Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Dramas#Literatura Brasileira

Desencantos

Por Machado de Assis (1861)

Pode averbar-me de suspeita, está no seu direito. Nós outras as mulheres, somos as filhas da fantasia; é preciso levar em conta que eu falo em defesa da mãe comum.

LUÍS

Está-me fazendo crer em milagres?

CLARA

Onde vê o milagre?

LUÍS

Na conversão de V. Exa.

CLARA

Não crê que eu esteja falando a verdade?

LUÍS

Creio que é tão verdadeira hoje, como foi há cinco anos, e é nisso que está o milagre da conversão.

CLARA

Pois será conversão. Não tem mais que bater palmas pela ovelha rebelde que volta ao aprisco. Os homens tomaram tudo e mal deixaram às mulheres as regiões do ideal. As mulheres ganharam. Para a maior parte o ideal da felicidade é a vida plácida, no meio das flores, ao pé de um coração que palpita. Elas sonham com o perfume das flores, com as escumas do mar, com os raios da lua e todo o material da poesia moderna. São almas delicadas, mal compreendidas e muito caluniadas.

LUÍS

Não defenda com tanto ardor o seu sexo, minha senhora. É de uma alma generosa, mas não de um gênio observador.

CLARA

Anda assim mal com ele?

LUÍS

Mal por quê?

CLARA

Eu sei!

LUÍS

Aprendi a respeitá-lo, e quando assim não fosse, sei perdoar.

CLARA

Perdoar, como os reis, as ofensas por outrem recebidas.

LUÍS

Não, perdoar as próprias.

CLARA

Ah! foi vítima! Tinha vontade de conhecer o seu algoz. Como se chama?

LUÍS

Não costumo a conservar tais nomes.

CLARA

Reparo uma coisa.

LUÍS

O que é?

CLARA

É que em vez de voltar mouro, voltou profundamente cristão.

LUÍS

Voltei como fui: fui homem e voltei homem.

CLARA

Chama ser homem o ser cruel?

LUÍS

Cruel em quê?

CLARA

Cruel, cruel como todos são! A generosidade humana não pára no perdão das culpas, vai até o conforto do culpado. Nesta parte não vejo os homens de acordo com o evangelho.

LUÍS

É que os homens que inventaram a expiação legal, consagram também uma expiação moral. Quando esta não se dá, o perdão não é um dever, porém uma esmola que se faz à consciência culpada, e tanto basta para desempenho da caridade cristã.

CLARA

O que é essa expiação moral?



LUÍS

É o remorso.

CLARA

Conhece tabeliães que passam certificados de remorso? É uma expiação que pode não ser acreditada e existir entretanto.

LUÍS

É verdade. Mas para os casos morais há provas morais.

CLARA

Adquiriu essa rigidez no trato com os árabes?

LUÍS

Valia a pena ir tão longe para adquiri-la, não acha?

CLARA

Valia.

LUÍS

Posso elevar-me assim até ser um espírito sólido.

CLARA

Espírito sólido? Não há dessa gente por onde andou?

LUÍS

No Oriente tudo é poeta, e os poetas dispensam bem a glória de espíritos sólidos.

CLARA

Predomina lá a imaginação, não é?

LUÍS

Com toda a força do verbo.

CLARA

Faz-me crer que encontrou a suspirada exceção que... lembra-se?

LUÍS

Encontrei, mas deixei-a passar.

CLARA

Oh!

LUÍS

Escrúpulo religioso, orgulho nacional, que sei eu?

CLARA

Cinco anos perdidos!

LUÍS

Cinco anos ganhos. Gastei-os a passear, enquanto a minha violeta se educava cá num jardim.

CLARA

Ah!... viva então o nosso clima!

LUÍS

Depois de longos dias de solidão, há necessidade de quem nos venha fazer companhia, compartir as nossas alegrias e mágoas, e arrancar o primeiro cabelo que nos alvejar.

CLARA

Há.

LUÍS

Não acha?

CLARA

Mas quando pensando encontrar a companhia desejada, encontra-se o aborrecimento e a insipidez encarnadas no objeto da nossa escolha?

LUÍS

Nem sempre é assim.

CLARA

As mais das vezes é. Tenha cuidado!

LUÍS

Oh! por esse lado estou livre de errar.

CLARA

Mas onde está essa flor?

LUÍS

Quer saber?

CLARA

Quero, e também o seu nome.

LUÍS

O seu nome é lindíssimo. Chama-se Clara.

CLARA

Obrigada! E eu conheço-a?

LUÍS

Tanto como a si própria.

CLARA

Sou sua amiga?

LUÍS

Tanto como o é de si.

CLARA

Não sei quem seja.

LUÍS

Deixemos o terreno das alusões vagas; é melhor falar francamente. Venho pedir-lhe a mão de sua filha.

CLARA

De Clara!

LUÍS

Sim, minha senhora. Vi-a há dois dias; está bela como a adolescência em que entrou. Revela uma expressão de candura tão angélica que não pode deixar de agradar a um homem de imaginação, como eu. Tem além disso uma vantagem: não entrou ainda no mundo, está pura de todo contato social; para ela os homens estão na mesma plana e o seu espírito ainda não pode fazer distinção entre o espírito sólido e o homem do ideal. É lhe fácil aceitar um ou outro.

CLARA

Com efeito, é uma surpresa com que eu menos contava.

LUÍS

Posso considerar-me feliz?

CLARA

Eu sei! Por mim decido, mas eu não sou a cabeça do casal.

LUÍS

Pedro Alves já me deu seu consentimento.

CLARA

Ah!

LUÍS

Versou sobre isso a nossa conversa.

CLARA

Nunca pensei que chegássemos a esta situação.

LUÍS

Falo como um parente. Se V. Exa. não teve bastante espírito para ser minha esposa, deve tê-lo pelo menos, para ser minha sogra.

CLARA

Ah!

LUÍS

Que quer? Todos temos um dia de desencantos. O meu foi há cinco anos, hoje o desencantado não sou eu.



Cena VIII

LUÍS, PEDRO ALVES, CLARA



PEDRO ALVES

Não houve sessão: a minoria fez gazeta. (a Luís) Então?

LUÍS

Tenho o consentimento de ambos.

PEDRO ALVES

Clara não podia deixar de atender ao seu pedido.

CLARA

Peço-lhe que faça a felicidade dela.

LUÍS

Consagrarei nisso minha vida.

PEDRO ALVES

Por mim, hei de sempre ver se posso resolvê-lo a aceitar um distrito nas próximas eleições.

LUÍS

Não será melhor ver primeiro se o distrito me aceitará?


123456789
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →