Por Machado de Assis (1878)
Carlota recebeu as cartas no mesmo dia, e não soube desde logo se devia crer ou não. Inclinou-se ao segundo alvitre, mas os dois rivais não ganharam com esta disposição da moça, porque, recusando dar crédito aos filhos de um e ao vinho do outro, acreditou somente que ambos tinham sentimentos morais singularmente rasteiros. — Creio que são dois peraltas, disse ela com seus colchetes.
Esta foi a oração fúnebre dos dois namorados.
Posto que ambos os primos calcassem o pó da Praia da Gamboa para ver a moça e disputá-la, perdiam o tempo, porque Carlota teimava em não aparecer. O caso irritou-os ainda mais um contra o outro, e por pouco não vieram de novo às mãos. Nisto interveio um terceiro namorado, que em poucos dias deu conta da mão, casando com a bela Carlota. Ocorreu o fato três semanas depois do duelo manual dos dois parentes. A notícia foi um pouco mais de combustível lançado na fogueira de ódios acesos entre eles; nenhum dos dois acusou Carlota ou o destino, mas o adversário. A morte da sra. D. Leonarda trouxe um intervalo às dissensões domésticas da casa de Bento Fagundes, cujos últimos dias eram assim bastante amargurados; mas foram apenas tréguas.
O desgosto profundo, de mãos dadas com uma víscera inflamada, puseram o pobre boticário na cama um mês depois do casamento de Carlota e na sepultura cinqüenta dias mais tarde. A doença de Bento Fagundes foram novas tréguas e desta vez mais sinceras, porque a coisa era mais importante.
Prostrado na cama, o boticário via os dois sobrinhos servirem-no com muita docilidade e brandura, mas via também que um abismo os separava eternamente. Esta dor era a que mais o pungia naquela ocasião. Quisera reconciliá-los, mas não tinha esperança de o conseguir.
— Vou morrer, dizia ele a Anacleto Monteiro, e levo a maior mágoa... — Tio Bento, deixe-se de idéias negras.
— Negras são, é verdade; bem negras, e assim...
— Qual morrer! Há de ir comigo passar uns dias na Tijuca...
— Contigo e o Adriano, dizia Bento Fagundes, cravando no sobrinho uns olhos perscrutadores.
Aqui fechava-se o rosto de Anacleto, onde o ódio, só o ódio, transluzia com um reflexo infernal.
Bento Fagundes suspirava.
A Adriano dizia ele:
— Sabes tu, meu rico Adriano, qual é a maior dor que eu levo para a sepultura? — Sepultura? interrompia Adriano. Falemos de coisas mais alegres — Sinto que morro. A dor maior que eu levo é que tu e Anacleto...
— Não se exalte, tio Bento; pode fazer-lhe mal.
Era inútil.
Três dias antes de morrer, Bento Fagundes, vendo-os juntos no quarto, chamou-os e pediu-lhes que fizessem as pazes. Recusaram ambos; a princípio desconversando; depois abertamente. O boticário insistiu; travou da mão de um e de outro e uniu-as. Foi um simulacro. As mãos dos dois tremiam, e ambos ficaram lívidos de cólera. Entre eles, era tal o receio que nenhum ousava comer em casa de Bento Fagundes por medo de que o cozinheiro, peitado, lhes propinasse uma dose de arsênico. Não se falavam, é claro; não se olhavam; tremiam quando se achavam a sós e fugiam para evitar o escândalo de uma nova luta, a dois passos do enfermo.
A moléstia era mortal. Bento Fagundes expirou entre os dois parentes. Estes o amortalharam silenciosamente, fizeram os convites, trataram do enterro, sem trocar a mínima palavra.
Se a sra. D. Leonarda fosse viva teria ocasião de ver que não se enganava quando atribuía algumas economias ao velho boticário. O testamento foi a confissão pública.
Bento Fagundes declarou possuir, no estabelecimento, escravos, prédios e não sei que títulos, uns trinta e oito contos. Seus herdeiros universais eram Anacleto e Adriano, últimos parentes.
Havia, entretanto, uma cláusula no testamento, redigido um mês antes de morrer, que deu alguma coisa que falar no bairro. Dizia Bento Fagundes:
Os ditos meus herdeiros universais, que por tais os declaro, serão obrigados a usufruir juntos os meus bens ou continuando o meu negócio da botica, ou estabelecendo qualquer outro, sem divisão da herança que passará dividida a seus filhos, se os houver, caso se recusem ao cumprimento desta minha última vontade.
A cláusula era singular; era-o, mas toda a gente compreendeu que era um derradeiro esforço do finado para reconciliar os sobrinhos.
— Trabalho perdido, dizia o barbeiro de Anacleto; eles estão como cão e gato. Esta opinião do barbeiro era a mais geral. Efetivamente, logo que ouviram ler semelhante cláusula, os dois herdeiros fizeram um gesto como protestando contra a idéia de uma reconciliação. Seus brios não consentiam nessa venalidade do mais nobre dos ódios. — Tinha que ver, dizia consigo Adriano, se eu consentia que um biltre... Ecoava Anacleto:
— Um biltre daquele jaez reconciliado comigo! Não faltava mais nada! Ainda que fique a pedir esmolas...
(continua...)
ASSIS, Machado de. Dívida extinta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1878.