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#Contos#Literatura Brasileira

Encher tempo

Por Machado de Assis (1876)

A moça esperou que o primo, em desconto de seus pecados, a tratasse com a ternura a que o seu coração tinha jus; mas Alexandre parecia preocupado; e ela entregou-se toda à conversação do outro. Uma canoa que cortava as águas tranqüilas do mar serviu de pretexto e começo à palestra. O que eles disseram da canoa, do mar, da vida marítima, e mais idéias correlativas dificilmente caberia neste capítulo, e com certeza exigia alguns comentários, visto que algumas frases tinham tanto com o assunto como o doge de Veneza. Alexandre contemplava-os sem morder o lábio com raiva, nem dar o menor sinal de despeito. Seu rosto marmóreo não revelava o que se passava no coração. Não tardou que ele próprio interviesse na conversa. O padre Sá aproveitou a ocasião para chamar o filho de D. Emiliana à explicação de um ponto teológico. Pedro afastou-se do grupo com dificuldade; mas a conversa entre os dois morreu, como lâmpada a que faltou óleo. 

VII 

Lulu notou a esquivança do primo e a frieza que lhe mostrava. Certo é que nunca lhe achara a expansão, nem a ternura, que era natural exigir de um namorado. Alexandre era sóbrio de palavras e seco de sentimentos. Os olhos com que a via eram sérios, sem flama, sem viveza — “, dizia-lhe ela um dia gracejando. Mas se ele fora sempre assim, agora parecia mais frio do que nunca, e a moça procurou saber a causa daquela agravação de impassibilidade. 

— Ciúmes, pensou ela. 

Ciúmes de Pedro, devia dizer; mas nem ela nem a leitora precisam de nada mais para completar o pensamento. De quem seriam os ciúmes senão daquele rapaz, que se mostrava assíduo, afável, dedicado, que a tratava com esmero e afeição? A moça riu da descoberta. 

— Um quase padre! exclamou ela. 

Daí a poucos dias, o padre Sá disse ao filho de D. Emiliana que os seus negócios iam perfeitamente e que dentro de pouco tempo devia dizer adeus a quaisquer ocupações estranhas aos preparatórios eclesiásticos. 

— Faça exame de consciência, disse a moça, que estava presente à conversa dos dois; e prepare-se para... 

— Para casar? perguntou sorrindo o tio. 

Lulu corou ouvindo aquelas palavras. Sua idéia não era casamento; era um gracejo fúnebre e tão descabido que a frase lhe morrera nos lábios. O que ela queria dizer era que Pedro se preparasse para rezar-lhe o responso. A interrupção do tio desviou-lhe o pensamento do gracejo para dirigi-lo ao primo. Corou, como disse, e refletiu um instante. — Oh! se ele me amasse com o mesmo ardor com que este ama a Igreja! pensou ela. Depois: 

— Falemos de coisas sérias, continuou ela em voz alta. Desejo vê lo em breve cantar uma missa ao lado de titio. 

Na noite desse mesmo dia, Alexandre foi à casa do padre Sá. Ia preocupado e pouco se demorou. O tio notou-lhe a diferença e ficou apreensivo. Conjecturou mil coisas para aquela mudança do sobrinho, sem atinar qual delas era a verdadeira. Lulu ficou igualmente triste; não digo bem, havia tristeza, mas havia outra coisa também, havia despeito; e menos o amor do que o amor-próprio começava a sentir-se ofendido. Pedro aproveitou a primeira ocasião em que o padre saiu da sala para lhe perguntar o motivo daquela súbita melancolia. 

A moça estremeceu como se acordasse sobressaltada de um sono. — Não ouvi, murmurou ela. 

— Perguntava-lhe por que motivo ficou assim pensativa. 

— Um capricho, respondeu a moça. 

— Um capricho satisfaz-se.

— Nem todos. 

— Quase todos. Não pede decerto a lua? 

— A lua... não, respondeu ela procurando sorrir e esquecer; mas alguma coisa que tem relação com ela. 

— Diga o que é. 

— Estava desejando... que o senhor ficasse esta noite ali fora a contemplar a lua e a fazer-lhe versos, disse ela rindo. Nunca fez versos? 

— Um hexâmetro apenas. 

— Não sei o que é; mas não importa. Era capaz disso? 

— Suprima os versos e a coisa é fácil, respondeu Pedro sorrindo. 

— Fácil! exclamou Lulu. 

E depois de alguns instantes de silêncio: 

Não era bem isso que eu desejava, continuou ela; mas alguma coisa análoga, algum sacrifício... tolice de moça... 

Lulu ergueu-se e foi à janela para disfarçar a comoção. Pedro deixou-se ficar na cadeira. Daí a pouco, ouviram-se os passos do padre Sá; o moço pegou num livro, abriu-o ao acaso e entrou a ler. A tristeza de Lulu foi observada pelo tio, que assentou de si para si convidar o sobrinho a uma conferência, resoluto a conhecer o estado das coisas. — Amam-se, não há dúvida, pensava o velho; mas há alguma coisa, decerto, que não posso descobrir. É necessário sabê-lo. 

Pedro demorou-se em casa do padre até depois de nove horas. A moça presidiu ao chá com a graça habitual, e um pouco mais livre das comoções daquela noite. Acabado o chá, Pedro despediu se do velho sacerdote e da sobrinha. A moça acompanhou-o até à porta do gabinete, enquanto o tio preparava o tabuleiro das damas para a partida de costume. — Boa noite, disse Lulu apertando a mão ao filho de D. Emiliana. 

— Boa noite, respondeu ele. 

E mais baixo: 

— Verá hoje mesmo que lhe satisfaço o capricho. 

Lulu ficou estupefata ao ouvir aquelas palavras; mas não pôde pedir maior explicação, não só porque o tio ficava a poucos passos, como porque o moço só lhe dera tempo de ouvi-lo; saíra imediatamente. 

(continua...)

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