Por Machado de Assis (1876)
Seria ilusão ou realidade? D. Mônica pareceu-lhe nessa ocasião menos velha do que antes a achava. Ou fosse da toilette, ou de seus olhos, a verdade é que Gaspar viu-se obrigado a reformar um pouco o juízo anterior. Não a achou moça; mas a velhice pareceu-lhe mais fresca, a conversa mais agradável, o sorriso mais meigo e o olhar menos apagado.
Estas boas impressões foram bom tempero ao jantar, que aliás era excelente. D. Mônica mostrava-se, como sempre, carinhosa e boa; Gaspar demorou-se ali até perto das dez horas da noite.
Voltando à casa, refletiu que, se porventura pudesse casar com outra pessoa que não fosse Lucinda, casaria com D. Mônica, sem nenhum pesar nem arrependimento. — Não é moça, pensou ele, mas é boa e são trezentos contos.
Trezentos contos! Este algarismo perturbou o sono do rapaz. Primeiramente custou-lhe a dormir; ele via trezentos contos em cima do travesseiro, no teto, nos portais; via-os transformados em lençóis, em cortinados, em cachimbo turco. Quando conseguiu dormir, não conseguiu livrar-se dos trezentos contos. Sonhou com eles a noite inteira; sonhou que os comia, que os cavalgava, que os dançava, que os aspirava, que os gozava, em suma, por todos os modos possíveis e impossíveis.
Acordou e reconheceu que tudo fora sonho.
Suspirou.
— E tudo isto sacrifico eu por causa dela! exclamou ele. Merece-lo-á? Merecerá que eu padeça tantas privações, que abra mão de um bom casamento para ser desprezado deste modo?
Não lhe respondendo ninguém a esta pergunta, fê-lo ele próprio, e a resposta foi que a moça não merecia tamanho sacrifício.
— Contudo, sacrificar-me-ei! concluiu ele.
Neste ponto das reflexões recebeu uma carta da tia:
Gaspar.
Creio que arranjo empenho para que se te dê algum lugar muito breve, em outra secretaria.
Gaspar estremeceu de prazer.
— Boa tia! disse ele. Ah! como lhe tenho pago com ingratidões!
A necessidade de agradecer e a conveniência de não aumentar a conta no hotel foram as duas razões que levaram o ex-empregado a ir almoçar com a tia. D. Mônica recebeu-o com o carinho do costume, disse-lhe o que pretendia fazer para empregá-lo de novo e deixou-o nadando em reconhecimento.
— Ah! minha tia! Quanto lhe devo!
— Nada me deves, respondeu D. Mônica, só me deves amizade.
— Oh! a maior! a mais profunda! a mais santa!
D. Mônica louvou os sentimentos do sobrinho e prometeu fazer por ele tudo o que fosse possível fazer por... por um neto, é o que ela devia dizer: mas ficou na vaga expressão — por uma pessoa cara.
A situação entrou a parecer melhor ao herdeiro do capitão. Não só via possibilidade de um novo emprego, mas até seria este logo depois da demissão, o que de algum modo lhe reparava o mal feito aos seus créditos de funcionário laborioso e pontual. Além disso D. Mônica fê-lo prometer que não iria comer a outra parte.
— Terás sempre um talher à minha mesa, disse ela.
Gaspar escreveu ainda duas cartas a Lucinda; mas ou elas lhe não chegaram às mãos, ou a moça definitivamente não queria responder. O namorado aceitou a princípio a primeira hipótese; Veloso fê-lo acreditar na segunda.
— Tens razão, talvez...
— Sem dúvida.
— Mas custa-me a crer...
— Oh! é a coisa mais natural do mundo!
A idéia de que Lucinda o tivesse esquecido, desde que lhe faltara o emprego era difícil de que a admitisse; mas afinal enraizou-se-lhe a suspeita.
— Se tais fossem os sentimentos dela! exclamava ele consigo.
A presença da tia fê-lo esquecer tão tristes idéias; eram horas de jantar. Gaspar sentou se à mesa desembaraçado das preocupações amorosas. Preocupações de melhor catadura vieram sentar-se-lhe no espírito: os eternos trezentos contos recomeçaram a sua odisséia na imaginação dele. Gaspar construiu ali mesmo uma casa elegante, mobiliou-a com luxo, comprou um carro, dois carros, contratou um feitor para lhe cuidar da chácara, deu dois bailes, foi à Europa. Chegaram estes sonhos até a sobremesa. Acabado o jantar, viu ele que tinha apenas a demissão e uma promessa. — Na verdade, sou um pedaço de asno! exclamou ele. Pois tenho a fortuna nas mãos e hesito?
D. Mônica levantara-se da mesa; Gaspar foi ter com ela.
— Sabe de uma coisa em que estou pensando? perguntou.
— Em matares-te.
— Em viver.
— Pois vive.
— Mas viver feliz.
— Já sei como.
— Talvez não saiba dos meus desejos. Eu, titia...
Ia ser mais franco. Mas depois de encarar o abismo, quase a cair nele, recuou. Era mais difícil do que lhe parecia, aquilo de receber trezentos contos. A tia, porém, compreendeu que o sobrinho voltava a adorar o que havia queimado. Não tinham outro fim todos os seus desvelos.
(continua...)
ASSIS, Machado de. D. Mônica. Jornal das Famílias, 1876.