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#Contos#Literatura Brasileira

D. Mônica

Por Machado de Assis (1876)

A situação entrou a parecer melhor ao herdeiro do capitão. Não só via possibilidade de um novo emprego, mas até seria este logo depois da demissão, o que de algum modo lhe reparava o mal feito aos seus créditos de funcionário laborioso e pontual. Além disso D. Mônica fê-lo prometer que não iria comer a outra parte. 

— Terás sempre um talher à minha mesa, disse ela. 

Gaspar escreveu ainda duas cartas a Lucinda; mas ou elas lhe não chegaram às mãos, ou a moça definitivamente não queria responder. O namorado aceitou a princípio a primeira hipótese; Veloso fê-lo acreditar na segunda. 

— Tens razão, talvez... 

— Sem dúvida. 

— Mas custa-me a crer... 

— Oh! é a coisa mais natural do mundo! 

A idéia de que Lucinda o tivesse esquecido, desde que lhe faltara o emprego era difícil de que a admitisse; mas afinal enraizou-se-lhe a suspeita. 

— Se tais fossem os sentimentos dela! exclamava ele consigo. 

A presença da tia fê-lo esquecer tão tristes idéias; eram horas de jantar. Gaspar sentou se à mesa desembaraçado das preocupações amorosas. Preocupações de melhor catadura vieram sentar-se-lhe no espírito: os eternos trezentos contos recomeçaram a sua odisséia na imaginação dele. Gaspar construiu ali mesmo uma casa elegante, mobiliou-a com luxo, comprou um carro, dois carros, contratou um feitor para lhe cuidar da chácara, deu dois bailes, foi à Europa. Chegaram estes sonhos até a sobremesa. Acabado o jantar, viu ele que tinha apenas a demissão e uma promessa. — Na verdade, sou um pedaço de asno! exclamou ele. Pois tenho a fortuna nas mãos e hesito? 

D. Mônica levantara-se da mesa; Gaspar foi ter com ela. 

— Sabe de uma coisa em que estou pensando? perguntou. 

— Em matares-te. 

— Em viver. 

— Pois vive. 

— Mas viver feliz. 

— Já sei como. 

— Talvez não saiba dos meus desejos. Eu, titia...

Ia ser mais franco. Mas depois de encarar o abismo, quase a cair nele, recuou. Era mais difícil do que lhe parecia, aquilo de receber trezentos contos. A tia, porém, compreendeu que o sobrinho voltava a adorar o que havia queimado. Não tinham outro fim todos os seus desvelos. 

Gaspar adiou a declaração mais explícita e sem que com isto perdesse a tia, porque os vínculos se foram apertando a mais e mais, e os trezentos contos de todo se sentaram na alma do moço. Estes aliados de D. Mônica derrotaram completamente o adversário. Nem tardou que ele comunicasse a idéia a Veloso. 

— Tinhas razão, disse ele; devo casar com minha tia e estou disposto a fazê-lo. — Ainda bem! 

— Devo satisfazer o desejo de um morto, sempre respeitável e enfim corresponder aos desvelos com que ela me trata. 

— Perfeitamente. Já lhe falaste? 

— Não; falarei amanhã. 

— Ânimo. 

Na noite desse dia recebeu Gaspar uma carta de Lucinda, em que ela lhe dizia que o pai, vendo-a triste e abatida, e sabendo que era por amor dele, cedera da sua oposição e consentia em que eles fossem unidos. 

— Que cara é essa tão espantada? perguntou Veloso, que estava presente. — A coisa é para espantar. O comendador cedeu... 

— O pai de Lucinda? 

— É verdade! 

— Essa agora! 

— Lê. 

Veloso leu a carta de Lucinda. 

— Na verdade, o lance era inesperado. Pobre moça! Vê-se que escreve com a alma banhada em alegria! 

— Parece que sim. Que devo fazer? 

— Oh! neste caso, a situação é diferente do que era há pouco; os obstáculos da parte oposta caíram por si mesmos. 

— Mas será de boa vontade que o comendador cede? 

— Isso importa pouco. 

— Receio que seja um laço. 

— Laço? Ora essa! exclamou Veloso sorrindo. O mais que podia ser era negar o dote à filha. Mas sempre tens esperança da parte que lhe tocar por morte do pai. Quantos filhos tem ele? 

— Cinco. 

— Uns cinqüenta contos a cada um. 

— Então, parece-te que devo... 

— Sem dúvida. 

Veloso saiu; Gaspar ficou meditando na situação. Poupo à leitora a exposição das longas e complicadas reflexões que ele fez, bastando dizer que no dia seguinte ainda a questão estava neste pé: 

— Devo eu desobedecer a voz de um morto? Trair a esperança de uma senhora que me estima, que me estremece? 

Vinte e quatro horas depois estava enfim resolvida a questão. Gaspar declarou a D. Mônica que estava disposto a casar com ela, se consentisse em dar-lhe esse prazer. A boa senhora não tinha outro desejo; contudo, foi fiel à máxima do sexo; fez-se um tanto rogada. 

— Resolvi! disse Gaspar a Veloso logo que o encontrou depois disso. — Ah! 

— Caso-me. 

— Com a Lucinda? 

— Com minha tia.

Veloso recuou dois passos e esteve calado alguns instantes. 

— Admiras-te? 

— Admiro-te. Afinal os trezentos contos... 

— Ah! não! Obedeço à vontade de meu tio, e não posso corresponder com ingratidão aos desvelos de uma senhora que me estima. Será isto poesia, talvez; talvez me acusarás de romanesco; mas eu penso que sou simplesmente honrado e leal. 

Veloso foi convidado para servir de padrinho do casamento. Aceitou o encargo; é amigo da família; e consta que deve a Gaspar uns três ou quatro contos de empréstimo. Lucinda chorou durante dois dias, ficou raivosa outros dois; no quinto encetou um namoro, que acabou pelo casamento daí a quatro meses. Não era melhor que todos eles começassem por aí? Poupavam a si próprios alguns desgostos, e a mim o trabalho de lhes contar o caso. 


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