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#Romances#Literatura Brasileira

Esaú e Jacó

Por Machado de Assis (1904)

—Não é gracejo, baronesa. A senhora cuida que a política os desune; francamente, não. A política e um incidente, como a moça Flora foi outro...

—Ainda se lembram dela.

—Ainda?

—Foram à missa aniversária, e desconfio que foram também ao cemitério, não juntos, nem à mesma hora. Se foram, é que verdadeiramente gostavam dela; logo, não foi um incidente.

Sem embargo do que Natividade lhe merecia, Aires não insistiu na opinião, antes deu mais relevo à dela, com o próprio fato da visita ao cemitério.

—Não sei se foram, emendou Natividade; desconfio.

—Devem ter ido; eles gostavam realmente da pequena. Também ela gostava deles; a diferença é que, não alcançando unificá-los, como os via em si, preferiu fechar os olhos. Não lhe importe o mistério. Há outros mais escuros.

—Parece que vai entrar a cerimônia, disse Perpétua que olhava para o recinto.

—Chegue-se para a frente, conselheiro.

A cerimônia era a do costume. Natividade cuidou que ia vê-los entrar juntos e afirmarem juntos o compromisso regimental. Viriam assim como os trouxera no ventre e na vida. Contentou-se de os admirar separadamente. Paulo primeiro, Pedro depois, ambos graves, e ouviu-lhes cá de cima repetir a fórmula com voz clara e segura. A cerimônia foi curiosa para as galerias, graças à semelhança dos dous; para a mãe foi comovedora.

—Estão legisladores, disse Aires no fim.

Natividade tinha os olhos gloriosos. Ergueu-se e pediu ao velho amigo que as acompanhasse à carruagem. No corredor acharam os dous recentes deputados, que vinham ter com a mãe. Não consta qual deles a beijou primeiro: não havendo regimento interno nesta outra câmara, pode ser que fossem ambos a um tempo, metendo-lhes ela a cara entre as bocas, uma face para cada um. A verdade é que o fizeram com igual ternura. Depois voltaram ao recinto.



CAPÍTULO CXVIII

COUSAS PASSADAS, COUSAS FUTURAS

Indo a entrar na carruagem, Natividade deu com a igreja de S. José, ao lado, e um pedaço do morro do Castelo, a distancia. Estacou.

—Que é? perguntou Aires.

—Nada, respondeu ela entrando e estendendo-lhe a mão. Até logo?

—Até logo.

A vista da igreja e do morro despertou nela todas as cenas e palavras que lá ficaram transcritas nos dous ou três primeiros capítulos. Não esqueceste que foi ao pé da igreja, entre esta e a Câmara, que o coupé esperou então por ela e pela irmã.

—Você lembra-se, Perpétua? disse Natividade, quando o carro começou a

—De quê?

—Não se lembra que foi ali que ficou o carro, quando fomos à cabocla do Castelo?

Perpétua lembrava-se. Natividade advertiu que devia ser ali perto a ladeira por onde subiram com dificuldade e curiosidade, até à casa da cabocla, no meio da outra gente, que descia ou subia também. A casa era à direita, tinha a escada de pedra... Descansa, amigo, não repito as páginas. Ela é que não podia deixar de as evocar, nem impedir que viessem de si mesmas. Tudo reaparecia com a frescura antiga. Não esquecera a figurinha da cabocla, quando o pai a fez entrar na sala: Entra, Bárbara. A idéia de estar agora madura e longe, restituída ao Estado, que deixou Província, rica onde nasceu pobre, não acudiu à nossa amiga. Não, toda ela voltou àquela manhã de 1871. A caboclinha era esta mesma criatura leve e breve, com os cabelos atados no alto da cabeça, olhando, falando, dançando... Cousas passadas.

Quando a carruagem ia a dobrar a Praia de Santa Luzia, ladeando a Santa Casa, Natividade teve idéia, mas só idéia, de voltar e ir ter à ladeira do Castelo, subir por ela, a ver se achava a adivinha no mesmo lugar. Contar-lhe-ia que os dous meninos de mama, que ela predisse seriam grandes, eram já deputados e acabavam de tomar assento na Câmara. Quando cumpririam eles o seu destino? Viveria o tempo de os ver grandes homens, ainda que muito velha?

A presidência da República não podia ser para dous, mas um teria a vice- presidência, e se este a achasse pouco, trocariam mais tarde os cargos. Nem faltavam grandezas. Ainda se lembrava das palavras que ouviu à cabocla, quando lhe perguntou pela espécie de grandeza que caberia aos filhos. Cousas futuras! respondeu a Pítia do Norte, com tal voz que nunca lhe esqueceu. Agora mesmo parece-lhe que a ouve, mas é ilusão. Quando muito, são as rodas do carro que vão rolando e as patas dos cavalos que batem. Cousas futuras! cousas futuras!



CAPÍTULO CXIX

QUE ANUNCIA OS SEGUINTES

Todas as histórias, se as cortam em fatias, acabam com um capítulo último e outro penúltimo, mas nenhum autor os confessa tais; todos preferem dar-lhes um título próprio. Eu adoto o método oposto; escrevo no alto de cada um dos capítulos seguintes os seus nomes de remate, e, sem dizer a matéria particular de nenhum, indico o quilômetro em que estamos da linha. Isto supondo que a história seja um trem de ferro. A minha não é propriamente isso. Poderia ser uma canoa, se lhe tivesse posto águas e ventos, mas tu viste que só andamos por terra, a pé ou de carro, e mais cuidadosos da gente que do chão. Não é trem nem barco; é uma história simples, acontecida e por acontecer; o que poderás ver nos dous capítulos que faltam e são curtos.



CAPÍTULO CXX

PENÚLTIMO

(continua...)

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