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#Contos#Literatura Brasileira

Felicidade pelo casamento

Por Machado de Assis (1866)

E pegando na mão da moça que tremia, disse-lhe com voz igualmente trêmula: — Ângela, creio que me amas; eu também te amo, e como creio que se pode amar no... Diga-me? É certo que sou feliz? Sou amado? 

— É... murmurou a moça deixando cair a cabeça sobre o meu ombro e ocultando assim o rosto corado pela comoção. 

VI 

Dois dias depois estavam ultimados os negócios que me tinham trazido à corte, e eu devia voltar no próximo vapor. 

Durante esse tempo Azevedinho foi uma só vez a Andaraí; apesar do espírito brincalhão e alegre, Ângela não pôde recebê-lo com a afabilidade do costume. Isto deu que pensar ao rapaz. Olhou para mim um tanto desconfiado e saiu com a cabeça baixa.

Como estivessem ultimados os negócios fui à cidade para as últimas ordens. Estiveram em minha casa o caboclo e mais dois sujeitos. Despachei as visitas e fui escrever algumas cartas que mandei ao seu destino por João. 

Esperava o criado e a resposta de algumas cartas, quando ouvi bater palmas. Era Azevedinho. Fi-lo entrar e perguntei ao que vinha. 

O rapaz estava sério. 

— Venho para uma explicação. 

— Sobre... 

— Sobre as suas pretensões acerca da filha do Magalhães. 

Sorri-me. 

— É intimação? 

— Não, de modo nenhum; sou incapaz de fazer uma intimação que seria grosseira e mal cabida. Desejo uma explicação cordial e franca... 

— Não sei que lhe hei de dizer. 

— Diga que gosta dela. 

— Perdão; mas por que dever lhe hei de dizer isso; ou antes, diga-me com que direito mo pergunta? 

— Eu digo: amo-a. 

— Ah! 

— Muito... 

Fixei o olhar no rapaz para ver se a expressão do rosto indicava o que dizia. Ou fosse prevenção, ou realidade, achei que aquele amor era dos dentes para fora. — Mas ela? perguntei eu. 

— Ela não sei se ama. Devo acreditar que sim; posto que nunca tivéssemos explicações a respeito. Mas a sua resposta? 

— A minha resposta é pouca coisa: dar-me-ia por feliz se fosse amado por ela. — Mas é? 

— Dar-me-ia por feliz se fosse amado por ela... 

— Não quer ser franco, já vejo. 

— Não posso dizer mais. Para que nos ocuparemos a respeito de uma pessoa a cuja família devo obséquios, e que é, portanto, já parte de minha família? — Tem razão. 

E, despedindo-se de mim, saiu. 

Acompanhei-o à porta e voltei para a sala pensando na franqueza com que aquele rapaz viera saber de mim se podia contar com o coração da moça. E por que viria? Teria arras para isso? Nova dúvida assaltou o meu espírito, e eu voltei para Andaraí mais triste do que saíra. 

Ângela notou isso; perguntou-me o que tinha. Então falei-lhe francamente. Perguntei-lhe, na plena confiança do amor, se nunca tivera para Azevedinho um sintoma de afeto, um penhor que o autorizasse a deitar para ela olhos amorosos. 

Respondeu-me que nunca o amara nem lhe dera lugar a fazer-lhe nascer esperanças de amor. 

Pareceu-me que Ângela era sincera; acreditei. 

Depois conversamos de nós. Perguntei-lhe se estava certa do sentimento que eu lhe inspirava; se aquilo não era urna simples fantasia, em que o coração não tomava parte. A pergunta indicava a dúvida, e a dúvida não se desfazia só com a simples resposta, uma vez que Ângela quisesse mentir. 

Mas eu não contava com as palavras simplesmente. Contava com o resto, com o tom das palavras, com a luz dos olhos. Olhei para ela fixamente e esperei a resposta. — Oh! disse ela, acredito que este amor é verdadeiro. Sinto que é isto, porque nunca felicidade tamanha me abriu ao coração as comoções do presente e as esperanças do futuro. 

E dizendo isto, os olhos úmidos de lágrimas de ventura, como chuva de primavera, abriram-se para fazer penetrar o meu olhar até o mais fundo do coração.

Era sincera. 

Ângela continuou: 

— E acredita que foi simplesmente daquele primeiro dia, o do bordado, que eu comecei a amá-lo? Não, foi desde que cheguei à casa. Foi um sentimento que nasceu em mim repentinamente: é verdadeiro, não? 

Esta pergunta era feita com uma graça adorável. 

Minha resposta foi um beijo, o primeiro, mas um beijo respeitoso, casto, onde resumi todas as aspirações e todos os sentimentos do meu coração. 

VII 

Aproximava-se o dia da partida. 

Eu estava decidido a pedir Ângela em casamento. Contava com a aquiescência do pai e o agrado do tio. 

O meu projeto era ir buscar o consentimento de minha mãe e voltar depois. Ângela, a quem comuniquei isso, disse-me que não me separasse dela; que era melhor escrever à minha mãe; que ela mesma escreveria, e bem assim o pai, diante do que minha mãe não recusaria. 

(continua...)

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