Por Machado de Assis (1872)
Vão rareando os lugares em que de todo se não apagou o gosto dessas festas clássicas, resto de outras eras, que os escritores do século futuro hão de estudar com curiosidade, para pintar aos seus conterrâneos um Brasil que eles já não hão de conhecer. No tempo em que esta história se passa uma das mais genuínas festas do espírito Santo era a da cidade de Santa Luzia.
O tenente-coronel Veiga, que era então o imperador do divino, estava em uma casa que possuía na cidade. Na noite de sábado foi ali ter o bando dos pastores, composto de homens e mulheres com o seu pitoresco vestuário, e acompanhado pelo clássico velho, que era um sujeito de calção e meia, sapato raso, casaca esguia, colete comprido e grande bengala na mão.
Camilo estava em casa do coronel, quando ali apareceu o bando dos pastores, com alguns músicos à frente, e muita gente atrás. Formaram logo, ali mesmo na rua, um círculo; um pastor e uma pastora iniciaram a dança clássica. Dançaram, cantaram e tocaram todos, à porta e na sala do coronel que estava literalmente a lamber-se de gosto. É ponto duvidoso, e provavelmente nunca será liquidado, se o tenente-coronel Veiga preferia naquela ocasião ser ministro de Estado a ser imperador do Espírito Santo.
E todavia aquilo era apenas uma mostra da grandeza do tenente-coronel. O sol de domingo devia alumiar maiores coisas. Parece que esta razão determinou o rei da luz a trazer nesse dia os seus melhores raios. O céu nunca se mostrara mais limpidamente azul.
Algumas nuvens grossas, durante a noite, chegaram a emurchecer as esperanças dos festeiros; felizmente sobre a madrugada soprara um vento rijo que varreu o céu e purificou a atmosfera. A população correspondeu à solicitude da natureza. Logo cedo apareceu ela com os seus vestidos domingueiros, - jovial, risonha, palreira, - nada menos que feliz.
O ar atroava com foguetes; os sinos convidavam alegremente o povo à cerimônia religiosa. Camilo passara a noite na cidade em casa do padre Maciel, e foi acordado, mais cedo do que supusera, com os repiques e foguetada e mais demonstrações da cidade alegre. Em casa do pai continuara o moço seus hábitos de Paris, em que o comendador julgou não dever perturbá-lo. Acordava, portanto às 11 horas da manhã, exceto aos domingos, em que ia à missa, para de todo em todo não ofender os hábitos da terra.
– Que diabo é isto padre? gritou Camilo do quarto onde estava e no momento em que uma girândola lhe abria definitivamente os olhos.
– Que há de ser? respondeu o padre Maciel, metendo a cabeça pela porta: é a festa. Camilo não pode conciliar o sono, e viu-se obrigado a levantar-se. Almoçou com o padre, contou duas anedotas, confessou ao hóspede que Paris era o ideal das cidades, e saiu para ir ter à casa do imperador do divino. O padre saiu com ele. Em caminho viram de longe Leandro Soares. – Não me dirá, padre, perguntou Camilo, por que razão a filha do Dr. Matos não atende àquele pobre rapaz que gosta tanto dela?
Maciel concertou os óculos e expôs a seguinte reflexão:
– Você parece tolo.
– Não tanto, como lhe pareço, replicou o filho do comendador, porque mais de uma pessoa tem feito a mesma pergunta.
– Assim é, na verdade, disse o padre; mas há coisas que outros dizem e a gente não repete. A Isabelinha não gosta do Soares simplesmente porque não gosta.
– Não lhe parece que essa moça é um tanto esquisita?
– Não, disse o padre, parece-me uma grande finória.
– Ah! por quê?
– Suspeito que tem muita ambição; não aceita o amor de Soares, a ver se pilha algum casamento que lhe abra a porta das grandezas políticas.
– Ora, disse Camilo, levantando os ombros.
– Não acredita?
– Não.
– Pode ser que me engane; mas creio que é isto mesmo. Aqui cada qual dá uma explicação à isenção de Isabel; todas as explicações me parecem absurdas; a minha é a melhor. Camilo fez algumas objeções à explicação do padre, e despediu-se dele para ir a casa do tenente-coronel.
O festivo imperador estava literalmente fora de si. Era a primeira vez que exercia cargo honorífico e timbrava em fazê-lo brilhantemente, e até melhor que os seus predecessores. Ao natural desejo de ficar por baixo, acrescia o elemento da inveja política. Alguns adversários seus diziam pela boca pequena que o brioso coronel não era capaz de dar conta da mão.
– Pois verão se sou capaz, foi o que ele disse ao ouvir de alguns amigos a malícia dos adversários.
Quando Camilo entrou na sala, acabava o tenente-coronel de explicar umas ordens relativas ao jantar que se devia seguir à festa, e ouvia algumas informações que lhe dava um irmão definidor acerca de uma cerimônia da sacristia.
– Não ouso falar-lhe, coronel, disse o filho do comendador, quando o Veiga ficou só com ele; não ouso interrompê-lo.
– Não interrompe, acudiu o imperador do divino; agora deve tudo ser acabado. O comendador vem?
(continua...)
ASSIS, Machado de. A parasita azul. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, ano 12, n. 6-9, jun.-set. 1872. (Publicado em folhetins).