Por Machado de Assis (1900)
Há quem diga que também essa mulher é santa. Eu não gosto de ver as mulheres santas e os milagres a cada canto; eles e elas têm suas ocasiões próprias.
VI
Agora, o que é ainda mais grave que tudo, é a eleição, que a esta hora se começa a manipular em todo este vasto império.
Em todo. . . é uma maneira de falar. Há soluções de continuidade, abertas pelas relações. Na Corte, por exemplo, não teremos desta vez a festa quatrienal. Tal como Niterói que também faz relache par ordre.
Dois espetáculos de menos. Dois? Oito ou dez em todo o país.
Não sei se o leitor em alguma vez refletido nas coisas públicas, e se lhe parece que seria a magna descoberta do século, aquela que nos desse um meio menos incômodo e mais pacífico de exercer a soberania nacional.
A soberania nacional é a coisa mais bela do mundo, com a condição de ser soberania e de ser nacional. Se não tiver essas duas coisas, deixa de ser o que é para ser uma coisa semelhante aos Três Sultões, de Wagner, quero dizer muito superior, porque o Wagner, ou qualquer outro compositor apenas nos dá a cabaletta, diminutivode cabala, que é o primeiro trecho musical da eleição. Os coros são também muito superiores, mais numerosos, mais bem ensaiados, o ensemble mais estrondoso e perfeito.
Cá na corte não temos desta vez cor nem cabala nem finais. Não há companhia. Por isso os diletantes emigram em massa para a província onde se prepara grande ovação aos cantores.
VII
Parece que começa a ser calçada... dou-lhe em cem, dou-lhe em mil... a Rua das Laranjeiras... Mas silêncio! isto não é assunto de interesse geral.
VIII
De interesse geral é o fundo da emancipação, pelo qual se acham libertados em alguns municípios 230 escravos. Só em alguns municípios!
Esperemos que o número será grande quando a libertação estiver feita em todo o império.
A lei de 28 de setembro fez agora cinco anos. Deus lhe dê vida e saúde! Esta lei foi um grande passo na nossa vida. Se tivesse vindo uns trinta anos antes estávamos em outras condições.
Mas há 30 anos, não veio a lei, mas vinham ainda escravos, por contrabando, e vendiam-se às escancaras no Valongo. Além da venda, havia o calabouço. Um homem do meu conhecimento suspira pelo azorrague.
— Hoje os escravos estão altanados, costuma ele dizer. Se a gente dá uma sova num, há logo quem intervenha e até chame a polícia. Bons tempos os que lá vão! Eu ainda me lembro quando a gente via passar um preto escorrendo em sangue, e dizia: "Anda diabo, não estás assim pelo que eu fiz!" Hoje...
E o homem solta um suspiro, tão de dentro, tão do coração... que faz cortar o dito. Le pauvre homme!
1877
[6]
[1 janeiro]
A. S. EX.ª REVMA. SR. BISPO CAPELÃO-MOR
PERMITA-ME V. EX.ª Revma. que eu, um dos mais humildes fiéis da diocese, chame sua atenção para um fato que reputo grave.
Ignoro se V. Ex.ª Revma., já leu um livro interessante dado a lume na quinzena que ontem findou, O Rio de Janeiro, Sua História e Monumentos, escrito por um talentoso patrício seu e meu, o Dr. Moreira de Azevedo. Naquele livro está a história da nossa cidade, ou antes uma parte dela, porque é apenas o primeiro volume, ao qual se hão de seguir outros, tão Copiosos de notícias como este, folgo de esperá-lo.
Não sei se V. Ex.ª Revma. é como eu. Eu gosto de contemplar o passado, de viver a vida que foi, de pensar nos homens que antes de nós, ou honraram a cadeira que V. Ex.ª Revma. ocupa. ou espreitaram, como eu, as vidas alheias. Outras vezes estendo o olhar pelo futuro adiante, e vejo o que há de ser esta boa cidade de S. Sebastião um século mais tarde, quando o bond for um veículo tão desacreditado como a gôndola, e o atual chapéu masculino uma simples reminiscência histórica.
Podia contar-lhe em duas ou três colunas o que vejo no futuro e o que revejo no passado; mas, além de que não quisera tomar o precioso tempo de V. Ex.ª Reverendíssima, tenho pressa de chegar ao ponto principal desta carta, com que abro a minha crônica.
E vou já a ele.
Há no dito livro do Dr. Moreira de Azevedo um capítulo acerca da igreja da Glória, não me refiro à do Outeiro, mas à do Largo do Machado. Nesse capítulo, que vai da página 185 à página 195, dão-se interessantes notícias do nascimento da igreja da qual traz uma excelente descrição. Diz-se aí, página 190, o seguinte:
"Concluiu-se a torre em 1875, e em 11 de junho desse ano colocou-se ali um sino; mas há a idéia de colocar outros sinos afinados para tocarem por música".
Para este ponto é que eu chamo a atenção do meu prelado.
Que lhe pusessem a torre, uma torre por cima daquela fachada, foi idéia, piedosa decerto, mas pouco de aplaudir-se.
Não há talvez segundo exemplo debaixo do sol; tudo aquilo hurle de se voir ensemble. Contudo, repito, se a arte padece, a intenção merece respeito.
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.