serviço feito a mim proprio. O francez comprometteo-se de bom grado a cumprir tudo que Conrado lhe recommandára. O interesse que aquelle rico e distincto cavalleiro tomava pela pobre e desgraçada velha, lhes excitando altamente a curiosidade, os dispunha tambem a secundal-o em tão louvavel e caridoso empenho. Conrado agradeceo, e tocou a galope para a cidade. CAPITULO XII Frei João de Sta-Clara Conrado, chegando á cidade, apenas parou um momento á porta de sua casa para dar ordem a seu pagom de sellar o animal mais manso que houvesse na cocheira, e leval-o immediatemente ao convento do Carmo, onde ia esperal-o. Achava—se então em S. Paulo hospedado no Convento de sua ordem, um frade carmelita, por nome Frei João de Santa Clara, distincto por suas virtudes e seu grande saber. Pregador eximio e theologo profundo, este não tinha passado seus dias vegetando em piedoso ocio e pizando mansamente os sanctos ladrilhos com o breviario na mão á sombra das severas abobadas do claustro. Tinha percorrido quasi todas as provincias do Brazil, missionando já entre populações civilisadas, já entre aldêas de indigenas em serviço de catechese. Era tambem por vezes encarregado pelo Geral da Ordem de arduas e importantes commissões, e era em virtude de uma destas que se achava então em S. Paulo. Suas virtudes não consistião meramente na pratica desses exercicios asceticos, que seus confrades de ordinario tanto alardeão mais para se imporem á veneração do vulgo, do que por verdadeiro espirito de penitencia e mortificação. Tolerante, benevolo e affavel para com todos, nada tinha dessa exterioridade rispida e austera, que constitue o caracter essencial do frade. Era ameno e singelo na conversacão, e entregava-se sem escrupulo aos pra zeres licitos e compativeis com o seu estado. Pertencendo a uma importante e abastada familia da Bahia, renunciara a todas as vantagens que lhe propriconavão o nascimento e a fortuna, e tomára o habito em virtude de uma vocação sincera posta á prova por longo noviciado. Era portanto Frei João de Santa Clara um monge moldado pelo typo sublime dos Boaventura, Francisco-Xavier, Luiz de Gonza o a e Vicente de Paula. A figura de Frei João estava em perfeita harmonia com sua natureza. Porte elevado, Lições correctas e suaves, physionomia nobre e expansiva, maneiras singelas, mas delicadas, um timbre de voz claro e sonoro tornavão-no um personagem altamente sympathico, que logo á primeira vista conquistava a effeição e respeito do todos. Todavia, não obstante a moderação e brandura de seu caracter, não lhe faltava energia e severidade, quando assim era mistér, quer na linguagem, quer nas acções. A edade de Frei João orçava então pelos quarenta e cinco annos, e tanto no porte como no semblante reunia ao viço e ao vigor da juventude, a gravidade e sisudeza da edade madura. Quando Conrado esteve no Simorá, tambem ahi se achava Frei João missionando, e teve então aquelle occasião de travar relações com o carmelita, relações que em breve se converterão em laços de reciproca estima e amizade. Quando o frade chegou a S. Paulo, onde na época dos acontecimentos, que vamos narrando, se achava ha cerca de um mez, Conrado foi um dos primeiros que apressou-se em visital-o e offcrecer-lhc seu prestimo e seus serviços. Frei João folgou muito dc encontrar o seu joven conhecido c amigo de outrora cm tão prospera e brilhante posição, e como não tinha sinão mui poucas relações em S. Paulo, começárão ambos a frequentarem-se com assiduidade, e os laços da antiga amizade se reatárão talvez com mais força e intimidade ainda. Nenhum sacerdote pois cstava em melhores condições para ser o confessor de Nha-Tuca, e auxiliar a Conrado no melindroso negocio em que se achava empenhado. Além de ser homem de consummada prudencia e discreção, e um sacerdote respeitavel por possuir em gráo eminente todas as virtudes peculiares ao seu estado, era seu amigo. Conrado apeou-se á porta do Convento do Carmo, subio ás escadas e foi direito á cella de Frei João. Não pense o leitor que os conventos em S. Paulo na época a que nos reportamos, erão ainda, como outr'ora, claustros ou mos teiros regulares, com bom numero de frades, com seu competente abbade ou prior, mantendo todo o rigor da disciplina monastica, psalmeando todos os dias em horas proprias matinas, laudes e vesperas. Não; já nesse tempo os dous conventos, que erão propriedade monacal, e creio que ainda o são os do Carmo e de S. Bento, erão apenas habitados por dois ou tres frades, servindo de guardiães a esses immensos edificios desolados, tristes e mergulhados em silencio tumular. Esses frades tinhão tambem ás vezes por companhia algum estudante, que por escassez de meios ou por qualquer outro motivo lá era admittido por especial favor a partilhar o pão e o tecto das ricas confrarias. Portanto não se admire o leitor ao ver Conrado subir sem a menor cerimonia as escadas do convento e dirigir-se á cella que lhe era mui conhecida, occupada por Frei João. Não causou estraheza ao frade o apparecimento inesperado de Conrado, que em razão da intimidade batia-lhe no aposento sem se fazer annunciar ; mas quando o mancebo lhe declarou o motivo que naquella occasião alli o trazia, e a natureza do serviço que vinha pedir-lhe, não deixou de ficar algum tanto sorprehendido. Em casos taes, — disse elle, fosse quem fosse, que viesse reclamar de mim um tal serviço eu não saberia recusal-o. Mas, — continuou com sorriso quasi imperceptivel, ¯ permitta-me que lhe diga, meu amigo, ao que me parece, não é só espirito de caridade que o faz procurar-me com tanta soffreguidão, deixando em caminho o cura da freguezia, que é quem tem obrigação de acudir com os sacramentos, e tantos outros padres, que ahi os ha com fartura em uma cidade episcopal. Tendes talvez algum interesse particular nesse negocio, e eu não devo ignoral-o. — Oh! sem duvida, e nem Cenho intenfio de occultal-o, respondeo Conrado com vivacidade, — a pressa é quo me não permitte explicar-me desde já. Tenho nessa confissão um interesse do mais subido alcance para mim. A velha tem de fazer uma declaração da qual depende o socego e felicidade de toda a minha vida. Ah !... o negocio então é mais que serio. Pretendo por conseguinte exigir dessa mulher uma confissão publica. — Sim, meu amigo. E ella se prestará?,.. — Acabo de estar com ella ; está talvez mais disposta e mais impaciente do que eu, porque essa declaração é de absoluta necessidade para a reparação do mal que ella fez. Mas ella acha-se nas extremas entre a vida e a morte ; não temos tempo a perder; avic se, que daqui a um instante chegará a sua cavalgadura, e de caminho lhe contarei toda ossa historia. De feito; ernquanbo Frei João calcava suas botas pretas de couro de mateiro com esporas de ferro, e tomava o chapéo de feltro com abas largas, o pagem de Conrado chegava á porta do convento trazendo pelas redeas um lindo cavallo escuro completamente ajaezado. O palafrem, posto que fosse mui bem doctrinado, era vivo e ardente. O maldito! — gritou Conrado para o pagem, não te recommendei que trouxesses um animal bem manso?. . — Pois este ainda é chucro? — perguntou soarindo o frade. — Não, respondeo Conrado; mas é tão fogoso — Não se importe com isso ; não sou tão máo cavalleiro como pensa. E de feito o frade ganhou a sella com tal presteza e agilidade, e soube soffrear e dirigir o irrequieto animal com tal garbo e desembaraço, que faria inveja ao mais habil picador. A sotaina e o grande chapéo em nada prejudicavão á habilidade e gentileza do guapo cavalleiro. Na verdade, — exclamou Conrado, va Rma é um homem admiravel; além de ser o ornamento de sua classe, tem as qualidades do homem do mundo mais amavel e elegante que se póde imaginar. — Habito e natureza, meu caro, — respondeo o frade com volubilidade; sempre tive gosto pela equitação; a necessidade de viajar continuamente me tornárão perito na arte. Puzerão-se a caminho. O leitor que já visitou S. Paulo sabe que o convento do Carmo acha- se situado na extremidade da cidade do lado opposto áquelle a que os dous cavalleiros tinhão de dirigir-se. Tiverão pois de atravessar toda a cidade na melhor marcha de seus cavallos sem poderem conversar em razão do tumulto das ruas. Felizmente não era extensa o trajecto da então pequena cidade, e logo que transpuzerão a ponte do Macú, e penetrarão no bairro mais silencioso e deserto de Sancta Iphigenia, Conrado, retardando um pouco o passo do animal, começou a dar conta a Frei João do ponderoso motivo que o levára a chamal-o para aquelle mistér. Narrou-lhe com toda a sinceridade e franqueza, como si estivesse no tribunal da penitencia aos pés do confessor, os factos capitaes que o leitor já sabe e constituem o assumpto desta historia, sem preterir circumstancia alguma importante. Contou-lhe com toda a lhaneza o amor que desde a infancia concebera pela filha de seu antigo patrão; os esforços sobre humanos que fizera para tornar-se digno della; a falta em que a cegueiro do amor, e a imprudencia e ardor da mocidade o fizera incorrer; a invencivel obstinação, com que o philaucioso velho manteve-se na negativa, perseguindo-o por esse motivo encarniçadamente e ató ameaçando-lhea existencia, pelo que vio-se obrigado c retirar—se por longo tempo de S. Paulo sem poder ter a menor communicação com sua amante; a ignorancia, em que até aquella data estivera, da existencia de sua filha, facto de que só na vespera tivera conhecimento por intermedio de uma escrava, que por um feliz acaso o descobrira; como essa filha fôra bap— tizada como escrava pela mulher, que Frei João ia confessar, e nessa condição se achava até aquella data tendo sido ultimamente, por um estranho capricho da sorte, vendida á sua propria mãe. — Agora, —- concluio Conrado, — já o meu amigo comprehende o alto interesse que ligo á confissão dessa desgraçada velha, que por grande favor do céo ainda encontrei viva, e o motivo, por que o procuro, não só como sacerdote, mas tambem como amigo a fim de coadjuvar-me no desempenho de uma missão, que é para mim um dever sagrado. Conto que não só nesta confissão, como em outros passos que terei de dar para ser reconhecida a verdadeira maternidade de Rozaura, o meu amigo não me recusará o auxilio de suas luzes e de sua influencia. O frade ouvio a narração de seu amigo com a maior attenção, e apenas o interrompera poucas vezes com interjeições de interesse e de sorpreza. Por indifferente que me fosse a pessoa que reclamasse de mim um serviço dessa ordem, respondeo Frei João, não me era licito recusal-o, quanto mais a um amigo a quem tanto desejo ser util. Na verdade, a historia, que acaba de contar-me, é um drama contristador, e contem as mais severas e terriveis lições. Ainda bem que com o favor de Deus tenho esperança de leval-o a um desfecho feliz e satisfactorio para todos. É ainda um episodio palpitante de interesse e de triste originalidade, que nos vem mostrar bem ao vivo os singulares e funestos resultados a que nos póde arrastar essa deshumana e degradante instituição da escravatura, que para vergonha nossa ainda subsiste no paiz. Entretanto noto que a divina Providencia como que tem querido proteger por um modo manifesto a sua Rozaura, dirigindo os acontecimentos por tal sorte que em breve se revelará em plena luz a verdadeira origem da menina. Repare o meu amigo como tudo vae se combinando, e como que conspirando para esse feliz resultado ! A venda de Rozaura á sua propria mão foi um facto providencial. Si Deus quiz por esse estranho meio collocar em contacto essas duas creaturas, que pertencião uma a outra, e conservar até hoje a vida a essa desgraçada mulher que reduzio a menina á escravidão, foi por certo para esse grande e misericordioso designio. Vamos, meu amigo, apressemos o passo. Estou ancioso por ver chegado a um prospero desfecho este singularissimo drama. Neste ponto da conversação já estavão á vista da casa do taverneiro francez, onde forão apear-se. CAPITULO XIII Nha-Tuca e sua chronica. Apenas apeárão-se, Conrado chamou de parte o francez, dono da taverna, e depois de ter sido por elle informado de que todas as suas ordens tinhão sido cumpridas, pedio-lhe que fosse assistir como testemunha a uma de claração solemne que a velha Nha-Tuca tinha de fazer em confissão publica para desencargo de sua consciencia. Pedio-lhe tambem que d'entre os circumstantes escolhesse para o mesmo fim mais duas pessoas que soubessem ler a escrever, e que gozassem de bom conceito. Não só o desejo de servir a Conrado, que por sua generosidade e boas maneiras lhe tinha taptado a benevoleñcia, como tambem a curiosidade, que semelhante facto excitava, contribuirão para quo não só o taverneiro, como todos os seus numerosos freguezes se prestassem com a melhor vontade a tudo quanto delles exigia o cavalheiro. Vinte ou trinta testemunhas, que lhe fossem necessarios naquella occasião, com facilidade os acharia promptos por aquella vizinhança. Erão já quatro horas da tarde, e quasi todas as pessoas, que pela manhã encontrámos junctas na taverna do francez, ainda alli se acabavão presas pela viva curiosidade, que nelles excitára a visita de um tão guapo e distincto cavalheiro em casa de uma velha brucha, que no entender delles estava prestes a dar a alma ao diabo. Si algumas dessas pessoas se tinhão retirado, em compensação tinhão chegado outras attrahidas pelo rumor que se ia propagando, de que a velha brucha, estando a expirar, tinha-se resolvido a fazer confissão publica e por todos os seus podres na rua. Conrado e o frade, seguidos pelo francez e pelas duas outras testemunhas, dirigirão-se a pé para o rancho de Nha-Tuca. Os mais freguezes tambem os forão acompanhando em distancia, e um a um ou em pequenos grupos, forão pouco a pouco se avizinhando e acercando em torno da misera choupana da moribunda, Á curiosidade vence o pavor e desmancha todos os escrupulosos. Toda aquella gente , que ainda ha pouco fugia do rancho de Nha— Tuca como de um logar malsinado, e que quando por alli passavão tinhão o cuidado de nem olhar para elle, benzendo-se cheios de terror quando acontecia enxergarem a velha, agora sentião-se irresistivelmente attrahidos para aquelle ponto. Era a curiosidade, esse iman mysterioso, que para alli os arrastava. Nas massas populares a curiosidade supplanta o medo, e faz arrostar todos os perigos reaes ou imaginarios. E assim, por exemplo, que por occasião de um grande incendio, a turba se aggloméra por sob as paredes de um edificio em chammas, que a cada momento póde desabar sobre ella, sendo necessario intervir a acção da policia para desvial-a. A's vezes tambem para gozar de um espectaculo o mais tri- vial e corriqueiro, a turba não hesita em collocar-se nas posições mais incommodas e perigosas, em risco de quebrar um braço ou uma perna. O espectaculo ou mysterio, que attrahia a curiosidade de nossos caipiras, nada tinha de realmente perigoso, mas abalava-lhes a imaginação, como si tivessem de ver Satanaz em pessoa. — Sancto Deos! exclamava um delles. — Que irá fazer alli Frei João?... Um sancto em casa de uma brucha ! . . . — Vae fazer obra de caridade, respondeo outro. — Vae ver si ainda póde livrar das penas do inferno a alma da pobre velha. — Isso é impossivel... pois mecê não sabe que ella é mula sem cabeça? . . — E demais a mais tem o diabo no corpo, accrescentou outro. — Pois que tem isso?.., é que o padre vae tirar o diabo do corpo delta. Ah! si eu pudesse estar lá dentro e ver o tinhoso sahir aos pinchos da bocca daquella tartaruga velha ! . . . — Deus te livre ! . . . ver o que! . . a cara de Satanaz ! . . . até estou com medo de ver agora mesmo pegar fogo no rancho, e a velha sahir de lá na figura do cão tinhoso. — Ché ! que esperança ! . . . então o frade não está lá dentro ? . . . — Mas esse é homem de Deus; não ha mal que o pegue; ha de sahir são e salvo. Emquanto o povo por fóra se entretinha assim com estes e outros apodos e conjecturas, o frade e seu amigo penetravão no aposento da enferma, o qual, graças á generosidade de Conrado e aos cuidados do francêz, apresentava um aspecto menos lugubre e menos nauseabundo. Antes porém de assistirmos á scena da confissão dar velha, nos é mistér da aqui ao leitor uma rapida noticia biographica da personagem que agora jaz no leito da agonia com a alma abarrotada de peccados e crivada de remorsos, Isto nos é indispensavel, porque a parte publica da confissão da velha versa sómente sobre um facto, que já conhecemos, a substituição de uma creança escrava e morta por outra viva e livre, donde resultou a escravisação de Rozaura. O resto porém passa-se debaixo do mysterioso sigyllo da confissão auricular, e como não somos sacerdote, e nem foi em nosso peito que ella depositou os segredos de sua abominavel e execranda vida, segredos que depois forão conhecidos e propalados a todos que tivessem ouvidos para ouvil-os, cremos que não será peccado da nossa parte divulgal-os agora. Alguma cousa já dissemos acerca do caracter e dos costumes de Nha-Tuca; mas apenas levantámos um canto do véo que encobre as torpezas e atrocidades, que constituirão a occupação unica de sua longa vida. Nha-Tuca não era natural da cidade de S. Paulo. Nascera em Mugimirim em mil setecentos e setenta, pouco mais ou menos. Portanto já não podia descer ao tumulo com menos de setenta e muitos a oitenta annos. Foi sómente depois que recebeo a herança de seu fallecido irmão, que tomou a resolução de mudar sua residencia para a capital da provincia, então capitania. Essa herança, como já sabemos, na sua melhor parte consistia em uma boa porção de creoulas e mulatas, todas novas e bonitas, vigorosas e sadias. Parece que por desgraça sua o irmão de Nha-Tuca tinha sangue turco nas veias; tinha pendor immenso para o serralho I nascera para ser um sultão, ou pelo menos um vizir. Por isso toda a fortuna que havia herdado ou adquirido á custa de algum trabalho, ia consumindo toda em colleccionar essa formosa tribu, que por força do destino teve de transmittir á sua irmã unica, sem mesmo ter o trabalho de fazer testamento. A sensualidade de um servio admiravelmente á avareza da outra. A irmã, que não podia tirar o mesmo proveito de tão preciosa deixa, excogitou outro meio de fazel-a render o maior lucro possivel. O vicio capital desta mulher era, como sabemos, a avareza, peccado mortal incomprehensivel para muitos e só comprehendido por aquelles que lhe sentem as delicias. Obedecendo a esta sua tendencia innata, Nha-Tuca concebeo e realisou o projecto de fundar com as raparigas, que herdára, uma especie de prostibulo ou alcouce, dirigido por ella em pessoa, do qual esperava auferir grandes vantagens pecuniarias. Mas Mugimirim era então uma pobre Villa, talvéz arraial ainda, e não podia offerecer campo assáz vasto para suas altas especulações. Portanto Nha-Tuca tomou o accôrdo de vender tudo quanto possuia em sua terra natal, e de emigrar com seu formoso rebanho para a capital da provincia, onde poderia desenvolver em mais larga escala sua lucrativa industria. Em S. Paulo comprou fóra da cidade o predio em que pela primera vez a encontrámos, e onde estabeleceo com excellentes commodos e por preços modicos venda, rancho e hospedaria. Á freguezia, logo desde principio, tornou-se cada vez mais numerosa. O serviço da hospedaria era feito com grande esméro e aceio pelas seis ou oito escravas, jovens c vistosas, e sempre trajadas com certo luxo provocador, que attrahia a attenção dos sybaritas, Ellas, habilmente industriadas pela abelha mestra, cercavão os viandantes de mil cuidados e attenções, a que não era possivel resistir. Erão outras tantas Hebes, offertando o Jove a taça de ambrosia. Muita vez acontecia que o viajor, esquecendo-se de interesses que reclamavão a prompta continuação de sua viagem, encantado pela deliciosa hospedagem, que alli encontrava, falhava quasi sem querer um, dois, tres e mais dias; tanta era a obsequiosidade, tantos os carinhos de que se via rodeado. Em todo caso, quando o viandante não falhava, lá ficava, além da despeza ordinaria, uma grossa somma, ou uma rica joia, que as fieis servidoras nunca deixavão de entregar á senhora. Nem lhes era mistér guardar cousa alguma. Nada lhes faltava, nem quanto á alimento nem quanto á vestuario. Gozavão de liberdade quasi absoluta, e comprehendendo o reciproco interesse que as ligava á sua senhora, vivião com ella em pereito pé de intelligencia e harmonia. A propria dona da casa, apezar de velha e adoentada, trabalhava tanto ou mais do que as escravas, que tafulonas e peraltas só se occupavão em servicos delicados e em fazer sala aos hospedes, emquanto a senhora era apenas ajudada por uma preta velha no serviço grosseiro da casa. Tudo isso porém se fazia por gosto da senhora, que o dava por muito bem empregado. E não era só com os passageiros, que se especulava. A rapaziada da vizinhança tambern lá acudia attrahida pela fama da boa bebida, que lá havia, e das bonitas raparigas, que servião de caixeiras e de serventes na hospedaria. Mais de um filho de caipira bem arranjado alli deixou, sem saber como, os rendimentos de todo o bom negocio que havia feito na cidade, e arruinou seu pae com as repetidas invernadas na taberna de Nha-Tuca. E não ficavão só em casa as vergonhosas especulações da velha ; estendião-se a mais longe. Todos os domingos e dias santos NhaTuca expedia para a cidade tres ou quatro de suas mais lindas raparigas, bem vestidas e promptas a armar laço á bolsa dos estudantes. Em toda parte onde ha academia, universidade, ou cousa que o valha, ha sempre numerosa cafila de moços ricos, prodigos e libertinos, que não hesitáo cm sangrar consideravelmente a bolsa paterna em beneficio das cantoneiras. Voltavão portanto as Venus para a casa então com cara de mãe da humanidade ! . . . Mas emfim, que hei-de eu fazer?... não hei-de deital-a aos porcos, oh ! isso não... Mas... mas..., continuou ella, coçando a cabeça, avizinhandose do berço, inclinando-se sobre elle, e reparando com attenção a creança. — Ora esta!...eu sou mesmo uma patéta?... é cousa que está entrando pelos olhos. Foi minha boa fortuna que aqui me trouxe esta creança... Vejamos, proseguio ella, murmurando sempre em vóz baixa e arredando as faixas, que envolvião a cueancinha. — Coitadinha ! está dormindo ! como é bonitinha oh! . . . e é femea tanto melhor. E é tal qual como a defunctinha, sem tirar nem pôr. E esta !... sahe-me uma morta pela porta afóra, e entrame outra viva pela porta a dentro! ... mil graças a quem me fez tão delicado presente, e tão a proposito ! Dizendo ou antes resmungado estas horriveis palavras, a velha recolheo o berço, e tirando delle com todo o geito a creança adormecida, a levou para o quarto da mulata puerpera, e a depoz nos braços della dizendo seccamente : — Toma tua filha. — Como é isso, nhánhá? — exclamou sorprehendido a rapariga. — Pois minha filha não morreo?.. Qual morreo, o quê, toleirona quem te disse isso? . . foi vágado, que deo na menina; eu fomentei com arruda e cachaça e ella voltou a si. Quem morreo foi uma engeitadinha, que encontrei ahi na porta agorinha mesmo quasi a expirar. Nha-Tuca, sahindo do quarto da mulata, teve o cuidado de ir immediatamente collocar a escravinha morta dentro do berço, donde a pouco tirára a engeitada viva. Não se sabe si a mãe da menina morta e as outras escravas perceberão esta manóbra de Nha-Tuca, e si nella forão conniventes ; o certo é que alli nunca se ouvio nem de leve murmurar sobre tal cousa. O cadaver da verdadeira escrava foi nesse mesmo dia dado á sepultura, como o de uma engeitada, e quinze dias depois a exposta era baptisada na Capella de Santa Iphigenia como escrava de Nha-Tuca, e recebia na pia baptismal o nome de Rozaura. Dessa data em diante os negocios de NhaTuca começarão a desandar em progressivo desarranjo e decadencia. Com a edade, a devassidão e as molestias, a belleza das raparigas foi murchando e se esvaecendo com assustadora rapidez. Vendo cada vez mais ir-se lhe escasseando a freguezia, Nha-Tuca; que era mestra jubilada em toda casta de tricas, abusões e torpezas, industriou as raparigas em certas praticas infames, ensinando-lhes a preparar philtros amorosos por meio de processos immundos e nocivos a fim de pren derem o coração dos desditsos amantes. Com este expediente nem por isso obtiverão grandes vantagens. Todavia, sempre conse ffuirão enviar para a eternidade, depois de bem depennados, uma boa meia duzia de patinhos, e deixar para sempre entisicados dos pulmões e da algibeira não menos de outra meia duzia. Por estas e outras proezas, Nha-Tuca começou a grangear uma enorme reputação de brucha, feiticeira e mestra em maleficios diabolicos, passando como cousa incontestavel entre os povos daquella redondeza, que ella tinha pacto com o diabo. Por essa razão começou ella a ser detestada, e temida, execrada e evitada por toda aquella gente. As raparigas forão-se cobrindo de uma lepra, que se propagou por todas, devida a molestias syphiliticas mal curadas, tornárão-se hediondas, e forào morrendo uma a uma successivamente. Os freguezes, que outróra com tanta alegria e sofreguidão acudião áquella animada a ruidosa locanda, agora fugião de lá como quem foge da peste. Dorothéa era talvêz a mais linda de todas as odaliscas do serralho de Nha-Tuca, e a unica que ainda conservava alguns restos da saúde e frescura da mocidade. Era ella a favorita e a confidente de Nha-Tuca, e a quem esta não receava confiar seus segredos e suas chaves. Em uma noite de orgia, em que houve summa profusão de bebidas espirituosas, de parceria e combinação com um taful, com quem se ligára estreitamente, lá pela rnadrugada Dorothéa filou subtilmente a chave do mealheiro, esvaziou-o completamente, e eclipsou-se de uma vez para sempre em companhia do amante. Ao dar pela falta da escrava e de todo o dinheiro que possuia, a velha deo urros de desespero, e cahio fulmi— nada por uma congestão; mas não morreo. Apezar de todas as diligencias que empregou, nunca mais lhe foi possivel deitar a mão nem na escrava, nem no dinheiro. Foi nesta occasiào que Nha-Tuca achando— se inteiramente exhausta de recursos, vio-se na dura necessidade de vender Rozaura, que então contava dez annos, e era a unica cria que lhe restava de suas escravas. Posto que vivesse no meio daquella escola do vicio e da abjecção, Rozaura, graças á sua indole privilegiada, e tambem ao cuidado que Nha-Tuca, por excepção de regra, tinha tido de esquivarlhe aos olhos as sccnas de devassidão, que se davüo em sua casa, havia conservado até alli pura e intacta a innocencia de sua alma. Si era uma fada pela formosura do rosto e pelo airoso porte de seu corpo esbelto, era um anjo pela candura e pureza do coração. Foi um assignalado favor que o céo fez á pobre menina, permittindo que ainda em verdes annos fosse arrancada ao ambiente infecto daquelle immundo lupanar. O preço de Rozaura porém não tendo applicação alguma lucrativa, bem depressa se exhaurio, e a miseria veio bater á porta da desgraçada velha, que jâ não tinha por companheira, sinào uma escrava, tão edosa e invalida como ella. Já Nha-Tuca se dispunha a vender o predio em que morava, para ter de que subsistir, quando para cumulo de males, em uma bella noite, foi elle devorado por um incendio, do qual a custo e como por milagre ella e sua companheira puderão escapar com a roupa do corpo. No outro dia as duas miseras velhas vagavão pela estrada, mendigando pelo amor de Deos um boccado de alimento, sem um telheiro em que se abrigassem, e bem poucos se compadecião dellas. — Foi bem feito. murmurava o povo desalmado; é castigo de Deus. Nem outra sorte merecia semelhante feiticeira. Portanto a infeliz, condemnada a tragar até as fezes a taça do abandono e da miseria, era por quasi toda parte mal acolhida, e atê repellida e insultada. O povo ou porque tem por costume fazer a vista grossa sobre os defeitos e nodoas que enxovalhão a vida de qualquer, emquanto este se acha em condições de riqueza e prosperidade, ou porque só depois que Nha-Tuca cahio em disgraça, começassem a divulgar-se as torpezas e maleficios por ella practicados, o povo não teve della a menor commiseração. De feito, erão execraveis as atrocidades que se lhe attribuião, e forão as proprias escravas que, vendo o descalabro dos bens da senhora, e o desconceito em que ia cahindo, se encarregárão de propalal-as. Por bocca dessas des- graçadas, que a miseria e a crapula tornavão cada vez mais abjectas, toda a gente daquelles arredores ficou sabendo não só as façanhas, que temos relatado, como tambem que fôra Nha-Tuca quem abreviára os dias de seu irmão para empolgar-lhe a herança. O francez que tinha taverna á beira da estrada foi o unico que se compadeceo della, permictindo-lhe morar no miseravel ranchinho, em que a encontrámos. Ahi definhava ella ha dous annos em companha da preta velha, de que já fallámos. Era esta que de quando em quando sahia a esmolar pela cidade para si e para sua companheira, porque si sahisse a propria Nha-Tuca, bem mingoada seria a collecta. Essa mesma pobre preta, que era seu unico arrimo, havia morrido subitamente dous dias antes, deixando sua senhora entrevada sobre seu misero gra bata e no estado de indigencia e desamparo em que Conrado veio encontrai-a. CAPITULO XIV A confissão No quarto da moribunda havia dous tambocetes, um collocado junto a cabeceira, outroaos pés do pobre giráo. Havia tambem defronte do leito uma mesa pequena e tosca, sobre a qual estava collocado um crucifixo de madeira entre duas velas accesas; assim como tambem um tinteiro, penna e papel. À enferma, graças aos cuidados do francez, que conforme as recommendações de Conrado, além de ter mandado arejar o aposento e mudar a roupa da cama, tinha-lhe enviado um caldo e um calix de vinho, achava-se mais reanimada. Estava ella meio sentada, e encostada a alguns travesseiros. Conrado fez Frei João sentar-se ã cabeceira, e elle mesmo collocou-se aos pés da cama da enferma. O francez e as ou— tras duas testemunhas, por não haver mais assentos, ficárão em pé defronte do leito. — Senhora Dona Gertrudes, — disse Conrado, com um accento de voz pausado e brando, de modo que tranquillisasse a enferma, prometti trazer-lhe um confessor : venho cumprir a minha promessa. Ahi está em sua presença o Sr Padre Frei João de Sancta Clara, digno e virtuoso sacerdote, que está prompto a ouvil-a de confissão, e absolvel-a de seus peccados. A velha voltou a custo o rosto para o padre, depois, levando lentamente sobre o coração a dextra mirrada em Signal de gratidão e reverencia so saudou com uma leve inclinação de cabeça. — Tenha piedade de mim, senhor padre, murmurou com voz secca e alquebrada. É à misericordia divina, e não a minha, que a senhora deve implorar, respondeo brandamente Frei Joao, — É Deus, e não eu, que tem de julgal-a. — Sim é elle bem sei ; mas minhas culpas são tantas e tão enormes... — Embora. Si a senhora tem verdadeira contricção e arrependimento de seus peccados, por muitos e enormes que sejão, deve ter firme esperança de que Deus se amerceará de sua alma. Ha porém um ponto de sua confissão que este meu amigo, que aqui me trouxe, deseja que seja feito em voz alta e em presença das testemunhas, que aqui nos achamos, e tomada por escripto, a fim de remediar um grande mal, que a senhopa féz, reduzindo á escravidão pessoa livre. Recorda-se desse facto 'P Oh! sim ! muito! para vergonha minha e tormento de minha alma. E está prompta a declaral-o em voz alta perante nós, que aqui estamos? — Prompta, senhor padre; prompta para tudo. — Pois bem , faça em primeiro lugar conscienciosamente e com toda a sinceridade a declaração desse facto com todas as circumstancias, de que se lembrar. Depois a ouvirei em confissão particular e secreta. — E verdade, senhor padre; foi um crime abominavel que commetti... Graças a Deus, que ainda me dá tempo de remedial-o nesta hora derradeira. A velha em seguida fez com voz debil e arrastada a narração minuciosa da fraudulente manobra, que já conhecemos, e por meio da qual reduzira á escravidão a filha de Conrado e Adelaide. Frei João redigio e dictou, e o francez escreveo a seguinte declaração : « Eu Gertudes Maria dos Anjos, natural de Mogimirim, provincia de S. Paulo, achandome em artigo de morte e prestes a entregar minha alma ao Creador, em confissão publica, que de viva voz e de livre vontade faço perante o Sr Padre Frei João de Sancta Clara, e mais testemunhas, para desencargo de minha consciencia, salvação de minha alma, e reparação do mal causado, declaro que na noite de dezoito para dezenove de novembro de mil e oitocentos e quarenta. .. , uma escrava minha deo á luz uma menina, a qual falleceo logo depois de nascida. Nessa mesma manhã, ao romper do dia, encontrei exposta em minha porta uma menina recem-nascida, qne substitui á creança morta, fazendo-a passar pela filha da escrava, e dizendo que a engeitada é que tinha morrido. Esta engeitada foi baptisada na Egreja de Sancta Iphigenia como escrava minha com o nome de Rozaura, e como tal foi conservada em meu poder até a edade de dez annos, sendo então vendida por mim a um senhor Bazilio, morador na rua do Tabatinguéra. fonoro o que depois foi feito delia. S. Paulo, 2 de novembro de 184... Esta especie de termo, declaração, depoimento, ou como melhor se possa chamar, foi lido á enferma, que o julgou conforme ao que tinha declarado, e em acto continuo assignado por Frei João e as outras testemunhas. Frei João, para dar maior força e authencidade a aquelle importante documento antes de assianar-se, escreveo o seguinte juramento : « pelo sagrado habito que visto, da Ordem dos Carmelitas, juro que a presente declaração foi feita perante mim, tal qual se acha es- cripta, em acto de confissão publica in articulis mortis. Concluido este acto, retirárão—se todos, deixando sómente o frade para ouvir a penitente em confissão auricular. É escusado dizer que o facto que constituio a confissão publica da velha, logo circulou de bocca em hocca entre os caipiras que cercavão o rancho, e foi discutido, commen- tado, e apreciado de mil maneiras. Sua curiosidade já em parte ficara satisfeita; já sabião qual o nobre e generoso motivo, pelo qual o cavalheiro, que alli se apresentára pela manhã, havia mostrado tanto interesse e solicitude pela velha, e feito tantos esforços para que não morresse sem confissão. Não cessavão de elogial-o tanto, quanto maldizião a desditosa velha. Mas restava ainda um mysterio, que não podião penetrar, e que lhes causava no espirito o mais incommodo prurido. Darião tudo para saberem que laço mysterioso havia entre o cavalheiro e a menina baptisada como escrava, que lhe merecia tantos cuidados e sacrificios. De conjectura em conjectura alguns não deixárão de tocar certo no alvo; mas erão meras supposições; a duvida e o mysterio persistião. Com grande desgosto de Conrado, que pretendia ir nessa mesma tarde arrancar sua filha as mãos de seus suppostos senhores, a confissão da velha teve de durar uma boa hora, tanta era a carga de peccados de que aquella alma trazia carregada a consciencia, e que lhe era mistér alijar á borda do tumulo para poder subir ao céo. De profundis exclamam, — veio murmurando Frei João ao sahir do rancho da moribunda. — Morreo? — perguntou Conrado, que o esperava á porta. — Sim ; morreo. Aquella pobre alma parece que por um supremo esforço se mantinha preza ao corpo para descarregar o peso de suas enormes culpas. Foi recebendo a absolvição e expirando immediatamentc. Deus se compadeça de sua alma, — disse Conrado. Ámen, — respondeo Frei João. Em quanto Nha*Tuca se confessava, o sol proximo ao occaso já quasi tocava na serra da Cantareira, não entre vapores diafohanos e nuvensinhas douradas, mas entre negros e carre gados bulcões de orlas côr de cobre, que a cada instante se accendião, e apagavão ao sulcar de mil coriscos. Era a tempestade, que se avizinhava em seu carro impetuoso, impellido pelo sopro dos furações. Estava-sejá nos primeiros dias de novembro, e nem uma gotta de chuva tinha ainda cahido do céo sobre a terra ardente e sequiosa. A secca com seu sinistro cortejo de calamidades ameaçava a bella provincia de S. Paulo, pouco affeita a ser castigada com semelhante flagello. Ja se tinham feito preces publicasi implorando a misericordia divina ; já a milagrosa Imagem de Na Sra da Penha, que tem a sua capella a duas leguas de distancia da cidade de S. Paulo, tinha sido conduzida em procissão solemne desde lá até a Egreja da Sé com grande devoção e actos de penitencia. A tempestade portanto, apezar de avizinharse medonha e ameaçadora, foi saudada com gritos de alegria pelo povo, que se achava reunido em torno da cabana de Nha-Tuca. O vento zunia com furia diabolica, os coriscos fuzilavão de instante a instante, os trovões estouravão cada vez com mais força, e a chuva começava a despenhar-se em violentas e copiosas rajadas. Conrado, Frei João e toda aquella gente, que em numero de trinta a quarenta pessoas alli se achava desde pela manhã, virão-se forgados a recolherem-se atropeladamente á casa de francez. Os commodos erão bastantemente acanhados para tanta gente ; mas mesmo assim elles em pé, apinhados e acotovelando-se, em quanto lá por fóra a tempestade desabava roncando furiosa, fallavão em voz alta com a maior franqueza e desembaraço, formando outra tempestade de horripilantes pragas e maldições. Aquella mulher era mesmo o diabo que malsinava esta terra; — gritava um. — Foi ella morrer, e a chuva descer. Bemdita morte e bemdita chuva! — E é mesmo assim, — replicava outro; aquella maldita trazia e demonio na alma, e era preciso um padre sancto para mandar o cão tinhoso com a velha e tudo estourar nas profundas dos infernos para a gente ficar livre da secca. — Abençoado seja o Sr Frei João de Sta Clara ! A imaginação do povo é sempre propensa á crendices e superstições, e aquelle phenomeno, coincidindo com a morte da desgraçada velha, fez com que acreditassem que ella provocando com suas maldades as iras do céo era a unica causadora do flagello, com que Deos affligia aquella terra, e portanto continuavão a maldizer na morte a pobre mulher, a quem na vida já tinhão votado ao desemparo e á execração. Assim, a alma de Nha-Tuca, para onde quer que tivesse de dirigir-se, retirava—se deste mundo entre os roncos da tempestade, e as apupadas e maldições do povo. O vento impetuoso tinha dilacerado e atirado pelos o tecto de capim do rancho, deixando o cadaver da misera velha exposto a todo o vigor do temporal. — Si até o céo se zanga contra esta mulher, nós é que devemos ter piedade della ? . . . clamava o povo, e já se dispunha a ir, logo que amainasse a tormenta, atacar fogo ao rancho, a fim de que ardesse completamente com o cadaver da velha e tudo que lhe pertencia. — Delia, — dizião elles, — não devem ficar sobre a terra nem mesmo as cinzas. Pouco nos custa accender um grande brazeiro. que seccará a chuva, e amanhã esse maldito rancho e sua dona não serão mais que um punhado de cinza, que o vento levará pelos ares. E terião levado a effeito sua intenção, si Conrado e Frei João não os tivessem estorvado, oppondo-se com energia á tão cruel profanação. Quando o temporal cessou de todo, a noite vinha descendo sobre a terra. Aquella chuva, que durou cerca de uma hora, a todos agradou, menos a Conrado, a quem viéra tirar a possibilidade de ir, como pretendia, reclamar naquelle mesmo dia a entrega de sua Rozaura. Sua impaciencia era legitima ; quizéra que nem mais uma só noite sua filha dormisse debaixo do tecto do major ; informado por Lucinda, já era sabedor dos continuos e graves perigos a que alli se achava exposta a pureza e pudicicia da menina. Mas forçoso lhe foi differir para o dia seguinte a satisfacção do seu intento ; posto que tivesse cessado a chuva, o céo se conservava nublado, e a noite ia-se tornando escurissima; isto, unido ao máo estado dos caminhos escavados pelas enchurradas, retardava consideravelmente a marcha dos animaes, e não poderião chegar á cidade sinão com noite muito adiantada. A despeito da escuridão e das difficuldades do caminho, Conrado e Frei João de volta para a cidade, não deixárão de conversar largamente combinando entre si os meios que deverião empregar, para que sem escandalo e sem lezão da honra e da reputação de Adelaide, Rozaura fosse promptamente reconhecida como livre de nascimento, e entregue a seu pae, Frei João aconselhava a seu amigo que procurasse ser o mais humano e generoso que fosse possivel, para com o pae e o marido de Adelaide, os quaes, si fosse possivel, deveriüo ficar em perpetua ignorancia da existencia dessa neta e dessa enteada. Ponderava-lhe mais que, si es recusassem entregal-a por meios amigaveis, restava ainda o recurso dos meios judi ciaes, pelos quaes seriáo sem remissão forçados a reconhecer a liberdade da menina e largar mão defla. É porque o meu amigo não conhece de que tempera é aquelle rnajor Damazio, — respondia Conrado. — É o homem mais teimoso, mais emperrado que o sol cobre. Quando encabéça para um lado, não ha força humana que o possa desviar. É como a anta disparada pelo mato, esbarrando furiosamente em quanto obstaculo encontra, e levando tudo de vencida. Até que cahe em algum poço, e ahi, querendo fazer face ao inimigo, é de ordinario vencida e morta. — É verdade, mas depois de muito acuada e á custa de renhido combate. Mas o meu amigo ignora ainda as perversas e sinistras intenções que o marido de Adelaide tem sobre a minha innocente Rozaura. — Ignoro certamente. — Pois saiba que concebeo por ella a mais louca e infrene paixão, e a cada instante emprega todos os meios e artificios para seduzil-a ou coagil-a, de modo que a infeliz menina a qualquer momento póde ser victima da furia libidinosa de seu pretendido senhor. E é bem de crer que quando elle perceber que a preza está prestes a escapar-lhe das garras, redobrará de esforços para levar a effeito seus execraveis designios. Eis ahi porque não posso resignar me ás delongas dos meios judiciaes, sempre morosos e complicados, mesmo nas cousas mais simplices. Estou quasi certo, que tanto o velho, como o genro hão de recalcitrar com a maior obstinação, e cerrando os olhos á evidencia, hão de oppÔr todos os embaraços que estiverem a seu alcance, a fim de obstar a liberdade e a entrega de Rozaura. Creio por isso que não terei remedio sinãD valer-me do meio prompto e decisivo, com que a Providencia armou-me o braço. — Tens razão de sobejo, meu caro amigo ; replicou o frade ; não sabia que as cousas se achavão em tão melindrosa conjunctura. Não obstante, antes de lançarmos mão desse recurso extremo, convem empregar todos os meios para conseguir a liberdade e entrega da menina sem quebra da honra de Adelaide, sem ir levar a vergonha e a discordia ao seio de uma familia considerada. De minha parte, — retorquio Conrado, — bem estimaria que para seu castigo o major viesse ao conhecimento de todo o occorrido, pois é elle o primeiro, o unico causador de todos estes transtornos ; mas a lembrança de que Adelaide, victima dos caprichos de um pae estupido e brutal, tambem irá participar do mesmo castigo, me contem em meus legitimos desejos de vingança. — Nenhuma vingança é legitima, meu amigo. Está bem ; mas isto não seria propriamente uma vingança, porem sim um castigo, que Deus lhe infligia por minhas mãos. Esteja porém tranquillo a esse respeito ; não empregarei a arma terrivel de que disponho, sinão em ultimo caso ; mas tenho quasi certeza de que me forçarão a empregal-a ; ver-me-hei na cruel necessidade de invocar o testemunho da propria Adelaide perante seu pae e seu marido. — Talvez não ; o documento que levamos, não póde ser contestado. — Elle são capazes de contestar a luz ao sol. Veremos amanhã. A's dez horas iremos á casa do major Damazio. Poderá fazer-me ainda este favor — Com muito prazer ; creio até que a minha presença ahi não é sómente util, torna-se mesmo necessaria, pois creia que não socego, emquanto não vir este negocio terminado com o mais feliz resultado. Eu lá estarei para coadjuval-o quanto em mim couber, afim de concluil-o sem escandalo, e do modo mais pacifico que fôr possivel. Quando tivermos esgottado todos os meios brandos, eu darei um Signal, para que o meu amigo lance mão do extremo recurso. este ponto da conversação os dous amigos entravão na cidade. Acabavão de soar nove horas. Conrado apeou-se em casa, e mandou seu pagem acompanhar Frei João ao Convento e trazer a cavalgadura, CAPITULO XV O sogro e o genro. Esse dia primeiro de Novembro de 186.. . tão cheio de emoções profundas e interessantes peripecias na vida de Conrado, não se escoou tambem tranquillamente em casa do major Damazio. Desde que Conrado ahi apparecera, exigindo do senhor Moraes a libertação e a entrega de Rozaura, allegando que ella nascera livre, e declarando que era sua filha, o marido de Adelaide perdeo não sómente toda a tranquillidade de seu espirito, como tambem algum tanto de sua razão. Por mais que se esforçasse por dar pouca importancia ás declarações do rico capitalista, ellas não deixavão de fazer sobre sua alma a mais esmagadora impressão. O genro do major conhecia a Conrado pela bella e honrosa reputação, de que gozava não só na capital, como em toda a provincia do S. Paulo. Sabia muito bem que, além de rico, era homem honesto e honrado, incapaz de aleives e manejos torpes. — Este homem terá de certo algum motivo particular para querer pregar-me alguma peça, murmurava comsigo. — Já fui estudante, e elle sempre foi futrica ; talvez eu lhe tivesse arranjado alguma caçoada, de que não me lembro, e para tirar desforra vem-me agora com esta... Mas perde seu tempo ; não é a mim que ha de fazer engulir aráras ; . . . . vá com sua caçoada para mais longe. De certo o maganão sabe que gosto de Rozaura, e quer me fazer medo... Com estas e outras estolidas reflexões, que o seu mesquinho espirito lhe suggeria, Moraes procurava dissipar a terrivel impressão que lhe causára a visita de Conrado; mas era debalde; a figura grave e severa de Conrado, suas palavras firmes e concisas, e o estranho motivo de sua visita erão como visões sinistras, que de continuo lhe apavoravão a imaginação. Embaraçado com mil conjecturas, que lhe escaldavão o cerebro, não poude ter-se que não fosse communicar ao sogro tudo quanto havia occorrido entre elle e Conrado, esperando que aquelle dissipasse a inquietação, que o torturava. O velho, que em razão dos janeiros e das molestias já começava a tresler seu tanto ou quanto, soltou uma estrondosa gargalhada. Pois devéras não sabe ainda quem é esse peralta ? — exclamou elle. -— Foi meu capataz ; fui eu quem lhe deu a mão e o tirou do nada; si não fosse eu, ainda hoje elle estaria em Curitiba, domando burros, ou tocando tropa. Isso sabia eu, respondeo Moraes ; — mas o certo é que hoje é um homem de importancia e bastante rico... — Rico! ora rico ! . . . não creia nisso, homem. É mais basofia e impostura do que qualquer outra cousa. Anda nos fazendo foscas com suas patarátas de luxo e riqueza só para nos pôr sal na moleira. Si tu soubesses o motivo por que esse biltre nos tem ogerisa, não lhe davas tanta importancia. — Então elle nos tem ogerisa?... dessa não sabia eu. — Tem, e muita, meu rapaz, e eu já te conto porque. Has de acreditar que aquelle pé de poeira, sendo meu capatáz, teve o descoco de apaixonar-se pela nossa Adelaide a ponto de ter o desaforo de pedil-a em casamento a mim, a mim mesmo, que aqui estou? I — Devéras !? ... — Olé sim, senhor' e com uma petulancia e impertinencia de espantar. O que vale é que a menina nunca lhe deo confianças, e eu arrumei-lhe com um não redondo á cara. — Por isso ! por isso l . . . exclamou o genro com alegria aparvalhada. — Mas o bicho teimou assim mesmo, continuou o sogro, — e foi-me preciso enxotal-o pela porta afóra para me ver livre delle. — Por isso ! por isso ! — exclamou ainda o genro. — Por isso é que elle vem com tamanha arrogancia exigir o que não lhe pertence, inventando embustes e patranhas para me embaçar... — Queres saber uma cousa ? — interrompeo o sogro. — Quer me parecer que esse pelintra já conhecia Rozaura, e desejava possuil-a, de certo para seu serralho... o maganão gosta de boas fazendas, e como se acha apatacado, co— biçou a menina, e faz o possivel para obtel-a. — Coitado disso está elle bem livre. — Mas escuta ainda, basbaque. Não tens reparado que Rozaura tem assim certas parecenças com Adelaide, quando era mocinha? — Oh ! si tem — murmurou o genro quasi fallando comsigo mesmo. -— Pensei que só eu tinha reparado nisso. Pois é isso talvez que lhe despertou agora outra vez a paixão antiga, e. . . comprehendes D resto, para o bom entendedor um pingo é lettra. Mas como lhe tomaste a dianteira comprando a rapariga, que elle cobiçava lá para seus fins, damnou com o caso e agora vem com essas patranhas procurar arrancal-a de nossas mãos. Ah! patife! — bradou o genro encris pando os punhos. Volta cá outra vez a buscar lã, e verás como sahirás tosqueadinho ! Moraes achou todo a fundamento nas conjccturas do major, que vierão dar bases mais solidas ás suas estolidas supposições, e em consequencia suas inquietações se transformárão no mais entranhado rancor contra Conrado. Lembrando-se do ar meigo e affectuoso, com que Rozaura com seus grandes olhos limpidos e ternos havia contemplado o moço durante todo o tempo que estivera em sua presença, o ciume atracou-lhe ao coração as garras ferozes ; sua paixão insensata pela innocente menina tomou um caracter sombrio de exaltação e ferocidade, que quasi tocava ao delirio. Andava de aposento em aposento procurando Rozaura, e quando a encontrava, a envolvia em um olhar torvo e inflammado, que não se poderia dizer si era de colera, ou desse ardente sensualismo que lhe queimava o sangue. Rozaura fugia, e correndo espavorida procurava abrigo, ora junto de Adelaide, ora junto de Lucinda. O máo humor de Moraes se fez sentir nesse dia em toda a casa. Na loja o pequeno caixeiro, que o ajudava, tendo commettido uma insi- gnificante falta, Moraes investio sobre elle de covado em punho com tal furia, que o obrigou a saltar o balcão e correr pela porta afóra para nãe mais voltar. A' mesa achou o jantar pessimo, e a pobre Lucinda teve de ouvir os mais horriveis repellões. Emfim, nesse dia tudo em casa do major andou inquieto c agitado. Lucinda, preoccupada e anciosa pelo resultado das passadas que Conrado ia dar para conseguir a liberdade de Rozaura, não sabia o que fazia, e esperava com impaciencia a noite para pôr termo ás suas incertezas. Adelaide, apezar do prazer intimo que sentia vendo perto de si a filha do seu primeiro amor tão linda e tão amavel, achava-se desasocegada e apprehensiva, receando com bastante fundamento que o reconhecimento da liberdade de Rozaura não se pudesse realisar sem se romper talvez para sempre a confiança e harmonia que até alli tinha reinado no seio de sua familia» A propria Estella, apezar de sua tenra edade, vendo que Rozaura, a quem já adorava, em vez de brincar com ella na fórma do costume, andava resabiada pelos cantos da casa com ar espavorido e consternado, sem saber porque achava-se tambem triste e amuada. Sómente as creanças mais tenras brincavão, pião, saltavão com a descuidosa alegria da puericia. Quando desceo a noite, Lucinda achou pretexto para sahir, e foi direito á casa de Conrado. Este ainda não tinha chegado. Lucinda o esperou á porta por espaço de quasi uma hora. Triste e contrariada, já vinha de volta para a casa, quando encontrou em caminho dois cavalheiros, em um dos quaes reconheceo Conrado. Era tal a sua anciedade que, esquecendo-se de sua condição, abalançou-se a travar da redea do animal no meio da rua, suspender-lhe a marcha, e dirigir ao elegante cavalheiro uma pergunta. — Então, Nhô Conrado? e.. como é? . . . forão as unicas palavras que lhe dirigio. — Tudo correo á medida de nossos desejos, respondeo o cavalheiro, que logo reconheceo a velha escrava. Amanhã Rozaura está livre. A preta voou para a casa pulando de contente ; seu humor do dia para a noite mudouse por tal fórma, que a todos causou estranheza; ella, que durante todo o dia estivera distrahida, rabujenta e de poucas graças, apresentava-se agora alegre e folgazona como nunca. Corria, cantava, ria-se á toa, como si fosse uma creança. Tomou Rozaura ao collo, e cobrindo-a de caricias a chamava de sinhásinha com alegria tal, que parecia loucura. Rozaura, Estella e as creanças, que nem por sombra suspeitavão o motivo de tão insolito conten- tamento, rião-se tambem, a não poderem mais, da desenvoltura de Lucinda. Adelaide que fôra a primeira a quem a preta logo ao chegar tinha communicado as palavras de Conrado, sentio banhar-se-lhe em jubilo o coração ; mas um cruel presentimento pesava-lhe sobre o espirito, e não permittia que o seu jubilo se manifestasse com as mesmas expansões do de Lucinda. Ella comprehendia va namente que se achava na vespera de um acontecimento que tinha de exercer a mais decisiva influencia sobre seu destino futuro, e cheia de inquietação e angustia aguardava o desenlace de uma situação que ella, melhor que ninguem, sabia quanto era grave e melindrosa. Durante a noite o somno de todos, á excepcão do das creanças, foi agitado, febril e povoado de sonhos. O espirito de Adelaide debatia-se entre o prazer de ver sua filha bela, grande e pura, arrancada á escravidão e restituida aos carinhos de seus progenitores, e o receio cruel de ver perdida aos olhos do esposo e do pae a reputação, de que até alli gozára, e estes pensamentos alumentavão o somno de suas palpebras. Moraes teve horriveis pezadelos e sonhos pavorosos, em que se lhe apresentava a figura de Conrado torva e inexoravel, disputando-lhe a posse da formosa Rozaura. Para Lucinda essa noite pareceo uma eternidade ; estava anciosa pelo momento" em que, em vez de dar, teria de pedir a benção á Rozaura. Esta dormio com a imaginação entre a figura sombria e sinistra de Moraes, ameaçandoa com seus olhares ardentes e carregados, e a benevola e placida imagem que lhe ficára intimamente gravada n'alma, do homem que estivera com ella pela manhã. CAPITULO XVI Abate os soberbos No dia seguinte, Frei João veio almoçar em caza de Conrado, e dahi dirigirão-se ambos para a casa do major Damazio. A missão que ião desempenhar, era grave e melindrosa, e é facil de comprehender a emoção com que ambos e especialmente Conrado transpuzérão a soleira daquella casa, onde por uma fatal necessidade ião talvez levar a vergonha e a desharmonia. Introduzidos na sala de visitas, forão ahi recebidos pelo major Damazio com fria polidez. — Desejava saber, — disse o major convidando-os a sentarem-se, a que devo a honra desta visita. Frei João, que conhecia a velha indisposicão que existia entre o major e Conrado, e reflectindo que debaixo da emoção, que o do- minava, seu amigo não teria a necessaria presença de espirito para entabolar convenientemente a conversação, resolvco-se a responder por elle. Não é propriamente uma visita, senhor Major, — disse o frade. O que nos traz hoje á sua casa, é um negocio da mais alta importancia, não só para nós, como para va sa. Um negocio da mais alta importancia !... exclamou o major, fingindo-se* sorprehendido. — E' commigo l . . . póde ser... Declarem qual é esse negocio, e estou prompto a dar a solucão, que fôr de direito, e couber no possivel. — Entretanto, senhor major, -— continuou Frei João, — para tratarmos desse negocio é indispensavel que estejão tambem aqui presentes o senhor Moraes e sua senhora, que são nelle altamente interessados, e por isso rogamos-lhe o favor de mandal-os chamar. — Muito grave é o negocio, mas por isso não seja a duvida, — disse o major tocando a campainha. Appareceo um escravo, pelo qual mandou chamar a filha c o genro, que após instantes se apresentárão na sala. Quando Adelaide deo com os olhos em Conrado, apezar de pevenida, empallideceo, foi extraordinaria sua perturbação, e a muito custo com passos vacillantes adiantou-se para tocar a mão, que elle lhe estendia. Ah ! que tristes e amargas recordações lhe opprimião o coração, e que serias e assustadores apprehensões lhe assaltavão o espirito naquella occasião e em presença daquelle homem!... Adelaide, apezar dos filhos e de mais quatorze primaveras que tinhão passado sobre sua juventude, ainda conservava no frescor da têz, no brilho dos olhos, e na delicadeza e flexibilidade de seu bem feito corpo quasi intactas todas as graças da primeira mocidade. A matrona de trinta annos em quasi nada differencava de donzella de dezoito. O tempo apenas lhe tinha tornado as bellas feições um pouco mais pronunciadas, e lhe imprimira na physionomia certa expressão grave e melancolica, que ainda mais lhe realcava os encantos. Ao ver tão perto de si e ao tocar a mão daquella que fôra o primeiro e unico amor de sua vida, Conrado sentio o mais violento abalo, e abafou um gemido de angustia e de saudade. Pareceo—lhe que sua antiga paixão ia renascer com todos os seus arroubos e exaltacões, e a muito custo conseguio domar a extrema emoção que o assoberbava. Tambem Frei João se achava bastantemente commovido. Espirito elevado, e alma nobre e sensivel, bem comprehendia o alcance e importancia da scena, que se ia passar. O major e seu genro erão os unicos que se mostravão pouco preoccupados, e apezar de não ignorarem o motivo da visita de Conrado, affectavão certo ar de indifferença e seguridade. Tinhão razão ; estavão longe de suspeitar a que tristes resultados poderia chegar aquella conferencia. Si pudessem adivinhar, que vergonha e ignominia estava suspensa sobre suas cabeças como a espada de Damocles, serião elles os primeiros a se apresentarem de fronte humilhada e cheios de confusão, pedindo uma accommodação honrosa, Senhor major, — disse Frei João, ainda precisamos pedir-lhe mais um favor. — Prompto, si estiver em meu poder... —Ê muito simples o meu pedido. É de absoluta necessidade que aquillo, sobre que temos de conversar, se passe debaixo do maior segredo, de modo que jamais possa ser divulgado, nem conhecido sinão por nós, que aqui nos achamos. Por isso peço-lhe que mande 18h retirarem-se dos commodos vizinhos os famulos e escravos c mais pessoas da familia e feche as portas de modo que não possüo cscutar-nos. — É boa ! - exclamou o major com desabrirnento. —Nunca tive e nem tenho segredos em minha casa ! não me dirá para que fim tanto mysterio 'P ' — Teremos acaso o tribunal da Inquisição em nossa casa, senhor padre? perguntou Moraes impertigando-se. — Não se agastem, meus senhores, —— respondeo o frade com brandura. -— Bem sei que o senhor major não tem segredos em sua vida, e si os tem, elle proprio os ignora ; e fique certo o SI' Moraes, que não venho trazer a sua casa o tribunal da Inquisição. Venho aqui a convite de meu amigo o senhor Conrado a fim de cumprir um dever não só de amizade, como de religião e humanidade. Tenho ernfim com o desígnio de levar a urn feliz c pacifico descnlace um negocio de muito melindre, que pende entre e)le c os senhores. No fundo desse negocio existe um segredo importante, quo talvez seja forçoso revelar, e que é mistér que fique sepultado aqui entre nós, sem que jamais possa echoar além destas quatro paredes, O major e Moraes olharão um para o outro, como quo perguntando o que significavüo as palavras que Frei João acabava de proferir; Adelaide porém, que bem comprehendia o alcance dellas, estremeceo e recolheo sua alma no seio de sua angustia. — Pois bem ! — disse Moraes fechando bruscamente as portas do salão. — Faça-se a vontade ás vossas senhorias ; quanto a mim, tanto me rende, que as portas estejão fechadas, como abertas. Não tenho segredos, mas não posso prohibir que outros os tenhão. Vejamos agora, —concluio elle sentando-se, — qual é esse tão importante e mysterioso negocio. — Esse importante e mysterioso negocio, — disse Conrado levantando-se, e com voz firme e pausada, é de summa importancia, e precisa muito da sombra do segredo e do mysterio, principalmente da parte de vossa senhoria. É cousa muito simples ; e para evitar mais perguntas, vou explical-a em poucas palavras. A pouco tempo o senhor Moraes comprou como escrava uma menina por nome Rozaura a um negociante de escravos, para servir de mocamba a uma menina chamada Estella, filha do senhor Moraes e da senhora Dona Adelaide. — Até ahi tudo é exactissimo, — murmurou Moraes. —- Ora, sem o saberem, — continuou Conrado, comprarão uma pessoa que nasceo livre, e que por fraude e malicia de uma mulher, que hontem falleceo, foi reduzida á escravidão. Hontem eu procurei o senhor Moraes, e pedi-lhe o resgate dessa menina offerecendo-lhe a quantia que quizesse; mas elle recusou-se obstinadamente. Hontem eu ainda não tinha provas irrecusaveis; hoje, mercê de Deos, as tenho solidas e irrefragaveis, e venho apresental-as e exigir que me seja entregue essa menina, sobre a qual tenho direitos sagrados. — Direitos sagrados . — exclamou o major, — esta ainda é mais importante. Quaes são elles ? — Já hontem declarei ao senhor Moraes, e agora o repito : sou pae de Rozaura. Há! Há! — gargalhou o major com riso aparvalhado. — O senhor é o pae e não poderá fazer-nos o favor de dizer quem era a mãe ? Conrado olhou para Adelaide, e empallideceo ; ella baixou os olhos e corou. Ambos tivérão commiseração do dito inconsciente do pobre velho. Não ha necessidade de saber-se quem é a mãe, — redarguio Conrado ; — é um segredo, que desejo guardar, e que só em ultima necessidade revelarei para salvar minha filha da escravidão e da deshonra. Conrado carregou nesta ultima palavra fitando os olhos em Moraes, que percebendo-lhe o alcance estremeceo como o réo que vê seu crime descoberto. — Estou prompto, continuou Conrado, — a indemnisal-os da somma por que comprárão a menina, porque sei que o fizerão em boa fé. — É debalde insistir, senhor Conrado, replicou Moraes,' — nós não disporemos della, nem mesmo que o senhor offereça toda a sua fortuna. A paternidade, que Va chama a si, e de que não queremos duvidar, nada signiica; a maternidade é o que importa neste caso, e emquanto Va Sa não provar que Rezaura é filha de mãe livre... -— Nada mais facil, — atalhou Conrado; — mas quero guarda resse segredo, porque importa a honra de uma mulher, a quem consagro... a mais alta estima. — Ah ! nesse caso só Va Sa tentando os meios judiciaes; e mesmo assim lhe será talvez necessario desembuchar esse segredo. Devo notar-lhe tambem que nós não maltratamos Rozaura ; pelo contrario a consideramos como fazendo parte da familia, e a tratamos com o mimo e carinho que ella merece. A minha Estella a quer como si fosse sua irmã, e minha mulher a extremece, como si fosse sua filha. — Acaba Va sa dc proferir a meio uma verdade mais verdadeira do que imagina, — disse Conrado com certo sorriso de melancolica ironia, cuja significação só Adelaide e Frei João comprehenderão. — Mas, senhor Moraes, continuou Conrado, creio que neste negocio poderei pres cindir dos meios judiciarios. A infeliz mulher que escravizou Rozaura, falleceo hontem, mas antes de expirar fêz confissão publica do seu crime; o sacerdote, que a ouvio de confissão, foi o meu amigo, que aqui se acha presente, o senhor Frei João de Sancta Clara, de cujas virtudes, prudencia e illustraçüo não é dado duvidar. Em presença delle, minha e de mais duas testemunhas as velha fez a seguinte declaração, que tomamos por escripto, e que passo a ler. Conrado tirou da algibeira e leo com voz firme e clara o papel, cujo conteúdo já conhecemos. Finda a leitura decorrerão silenciosamente alguns instantes de angustia e inquetação para uns, e de estupefacção para outros. A angustia estava no coração de Conrado, de Frei João e de Adelaide, que comprehendião perfeitamente a critica situação em que se achavão. Póde-se idear, mas não explicar, a penivel posição em que se achavão aquellas duas almas nobres em presença de uma mulher, cuja reputação ião ver-se talvez na dura necessidade de sacrificar para salvar a filha da escravidão e da deshonra ; de uma mulher, que não obstante ter no seu passado uma nodoa muito desculpavel, tinha-se mostrado por seu ulterior comportamento digna de todo o respeito e estima da sociedade. A estupefacção era por parte do major e de seu genro, que a principio sentirão—se inteiramente desconcertados e como que aturdidos com a leitura do documento, que Conrado apresentára. Todavia não quizerão dar-se ainda por vencidos. O primeiro, já treslendo algum tanto, não quiz dar credito ao que via e ouvia, e começou a pensar lá de si para si que toda aquella scena não passava de manejo preparado pelo seu ex-capatáz, que por aquella maneira procurava vingar-se delle por lhe ter recusado a mão de sua filha. O genro dominedo pela insensata paixão, que concebera pela gentil Rozaura, e allucinado pelo ciume, que o sogro lhe excitára n'alma fazendo-lhe crer que Conrado cobiçava a rapariga para sua amacia, fechava tambem os olhos á evidencia, e não via nessa triste e pungente scena mais que embuste e velhacaria. Foi Moraes quem primeiro rompeo o silencio. Senhor Conrado, — disse elle com desdenhosa e impertinente altivéz, — sei muito bem quem era essa mulher, que foi a primeira senhora de Rozaura, e que hontem falleceo. Tambem já houve quem esta manhã me desse noticia da scena, que vossa senhoria preparou, e que de facto não foi mal representada. Em qualquer outra occasião Conrado teria repellido com energia e dignidade esta tão grosseira e insultuosa insinuação ; mas naquelle delicado transe lhe era mistér levar ao extremo sua paciencia e longanimidade. Uma ruptura logo no começo daquella conferencia podia transtormar todos os seus planos de accommodação pacifica e honrosa, e portanto deixou passar sem resposta as palavras injuriosas de Moraes. Não contesto, —— continuou este, — que essa mulher foi quem vendeo Rozaura; mas vendeo-a como sua legitima senhora; posso contestar, contesto e contestarei sempre que Rozaura seja livre, por nascimento, como filha de mulher livre. Merece ser livre, é verdade; mas a mim compete dar-lhe a liberdade, quando me approuver e julgar conveniente. Todo o povo de S. Paulo conhece muito bem quem foi essa Nha-Tuca. Foi uma boa e honrada senhora, que ha muitos annos por desgraças e contratempos, que lhe sobrevierão, cahio na miseria e perdeo o juizo. Caduca e alienada, como estava, com mais de oitenta annos de edade, e de mais a mais já nas vascas da morte, que valor póde ter a sua declaração, embora feita perante tres ou mais testemunhas — Isso é que é verdade, — ponderou o major. — Isso é que nada tem de verdade, replicou Frei João com voz sonora e firme; — minha deposição alli está firmada com juramento, e mercê de Deus nunca profanei o sagrado habito que visto, com um juramento falso ou mal considerado. Tambem não sou tão destituido de penetração e intelligencia, que não saiba discernir quem está ou não em estado de demencia, e posso asseverar e jurar, si necessario for, que essa mulher morreo no gozo perfeito de sua faculdades intellectuaes. — Mas, senhor padre, — replicou Moraes, — todo o homem está sujeito ao erro ; Va Rma bem podia enganar-se. — va Sa é que está perfeitamente enganado a respeito dessa mulher. Nha Tuca nunca foi essa boa e honrada mulher, que va Sa pensa. A principio passou por tal; mas ha muito tempo o povo está no conhecimento de suatriste e vergonhosa chronica, das torpezas, embustes e pelver. idades que praticou para enriquecerse. Além de sua propria confissão, ahi está a voz publica, que ha ito te já a tinha condemnado. É portanto irrecusavel o documento, que o meu amigo acaba de ler. — Vel-o-hemos em juizo,— retorquio Moraes com arrogancia. — Não ha de ser preciso, — exclamou Conrado levantando-se com indignação, — quero poupar-lhe esse trabalho, senhor Moraes. — A validade desse documento vae ser confirmada aqui mesmo e sem mais demora. Frei João lançou um olhar a Conrado, e fézlhe um gesto negativo, como dando-lhe a entender que ainda se devia tentar algum esforço para trazer aquelles homens a um accordo razoavel. Conrado o comprehendeo o calou-se. Frei João levantou-se então, e com ar grave o solemne : Não posso comprehender que poderoso motivo leva Vossas senhorias a cerrarem os olhos á evidencia, e a recusarem-se com tanta pertinacia á pratica de uma acção nobre e generosa, que não é mais do que o cumprimento de um dever de justiça e de humanidade, que em nada os prejudica. O meu amigo possüe um documento incontestavel, que ha pouco acabámos de ouvir ler, e que jamais, quer em juizo como fóra delle, poderá ser infirmado. Além disso allega um direito sagrado: a paternidade; o senhor Conrado é pae de Rozaura. Por fim offerece-se para indemnisalos do valor por que comprárão a menina, e está prompto a dar mais ainda, si o exigirem. Por cumulo de generosidade, o meu amigo quer evitar os meios judiciarios para arredar um escandalo, cujo peso tem de recahir todo sobre quem o quer provocar. A justiça, a humanidade, a religião e a honra exigem que vossas senhorias entreguem a menina 19h ao senhor Conrado, restituão a filha a seu pae. Muitas outras cousas disse o respeitavel carmelita em linguagem severa, mas commedida, e com a eloquencia de um verdadeiro apostolo de Christo; não conseguio porém arrancar aquelles dous homens de sua cega obstinação. Adelaide pallida e anniquilada ousou tamborn balbuciar algumas palavras em favor da pretenção de Conrado ; mas apenas havia come— gado a fallar, um olhar terrivel do marido e um gesto ameaçador do pae a fizerão emmudecer. — Reflictão bem, meus senhores, — disse ainda o carmelita; —- olhem que com sua obstinada recusa vão dar um triste e escandaloso desfecho a um negocio, que bem podia terminar-se entre nós de um modo amigavel e honroso para todos. — Desista de semelhante empresa, senhor padre, redarguio Moraes com azedume e máo modo; ella é impropria, para não dizer indignade seu estado. É a primeira vez que vejo ir-se aos convenios arrancar os frades de suas tranquillas cellas. distrahil-os de suas sanctas occupaçõcs para nos virem á casa disputar-nos nossa legitima propriedade. A estas desrespeitosas e insensatas palavras de Moraes, Frei João não perdeo a calma nem a paciencia ; mas perdeo toda a esperança de poder chamar aquelles dois homens ao caminho da prudencia, da razão e da justiça. Convenceose por fim que baldados serião todos os esforcos que empregasse para conduzir o negocio, que alli o trazia, a uma solução menos escandalosa e menos fatal á tranquillidade e honra daquella familia. Olhou para Conrado e com um gesto deo-lhe a entender que já não havia outro recurso sinão lançar mão da fatal e extrema arma de que dispunhão. Conrado o comprehendeo, e abatando a vóz, para que não echoasse fóra daquelle recinto, mas com um accento bem distincto e repassado de dolorosa e profunda emoção : Deus e todos que aqui se achão, disse, — são testemunhas dos esforços, que temos empregado, eu e meu amigo Frei João, no sincero e louvavel empenho de evitar um grande escandalo conservado inviolavel um segredo. cuja revelação vae trazer a vergonha, a desconfiança e a discordia ao seio de uma familia, cuja harmonia e felicidade eu sou o primeir) a desejar. Mas desgraçadamente forção me a ar esse extremo e doloroso passo; resignem-se portanto a ouvir a verdade toda inteira. Senhor major, restitua-me sua neta ; senhor Moraes, restitua-me a filha de sua mulher; Senhora Dona Adelaide, faça com que me seja entregue a nossa filha!...  CAPITULO XVII Exalta os humildes Passarão-se alguns momentos de pasmo e de silencio, durante os quaes o major e seu genro ficarão como fulminados, e Adelaide entregue á mais cruciante angustia. Moraes todavia, posto que aturdido por aquelle cruel e inopinado golpe, não quiz ainda acreditar, e tentou reagir contra a terrivel verdade, que o esmagava. — Nossa filha! — bradou elle espumando de raiva e avançando para Conrado de punho alçado. — Mentira ! infamia ! vil impostura!... — Que pretende, senhor? disse Frei João avançando tambem, estendendo o braço e com um gesto firme e imponente contendo a colera insensata de Moraes. —- Espere ainda; não se exaspere tanto ; já que assim o quer e não dá credito a nossas palavras, tendo—nos em conta de embusteiros e calumniadores, a verdade vae-lhe ser revelada em toda a sua cruel realidade pela bocca mais competente. — Mentira ! embuste' para apadrinhar um roubo querem trazer a deshonra ao seio de uma familia honesta ! — bradou ainda Moraes. — Senhor Moraes, — disse Conrado, — é Vossa senhoria quem força um pae a lançar mão deste meio extremo, mas legitimo, para arrancar a filha das garras do captiveiro e da deshonra. Do captiveiro, é cousa manifesta; da deshonra, o senhor Moraes melhor que ninguem sabe o motivo por que assim me exprimo. — Não insulte por esse modo a toda uma familia honrada. — Não insulto a ninguem; digo simplesmente a verdade. Minha senhora, — continuou Conrado voltando-se para Adelaide com accento repassado de amargura, — espero que me não ficará odiando por tão estranho procedimento, a que as circumstancias me obrigão. Perdoe-me; a senhora tambem é mãe, e não quereria por preço nenhum ver a sua filha reduzida á escravidão, exposta continuamente ás seducções... Ah ! minha senhora, é escusado dizer-lhe mais... não posso sacrificar a liberdade e a honra da filha á reputação da mãe. É preciso que a senhora declare quem é a mãe de Rozaura. Adelaide não respondeo directamente a esta pergunta, mas cahindo de joelhos aos pés de seu marido, contorcendo convulsivamente as mãos, debulhada em lagrimas, c affogada cm soluços, mal podia pronunciar : Perdão perdão!... — Levanta-te dahi, mulher indigna! —- gritou Moraes repellindo-a brutalmente. — levanta-te, e nunca mais me appareças. — Perdão! perdão ! continuou ella abracando as pernas do marido. — Em nome de nossos filhinhos, perdão, meu marido! perdão, meu pae' perdão, meu Deos!... Perdoar-te eu disse Moraes. — ah si eu soubesse ha mais tempo que não passavas de uma... — Basta ! — bradou Conrado atalhando a palavra ignominiosa, que irrompia dos labios de Moraes. — Insultar a uma senhora em tão afllictivas circumstancias não é só uma crueldade, é uma indignidade, uma covardia; quatorze annos de uma vida pura e de um procedimento exemplar sho mui sufficientes para fazer esquecer uma primeira e unica fraqueza, devido a imprudencia e ardor da mocidade. Embora ! si va Sa não perdoa, Deus perdoará. E Va sa , continuou Conrado voltando-se respeitosamente para o major, que mal voltára a si do effeito esmagador, com que o fulminára tão triste revelação, —- tambem não perdoa á sua filha? — Eu ! eu nunca ! — respondeo elle com olhar desvairado e vóz lugubre e cavernosa. Quando pensei eu que estava reservada por minha filha semelhante vergonha para meus ultimos dias ah! meu Deus ! antes nunca semelhante opprobrio tivesse chegado ao meu conhecimento ! O velho cravou os cotoveos sobre os joelhos, e escondendo o rosto e a fronte entre as mãos tremulas e convulsas, cahio em triste e profundo abatimento. Adelaide em pé a um canto da sala, debruçada sobre um aparador, envolvendo o rosto entre os braços procurava em vão abafar os soluços, que lhe abalavão os seios. Moraes sentou-se a um canto, e para disfarçar a confusão a vergonha e o desespero, que lhe flagellavão a alma, trincava desapiedadamente entre os dentes as pontas de seu aspero e comprido bigode. Conrado e o frade, opprimidos pela mais dolorosa impressão contemplárão por instantes silenciosamente aquella pungente e contristadora scena. — Tem razão, senhor major, disse por fim Frei João em tom brando e benevolo, approximando-se do major; — melhor seria, que vossa senhoria e seu genro ficassem para sempre ignorando esse mysterio, que estava escondido nas sombras de um passado inexcrutavel para vós e para todo o mundo, e era esse o nosso maior empenho, para o qual envidámos os meios a nosso alcance. Mas quem é o culpado dessa revelação ? quem provocou esta scena angustiosa, que ameaça destruir para sempre a paz e felicidade, que até aqui tem reinado no seio de sua familia?. .. Vossas senhorias mesmos, fazendo-se surdos ás nossas propostas, a nossos avisos e conselhos, inspirados por sentimentos de honra, de justiça e de humanidade. Por que razão não se decidirão a conceder logo e sem condições, como aconselhavão a razão, a justiça e a conveniencia, a liberdade a essa menina, que nasceo livre, como tudo estava denunciando Si assim tivessem procedido, o triste segredo que acaba de ser revelado, ficaria para sempre sepultado entre nós tres, entre mim, o senhor Conrado, e a senhora Adelaide. Mas vossas senhorias, bem a pezar nosso, nos forçarão a esta cruel revelação. Ainda mesmo que não apparecesse o proprio pae reclamando sua filha, nem eu, nem qualquer outro, que tivesse coração nobre e sensivel, uma vez sciente do occorrido, poderia jamais consentir que o avô e a mãe continuassem a conservar em casa entregue aos vexames da escravidão, a neta e a filha. Agora cumpre-lhes acceitar com resignação as consequencias de sua imprudente e mal avisada obstinação. Cumpre-lhes sobretudo eliminar para sempre do espirito e do coração a lembrança de uma falta, que já está amplamente expiada por longos annos de uma vida exemplar e sem mancha, e que já se perde sepultada nas trevas profundas de um remoto passado. — Console-se, meu amigo, — continuou Frei João pousando brandamente a mão sobre o hombro do ancião, que ainda se não reerguera de seu abatimento. — Não se entregue a um pezar, que não tem muita razão de ser. Nenhum opprobrio pesa sobre sua familia, nem macula alguma veio marear a bella reputação de sua filha, que por suas virtudes e pelos excellentes dotes de seu coração e de seu espirito, tem sabido conquistar na sociedade o respeito e a estima de todos. A solicitude, a paciencia, o zelo religioso, com que por largo tempo tem desempenhado os deveres de filha, de esposa e de mãe, a tem tornado tão pura, e talvez mais respeitavel do que o era antes de sua falta. A fraqueza de sua mocidade é um segredo, que ficará para sempre entre I)oos c nós. Senhor major, sou eu quem lhe pede em nome da humanidade e da religião, abençoe sua filha. Senhor Moraes, em nome da honra e da dignidade, e sobretudo em nome de seus innocentes filhinhos, abrace sua esposa. As palavras graves, mas brandas e insinuantes do carmelita produzirão profunda impressão no animo dos que o escutavão. Depois que terminou, reinou ainda completo silencio por alguns instantes, durante os quaes só se ouvia a respiração offegante de todos, e os soluços mal abafados de Adelaide. O espirito de Moraes nadava na mais cruel perplexidade. As palavras do frade lhe havião penetrado no coração ; não podia deixar de reconhecer quanto erão cordatas e assizadas ; mas o orgulho, o pundonor, c a honra do esposo offendida dc um modo tão brusco e doloroso, offuscavão-lhe a razão e quasi o fazião surdo aos dietames da justiça e da humanidade. Debalde porém tentaria resistir á cruel situação, que o assoberbava ; si quizesse recalcitrar, iria tornal-a ainda mais complicada e escandalosa. Deo a mão a Adelaide, que de novo tinha vindwp prostrar-se a seus pés banhada em lagrimas, e ajudou-a a levantar-se. — Levante-se, senhora, — disse friamente dando—lhe a mão. — Da minha parte está perdoada. Não quiz porém abraçal-a. O major sentia-se abalado até o intimo d'alma; as palavras do carmelita tinhão operado nelle profunda e salutar revolução. As rijas fibras d'aquelle coração endurecido pelos preconceitos da educação e da ignorancia, agora amolgadas pelos gelos da edade e pelas severas lições de amarga experiencia vibrárão pela primeira vez a um impulso nobre c generoso, e tornárão-se sensiveis á voz da razão e da natureza. Duas grossas lagrimas lhe escorrogárão pelas faces rugosas e macilentas; erão talvez as primeiras que lhe corrião das palpebras, desde que se conhecera homem; mas por isso mesmo quanta dôr, quanta amargura, quanto arrependimento devião encerrar ! . . . Levantou-se, e avançando de braços abertos para sua filha a cingia contra o coração. Não, minha filha, não és tu que deves pedir perdão a mim, nem a ninguem, — disse com accellto da mais intima e sincera compuncçao. — É teu velho pae que o vem pedir-te agora. Perdão, minha filha ! E o velho apertava a filha entre os braços, e ambos derramavão lagrimas no seio um do outro. — Perdoar-lhe eu meu pae, porque ? — dizia a filha entre soluços. — Agora vejo que te fiz muito, muito mal. Eu sou a principal causa de tudo isto ; fui eu o autor de tua deshonra... fui eu, quem escravisou minha neta l . . . Perdão, Adelaide !... Perdão Conrado!... — Não meu amigo, — atalhou Frei João, o perdão generoso que acaba de dar á sua filha, o absolve de qualquer falta, e o torna digno do respeito de todos nós. — É verdade o que diz o meu amigo, senhor major, — disse Conrado. — Eu tambem de hoje em diante, banindo inteiramente da lembranca nossa antiga desavença, beijo a mão do pae generoso e bom, que sabe perdoar. E dizendo isto beijava com respeitosa effusão a rugosa mão de seu antigo patrão. — Mas, — continuou elle, a minha culpa é talvez a maior e a mais grave de todas ; e eu tambem preciso do seu perdão. — Si não tosse a minha, senhor Conrado, — replicou o major, — a sua culpa não existiria, nem a de Adelaide. Nada tenho que perdoar-lhe; mas si assim o quer, em minha consciencia e em meu coração está perdoado. — Fico-lhe agradecido do fundo d'alma, Agora só me resta fazer ainda um pedido. O segredo, que aqui entre nós já não existe, deve ainda desgraçadamente ser conservado até entre irmãos. Rozaura ainda não sabe quem é seu pae ; mas hoje mesmo o saberá ; e si e senhor Moraes consentir, hoje mesmo saberá quem é sua mãe. Rozaura já tem quatorze annos, e parece-me que será capaz de guardar o segredo até para com seus proprios irmãos. — Não posso me oppÔr, — respondeo Moraes com ar triste e abatido, — a que Rozaura fique sabendo quem é sua mãe; o que desejo é que meus filhos ignorem sempre a falta de Adelaide. — Tem toda a razão, — confirmou o carmelita; — seus filhos são ainda mui creanças, e a indiscreção propria da edade os levaria naturalmente a divulgar um segredo que deve ficar para sempre occulto aos olhos do mundo. Más eu tambem não sahirei daqui com a consciencia tranquilla, si não fizer ainda um pedido por minha parte e por parte do amigo que aqui me trouxe. Este pedido, que não importa sacrificio algum para a familia, tem por si a justica, a humanidade, mesmo a gratidão. É innegavel que quem mais contribuio para que se reconhecesse o verdadeiro nascimento e a liberdade de Rozaura, foi a escrava Lucinda. Sem ella a pobre menina ficaria talvez para sempre condemnada á condição de escrava em casa de sua propria mãe, quando muito á de liberta, sem que jamais se pudesse saber a sua verdadeira origem, e si tivesse de ter filhos toda a sua descendencia ficaria com essa nodoa original. De certo nem o senhor major, nem o senhor Moraes sabem ainda por que meios mysteriosos a divina Providencia se servio dessa boa rapariga como de um instrumento para seus altos e misericordiosos designios; mas cm breve serão informados dc tudo isso, e se convencerão de que digo a verdade. Lucinda é a verdadeira libertadora da menina Rozaura. Ora% não é justo que aquella que dá libcrdadc aos outros, que acaba de desatar os nós que amarravão ao posto do captiveiro a filha de seus senhores, continue a ser captiva. É emfim a liberdade de Lucinda que lhes pedimos. O meu amigo dará por ella qualquer somma que exigirem. — Não acceito somma alguma, nem grande, nem pequena; não quero nem mesmo agradecimentos, — disse o major, — porque é esse o meu dever. Lucinda desde este momento é livre. — Deus lhe levará em conta a sancta e generosa acção que acaba de praticar. Agora pódem mandar abrir essas portas ; nosso principal empenho era reconhecer Rozaura como livre de nascimento ; isto felizmente está conseguido ; é quanto basta e quanto se deve saber fóra daqui. Peço a Deus, senhor major, que a paz e felicidade, que tem reinado até aqui em sua casa, não se perturbe com este incidente, e se conserve sempre inalteravel. Conrado. e Frei João se retirárão commovi dos e pensativos, mas satisfeitos com o resultado da espinhosa missão que tinhão desempenhado. CAPITULO x VIII A mãe e a filha. Terminou-se assim o grave e delicado negocio do reconhecimento de Rozaura como livre de nascimento, com aprazimento de todos, Sómente Moraes, apezar de reconhecer a justica e indeclinavel necessidade daquelle acto, sentia-se com razão humilhado e abatido sob o peso de sua nova situação. A revelação que acabava de ouvir, confirmada por um modo irrefragavel, de ter elle desposado como pura uma mulher maculada por uma primeira falta, o acabrunhava. Si já os encantos de Rozaura ião extinguindo em seu coração o amor conjugal, dahi em diante jamais poderia conservar para com ella a mesma affeição e estima, que até alli lhe votava, mas desprezo e aversão. Não se pôde negar que assistia-lhe bastante razão. Os zelos não se limitão sómente aos cuidados do presente e aos receios do futuro ; estendem-se tambem pelo passado e tornão-se retrospectivos. Com effeito deve ser bem doloroso para o coração de um marido, que tern vivido largos annos na doce persuasão de que fora elle objecto do primeiro e unico amor de sua esposa, saber que esta já tivéra outro affecto talvez mais extremoso e ardente do que aquelle que lhe consagrava, embora mesmo não fosse acompanhado das fataes consequencias, q le teve o de Adelaide. Ainda si o objecto dessa primeira paixão já não existisse, ou pelo menos a distancia ou novos laços de amor tornassem provavel a completa extincção de seu primeiro affeito, o espirito de Moraes poderia tranquillisar-se algum tanto. Mas Conrado estando alli vivo, morando na mesma cidade, solteiro, com o coração completamente livre e isento, moço elegante, rico e rodeado, a situação de Moraes não era das mais invejaveis. Por outro lado, a perda de Rozaura por quem tinha concebido uma dessas paixões sensuaes e infrenes, que quasi não se pódem explicar, o enchia de despeito, raiva e ciume. Rozaura livre e debaixo do dominio de Conrado ficava inteiramente fóra do alcance de seus libidonosos desejos, e formosa, rica e cheia de attraetivos como era, não tardaria a encontrar algum amante feliz que a desposasse ; esta idéa, por mais que elle se esforçasse por arrancal-a, se lhe agarrava teimosa ao coração como farpa envenenada. Para Adelaide tambem esta nova phase de sua existencia apresentava duas faces bem differentes ; uma risonha e feliz, cheia de suaves expansões de ternura e alegria ; outra porém carregada de sombrios matizes, entenebrecida de crueis angustias e pungentes inquietações. O tempo havia mitigado, mas não extinguido, o vivo pezar, antes remorso que a cruciava, quando se lembrava da filhinha, fructo de seu primeiro amor, exposta e fallecida no mesmo dia em que nascera. Quando essa cruel recordação lhe preoccupava o espirito, acudião-lhe as lagrimas aos olhos, accusava-se de mãe desnaturada, maldizia-se e lançava contra si mesma a exprobração de infanticida. Estas crueis recordações, estas amargas reflexões e que transformando seu genio outrora tão alegre, descuidoso, e até mesmo leviana, tinhão communicado ao seu caracter, á sua physionomia e ás suas maneiras esse ar grave e melancolico, que dessa epoca em diante sempre a distinguio. Comprehende—se, pois, o jubilo intimo que lhe banhava o coração, vendo viva e restituida a seus carinhos a filha, da qual julgava que na terra já nem os ossos existião. Entretanto esse prazer era fortemente contrabalançado pela vergonha e humilhação em que se via collocada perante o pae, e principalmente perante o marido. Do pae estava ella certa de que fôra completo o perdão e nascido de abundancia do coração ; o do marido porém via bem claramente e todos comprehenderão que fôra arra\lcado pela força das circumstancias, A infeliz esposa já presentia que jamais poderia gozar do mesmo gráo de affecto e confiança que até alli merecera do marido, e antevia com tristeza um futuro de desavenças e dissabores, de zelos e desconfianças ; mas estava resignada a acceitar submissa e sem queixume, como expiação de sua falta, o peso de sua nova e triste situação. Lucinda, a quem Adelaide immediatamente communicára a resultado da conferencia, não cabia. em si de contente ; parecia ter sacudido o peso dos annos, e ria, cantava, e pulava como uma creança. Correo immediatamente para junto de Rozaura, cahio-lhe aos pés, e abraçando-a pelos joelhos, com os olhos arrazados em lagrimas de alegria, chamou-a de — sinhásinha, — de sinhá Rozaura, e de mil outras cousas fagueiras e affectuosas, que puzérão em grande espanto a pobre menina. — Que quer dizer isto, tia Lucinda ? ! exclamou Rozaura entre atonita e risonha ; — você hoje esta louca... ou ...? — Não sou sua tia, não, sinhásinha; mecê não é nem nunca foi captiva ; seu pae e sua mãe estão ahi bem, e gente rica. Eu? ... tenho pae e mãe vivos opa me deixe, tia Lucinda ; você esta caducando. — Ah eu estou caducando pois sim, escuta cá, menina. Lucinda levantou—se dos pés de Rozaura, sentou-se em um tamborete e fez a menina sentar-se sobre seus joelhos. Nessa posição contou á menina em poucas palavras, mas com muita vivacidade, a historia do seu nas— cimento, a malicia e fraude da velha que a tinha reduzido ao captiveiro, o modo singular, pelo qual ainda na vespera, e de que Rozaura estava bem lembrada, ella, Lucinda, tinha descoberto que Rozaura era a menina que tinha sido engeitada á porta de Nha-Tuca, a confissão da velha, e como acabava de ser reconhecida como livre de nascimento por toda a gente de casa. Lucinda em toda a sua singela e animada narração tinha contado unicamente o milagre, mas muito de proposito não tinha nem por indicios revelado o nome do pae nem da mãe de Rozaura ; queria reservar-lhe essa deliciosa sorpreza. Quando terminou, Rozaura saltou-lhe do collo, e collocando-se em pé de fronte da velha creoula fitou-a com um desses olharos indefiniveis, que exprimem a um tempo sorpreza e prazer, duvida e assombro. — Então, quem é meu pae? — perguntou ella, É aquelle moço que hontem veio aqui, que esteve lá embaixo na loja com Nhô Moraes, e que hoje veio ahi tambem ; é nhô Conrado. — Devéras ! — exclamou Rozaura interrogando a velha creoula com seu olhar expressivo e scintillante de alegria. — Devéras meu pae é aquelle homem que hontem esteve ahi, e que me mandou chamar lá em baixo na loja. — É esse mesmo; pois ainda duvida, minha menina?... — Ah ! meu Deos ! não duvido não ; deve ser elle mesmo ; meu coração parece que estava adivinhando. Desde que o vi, não quiz mais arredar meus olhos delle„ e fiquei, não sei porque, lhe querendo um bem como você não faz idea, tia Lucinda. — Como não havia de ser assim a voz do sangue falla muito alto. — Mas, tia Lucinda, você disse tambem que eu ainda tenho mãe ; isso é que eu não posso acreditar. Quem é ella onde está?.. . Oh! meu Deus, que alegria não seria para mim ir beijar agora mesmo a mão della. — Isso é que nada custa. — Mas, quem é ella ? . . . falla, tia Lucinda. — Pois sinhásinha devéras ainda não adivinhou ? . . . Rozaura olhou atonita para Lucinda, e nada respondeo. Pois bem, continuou o creoula to- mando a mão de Rozaura ; — eu vou levar já sinhásinha onde está sua mãe. Rozaura, sem saber o que pensar, deixou-se machinalmente levar pela mão de Lucinda, que a conduzio ao quarto de Adelaide. — Mas aqui é o quarto de sinhá Adelaide, — disse Rozaura. — Minha mãe está ahi com Ella ?... — Está, sim, respondeo vivamente a creoula empurrando a porta do aposento, que apenas se achava encostada. Entra, sinhásinha. Adelaide estava só, Tinha mandado os filhos a passeio. O major, profundamente commovido pela scena a que acabava de assistir, tinha-se recolhido á solidão de seu gabinete. Moraes havia descido para a loja a ver se alli encontrava alguma distracção ao embate de mil pensamentos peniveis, que lhe atormentavão o espirito . Adelaide já esperava sua filha, essa que ainda hontem julgava sua escrava, e que a oora pela primeira vez ia apertar em seus braços. Estava encostada a um bufete, com a face pousada sobre uma das mãos, e voltada para a porta, sobre a qual tinha os olhos fixos. Divisavam-se em suas palpebras vestigios de lagrimas, mas pairava-lhe nos labios um levc sorriso cheio do affccto e melancolia. Era nobre e sympathica a sua figura e em seu todo brilhava uma especie de formosura talvez mais attractiva do que essa que na aurora da vida florejava em seu rosto tão esplendida e viçosa. Era a belleza calma e suave do outono, despida dos garridos encantos e das vivazes o embaidoras seducções da primavera. Apenas vio Rozaura, que entrava por seu quarto procurando em váo com os olhos por todos os cantos alguem que nao fosse Ádelaide, adiantou-se para ella com os bracos abertos. Vem, minha filha, vem, exclamou Ádelaide com transporte ; — vem abraçar tua mae... Rozaura a principio estacou petrificada de pasmo ; seu espirito hesitou um momento ; julgava-se victima de alguma allucinação ; mas bem depressa a voz de natureza fallouIhe alto ao coração, e dissipou-lhe todas as duvidas. — Minha mãe ! — foi a unica palavra que pronunciou, e precipitou-se nos braços de Adelaide, inundando-lhe o seio de lagrimas de prazer e ternura. CAPITULO XIX Um estudante sinceramente enamorado. — Que tem, meu Carlos, que ha tempos a esta parte andas triste e amuado, assim com cara de Romeo pallido com saudade de sua Julieta, e outras vezes com gestos de Othelo furibundo prestes a suffocar Desdémona? -— Tu fallas galhofando, Frederico, porque não sabes o que eu soffro. É um sentimento intimo e profundo, que tenho vergonha e até medo de communicar a vocês, que tudo mettem a ridiculo. —— Menos eu, Carlos ; principalmente, quando estamos a sós, longe da algazarra de nossos turbulentos companheiros. Pergunto-te com verdadeiro interesse o motivo desse abatimento de espirito, que ha mais de um mez todos notão em ti, e que, digo-te com sinceridade, não deixa de me affligir e inquietar bastante. Obrigado, Frederico ; sei que me tens sincera amizade, e que embora na turba dos outros sejas tão caçoador como outro qual quer, tens caracter sisudo e sensivel, e não zombas dos soffrimentos alheios. Por isso não faço a menor duvida em contar-te a causa deste aborrecimento e tristeza, que ha tempos me acabrunha. — Pois bem; vamos a isso ; desembucha tudo sem receio. Sou um pouco menos frivolo e leviano do que nossos companheiros, e saberei guardar segredo, si o exiges. — Não será máo; os gracejos indiscretos, as caçoadas cynicas no estado em que me acho, soão-me muito mal. — Portanto, emquanto fumamos um pouco, — disse Frederico, offerecendo um charuto a seu amigo, — váe-me desfiando o teu drama, que seguramente não deixará de ser algum idyllio amatorio. Este dialogo passava-se entre dois estudantes do quarto anno juridico de S. Paulo. Tinhão acabado de jantar e ainda se achavão á mesa em casa de Frederico, que morava só no alto da Consolação, um dos bairros mais isolados e solitarios da cidade. Era isto cerca de dois mezes antes dos interessantes successos, de que demos conta nos dois ultimos capitulos desta historia. Os dous quartanistas erão da provincia de Minas, e amigos intimos de longa data, não dessa amizade fundada em relações passageiras e de occasião, que frequentemente se dão entre estudantes, as quaes tanto têm de francas e sinceras, como de pouco duradouras ; são laços que não se rompem, mas que com o tempo e ausencia acabão por desatar-se insensivelmente. Os dous mineiros consagravão-se reciproca. mente uma affeição solida, firmada pelo tempo desde os estudos collegiaes e fundada nas bellas qualidades que cada um delles reconhecia com prazer em seu amigo. Frederico era um mancebo de alta estatura, louro e de olhos castanhos. A indole bondosa, a lisura e franqueza d'alma transluzião em sua physionomia sempre pla cida e expansiva, como seu nobre coração, sobre o qual as paixões tumultuosas da juventude jamais tinhão conseguido exercer imperio absoluto. Lia-se em sua fronte espaçosa e bem conformada o bom senso, o juizo recto, a intelligencia luminosa, sobre a qual a imaginação podia bem exercer sua influencia encantadora, mas nunca poderia dominal-a. Parecia mais um bátavo, descendente de algum dos companheiros de Mauricio de Nassau, do que um brazileiro de pura raça latina. O outro apresentava um typo inteiramente diverso; era um verdadeiro filho do Brazil e da provincia de Minas ; assemelhava-se a um napolitano. Estatura regular, cabellos e olhos escuros, tez clara e levemente colorida, olhar scintilante e profundo revelavão nelle imaginação viva, natureza ardente e apaixonada. Tanto um como outro erão tidos em conta de mui distinctos estudantes por sua intelligencia, assiduidade e bom comportamento, considerados pelos lentes e estimados pelos collegas. Entretanto Carlos ha dous mezes começara a dar muito más contas de si, falhava muitas vezes, balbuciava a muito custo a lição, quando era chamado, e ás vezes se excusava allegando incommodo de saude, que sua progressiva magreza e deperecimento não deixavão de justificar. Seus companheiros notavão a grave e profunda alteração, que se ia operando no physico e moral de Carlos, alteração que, a não ser devida a alguma affecção do organismo, não podia ser attribuida sinão a soffrimentos moraes. Quando lhe inquerião o motivo de tão estranha modificação em todo o seu ser, dava respostas evasivas, que em nada satisfazião a curiosidade dos collegas. Frederico era o que mais se affligia com o lastimoso estado de abatimento em que via o amigo, e foi com o proposito de obter delle uma declaração confidencial e franca, que nesse dia o convidou a jantar em sua casa a sós com elle. Carlos não poude esquivar-se á solicitação cordial e sincera de seu amigo, e tendo accendido o seu charuto começou assim : —Depois que moro na rua do Tabatinguera, adquiri um conhecimento quasi mysterioso, que tem exercido, e ha de exercer sempre, eu bem o presinto, poderosa influencia sobre o meu destino. Além da casa em que moro, deves ter reparado que ha outra casa baixa, separada da minha por um terreno vazio, que não pertence nem a um, nem a outro predio. Nessa casa habitada por um senhor Bazilio, mora uma creatura encantadora, dotada de tantas perfeições, tão cheia de attractivos, que são capazes de transtornar a cabeça mais firme, e inflammar o coração mais empedernido. Ah! já ouvi fallar nessa menina, — atalhoa Frederico, —- dizem que é um prodigio de belleza ; mas apenas é visivel por momentos, e esconde-se como Diana entre os véos do mais timido recato. — É verdade ; tem mais esse prestigio a seu favor. Dizer-te que é um anjo, uma fada, que respira em todo o seu ser um perfume de celestial candura e innocencia, que impõe o respeito e adoração é proferir palavras banaes, que nada exprimem. É preciso vel-a para poder formar perfeita idéa de sua deslumbrante formosura. Meus companheiros, que apenas a têm visto de relance, tambem ficárão impressionados ao aspecto de tão rara belleza. — E tu? .. . a tens contemplado mais á vontade ? -— Felizmente não sei porque, parece-me que agradei-lhe mais do que qualquer outro. No lado da casa que olha para a nossa, ha apenas uma pequena janella, que dá para o tal terreno neutro, de que te fallei, o qual fica tambem por baixo da janella do meu quarto. — Oh ! que condições favoraveis para o mais renhido namoro! — exclamou Frederico. —- É verdade; mesmo da minha mesa de estudo posso vel-a, quando chega á sua janellinha, moldura bem pouco digna daquelle busto mais lindo e mais ideal do que as virgens de Raphael... Alli apparece ella algumas vezes, mas si acaso avista algum dos meus companheiros, retira-se immediatamente. — Mas de ti nunca ella foge?... — Não; fica, emquanto eu fico, e creio que só se retira quando é chamada por alguem de casa. — Oh! quanto és feliz, meu Carlos ahi temos outra vez quasi a mesma aventura de Piramo e Tisbe. Mas dize-me; teu namoro não passa dessas olhadélas de longe? ainda não pudeste conversar de perto com ella ? — Converso da janella quasi que somente por mimica. Entretanto ultimamente pude obter uma entrevista. — Uma entrevista! oh ! pois que mais desejas Q pela maneira com que as cousas te vão correndo, só vejo motivo para andares pulando de contente, e não assim como andas, torvo e sombrio, como o Hamlet de Byron. Ah! meu amigo ! foi mesmo essa entrevista que me lançou o desanimo n'alma, fazendo-me conhecer toda a complicação e estranheza de minha situação. — Como assim? não posso comprehender-te. — Vou já explicar—te tudo. Por palavras conversadas cautelosamente ella concedeo-me uma entrevista em horas mortas da noite. Saltei ao pateo na hora aprazada e fui collocar-me junto á janellinha, onde ella não tardou em apparecer. É escusado, e seria enfadonho para ti estar a descrever-te as emoções que senti. — Oh ! bem dizia eu; temos Romeo e Julieta. — Mas a minha Julieta... — Que tinha ella? — Vaes já saber. Depois de termos feito em termos bem explicitos mutua declaração de nosso amor, disse-me ella por fim com voz tremula e vacillante . — Eu sei que o senhor me quer muito, e eu tambem lhe tenho muito amor, mas este nosso amor não deve continuar. . . — Ah I não me falles assim ; não deve continuar porque, minha querida ? . . — Ah ! bem me custa lhe confessar isto ; mas... mas eu... eu não sou digna do seu amor. A estas palavras um calafrio percorreo-me todo o corpo. Por que razão a menina se julgava indigna do meu amor? A interpetração mais natural que se me apresentou ao espirito, foi que aquella menina, apezar de -parecer tão ingenua e pura como um anjo, já poderiater maculado o véo da innocencia no lodo da devassidão, e por isso, conservando ainda um pouco de sinceridade, se confessava indigna de ser por mim amada. Esta sinistra idéa pungio-me cruelmente o coração. -— Mas porque me diz isso? porque se julga indigna do meu amor, minha senhora? perguntei-lhe em tom um tanto brusco. É porque eu não sou nenhuma senhora, respondeo ella com voz timida e e angustiada. — sou uma simples escrava do senhor Baziliov — Escrava ! escrava a senhora! gritei com sorpresa e indignação, esquecendo o logar e as circumstancias em que me achava. Foi preciso que a menina me tapasse a bocca, para que eu não continuasse a proromper em gritos e exclamações, que terião trahido a nossa entrevista. Foi mistér que ella asseverasse mais duas e tres vezes e confirmasse com juramento para eu acabar de crer que ella era realmente escrava. Fiquei por alguns instantes acabrunhado sob o peso de tão cruel e estranha revelação. Como é concebivel com effeito, meu caro Frederico, que aquella mocinha de tez tão clara, de feições tão regulares e perfeitas como as de qualquer moça de pura raça caucasiana, tenha sangue dessa raça desventurada, que nossa deshumanidade e cobiça condemnou á escravidão ? Nada mais simples, Carlos; com a continuação do cruzamento, a raça africana se depura e aperfeiçoa, e eu tenho visto mais de uma escrava mais branca e mais bonita que sua senhora. Seja embora assim, mas é revoltante que haja no mundo quem tenha animo de manter na escravidão creatura tão linda ; servir um homem, e a que homem, sancto Deus ! aquella formosura ideal e celeste, digna de viver no céo em companhia dos anjos! . . . Mas essa é a pura esmagadora verdade. Rozaura percebeo a cruel impressão que sua declaração produzira em meu espirito, recolheo-se e encos- tando-se com o fronte á parede e escondendo o rosto entre os alvos braços meio nús, começou a chorar. Não sei explicar-te a emoção que senti nesse momento. Todos os horrores praticados com formosas e nobres escravas, a começar pela infeliz Agar barbaramente sacrificada ás conveniencias da familia de Abraham, me vierão a lembrança ; senti-me aniquilado! — Estás quasi a chorar, Carlos; continua e deixa-te de emoções. — Si exiges que me não commova, não continúo, porque me é impossivel prosegüir de sangue frio. — Pois vá ; lamenta-te e chora á tua vontade; mas prosegue. Estendi o meu braço para dentro da janella e arranquei-a suavemente daquella lastimosa attitude. Então ella com um tom de voz que me doeu no intimo d'alma, disse-me : — Agora, que o senhor sabe que eu não passo de uma pobre escrava, vae me desprezar e fazer bem pouco caso de mim, não é assim? não mereço outra cousa, e nem posso ser objecto de seu amor. Foi contra minha vontade que fiquei lhe querendo bem; mas eu sou captiva; fuja de mim. Foi só para lhe dizer isto, que deixei o senhor vir conversar commigo. Como unica resposta tomei ambas as suas mãos, cobri—las de beijos ardentes, e disse-lhe já não me lembro bem que palavras loucas e apaixonadas ; mas foi pouco mais ou menos isto : — Agora que sei que és escrava, amo-te mais que nunca, minha querida. És escrava por um capricho da sorte; Deus te fez livre, porque Deus não permitte a escravidão. Nasceste escrava, mas eu te farei livre, porque é um insulto feito á natureza, á humanidade, ao proprio creador conservar na escravidão um anjo, como tu és. Si a escravidão fosse uma cousa possivel aos olhos da moral e da religião, serias a senhora, porque todo o mundo deve respeito c obediencia, amor e adoração á innocencia c á formosura, e tu possucs a belleza, a innocencia e a immaculada candura dos anjos. Não penses que desmereceste o amor que te consagro, com a declaração que acabas de fa—zer-me. Tu és escrava ! pois bem ! . . . és uma escrava que póde ter milhares de escravos a teus pés, e o mais dedicado, o mais submisso delles sou eu. Linda escrava, eu sou teu escravo, e de hoje em diante considero meu principal dever empregar todo o meu esforço em quebrar-te os ferros da escravidão. Disse-lhe muitas outras cousas com uma eloquencia apaixonada, que me borbotava da abundancia d'alma. Si bem me lembro, no meu enthusiasmo febril e delirante, cheguei a dizerlhe que para conseguir-lhe a liberdade seria capaz até de matar e roubar. — Arrc lá ! . . . misericordia ! exclamou Frederico rindo-se. — Salteador, e assassino! um novo Luigi Zampa ! apre! é demais, mcu caro. — O certo é, continuou Carlos, — que ella com essa ingenua credulidade, propria das almas candidas e immaculadas, que ainda não conhecem o fingimento e a linguagem artificial dos seductores, deo pleno credito a meus protestos e expansões ; e tinha razão porque de facto erão puros e sinceros ; erão a expressão de um amor profundo e ardente, que jamais poderei arrancar do coração. Estás a sorrir, Frederico 'P tens razão; bem sei que é uma loucura; mas que hei de eu fazer ? . . . não posso, não posso de todo subtrahir-me a ella. — Mas em fim de contas o que pretendes tu fazer?... — Eu sei lá, meu amigo !.. acho-me na mais horrivel perplexidade, e ao mesmo tempo na mais inabalavel resolução de arrostar todas as difficuldades, transpor toclas os barreiras que me separão dessa encantadora menina. Mas acaso não tens consciencia de tua fraqueza ? para superar essas difficuldades, transpor essas barreiras, de que meios dispões, não me dirás?... É verdade, que posso eu fazer . — suspirou Carlos com desanimo. — É agora, que comprehendo quanto é real e verdadeira a importancia do dinheiro, e quanto é parvo e imbecil o desdem que alguns pretendidos philosophos affectão ter por elle. Estolido é aquelle que diz que a tranquillidade do espirito, os jubilos do coração não se comprão com dinheiro. É certo que muitas vezes a verdadeira felicidade, que consiste na satisfação de todos os prazeres licitos do espirito e do corpo, no bem estar physico e moral, póde-se obter sem a riqueza; mas quantas vezes tambem não depende delle ?. .. Quantas vezes o destino nos prepara todos os elementos de ventura, todas as circumstancias conspirão para nos elevar ao cumulo da felicidade, e a falta de dinheiro nos despenha no abysmo da dÔr e do infortunio ? ! . Estás hoje um moralista de primeira força, capáz de competir com Labruyére ou com o marquez de Maricá. — Zombas de minhas reflexões? .... duvidas de sua exactidão ? . . . Si duvidas, aqui estou eu que sou o exemplo vivo do que acabo de avançar. Fosse eu rico, e hoje mesmo ella estaria livre, embora sua liberdade me custasse toda a minha fortuna, a receberia como esposa, embora liberta, e não teria inveja á felicidade de ninguem, porque ella vale mais para mim do que todos os thesouros e todas as grandezas do mundo. Que exaltação, meu Deos ! devéras tu tinhas animo de te casar com uma liberta... Pois que tem isso, quando essa liberta vale uma princeza ?! Digo-te mais, continuou levantando-se e dando á sua voz um tom dc extraordinaria firmeza e exaltação ; — captiva como é, si eu não pudesse quebrar-lhe os ferros, dar-me-ia por feliz em tel-a por esposa, e unir o meu destino de homem livre ao de tão formosa e adoravel escrava, empregando minha vida em ajudal-a a arrastar os grilhões do captiveiro. O' nobre e magnanima dedicação, digna de um philosopho da antiguidade, ou do mais ultra-romantico poéta dos tempos que correm ! — exclamou Frederico em tom solemnemente comico. Agora resta saber, si o tal senhor Bazilio consentirá que te cases com a sua escrava. E quo não consinta ; um rapto e um casamento clandestino sanaria todas as difficuldadcs. Irra ! . . . levas bem longe a tua audacia! nunca pensei que fosses tão affouto. — Demais não será necessario chegar a taes extremos ; posso conseguir tudo por meios Inais naturaes ou menos violentos. Está por um anno a minha formatura, e um anno escoa-se bem depressa, Vou estudar com affinco, e depois dc formado trabalherei como um mouro, e privar-me-ei mesmo do neceseario até adquirir uma somma consideravel, com que possa comprar a liberdade da menina. Isso é mais razoavel ; mas assim mesmo a quanta vicissitude não vac ficar exposto o teu pobre amor ! . . .A rapariga é escrava, e como tal póde ser vendida, ou o que é peor, póde ser obrigada a casar-se com outro, si não lhe acontecer cousa peor. Ah ! não me digas tal ; isso é impossivel, ella antes se deixaria matar. Demais ella me disse que seus senhores não a vendião por dinheiro nenhum. — E como esperas que a vendão a ti? — Desesperas-me com as tuas objecções ; não sei resolvel-as por agora; mas o amor, como diz Salomão, é forte e poderoso como a morte ; elle saberá a seu tempo quebrar todos os obstaculos. — Pelo que vejo, tua loucura é incuravel, meu pobre Carlos ; esse teu infausto amor grudou-se ao teu coração, como ostra ao rochedo. Entretanto sempre te direi que o melhor para 23h tido que tens a tomar, para que ella não se torne chronica, é procurar combater por todos os meios essa paixão romanesca e desasisada. Tua situação é com effeito das mais estranhas e originaes, e dá assumpto para um bonito romance ; mas o romance é bom nos livros ; na vida rel é sempre uma atrapalhação, que devemos arredar. É preciso pois dar prompto desenlace á tua complicada situação, e o mais prompto e mais decisevo é cortar o nó gordio com a espada de Alexandre; é renunciar á tua paixão. Concordo; mas isso é que é absolutamente impossivel. — Impossivel, porque não queres, porque não fazes o minimo esforço para supplantal-a. A primeira cousa que deverias fazer, era mudar de casa, fugir da vizinhança dessa mulher, que te fascina. Dado esse passo, é preciso procurar distracções no estudo, na leitura de romances, nos passeios, nos pagodes mesmo. — Não ha distracção possivel para paixões desta ordem, meu Frederico; não tento nada disso, porque estou intimamente convencido de que tudo isso será inefficaz. — Ah ! bem ! já que assim te entregas sem resistencia ao teu insensato amor, não vejo salvação para ti ; emprehendes contra o destino uma lucta, em que seguramente tens de succumbir. Si não puderes conseguir, como é corto, nem a mão, nem a liberdade da menina, o que será de ti, maluco, com essa tua desastrada paixão ? Bem sei que vou arcar com mil difficul- dades, vou arrostar os preconceitos do mundo, e que além disso estou exposto a eventualidades, que pódem de um momento para outro derrocar todos os meus planos, e destruir toda a minha felicidade. Sei tudo isso ; mas não posso, não posso esquivar-me á fascinação, qne exerce sobre mim aquella adoravel menina. Não penses que isto em mim é exaltação romanesca, delirio de imaginação; não, não. Bem sabes que sempre fui avesso aos namoros e amoricos, a que nossos collegas pela maior parte são tão avezados. Este meu amor é um amoro puro, verdadeiro, sincero, profundo, inextinguivel ; é o primeiro c creio que ha de ser o unico da minha vida. — Assim o quero crer, meu Carlos, mas desgraçadamente é um amor impossivel, — É impossivel, mas entretanto existe ! e existe de parle a parte com reciproco fervor c sinceridade! . . . Logo que existe, tem uma ra- zão de ser. Deus é bom e justo, e eu confio no meu destino, e na pureza de meus affectos. — Ora, pelo amor de Deus ! . . . deixa-te dessas exaltações. Uma escrava sempre é uma escrava ; mais cedo ou mais tarde te verás forcado a matar essa paixão que te amofina. — Mais depressa ella me matará... A confidencia dos dois amigos foi neste ponto interrompida pelo tropél de uma tróça de estudantes, que nesse momento invadião ruidosamente a casa de Frederico. Carlos calou-se instantaneamente, como o sabiá que suspende seus plangentes harpejos, quando ouve rumores pelo bosque. Era um estudante sinceramente enamorado ; cousa rara ! CAPITULO XX Projectos vãos. Passarão-se quinze dias, durante os quaes o estado moral e physico de Carlos apresentou algumas melhoras, si bem que a sua paixão nada declinasse de seu primitivo gráo de ardor e exaltaçãe. O desabafo, que tivera com Frederico, lhe fizera bem, e como já tinha um peito amigo, a que confiasse suas maguas e inquietacões, sentia o corração algum tanto alliviado do peso que o opprimia, e o espirito mais calmo para entregar-se ao estudo, e continuou a frequentar as aulas com alguma assiduidade. O vivo desejo, que tinha, de terminar seus estudos para pôr em execução o plano, que formára para libertar sua formosa vizinha, influio talvez mais que tudo para esse lisonjeiro resultado. Quanto a Frederico, esse tinha desistido completamente de seu proposito de combater a paixão de Carlos, e dizia de si para si, que só depois de dar todas as cabeçadas que pretencia, é que seu amigo poderia tomar rumo. Levado por uma curiosidade mui natural guiz conhecer tambem essa escrava de peregrina formosura, que por tal sorte tinha transtornado a cabeça e captivado a coração de seu amigo. Foi para esse fim á casa do Carlos, o qual não hesitou, antes folgou por ter occasião de proporcionar a seu ami oo um ensejo para ver e admirar o encantador objecto de sua ardente paixão. Esperava que depois de vel-a, Frederico se despojaria de grande parte de sua austeridade, e não estranharia tanto a exaltação de seu amor. De feito Frederico escondido cautelosamente no quarto de Carlos, de modo que pudesse ver sem ser visto, gozou por um quarto de hora o indizivel e platonico prazer de contemplar uma das mais seductoras bellezas que o céo tinha creado, e de presenciar um namoro o mais ingenuo, sentimental e apaixonado, que se póde imaginar, expressado pela mais eloquente e significativa mimica. Aquillo que para os dois amantes era o mais serio episodio do drama do amor, para Frederico tornava-se quasi uma scena comica, e elle teria soltado alli mesmo uma grossa gargalhada, si não o contivesse por um lado a belleza angelica, a graciosa e ingenua figura da moça, e por outro o respeito que devia á affeição profunda e sincera do amigo. Sahio dalli desanimado mais que nunca de poder desviar o amigo de sua louca paixão, e si não deixava de lastimal-o, reconheceo todavia que a menina era com effejto digna desse culto fanatico, dessa fervente adoração que lhe consa orava. Tomando summo interesse não já só pela sorte de Carlos como tambem pela da gentil escrava, que deplorava do fundo d'alma ter nascido naquella condição, Frederico, que era filho de paes opulentos, obededendo aos nobres e philantropicos impulsos de seu coracão, concebeo desde logo a generosa idéa de empregar os meios a seu alcance para conseguir a liberdade da gentil captiva. A principm havia pensado que essa rapariga não seria mais do que uma linda mulata, como ha tantas no Brazil, faceiras e seductoras, e a pintura, que della Carlos lhe havia feito, levava em conta de exagero apaixonado de um homoeque só vê o objecto amado atravez de um prisi ma illusorio, que elimina todos os defeitos, realça as mais comesinhas qualidades. Desde que a via porém, suas idéas se modificárão considêravelmente, e o amor de Carlos, dc que a principio mofára com seu ar de risonha bonhomia, Ihe pareceo plenamente justificado. De feito, desde que se via a formosa escrava do senhor Bazilio, era preciso um supremo esforço de imaginação para acreditar que era realmente uma escrava. Sua téz branca e delicada, os magníficos cabellos escuros, que Ihe emmolduravão o rosto, e Ihe ondeavão pelo bem torneado collo, as feições correctas e harmoniosamente delineadas, os ademanes naturalmente graciosos e elegantes, accrescendo a tudo isso o encanto da innocencia e candura infantil, não denunciavão por certo a filha da senzala. Ao vel-a, qualquer juraria que era uma donzella distincta, creada com todo o mimo e solicitude entre os carinhos de uma familia honesta, e bafejada desde o berço pelo sopro da liberdade. Fredrico, impressionado pela rara formosura da menina, já não julgava uma degradação, uma abdicação da propria dignidade desposar uma liberta de tanta belleza e merecimento. Tembem Frederico no intimo de sua consciencia estava bem convencido de que a escravidào é urn accidente do destino, que não constitue uma nodoa, e o facto de casar-se o seu amigo com uma liberta, mórmente sendo dotada de tão vantajosas prendas physicas e moraes, nenhum desar, nem mesmo ridiculo poderia provocar sobre a sua pessoa e reputação, Formou pois generoso, si bem que um pouco excentrico projecto de procurar aplanar o caminho, para que os votos do coração de Carlos fossem satisfeitos. Communicou suas intenções ao amigo, que lh'O agradeceo do intimo d'alma, e dahi em diante creou novo animo e novos incentivos para proseguir em sua arrojada em preza. O primeiro passo que Frederico tentou, foi procurar travar conhecimento e relações com o senhor Bazilio, dono da escrava. Mas Bazilio era um homem excentrico, de difficil trato quasi incommunicavel, que não dava ingresso em sua casa sinão a rarissimas pessoas. Elle e sua respeitavel e veneranda esposa vivião vida mysteriosa e retrahida ; não sahião de casa sinão aos domingos pela madrugada para ouvirem missa na Sé, o marido bem embuçado em seu comprido capote de gola em pé, que lhe tapava e cara até os olhos, e ella toda embiocada em sua mantilha. Fóra disso só se lhes enxergava ás vezes a ponta do nariz por entre as rotulas, que apenas entreabrião momentaneamente para espiarem a rua. O seu trafego de escravos tambem se fazia algum tanto á sorrelfa e com certo mysterio ; mas os habitantes de S. Paulo já o conhecião, e quando algum por necessidade de dinheiro ou por qualquer outro motivo desejava desfazer-se de algum escravo, já sabia a que porta iria bater. Quando tinha reunido uma collecção sufficiente, elle os comboiava para fóra da capital, quasi sempre em direcção aos ricos municipios do norte da provincia e para a mata do Rio de Janeiro, onde os negociava vantajosamente com os opulentos fazendeiros cafesistas daquellas paragens. Estas suas sahidas erão, como todos os actos de sua vida, feitas com segredo e mysterio nas horas mortas da noite. De um dia para outro o velho com toda a sua familia, a qual consistia em sua mulher e seu comboi de escravos, desapparecia de casa, sem que ninguem sou— besse para onde se havia dirigido. Bazilio, além de sua absoluta insociabilidade, tinha particular ogeriza á classe academica, da qual se arrepelava como de côbra venenosa ou cão damnado, sem duvida por que já alguma vez teria sido victima de seus desapiedados motejos. Tudo isto difficultava summamente a generosa empresa de Frederico, e a tornava quasi impraticavel. Entretanto não desanimou. Por tres vezes bateo palmas á porta de Bazilio; por tres vezes uma voz esganiçada gritou do interior — não está em casa, — sem que ninguem lhe apparecesse á porta. Entendeo por fim que só por intermedio de um terceiro, que gozasse da amizade e confiança de Bazilio, poderia penetrar naquella espelunca e entobolar negociação com semelhante casmurro. Emquanto Frederico andava em diligencias para encontrar um intermediario prestimoso, que o puzesse em communicação com o velho Bazilio, derão-se acontecimentos que vierão inteiramente burlar seus planos, e derrocar todas as esperanças que começavão a embalar a imaginação do pobre Carlos. CAPITULO XXI Vendida I Desanimado de achar accesso junto á respeitavel pessoa do senhor Bazilio, Frederico mesmo na Academia entrou a fazer pesquizas e indagações entre os continuos e bedéis a fim de ver si podião informal-o das relações e amizades que por ventura o tal homem entretinha na cidade. No fim de quatro ou cinco dias achava-se tão adiantado como d'antes. Como porém não julgava de grande urgencia a solução daquelle negocio, não o tangia com grande afan e diligencia, esperando que com tempo e perseverança sempre havia de deparar um meio de achar-se face a face com o senhor Bazilio. Entretanto Carlos começou de novo a não comparecer ás aulas e durante toda uma sema. na não foi visto na Academia, o que causava grande cuidado e inquietação a Frederico. Os dois amigos não se frequentavão com assiduidade em razão da distancia que separava suas residencias, morando cada um na extremidade de bairros diametralmente oppostos. Perguntando Frederico por seu amigo aos companheiros que com elle moravão, estes lhe responderão que Carlos estava a ponto de ficar completamente maniaco; o namoro e a preguiça o estavão pondo a perder; vivia trancado no quarto, comia pouco e ás vezes nada, sahia á rua de quando em quando, e voltava sempre com ar cada vez mais lugubre e deconsolado. O mais breve que lhe foi possivel, Frederico dirigio-se á casa de Carlos, onde o encontrou em um estado de prostração e desaiento, que fazia dó. Soube então pela bocca do proprio Carlos, que ha mais de oito dias a janellinha, onde costumava ver a formosa escrava, se conservava fechada Nos dois ou tres primeiros dias ainda havia supportado com alguma resignação e sem desesperar o desappare cimento de sua amante. Talvez estivesse doente, ou quem sabe, si tinhão sido percebidos os seus colloquios de janella, e por isso era agora severamente vigiada por seus senhores ? e tambem, que horror ! . . . quem sabe si teria sido vendida ! ?. . . Esta ultima hypothese era como um estylete envenenado a pungir continuamente o coração do pobre rapáz. Para livrar-se de tantas e tão crueis incertezas deliberou indagar pela vezinhança o que teria sido feito da menina. Os vizinhos porém, que sabião tanto como elle do que se passava em casa do senhor Bazilio, não pudérão dar—lhe informação alguma. Depois de dois ou trez dias de baldadas indagações pela vizinhança, resolveo-se a ir elle proprio á casa de Bazilio, e si bem que já tivesse conhecimento dos habitos de incommunicabilidade do velho, jurou de si para si que tanto havia de bater á porta, tanto gritar c rogar, tal algazarra e taes disparates havia de fazer, que não terião remedio sinão abrir a porta e fallar-lhe. Firme neste proposito tratou de pól-o em execução, e cheio de arrojo e resolução foi pela manhã bater á porta do mysterioso e invisivel vizinho Bazilio. Mas, . . ai delle ! . . . a porta da rua estava fechada e sem chave, as rotulas e janellas trancadas de modo, que nem a luz nem o ar alli podião penetrar. Por mais que Carlos, depois de muito bater, applicasse o ouvido, não distinguio nem o mais leve rumor, que denunciasse a presença de ente vivo, nem mesmo de um cão ou de um gato. Carios retirou-se dalli pallido, exsangue, e a cambelear, como um homem que acabasse de ser gravemente ferido. Nesse estado ia-se dirigindo para a casa, quando uma velha da vizinhança, cuja vida era tão mysteriosa como a do senhor Bazilio, pondo o nariz fóra da rotula, perguntou-lhe : — Quem estava procurando alli, meu moço ? . . Ora é boa pergunta, — respondeo Carlos de máo humor, — procurava o dono da casa. — Ché! que esperança ! ha que tempo elle já sahio p' ra tóra vender seus escravos, Que está dizendo, senhora !.. oh minha senhora não saberá me dizer si levou tambem uma menina... ainda muito nova... Eu sei lá disso, meu moço?.., elle quando sahe, é ás chuchas caladas e fóra de horas. .. de certo essa tambem havia de ir. Nada mais era preciso para esmagar completamente o coração do pobre rapaz. Recolheo-se á casa e trancou-se em seu quarto. —— Oh ! minha adorada e infeliz Rozaura!... tu vendida tu, a mais bella e a mais adoravel das creaturas, que sahio das mãos do Eterno, tangida a pé por essas estradas no meio de um comboi de escravos, como uma rez no meio da manada para ser exposta no mercado ! ...Vendida, Deus do céo ! vendidas a innocencia e a belleza pelo mais abjecto c ignobil dos homens ! . . . Vendida e a quem, Deus de misericordia ! quem sabe, em que mãos irás parar, minha infeliz. . . ah ! talvez nas mãos de algum senhor brutal e devasso, que empregará todos os meios para profanar-te a pureza, violar-te a pudicicia ! Oh ! sim, porque teus encantos fascinão, cer— cão-te de mil perigos, e vão expôr-te ás mais terriveis vicissitudes. Ah ! maldita sociedade ! maldita lei ! povo e governo mil vezes maldito, que tolera e fomenta tão vergonhoso e exe— crando trafico ! Oh ! si eu fôra rico, iria por essas estradas, acompanhado de uma escolta de bons capangas, no encalce do ladrão, havia de descobrir-lhe a pista, e por vontade ou por força o infame havia de largar mão da preza. Ah ! pobreza ! pobreza ! tu resumes em ti todos os infortunios... Pobre menina ! lyrio candido e sem mancha atirado no infecto e lodacento abysmo da escravidão ! . . . Exhalando estas e outras dolorosas e interminaveis exclamações, o mancebo passou dias e dias encerrado em seu quarto, entregue á mais pungente augustia e desesperação, desatando torrentes de lagrimas, que em nada mitigavão a dor que lhe torturava a alma ; seus soffrimentos não erão daquelles que achão desabafo no pranto copioso ; as lagrimas ardentes que lhe crestavão as palpebras, exprimidas do coração entre torturas, só deixavão nellea aridêz do desespero. Foi assim que Frederico o veio encontrar encerrado em seu quarto em tal estado de prostração o desalento, que causava dó e inquietação, não só pela sua saude como pela sua razão. Não reproduziremos as violentas explosões de furor, as amargas lamentações e terriveis imprecações, em que prorompeo ainda o misero mancebo em presença do amigo. Este as escutou todas com a maior paciencia sem interrompel-o, nem contrarial-o, e profundamente abalado pelo deploravel estado em que via o amigo; conservou-se mudo por largo tempo sem achar uma phrase de conforto e animação para tão acerbo soffrimento. — Que se ha de fazer em casos taes, meu amigo? — disse elle por fim; — lastimo-te devéras no fundo do coração, e lastimo ainda mais essa infeliz e formosa creatura, que o destino fez nascer escrava, devendo ter nascido em berço de purpura e ouro. Mas não serei eu mais quem te vá ainda émbalar o espirito com vans e illusorias esperanças; não; é escusado luctar contra a fatalidade. O unico refugio, que te resta, é a resignação; é pedir ao tempo e ás distracções o lenitivo para o rude golpe, que ferio-te o coração, Basta de te entregares a esse afflictivo desalento, a essa desolação, que cada vez mais aggrava-te os pezares. Vamos, meu amigo; cobra coragem, e mostra-te homem. Veste-te e vamos passear; irás morar commigo de hoje em diante ; é necessario que abandonos para sempre essa casa, que tão amargas recordações te traz ao espirito. Entrego me em tuas mãos, meu Frederico ; si bem que nada espere nem do tempo, nem das distracções, nem mesmo da tua amizade para mitigar a angustia que me devora ; vou para onde quízeres levar-me; abdico em tuas mãos a minha vontade, como um automato, cujos movimento dirigirás a teu bel prazer, porque de facto tudo me é indifferente; nada me interessa, nada mais desejo neste mundo. — Isso é por agora, meu Carlos; com o tempo ha de passar esse teu triste desalento. Vamos; quero afastar-te dos labios o teu calix• de amargura ; quero arrancar-te deste Gethzemani, em que pareces querer exhalar a existencia. Lembra-te que estamos em fim de outubro, e é preciso nos prepararmos para o acto. — Não me falles em actos, nem estudos, nem me faças lembrar de Academia. Si não fosse essa maldita Academia, que aqui me trouxe, eu estaria agora bem tranquilio em minha provincia, e não aqui como ludibrio do destino supportando as mais crueis torturas. Diga-me de que nos serve vir aqui estudar o direito, o dever ea justiça, si elles não são e nunca serão respeitados, nem executados si praticão-se por ahi impunemente todos os dias as mais torpes e atrozes iniquidades, as mais f:agrantes e hediondas violações da lei e do direito? Maldita sciencia, — si é que merece tal nome, maldita sciencia que só existe nos livros e nos codigos, como pura irrisão aos direitos da humanidade, que a sociedade pesa em sua balença corrupta para calcal-os aos pés! . . . Não; não vou nem mais uma vez a Academia. Em novembro irei pela ultima vez á casa de meu correspondente. para ir-me embora. — Pois bem : vou de accordo com isso, Carlos; a agitação que actualmente te perturba o espirito, não te permitte estudar. Deixarás o teu acto para marco ou abril; será melhor assim. Entretanto por agora me pertences; já o declaraste. Vamos com isto; avia-te, e quanto antes vamo-nos embora daqui. Carlos vestio-se automaticamente, e os dois amigos, de braço dado, tristes e taciturnos, atravessárão a cidade e dirigirão-se para a casa de Frederico, CAPITULO XXII Em casa do correspondente. Em meados de novembro, vinte dias pouco mais ou menos depois que Frederico tinha levado Carlos para sua casa, ás dez para onze horas do dia, achava-se Conrado sósinho em seu salão de visitas folheando alguns jornaes, que acabava de receber, quando lhe baterão palmas á porta em baixo da escada. Mandou entrar quem fosse, e dahi a alguns segundos apresentou-se na sala um moço pallido, alquebrado, e macilento, na figura do qual Conrado não sem alguma difficudade e depois de alguns instantes de reparo reconheceo Carlos, o estudante, que já é do nosso conhecimento, e que era seu correspondido. Conrado, quando em seus gyros de muladeiro viajou pela provincia de Minas, passou mais de uma vez pela fazenda do pae de Carlos, com quem neffociou, e em cuia casa encontrou hospitalidade franca e delicada, como se soe dispensar naquella provincia, nascendo dahi relações de pura e boa amizade entre os dous. Por isso quando o fazendeiro teve de mandar seu filho para S. Paulo, o recommendou a Conrado pedindo-lhe que fosse seu correspondente. O paulista acceitou com prazer aquelle encargo, e o seu correspondido por suas bellas qualidades, seu talento e boa conducta grangeou bem depressa sua estima e sympathia. Carlos frequentava com assiduidade a casa de seu correspondente, onde era tratado com particular distincção e cordial amizade. Depois porém que o nosso estudante se travára de amores com a escrava de Bazilio, suas visitas começárão a escassear de mais em mais até cessarem de todo; havia cerca de dois mezes que não se vião; a ultima mezada Carlos a tinha mandado buscar por um recibo. — Oh ! mui bem apparecido, meu caro Carlos, — disse alegremente Conrado. — Ha que tempos o não vejo! . . . estava mal commigo? mas estou o achando tão pallido e desfigurado ! tem estado doente? Algum tanto, senhor Conrado ; tenho soffrido bastante nestes ultimos tempos. —- Ah! e como não mandou-me dizer nada?... sabe quanto sou amigo de seu pae, e muito pezar me ficaria si o filho do meu amigo soffresse alguma cousa nesta cidade sem eu lhe ter valido em cousa alguma. Tenho estranhado a sua falta, e si não fossem certas occurrencias, que a dias ha esta parte muito me tem preoccupado, ja teria ido procural-o em sua casa. — Muito obrigado, senhor Conrado; mas não se inquiete; meus incommodos não são talvez de consequencia; mas são do numero daquelles que nem a sciencia, nem os cuidados do homem podem minorar; sómente o tempo... — Deus o permitta, — interrompeo Conrado. — Então já está preparado para fazer um brilhante acto como é seu costume? . . . — De modo nenhum; não só não estou preparado, como mesmo não quero, e nem posso fazer acto este anno. E porque? acaso perdeo o anno em razão da molestia? Não, senhor; não cheguei a perdel-o, mas dei grande numero de faltas, e nestes dois ultimos mezes quasi nada pude estudar. Pretendo ir passar as ferias em casa, e por isso venho hoje importunal-o para dar-me além da mezada mais algum dinheiro para arranjar conducção. — Ah! muito bem; hei de sentir muito a sua ausencia; mas não posso deixar de approvar a sua resolução em vista do estado de sua saúde. Faz bem; vá tomar ares em sua bella provincia, e volte-nos robusto, sadio, e alegre como d'antes. — Não sei si voltarei, senhor Conrado, murmurou Carlos com desanimo. — Oh! porque não? ha de voltar sem duvida. Quererá dar a seu pae o desgosto de ver interrompida sua carreira quasi no seu termo?... Ha de voltar, sim, meu amigo. Entretanto não quero que se vá embora, sem que fique sabendo de uma novidade que ha aqui em nossa casa... não é capaz de adivinhar qual é. — Nem por sombra. — Pois participo-lhe que sou pae ; não ha muitos dias nasceo-me uma filha, que desejo lhe apresentar. — Uma filha! — exclamou Carlos com sorpresa. — Ora essa! o senhor está gracejando; não é casado, e demais... — Ora que tem isso? — atalhou Conrado; — não quer acreditar? pois vou apresentarlh'a neste momento. Com licença... Conrado retirou-se para o interior da casa. Carlos, si tivesse o espirito menos preoccupado, e não trouxesse o corac,ão tão pejado de amarguras, ficando alli só teria passeado uma vista d'olhos em torno do salão, e teria notado nelle não pequena modificação no luxo e na disposição dos moveis. Teria notado nelles um arranjo mais caprichoso e elegante, almofadas collocadas nos sofás com o mais esme- rado aceio, flores frescas em todos os vasos, emfim em tudo certo ar garrido e festivo, que estava revelando que alli andava a mão de uma mulher, e mulher de fino e apurado gosto. Teria visto mais sobre um bufete de jacarandá negro um rico leque, um lenço de cambraia primorosamente bordado, e um mimoso ramalhete de violetas, objectos que seguramente não erão do uso de Conrado. O mancebo porém nada vio, nada observou, e durante a ausencia de Conrado, que durou poucos minutos, ficou a fazer mil conjecturas sobre o que lhe acabava de annunciar seu correspondente. — Será gracejo? — pensava elle. — Mas que alcance, que explicação, que espirito póde ter semelhante gracejo em tal occasião, principalmente de um homem dotado de tanto senso e de tanta discreção como é o meu correspondente? l... O senhor Conrado, além de não ser casado, não me consta, que tenha amazia alguma nem em casa, nem fóra della, e passa por celibatario exemplar. É mesmo para admirar, que este homem, moço ainda, rico e elegante não tenha tido namoro, nem intrigas amorosas de especie alguma é cousa quasi impossivel... não ha duvida... a unica hypothese razoavel, que se apresenta ao espirito, é mesmo a de alguma filha natural fructo de algum amor mysterioso, que elle até aqui tem sabido esconder com cuidado aos olhos do mundo. Como me tem amizade e deposita em mim alguma confiança, vae agora fazer—me depositario do seu segredo. Agora mesmo vae lhe ser apresentada a minha filha, senhor Carlos, disse Conrado tornando a apparecer no solão. Carlos em pé e com os olhos na porta, por onde Conrado havia entrado, esperava a cada momento uma ama ou uma escrava trazendo nos braços bem enfaixada a creancinha, filha de seu correspondente. De feito, passados alguns instantes ouvio passadas e o leve rugir de um vestido pelo pavime ato. Ei-la! . . . disse en :e si. — Mas quem assomou no limiar da porta?... a mais formosa donzella que se póde imaginar, de gentil e esbelto porte, tendo no rosto não mui alvo todas as graças do pudor virginal e da ingenuidade infantil. Vinha vestida de branco com encantadora e elegante simplicidade. Rozaura e Carlos immediatamente se reconhecerão. Aquella mal poude avançar dois ou tres passos pela sala, e estacou como petrificada; Carlos a muito custo poude conter uma explosão de espanto. Assim permanecerão por alguns instantes em frente um do outro, tolhidos, embaraçados, atonitos, e como que julgando-se victimas de alguma mystificação. Conrado, que ignorava a verdadeira causa daquelle embaraço, attribuindo-o a acanhamento, tratou logo de tiral-os delie. — Minha filha, — disse, — aqui está o meu amigo o senhor Carlos, estudante do quarto anno, a quem queria apresentar-te. — Senhor Carlos, — disse Rozaura estendendo-lhe a mão e cobrindo-se de vivo rubor. — Rozaura ! —ia quasi exclamar o mancebo no arroubo de sua indizivel emoção. — Minha senhora, —balbuciou elle, — custa" me a crer o que vejo; estava bem longe de esperar encontral-a aqui!... Que quer dizer isto? — exclamou Conrado com sorpresa. — Pelo que estou vendo já se conhecião? Sim, senhor, — respondeo Carlos per_ turbado e baixando os olhos. A senhora era minha vizinha no Tabatinguéra; já nos vimos algumas vezes. — É verdade, murmurou Rozaura. — É singular, — reflectio Conrado. — Mais singular mc parece, — retorquio Carlos um pouco restabelecido de sua primeira sorpreza e emoção, vir encontrar em sua casa esta senhora já não na condição, em que a conheci, mas na qualidade de sua filha. Perdoeme si lhe fallo com esta lizura; mas é um mysterio, que me assombra, e que desejava ver decifrado. Até mesmo ainda me quer parecer que é isto um gracejo de sua parte. — Um gracejo! — replicou Conrado formalisando-se um pouco. —A que proposito viria semelhante gracejo?... mas eu lhe desculpo; o senhor tem alguma razão para assiln pensar, principalmente sabendo já dos precedentes de Rozaura, o que eu estava bem longe de imaginar. Ha mesmo ahi um mystcrio, que eu devo e desejo lhe communicar. Promette vir jantar amanhã comnosco? — Com muito prazer. Pois bem; venha cedo, e prometto-lhe que amanhã mesmo ficará sciente da historia de Rozaura, e se dissiparão todas as suas duvidas e incredulidades. Conversáráo ainda por algum tempo, mas nem Carlos nem Rozaura no assombro e enlevo, em que se achavüo, sabião bem o que dizião. Tambem de sua parte Conrado se achava bastantemente apprehensivo; o facto de já serem os dous jovens conhecidos um do outro fizera-lhe impressão no animo, e não lhe tinha escapado o enleio e perturbação, com que se encaravão. Por mais que se esforçasse por dissimular sua preoccupação, não podia deixar de mostrar-se pensativo e distrahido. Em vista daquelle estado de embaraço e constrangimento, em que todos se achavão, Carlos comprehendeo que não convinha prolongar por mais tempo sua visita, e sem se lembrar mais de mezada, nem de dinheiro para a viagem, levantou-se, tomou o chapéo, e já ia despedir-se. — Então não quer receber a sua mezada — perguntou Conrado. —'Ah! é verdade! ia me esquecendo. Conrado sorrio-se de um modo que fez corar o estudante, e levando-o para o seu gabinete contou-lhe o dinheiro não só da mezada, como tambem do que elle exigio para a viagem. Carlos porém ao retirar-se da casa do seu corres- pondente, tinha tanta vontade de ir a ferias, como de atirar—se nas profundas e sombrias aguas do Tieté com uma pedra ao pescoço. CAPITULO XXIII. Vinte e quatro horas de anciosa expectativa. Conrado, como dissemos, ficára seriamente impressionado ao saber que Carlos e Rozaura ja se conhecião. Isto para um homem experiente e perspicaz como era elle, e á vista dos symptomas que rapidamente obsel'vára naquelle primeiro encontro, queria dizer que os dois jovens já se amavão. Por alguns momentos uma vaga e sombria desconfiança lhe adejou pela mente, lembrando-se da humilde e desgraçada condição, em que até então tinha vivido sua filha. Mas essa nuvem para logo se dissipava toda a vez que contemplava a physionomia de Rozaura, em que se espelhavão a candura e a innocencia de sua alma. Tambem conhecia a Carlos como um moço de sentimentos nobres e delicados, e o modo per que ambos se houverão naquelle encontro inopV nado, bem estava revelando que se havia alli paixão, era de uma e outra parte uma paixão virginal e pura, um sentimento honesto e recatado. Havia apenas quinze dias que Rozaura se achava em casa de seu pae, e não diremos que se havia operado nella uma completa transformação, porque Rozaura era elegante, discreta e graciosa por natureza; mas tinha feito taes progressos no desenvolvimento desses seus dotes naturaes, que parecia ter sido nascida e educada no meio da mais polida sociedade. É verdade que ella durante sua escravidão fôra sempre tratada com mais algum mimo e delicadeza do que os outros escravos, mesmo por Nha—Tuca, sua primeira senhora; mas mesmo assim era para admirar como em sua brusca passagem da humilde condição de escrava e de sua vida simples e retrahida para os salões da opulencia sc familiarizasse tão depressa com a sua nova posição. Tambem a sua estada por espaço de um mez em casa de Adelaide, onde era tratada como parte da familia, contribuio para habitual-a ao trato de uma sociedade mais distincta, e servio como de transição ou sirocinio para que não entrasse por demais bisonha na opulenta e luxuosa casa de Conrado. Este se comprazia com justo e bem fundado orgulho em apresentar Rozaura como sua filha aos seus intimos amigos, e em lhes contar a modo extraordinario e quasi miraculoso, pelo qual o céo lhe concedera uma filha já grande, formosa e dotada em tão alto gráo de todos os attractivos physicos e moraes. Omittia entretanto ou alterava certas circumstancias a fim de evitar indagações, e desviar toda e qualquer suspeita que pudesse pairar sobre a verdadeira mãe de Rozaura. Assim dizia que ella nascera em Curitiba, e que sua mãe já não existia. Quanto ao mais alterando sómente os nomes das pessoas e dos logares narrava com toda minudencia e fidelidade o singular acontecimento que lhe tinha dado uma filha, com cuja existencia elle nem sonhava. Com o coração ermo de affectos, como até alli tinha vivido, tendo sempre presentes ao espirito tristes e amargas recordações do seu infeliz passado, Conrado não cessava de congratular-se com sua sorte, e bemdizer o céo que, preservando e restituindo-lhe a filha, vinha reatar seu doloroso passado a um risonho e esperançoso futuro pelos laços tão suaves e affectuosos do amor paterno. Rozaura era uma flór candida e mi- mosa, que de chofre lhe desabrochou sob os passos como por encanto em toda a plenitude do viço e louçania para embalsamar-lhe o outono da vida com seu delicado perfume. Conrado, pois, que tinha especial sympathia e estima pelo seu correspondido, não podia deixar de apresentar-lhe sua filha e dar—lhe conta tambem do modo singular por que o destino o levára a deparar com tão precioso achado. A sorpreza que causou-lhe o conhecimento reciproco dos dois jovens, o tornou pensativo. O amor que já mutuamente se consagravào, era facto que quanto mais reflectia, mais claramente se lhe apresentava ao espirito, A enfermidade e abatimento physico e moral de Carlos e a declaração, que lhe havia feito de que seus incommodos não erão daquelles que se cupão pelos recursos da medicina, nem pelos cuidados dos homens, bem denunciavão que havia alli uma causa moral profunda e persistente, e essa causa não podia ser outra sinão o amor de Rozaura. Como porém seu espirito se perdesse em um cháos de conjecturas mais ou menos razoaveis, sobre as quaes lhe era mistér reflectir com mais socego, deliberou aprazar para o dia seguinte o que tinha de communicar ao mancebo. Tudo conspirava para convencel-o de que entre os dois jovens existia paixão reciproca, amor puro e sincero; os ventos todos sopravão na direcção de suas conjecturas, e talvez mesmo de seus desejos. Todavia, antes de fazer a Carlos declarações mais intimas, julgou prudente sondar de anteInão as disposições do coração da filha. Isto foilhe mui facil ; o coração puro é como a fonte limpida que nada esconde em seu fundo. Desde que tinha em casa sua filha, Conrado havia notado, que a despeito da immensa alegria, que ella sentia por ter por assim dizer nascido de novo em um mundo estranho, por ter sido arrancada pela mão benefica da Providencia do inferno da escravidão para um céo de venturas, onde ao lado da liberdade vinha encontrar pae e mãe; uma leve nuvem de tristeza pairava de quando em quando sobre aquella fronte tão pura, tão radiantc de candura e dc innocencia. Por vezes a sorprehendera em tal estado de melancolia, que não podia deixar de interrogal-a ; ella porém respondia que seu desgosto provinha unicamente de ter mãe tão boa e tão perto de si, e não poder viver com ella, abraçal-a e beijal-a todos os dias, e nem mesmo poder dar-lhe em publico o doce nome de mãe. Em motivo tão justo, e aliás verdadeiro, mas que não era o unico nem o mais poderoso de seus melancolicos devaneios, não deixava de satisfazer algum tanto a anciosa e solicita curiosidade de Conrado. Depois, porém, que se deo o encontro entre ella e o seu joven correspondido, as idéas de Conrado tomárão outra direcção. Não conhecia bem ainda a indole e o temperamento de Rozaura, mas mesmo assim comprehendia perfeitamente que aquella melancolia não era muito compativel com a sua edade, nem podia constituir seu estado normal, e devia ser resultado de algum sentimento contrariado; que alguma cousa, fosse o que fosse, faltava para a completa felicidade de sua filha. Depois porém que em sua presença Carlos e Rozaura se encontrárão em face um do outro, a luz foi-se fazendo diante de seus olhos. Desde que Cartos lá appareceo, a physiono. mico da moça foi-se modificando de um modo tão sensivel, que não poude escapar ás vistas perspicazes e escrutadoras de Conrado. O vivo rubor que lhe assomára ás faces, logo que deo com os olhos no mancebo, nunca mais se apagou, apenas desmaiou um pouco, depois que elle se retirou, e assim se conscrvou até o dia seguinte. Erão as rosas do amor que reflorião de novo ao bafejo da esperança naquella candido e encantador semelhante. Os sorrisos lhe adejavão espontaneos pelos [abios, e nos olhos lhe scintillava um fulgor sereno e bonançoso como o de uma manhã de abril. Nesse dia Conrado não vio mais no rosto de sua filha nem a mais leve sombra de tristeza. Depois de ter notado com particular attenção aquelles symptomas, Conrado procurando encobrir sua intenção e sem muita insistencia fez á sua filha algumas perguntas a respeito de Carlos. Então já conhecias este moço que te apresentei hoje, — perguntou, affectando indifferença. Já, sim senhor; era nosso vizinho na rua do Tabatinguéra, respondeo Rozaura bastantemente enleiada. — E que tal te parece elle? — Me parece muito bom moço. — Qual bom moço ! é um esturdio como todos os seus companheiros... basta ser estudante. —Oh! meu pae ! . . . não diga isso, — exclamou com toda a vivacidade e com toda a ingenuidade a menina. É porque meu pae não o conhece. Este não é como os outros; é muito bem creado, e tem tão bons modos... — São apparencias, minha filha; não acredites muito nesses sujeitinhos. Não é de hoje que os conheço. Esse Carlos mesmo, si não é um maluco ou um devasso como os outros, talvez não passe de um refinado hypocrita. — Ah! meu pae! será possivel! — murmurou Rozaura com voz sentida, e tornou-se triste e amuada... Conrado sorrio-se; tinha sorprehendido no fundo da alma o segredo da filha. — Não te aflijas, Rozaura; eu tambem conheço Carlos, e até o vi pequenino em Minas na fazenda do pae, que é muito meu conhecido e meu amigo. — Ah! devéras ! — replicou Rozaura reani- mando—se. — Quanto estimo isso! Conrado não precisava saber mais para ficar inteirado da natureza dos sentimentos de sua filha para com o seu correspondido. Só lhe faltava agora sondar o coração de Carlos, para o que esperou com impaciencia o dia seguinte. Quando Carlos sahio da casa de Conrado, e achou-se no meio da rua, ia tão aturdido com o que lhe acabava de acontecer, que parou perplexo sem saber para onde dirigir seus passos. Nesta hesitação ficou parado alguns momentos ; mas depois, levantando os olhos para o sobrado, vio Conrado e Rozaura, que da sacada o contemplavão com ar risonho; envergonhou-se, fez um ligeiro cumprimento, e como quem despertava de um sonho dirigio-se resolutamente para casa de Frederico, com quem morava desde que este o arrancára da rua do Tabatinguéra. Caminhava porém por tal sorte distrahido, tal era a preoccupação e enlevo, em que ia embebido, que não via onde pisava, abalroava um e outro transeunte, e não correspondia aos comprimentos dos collegas e conhecidos, com quem ia encontrando. Levava a alma como que fechada dentro de uma nuvem cor de rosa, cheia de visões e mirao•ens encantadoras, que não lhe permittião ver nada do mundo exterior, emquanto o corpo se movia automaticamente procurando o rumo de casa. O achado que acabava de fazer, sem o procurar, sem o saber, o atordoava. Encontrar Rozaura que elle julgava para sempre perdida, encontrai-a de um dia para outro, livre, rica, em uma posição brilhante, transformada de escrava que era em uma distincta donzella filha de um opulento e amavel cavalheiro, o qual além de tudo era o seu correspondente, o amigo de sua familia, era com effeito um acontecimento que tinha um não sei que de prodigioso; era um sonho das mil e uma noites. Todavia o azul do horizonte, que lhe sorviã, não era ainda de todo puro e calmo; pairava sobre elle uma nuvemsinha escura, que lhe turbava a serenidade. Terrivel suspeita lavrava por instantes no espirito de Carlos. Apezar de estar bem convencido da honradez e sinceridade do caracter de Conrado, não podia conformar-se com a idéa de que Rozaura fosse sua filha. Conrado era rico, podia satisfazer todos os seus caprichos. Vio Rozaura, encantou-se de sua belleza, não poupou esforços nem dinheiro para obtel-a, comprou-a, libertou-a, levou-a para a casa, e não querendo casar-se com uma liberta, fel-a, ou pretende fazel-a sua amazia. Para cohonestar aos olhos do publico sua convivencia com a gentil menina, procura fazer crer que é sua filha, para o que pouco lhe custará inventar qualquer historia. Carlos tambem não deixára de perceber a alteração, que se manifestápa na physionomia de Conrado ao saber que elle e Rozaura já se conhecido, e esse facto servia para confirmal-o em suas sombrias apprehensões. Bem se vé que erão apprehensões chimericas e diçparatadas de um espirito enfermo, que tendo surgido como por encanto dos abysmos tenebrosos do infortunio e do desalento, á custo póde abrir os olhos á luz da esperanza e da ventura, tendo ainda diante delles as cataratas da desconfiança. Não obstante estes pensamentos, por insensatos que fossem, atormentavão cruelmente a imaginação do moço, si bem que fossem contrabalançados por algumas reflexões mais razoaveis, que immediatamente lhe acudião ao espirito. Mas persistia sempre a duvida, esse cancro roedor, que tanto martyriza o espirito e o coração, e Carlos raivava contra o seu correspondente por ter differido para o dia seguinte essas revelações, que devião pÔl-o ao facto do nascimento de Rozaura, e terminar de uma vez todas as incertezas que o atormentavão. Embebido em seus pensamentos. Carlos percorreo a rua Direita, desceo á Ponte do Pique, subio a longa rua que conduz ao alto da Consolação, em cuja extremidade morava cotu Frederico. Este não estava em casa ; era sabbado, e segundo o seu costume tinha sahido a passeio, e a visitar os amigos. Carlos não sabia como passar aquelle longo dia de novembro, que tão ardentemente desejava ver cahido nos abysmos do passado, não para amaldiçoal-o, mas para glorifical-o como a data mais feliz de sua vida, si acaso o dia seguinte viesse confirmar as risonhas esperanças da vespera. Em casa achou somente o cozinheiro de Frederico, que preparava o jantar. Na situação em que se achava o espirito de Carlos, o que mais lhe convinha era mesmo ou a solidão, ou um amigo intimo, com quem desabafasse suas emoções ; como Frederico não apparecia, ficava-lhe por companheira a solidão. O cozinheiro servio-lhe o jantar ; Carlos sentouse á mesa, mas apenas ingerio automaticamente alguns bocados, e logo levantou-se. Consultava de continuo o relogio, mas os minutos volvião-se com tal lentidão, que parecião horas. Ficar alli sosinho dentro de casa não lhe pareceo o melhor modo de accelerar a carreira do tempo. — Vamos passear, — pensou elle, — dar um passeio bem largo e bem fatigante, andar, andar, pouco importa por onde, até anoitecer. O longo exercicio trará a fadiga, e a fadiga o somno, e nada ha melhor para dar velocidade ás azas do tempo que o somno ; a dormir, um seculo volve-se em um minuto. Tinha bastante razão, como a experiencia e o resultado vierão demonstrar. O amante de Rozaura tomou o chapéo e sahio; foi até a Ponte-grande do Tieté, que distava de sua casa cerca de meia legoa, procurando esquecer-se mas lembrando-se sempre do dia seguinte, que tinha de resolver o problema de seu futuro destino. Quando voltou, já vinha cahindo a noite; apezar de bastante fatigado, continuou ainda a passear á toa por todas as ruas da cidade, até que badalárão dez horas no relogio da Sé. Então voltou para a casa, que como de dia achou completamente deserta; Frederico tinha ido ao theatro. Fatigado tanto de andar como de pensar, Carlos deitou-se e dormio profundamente até o dia seguinte. Quando abrio os olhos e vio que já raiava a luz do dia, estremeceo de jubilo. — É hoje! é hojeo dia! — murmurou comsi oo. Dia feliz ou nefasto? . . . não sei, mas em poucas horas estarei sciente do destino que me espera. Consultou o relogio; já era bem tarde, quasi nove horas. — Bom! — exclamou elle. — Bemaventurado somno, que assim me encolheo o tempo ! já me faltãD poucas horas; emquanto lavo o rosto, visto-me e almoço, approxima-se o momento suspirado. Entretanto vamos a ver o Frederico. Frederico tresnoitado do theatro ainda dormia a somno solto. — Melhor I — reflectio Carlos, — deixemolo dormir. Não quero dar-lhe uma noticia incompleta, ler-lhe um romance, cujo desfecho ainda não está escripto. Logo saberá tudo. Carlos vestio-se e preparou-se com vagar e esmero, cousa que ha muito tempo não era seu costume, almoçou mal e apressadamente, emquanto Frederico dormia, tomou o chapéo e sahio, Todavia muito a seu pesar erão apenas dez horas. Como era domingo, vendo uma egreja aberta entrou para ouvir missa e ganhar tempo. Depois de ter dado ainda muitas voltas, ouvia em transportes de alegria soar meio dia na torre da Sé. Ouão harmoniosas lhe soárào aos ouvidos aquellas doze badaladas ! . . . Era chegado emfim o momento, que ha vinte quatro horas esperava com tão impaciente anciedade. Conrado tinha-lhe dito que do meio dia em diante estaria em casa á sua espera. CAPITULO XXIV Beatitude. Quando Carlos bateo palmas em casa de Conrado, foi Rozaura que se apresentou no topo da larga escadaria, e com um gracioso aceno disse-lhe : —— Queira subir. Estava divina ; em toda a sua figura respi rava um não sei que de celeste e arrebatador; banhava-lhe os labios um ligeiro sorriso, que communicava-lhe a toda a physionomia uma expressão de felicidade tão calma e suave, que a terieis por um anjo no gozo completo de todos as venturas do empireo. Tinha chegado ha pouco da rua, e ainda não tinha deixado o vestido de nobreza preta, com que fôra com seu pae ouvir na Sé a missa conventual. Esta côr do vestido dava o mais esplendido realce ao seu busto gracioso, e communicava•lhe á tez uns matizes de jaspe ligeiramente rosado do mais encantador effeito. Subindo as escadas, Carlos pensou que ia sendo assumido ao paraizo, a cuja porta um cherubim o esperava para introduzil-o na mansão das delicias eternas. Todavia não ia muito seguro da sorte que o esperava, e transpoz a passos vacilantes o portico daquelle recinto, que para elle symbolizava o céo. A despeito dos lisonjeiros e esperançosos sym— ptomas, que lia no rosto radiante de Rozaura, ainda pairava-lhe na mente um resto da duvida e desconfiança, que o assaltára na ves— pera. Era ainda uma alma que chegava ás portas do céo para ser julgada, e bem podia acontecer que fosse precipitada por aquellas escadas abaixo, condemnada aos tormentos do inferno. Tendo introduzido Carlos no salão, Rozaura retirou-se, e dahi a poucos instantes appareceo Conrado. — Muito bem, meu caro Carlos, — disse elle ao entrar; —estimo que viesse cedo, como lhe havia recommendado, pois temos muito que conversar. Aqui estou ás suas ordens, — replicou Carlos, — e ancioso por escutar as interessantes communicaçõcs, que prometteo fazerme. Creia que desde hontem trago o espirito atormentado pela mais viva curiosidade de saber por que maneira Vossa senhoria de um dia para outro tornou-se pae de uma creatura de quatorze annos, revestida de todas as ingenuas graças da infancia, e de todos os encantos da puberdade. A não lhe ter cabido dos céos um anjo, só si vossa senhoria tem a virtude do omnipotente, e creou de sua propria costella de um momento para outro essa nova Eva, como Deos formou a mãe de genero hu- mano, a princeza do paraizo. — Creio no que me diz, e comprehendo perfeitamente a curiosidade, replicou sorrindo-se o pae do Rozaura. Dentro em pouco sua curiosidade vae ser plenamente satisfeita. Mora longe, o sol está ardente ; deve estar cançado. Tambem cheguei ha pouco da rua, e me acho bastantemente encalmado. Descancemos um pouco, emquanto tomamos algum refresco. Dahi a instantes entrou um moleque trazendo sobre uma rica bandeja de xarõo copos, garrafas de cerveja e outros refrescos. Tomárão um copo de excellente Bass, e emquanto aspiravão a fumaça de um delicioso havana, Conrado poz-se a contar ab ovo com toda a minudencia e franqueza a historia de seus amores, as contrariedades que encontrou, a fraqueza, em que cahio, da qual resultou o nascimento de uma filha, cuja existencia até bem poucos dias elle proprio ignorava. Contou tambem toda a historia de Rozaura, como fôra baptisada como escrava pela mulher avara e perversa, em cuja casa fôra exposta, e como tal fôra vendida na edade de dez annos a esse senhor Bazilio, em cuja casa Carlos a tinha conhecido ; como emfim, por um concurso de circumstancias, que parecião encaminhadas pela mão da Providencia, tinha-se chegado em fim ao conhecimento da verdadeira origem da menina, reconhecendo-se publica e authenticamente o seu nascimento livre. Nessa narração porém, alterando certos nomes e mudando para Curitiba o scenario de suas aventuras amorosas, procurava como sempre arredar de sobre a verdadeira mãe de Rozaura a mais leve sombra de suspeita. Carlos escutava absorto e enlevado a narração de Conrado, como quem ouvia as melodias de um coro angelical. Jamais havia lido paginas de mais delicioso romance em cujo festivo e risonho desenlace ia elle entrar por caminhos juncados das flôres do amor e da felicidade. — Bem me adivinhava o coração ! — exclamou com expansivo enthusiasmo. Bem me dizia não sei que voz do céo que essa tão formosa e interessante menina não podia ter seu berço na senzala da escravidão Meu espirito revoltava -se obstinadamente contra esse facto, apezar de ser confirmado por um modo, que parecia irrefragavel. A imagem daquelle anjo de celeste pureza e incomparavel formosura parecia afugentar para bem longe de mim a sinistra e aviltante idéa da escravidão. Oh ! é que a verdade, sem que eu o soubesse, penetrava em meu espirito por caminhoso ccultos, e nelle derramava essa luz vaga e mysteriosa, que se chama presentimento. — Não duvido que assim seja, meu amigo; mas eu infelizmente não sou dotado desse sexto sentido, pois não tive nem o mais leve presentirnento de que tinha uma filha, e essa condemnada ao captiveiro. Deixemo-nos porém de presentimentos por agora, que já não nos são necessarios. Tratemos dos sentimentos. O senhor, que não é de hoje que conhece Rozaura, não acha que ella tem bastante formosura e merecimento? . . . É incomparavel. O meu amigo possue em sua filha um thesouro inestimavel. — Estimo muito quo faça della tão elevado conceito. Tambem eu estou me convencendo de que Deos me deo em minha filha uma joia, um thesouro de inestimavel valor.. e é por isso mesmo que ando assustado com medo que m'O roubem. — Porque diz isso, senhor Conrado? — Ora porque linda, amavel, rica, não faltarão ladrões que m'a roubem, e eu ficarei orphão da filha, que ha poucos dias os céos me concederão. — Tem razão, — disse tristemente Carlos, —mais tarde ou mais cedo tem de casal-a com alguem. É verdade; mas permitta-me que lhe faça uma pequena pergunta. O senhor que teve a fortuna de conhecer Rozaura primeiro que eu, que sou pae delia, e que talvez teve com ella entretenimentos particulares, diga-me francamente, meu amigo, até que ponto chegárão as suas relações? Carlos ficou por algum tempo perplexo e desapontado com estas perguntas de Conrado. Foi só então que comprohendeo a que alvo atiravüo as palavras um pouco vagas e ambiguas do pae de Rozaura. Logo vio que elle já suspeitava, si é que não estava certo, da natureza de seus sentimentos para com a gentil menina. — Já sabe que a amo, — pensou comsigo, — é mistér fallar-lhe com toda a franqueza, revelar—lhe tudo. Carlos então reanimando-se e cheio de confiança começou a contar como tinha conhecido Rozaura, e como tinha concebido por ella a mais ardente e viva paixão. O profundo desgosto que se apoderou de seu coração ao saber que Rozaura era captiva, os projectos loucos, que concebeo para restituil-a á liber- dade, as angustias por que passou, o profundo desalento em que cahio quando Rozaura desappareceo, constando com todos os caracteres da certeza, que tinha sido levada no comboi por seu senhor para ser vendida em longes terras, nada disso lhe occultou. Tambem lhe disse que o desespero e dÔr, que soffreo com este ultimo golpe, tinha affectado profundamente a sua saude fazendo-o definhar rapidamente, e talvez o tivesse levado ao tumulo, si a mais feliz eventualidade não lhe tivesse feito deparar livre e feliz, e na mais brilhante posição social, aquella que elle suppunha ainda na triste condição de escrava, exilada de sua terra, arrancada ás suas affeições, palmilhando a pé essas escabrosas estradas para ser vendida... Aqui a voz dc Carlos embargou-se pela emoção... não poude mais continuar. Conrado sentia tambem de sua parte emoção extraordinaria. Carlos fallava com tal anirnação, e com tal tom de franqueza e sinceridade, que Conrado não poude deixar de dar pleno credito ás suas palavras. — Emfim, meu amigo, — concluio elle ; conheci sua filha suppondo-a livre, porém pobre ; amei-a com todas as forças de minha alma. Vim depois ao conhecimento de que era escrava, e nem assim deixei de adoral-a com o mesmo affecto puro e respeitoso, que sempre lhe havia consagrado. Por duas vezes mc achei junto della, e a mais audaciosa homena o»em que meu amor ousou render-lhe, foi beijar-lhe a mão uma ou outra vez. Ilojc, que a vejo livre, rica, feliz e restituida a um tão bom pae, o meu amor é o mesmo, minha esperança porém é muito fraca ; bem vejo que a não mereço, e serei o ultimo entre tantos e tão brilhantes competidores, que sem duvida se apresentarão aspirando á sua mão. Carlos pronunciou estas ultimas palavras com tal bom de tristeza e desalento, que Conrado commovido deo-se pressa em manifestar- lhe suas verdadeiras intenções. — Tranquillise-se, meu caro Carlos, disse-lhe com benevolo sorriso, não tem por ora nem rival, nem concurrente algum, e mesmo que os tivesse, o preferido seria sempre o senhor, não só por minha parte como tambem por ella. Melhor do que ninguem o senhor deve saber, si ella corresponde ou não ao seu amor. Desde hontem que os estou observando e estudando a ambos, e agora, em vista das revelações tão explicitas e sinceras, que acaba de fazer- me, era preciso que eu fosse bem destituido de penetração para não comprehender que se amão mutuamente. A estas palavras o estudante deslumbrado pelos fulgores da mais risonha esperança e mergulhado em effluvios de beatitude esteve a ponto de arrojar-se aos pés de Conrado e beijar-lhe as mãos; mas a propria violencia de sua emoção o acanhava, e naquelles momentos, não sabendo o que devia dizer ou fazer, quedou-se por algum tempo silencioso, de olhos cravados no chão, e o peito a offegar. — O senhor me faz o mais ditoso dos homens, — murmurou emfim ; — não sei como testemunhar-lhe o meu reconhecimento... — Nada tem que agradecer- me, — atalhou Conrado ; —concedendo-lhe a mão de Rozaura não faço mais que dar cumprimento a um enlace que o destino tinha preparado de antemão, e ainda mais uma vez não posso deixar de dar graças á Providencia, que, restituindome a filha, depara-me ao mesmo tempo para ella um esposo tão digno de minha escolha. Não serei eu que vá romper violentamente laços tão sanctos e puros, que a natureza formou, e que o céo deve abençoar. Como ha pouco lhe contei, muito soffri na minha mocidade em razão de ser contrariado em meus affectos, e a opposição caprichosa de um pae pouco insensato nos tornou para sempre infelizes a mim e á mãe de Rozaura. Eu seria peor mil vezes do que esse pae, si, tendo passado por tão cruel e dolorosa provação, quizesse condemnar á mesma sorte a filha que o céo preservou-me por meios tão extraordinarios. Carlos nada respondeo ; tomou uma das mãos de Conrado, levou-a ao coração, e o abraçou. A emoção embargava-lhe a voz, e o peito lhe arfava afogado em ondas de felicidade. A excessiva ventura, como a extrema desgraça, quando assim vem inesperada, desorienta e embota o espirito. Conrado comprehendeo o acanhamento, em que aquella extraordinaria commoção collocava o mancebo e julgou conveniente deixal-o a sós inebriar-se nos efluvios de prazer e ventura, que lhe banhavão o coração. — Já temos conversado muito, — disse-lhe, — é quanto basta por a oora; permitta-me que o deixe a sós por alguns instantes ; esteja á sua vontade. Conrado retirou-se para o interior da casa, e Carlos ficou sósinho respirando á larga as auras da esperança e da felicidade. Ao contrario do dia anterior começou a examinar minuciosamente todos os objectos, que alli existião. Vio o que na vespera não vira, sobre o bufete um pequeno ramalhete de jasmins e violetas, o par de luvas e o leque, que Rozaura costumava sempre alli deixar. Respirou com avidez o perfume dos jasmins e violetas, beijou tres vezes o leque que não soube retribuir- lhe tão extremosos carinhos, apertou as luvas ao peito, e ninguem seria capaz de traduzir o hymno de amor, que do fundo do coração entoava á senhora daquelles objectos e de seus pensamentos. Notou tambem que havia na sala um magnifico piano de Erard, e sobre elle aberto o methodo de Iliinten. Ah ! exclamou elle, — eis ahi um bem singular capricho do destino aquella que querião votar á escravidão e condemnar a só ouvir na senzala as cantigas do africano ao som da marimba ou do machete, vae de hoje em diante interpretar as mais admiraveis producções da arte moderna. Neste seu passeio extatico em roda do salão, foi interrompido pelo apparecimento de Conrado e Rozaura, agradavel interrupção que veio pôr o cumulo ás suas deliciosas emoções. O leitor fará idea de quão rapidas e agradaveis correrão as horas para os dois amantes. A' tarde, depois do jantar, emquanto aura, principiante ainda, sentada ao piano estudava as escalas, Conrado tomou de parte seu futuro genro, levou-o para a sacada. — Como vê, ella é ainda muito princV piante ; — disse- lhe — é necessario, que eu a eduque ainda para poder lh'a entregar. Veio para aqui sabendo apenas ler e escrever mal ; mas tem tal intelligencia, é tão docil, e entrega-se ao estudo com tal ardor, que es— pero em menos de um anno dar-lhe uma noiva digna do senhor, e que poderá apresentar-se no meio da mais distincta sociedade sem fazel-o corar. Carlos não se enfadaria si pudesse desde logo desposar a menina assim mesmo bisonha, como estava, e esta proposta para esporar mais um anno não lhe agradou muito. — Paciencia! murmurou comsigo; — fui condemnado a um anno de purgatorio; porém que importa, si depois disso tenho certa a bemaventurança Retirou-se ao pôr do soli e voou para o casa nas azas do amor, da alegria e da esperança. Entrando em casa fez taes tolices, brincou, cantou e saltou por tal arte, que Frederico ficou apprehensivo, julgando que suas maguas o tinhão enlouquecido. Mal pensava elle que maguas da noite para o dia se tinhão transformado em iubilos ineffaveis. Depois porém que o seu amigo o pÔz ao facto de todo o occorrido, o coração do bom Frederico tambem transbordou de alegria, e apezar do seu serio ficou quasi tão louco como o proprio Carlos. CAPITULO XXV Os Obitos. Voltemos á casa do major Damazio, pois ha muito não temos noticia do que por lá se passa ; não sabemos o que é feito da infeliz e interes— sante Adelaide, de seu pae, de seu marido, e nem de sua linda e crescente prole. É-nos forçoso dar agora, ainda que com bastante pezar, uma dupla noticia funebre; mas como dizem que ha males que vêm para bem, devemos supportal-a com resigndção respeitando sempre os altos designios da Providencia. Oito dias pouco mais ou menos depois da scena tão venturosa, tão cheia de emoções deliciosas, a que acabámos de assistir em casa de Conrado, a familia do major Damazio cobria-se de lucto. Moraes, depois da terrivel conferencia, que se passára entre elle, sua esposa, seu sogro, Frei João e Conrado, cahira gravemente enfer• mo. Os medicos chamados á sua cabeceira declarárão que era um caso de febre perniciosa, que então grassava pela cidade, e pouca esperança mostrárão de poder salval-o, e tinhão razão. Os soffrimentos do espirito, si não produzem, ao menos augmentão a intensidade da molestia existente, e a tornão incuravel, quando as causas moraes são desconhecidas ou quando mesmo, sendo conhecidas pelo proprio paciente, não pódem ser reveladas como as de Moraes, e portanto não pódem ser combatidas. O infeliz Moraes tinha dupla razão para desesperar-se e soffrer horrivelmente; uma legitima e natural, outra procedente de um desvario, de uma paixão insensata; ambas porém inconfessaveis, porque era seu dever recalcalas bem no fundo do coração. Triste situação, em que nem ao menos lhe era permittido o allivio do desabafo ! Desesperador infortunio, cujas causas não podía revelar sem deshonra para a mulher, que tanto amára, ou sem se confessar réo de uma grande infamia. Para uma organisaçüo enfraquecida, e para uma alma ainda susceptivel de pundonor não era preciso mais. O desgosto, a vergonha, os remorsos, e tudo isso reunido talvez a um insulto da febre, de que fallavão os medicos, o levarão ao tumulo em poucos dias. Quanto ao major, sua saude e sua razão já muito enfraquecidas pelos annos e pelas molestias não puderão resistir ao doloroso golpe do dia fatal da conferencia. Paralytico e inteiramente desmemoriado jazia no fundo de uma cama, e nem teve conhecimento da morte de seu genro, a quem poucos dias sobreviveo. Adelaide e Lucinda forão durante os longos dias de tão sinistra e dolorosa crise os dous anjos tutelares, que em tudo cuidavão, a tudo providenciavão. Conrado era minuciosamente informado pela boa e zelosa Lucinda de tudo o que se passava em casa do major. Depois que este morreo, julgou que era seu dever ir visital-a e offerecer seus- serviços áquella que tanto amara, que era mãe de sua filha, viuva eorphã de pae, não tendo sinão filhos em tenra edade, e entretanto herdeira de uma fortuna, que, si bem que reduZida pelos esbanjamentos e má administração dos ultimos tempos, devia ser ainda consideravel. Conrado seria levado a dar esse passo sómente por seu pensamentos generosos e tão consentaneos ao seu caracter, ou tambem embalado pela esperança de fazer resuscitar o seu passado Sua filha, cuja existencia ignorava, tinha resuscitado. Teria elle esperanças dc fazer tambem resuscitar como esposa a mãe de sua filha Eis o que em breve havemos de saber. Adelaide recebeo a visita de Conrado com tão cordial e sincera gratidão, que elle não hesitou em continual-as encarregando-se com a melhor vontade de todos os negocios de casa. O amor antigo e reciproco renasceo livre e expansivo como nunca. Os infortunios de um e outro tinhão posto ao claro as nobres qualidades de ambos. A faceirice e galanteios de Adelaide durante a primavera de sua vida, não erão mais do que resultado da inexperencia e irreflexão dos verdes annos, alimentadas por uma educação mal dirigida. Adelaide, graças ao vigor de sua organisaçáo, tendo já trinta annos, podia bem mentir que não tinha ainda vinte e cinco. Depois que a esperança de um novo amor antigo lhe tinha entrado no coração, havia voltado aos annos de sua juventude, e seu ar melancolico era temperado por um desses risos meigos e suaves, como um raio do sol escoando-se por entre as nuvens tenues e vaporosas de uma tarde tepida e serena. O mesmo acontecia a Conrado. Era um homem na edade viril, mas que parecia ter dez annos de menos. Sómente um aspecto mais severo, e certa belleza mascula o tornavão algum tanto differente do que antes era. EPILOGO Os Casamentos. — Ó sinhásinha, escuta uma cousa, — disse um dia Lucinda á viuva de Moraes, cerca de um mez depois dos funebres acontecimentos, que acabámos de relatar; — não ficava a nora tão bonito mecê casar com nhô Conrado ! . . . — Que esperança, Lucinda ! — respondeo Adelaide suspirando. — Eu viuva, carregada de filhos ! . . . Demais, bem sabes, não pude ser-lhe fiel, como elle foi, e... e é ainda... —E é ainda ? . . . Como é que sinhásinha sabe disso? — atalhou a preta sorrindo maliciosamente. — Ora, que pergunta i — disse Aoelaide corando um pouco; — eu casei—me e elle até hoje é solteiro.. — Deixa dessa scisma; elle bem sabe que sinhásinha, si casou, não foi muito por sua vontade, e foi porque correo como certo que nhó Conrado tinha morrido. — Ah! isso é a pura verdade. — Pois então Q escuta, sinhásinha, vou lhe contar uma cousa... — O que? — acudio Adelaide com impaciente curiosidade. — É que nhô Conrado não lhe olha com máos olhos. Paixão antiga é como gameleira ; por mais que se córte, sempre fica uma raizinha, que brota de novo. — É o que te parece, Lucinda. O interesse que mostra por mim, póde não ser mais que delicadeza de um coração generoso e compas sivo. Vê-me viuva, já me quiz bem, tem dó de mim, e nada mais. — Não é sómente dó, sinhásinha; é mais alguma cousa; quer apostar? — Deixemos de apóstas; mas em fim... — Mas emfim eu vou ver si o negocio tem geito. — Deixa-te disso... — Deixa por minha conta. Lucinda sahio immediamento e voou para a cara de C.¿nrado. — Lucinda, disse Conrado á velha creoula, depois de outras conversas proprias para disfarçar e encher tempo; os pensamentos de ambos navegavão na mesma direcção, mas desejavão encontrar-se e chegar á falla sem abalroamento; Lucinda, eu acho que Dona Adelaide deve estar em posição bem embaraçosa... — Oh ! nhÔ Conrado, nem fallemos nisso, coitada da sinhá!... — Fallemos, sim, pois que inconveniente ha em fallar nisso, si não fallamos para fazer mal a ninguem. Pobre Adelaide! deve estar luctando com bastantes difficuldades; como ha de governar uma casa cheia de tantos e tão complicados negocios, ella que nenhuma pratica tem dessas cousas rica, sem marido, sem pae, moça e formosa ainda como sempre foi, ou mais ainda, sem mãe, sem irmãos, rodeada de quatro filhinhos em tenra edade que triste isolamento!... — É verdade, nhÔ Conrado; é ella sósinha commigo, pobre negra velha e cançada, as creanças e Deus — Pois eu da minha parte, Lucinda, teria o maior prazer do mundo em adoptar como meus filhos os irmãosinhos de Rozaura. Lucinda estremeceo de prazer ouvindo estas palavras, cujo alcance logo comprehendeo, e calou-se. — Pois é o que te digo, proseguio o moço ; — entendo, que fica muito mal o luto em uma senhora tão moça e tão formosa. Consentiria ella que eu fosse despojal-a de tão lugubre vestidura ? — Não sei• , — respondeo Lucinda com ar malicioso, — só indo perguntar. — Pois pergunta—lhe e apressa-te em trazer-me a resposta. Lucinda nada mais quiz saber, e nem esteve por mais conversas; correo direito para a casa. Dous mezes depois desta conversação, uma linda caleça, puxada por duas parelhas de possantes e vistosos cavallos brancos, conduzia para a egreja cathedral dois formosos pares de noivos, que sentados de fronte um do outro ião receber-se á face do altar. Quem os visse não era capaz de adivinhar, que erão pae e sogra, filha e genro, que assim por modo tão singular se achavão de vis-à-vis. Um dos pares estava ainda em todo o viço da mocidade; o outro, posto que algum tanto mais edoso, nem por isso era inferior ao outro em belleza e elegancia; por isso mais facilmente se acreditaria serem irmãos e cunhados. Mas o leitor já sabe quem são elles. Conrado, que nenhum desejo nem motivo tinha para adiar seu casamento com Adelaide, achou que era não só de bom tom, como de bom agouro, celebrar tambcm no mesmo dia, hora e logar o consorcio de sua filha com o seu querido Carlos e por isso concedeo-lhe perdão da pena de um anno de purgatorio, a que o tinha condemnado. FIM