Por Machado de Assis (1875)
As vezes estava o mísero em casa, descansando e alegremente conversando com ela, abrindo todo o pano à imaginação. Ângela, ou por aborrecimento, ou por desejo invencível de passear, ia vestir-se e convidava o marido a sair. O marido já não recalcitrava; suspirava e vestia-se. Do passeio voltava ele aborrecido, e ela alegre, além do mais porque não deixava de comprar um vestido novo e caro, uma jóia, um enfeite qualquer.
Alfredo não tinha forças para reagir.
O menor desejo de Ângela era para ele uma lei de ferro; cumpria-a por gosto e por fraqueza.
Nesta situação, Alfredo sentiu necessidade de desabafar com alguém. Mas esse alguém não aparecia. Não lhe convinha falar ao Tibúrcio, por não querer confiar a um estranho, embora amigo, as suas zangas conjugais. A tia de Ângela parecia apoiar a sobrinha em tudo. Alfredo lembrou-se de pedir conselho a Epaminondas.
VIII
Epaminondas ouviu atentamente as queixas do primo. Achou-as exageradas, e foi o menos que lhe podia dizer, porque no seu entender eram verdadeiros despropósitos. — O que você quer é realmente impossível.
— Impossível?
— Decerto. A prima está moça, quer naturalmente divertir-se. Por que razão há de viver como freira?
— Mas eu não peço que viva como freira. Quisera vê-la mais em casa, menos aborrecida quando está só comigo. Lembra-se da nossa briga do domingo?
— Lembro-me. Você queria ler-lhe uns versos e ela respondeu que não a aborrecesse. — Que tal?...
Epaminondas recolheu-se a um eloqüente silêncio.
Alfredo esteve também algum tempo calado. Enfim:
— Estou resolvido a usar da minha autoridade de marido.
— Não caia nessa.
— Mas então devo viver eternamente nisto?
— Eternamente já vê que é impossível, disse Epaminondas sorrindo. Mas veja bem o risco que corre. Eu tive uma prima que se vingou do marido por uma dessas. Parece incrível! Cortou a si mesma o dedo mínimo do pé esquerdo e deu-lhe a comer com batatas.
— Está brincando...
— Estou falando sério. Chamava-se Lúcia. Quando ele reconheceu que efetivamente tinha devorado a carne da sua carne, teve um ataque.
— Imagino.
— Dois dias depois expirou de remorsos. Não faça tal; não irrite uma mulher. Dê tempo ao tempo. A velhice há de curá-la e trazê-la a costumes pacíficos.
Alfredo fez um gesto de desespero.
— Sossegue. Também eu fui assim. Minha finada mulher...
— Era do mesmo gosto?
— Do mesmíssimo. Quis contrariá-la. Ia-me custando a vida.
— Sim?
— Tenho aqui entre duas costelas uma cicatriz larga; foi uma canivetada que Margarida me deu estando eu a dormir muito tranqüilamente.
— Que me diz?
— A verdade. Mal tive tempo de lhe segurar no pulso e arrojá-la para longe de mim. A porta do quarto estava fechada com o trinco mas foi tal a força com que a empurrei que a porta se abriu e ela foi parar ao fim da sala.
— Ah!
Alfredo lembrou-se a tempo do sestro do primo e deixou-o falar a gosto. Epaminondas engendrou logo ali um ou dois capítulos de romance sombrio e ensangüentado. Alfredo, aborrecido, deixou-o só.
Tibúrcio encontrou-o algumas vezes cabisbaixo e melancólico. Quis saber da causa, mas
Alfredo conservou prudente reserva.
A esposa deu ampla liberdade aos seus caprichos. Fazia recepções todas as semanas, apesar dos protestos do marido que, no meio da sua mágoa, exclamava: — Mas então eu não tenho mulher! tenho uma locomotiva!
Exclamação que Ângela ouvia sorrindo sem lhe dar a mínima resposta. Os cabedais da moça eram poucos; as despesas muitas. Com as mil coisas em que se gastava o dinheiro não era possível que ele durasse toda a vida. Ao cabo de cinco anos, Alfredo reconheceu que tudo estava perdido.
A mulher sentiu dolorosamente o que ele lhe contou.
— Sinto isto deveras, acrescentou Alfredo; mas a minha consciência está tranqüila. Sempre me opus a despesas loucas...
— Sempre?
— Nem sempre, porque te amava e amo, e doía-me ver que ficavas triste; mas a maior parte delas opus-me com todas as forças.
— E agora?
— Agora precisamos ser econômicos; viver como pobres.
Ângela curvou a cabeça.
Seguiu-se um grande silêncio.
O primeiro que o rompeu foi ela.
— É impossível!
— Impossível o quê?
— A pobreza.
— Impossível, mas necessária, disse Alfredo com filosófica tristeza. — Não é necessária; eu hei de fazer alguma coisa; tenho pessoas de amizade. — Ou um Potosí...
Ângela não se explicou mais; Alfredo foi para a casa de negócio que estabelecera, não descontente com a situação.
— Não estou bem, pensava ele; mas ao menos terei mudado a minha situação conjugal. Os quatro dias seguintes passaram sem novidade.
Houve sempre uma novidade.
(continua...)
Caroline Alves em 16/10/2025