Por Machado de Assis (1878)
— Sabes tu, meu rico Adriano, qual é a maior dor que eu levo para a sepultura? — Sepultura? interrompia Adriano. Falemos de coisas mais alegres — Sinto que morro. A dor maior que eu levo é que tu e Anacleto...
— Não se exalte, tio Bento; pode fazer-lhe mal.
Era inútil.
Três dias antes de morrer, Bento Fagundes, vendo-os juntos no quarto, chamou-os e pediu-lhes que fizessem as pazes. Recusaram ambos; a princípio desconversando; depois abertamente. O boticário insistiu; travou da mão de um e de outro e uniu-as. Foi um simulacro. As mãos dos dois tremiam, e ambos ficaram lívidos de cólera. Entre eles, era tal o receio que nenhum ousava comer em casa de Bento Fagundes por medo de que o cozinheiro, peitado, lhes propinasse uma dose de arsênico. Não se falavam, é claro; não se olhavam; tremiam quando se achavam a sós e fugiam para evitar o escândalo de uma nova luta, a dois passos do enfermo.
A moléstia era mortal. Bento Fagundes expirou entre os dois parentes. Estes o amortalharam silenciosamente, fizeram os convites, trataram do enterro, sem trocar a mínima palavra.
Se a sra. D. Leonarda fosse viva teria ocasião de ver que não se enganava quando atribuía algumas economias ao velho boticário. O testamento foi a confissão pública.
Bento Fagundes declarou possuir, no estabelecimento, escravos, prédios e não sei que títulos, uns trinta e oito contos. Seus herdeiros universais eram Anacleto e Adriano, últimos parentes.
Havia, entretanto, uma cláusula no testamento, redigido um mês antes de morrer, que deu alguma coisa que falar no bairro. Dizia Bento Fagundes:
Os ditos meus herdeiros universais, que por tais os declaro, serão obrigados a usufruir juntos os meus bens ou continuando o meu negócio da botica, ou estabelecendo qualquer outro, sem divisão da herança que passará dividida a seus filhos, se os houver, caso se recusem ao cumprimento desta minha última vontade.
A cláusula era singular; era-o, mas toda a gente compreendeu que era um derradeiro esforço do finado para reconciliar os sobrinhos.
— Trabalho perdido, dizia o barbeiro de Anacleto; eles estão como cão e gato. Esta opinião do barbeiro era a mais geral. Efetivamente, logo que ouviram ler semelhante cláusula, os dois herdeiros fizeram um gesto como protestando contra a idéia de uma reconciliação. Seus brios não consentiam nessa venalidade do mais nobre dos ódios. — Tinha que ver, dizia consigo Adriano, se eu consentia que um biltre... Ecoava Anacleto:
— Um biltre daquele jaez reconciliado comigo! Não faltava mais nada! Ainda que fique a pedir esmolas...
No segundo dia da leitura do testamento trataram ambos de pôr em ordem as coisas em casa de Bento Fagundes, cuja lembrança os enchia de exemplar piedade. A missa do sétimo dia foi concorrida. Ambos receberam os pêsames de todos, sem os darem um ao outro, sem trocarem uma palavra de saudade...
— Que corações de ferro! dizia uma senhora indignada.
Aconteceu, porém, que ao saírem da igreja, um tropeçasse no outro:. — Perdão! disse Adriano.
— Não foi nada! acudiu Anacleto.
No outro dia Anacleto escreveu ao primo: “
Respondeu Adriano: “. Os dois foram juntos à casa do marmorista; trataram com ele; discutiram o preço; assentaram na redação do epitáfio, que lembrava, não só o morto, mas sobretudo os dois vivos. Saíram juntos; toda a vida do finado foi rememorada entre eles, com a mais ardente piedade. Um e outro lembraram-se da estima que ele sempre lhes tivera. Nesse dia jantaram juntos; um jantar fúnebre mas cordial. Dois meses depois chegaram à fala sobre a necessidade de obedecer ao desejo do morto, que devia ser sagrado, dizia Anacleto. Sacratíssimo, emendava Adriano. Quando se completaram cinco meses depois da morte do boticário, Carlota e o marido entraram em uma loja de fazendas, a comprar não sei quantos côvados de chita de algodão. Não repararam na firma social pintada na porta, mas ainda reparando, podiam eles atinar quem seriam Fagundes & Monteiro? Fagundes e Monteiro, a firma toda, estavam na loja e voltaram-se para servir a freguesa. Carlota empalideceu, mas dominou se. Pediu o que queria com voz trêmula, e os dois apressaram-se a servi-la não sei se comovidos, mas em todo o caso corteses.
— A senhora não acha melhor fazenda do que esta.
— Pode ser... É muito cara?
— Baratíssima, disse Fagundes: dois mil-réis...
— É caro!
— Podemos deixá-la por mil e oitocentos, acudiu Monteiro.
— Mil e seiscentos, propôs o marido de Carlota.
Os dois fizeram a careta do estilo e simularam uma hesitação, que não foi longa. — Vá, disseram eles.
A fazenda foi medida e paga. Carlota, que não ousava encará-los, fez um leve gesto de cabeça e saiu com o marido.
Ficaram silenciosos os primos por alguns instantes. Um dobrava a fazenda, enquanto o outro fechava o dinheiro na caixa. Interiormente estavam radiantes: tinham ganho seiscentos réis em côvado!
ASSIS, Machado de. Dívida extinta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1878.