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#Contos#Literatura Brasileira

Luís Soares

Por Machado de Assis (1870)

- Além de que, disse Anselmo, agora que D. Adelaide está de posse de uma grande fortuna, há de querer apreciar o que há de bonito nos países estrangeiros a fim de poder melhor avaliar o que há no nosso... 

- Sim, disse o major; mas você fala de grande fortuna... 

- Trezentos contos. 

- São seus. 

- Meus! Então sou algum ratoneiro? Que me importa a mim a fantasia de um generoso amigo? O dinheiro é desta menina, sua legítima herdeira, e não meu, que aliás tenho bastante. 

- Isso é bonito, Anselmo! 

- Mas o que não seria se não fosse isto? 

A viagem à Europa ficou assentada. 

Luís Soares ouviu a conversa toda sem dizer palavra; mas a idéia de que talvez pudesse ir com o tio sorriu-lhe ao espírito. No dia seguinte teve um desengano cruel. Disse-lhe o major que, antes de partir, o deixaria recomendado ao ministro. 

Soares procurou ainda ver se alcançava seguir com a família. Era simples cobiça na fortuna do tio, desejo de ver novas terras, ou impulso de vingança contra a prima? Era tudo isso, talvez. 

À última hora foi-se a derradeira esperança. A família partiu sem ele. 

Abandonado, pobre, tendo por única perspectiva o trabalho diário, sem esperanças no futuro, e além do mais, humilhado e ferido em seu amor próprio, Soares tomou a triste resolução dos cobardes. 

Um dia de noite o criado ouviu no quarto dele um tiro; correu, achou um cadáver.

Pires soube na rua da notícia, e correu à casa de Vitória, que encontrou no toucador. 

- Sabes de uma cousa? perguntou ele. 

- Não. Que é? 

- O Soares matou-se. 

- Quando? 

- Neste momento. 

- Coitado! É sério? 

- É sério. Vais sair? 

- Vou ao Alcazar. 

- Canta-se hoje Barbe-Bleue, não é? 

- É. 

- Pois eu também vou. 

E entrou a cantarolar a canção de Barbe-Bleue. 

Luís Soares não teve outra oração fúnebre dos seus amigos mais íntimos. 

FIM


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