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#Contos#Literatura Brasileira

Luís Soares

Por Machado de Assis (1870)

Uma vez atreveu-se a mais. Adelaide tocava piano quando ele entrou sem que ela o visse. Quando a moça acabou, Soares estava por trás dela. 

- Que lindo! disse o rapaz; deixe-me beijar-lhe essas mãos inspiradas. 

A moça olhou séria para ele, pegou no lenço que pusera sobre o piano, e saiu sem dizer palavra. 

Esta cena mostrou a Soares toda a dificuldade da empresa; mas o rapaz confiava em si, não porque se reconhecesse capaz de grandes energias, mas por espécie de esperança na sua boa estrela. 

- É difícil subir a corrente, disse ele, mas sobe-se. Não se fazem Alexandres na conquista de praças desarmadas. 

Contudo, as desilusões iam-se sucedendo, e o rapaz, se o não alentasse a idéia da riqueza, teria abatido as armas. 

Um dia lembrou-se de escrever-lhe uma carta. Lembrou-se de que era difícil expor-lhe de viva voz tudo quanto sentia; mas que uma carta, por muito ódio que ela lhe tivesse, sempre seria lida. 

Adelaide devolveu a carta pelo moleque da casa que lha havia entregue. 

A segunda carta teve a mesma sorte. Quando mandou a terceira, o moleque não a quis receber. 

Luís Soares teve um instante de desengano. Indiferente à moça, já começava a odiá-la; se casasse com ela era provável que a tratasse como inimigo mortal.

A situação tornava-se ridícula para ele; ou antes, já o era há muito, mas Soares só então o compreendeu. Para escapar ao ridículo, resolveu dar um golpe final, mas grande. Aproveitou a primeira ocasião que pôde, e fez uma declaração positiva à moça, cheia de súplicas, de suspiros, talvez de lágrimas. Confessou os seu erros; reconheceu que não a havia compreendido; mas arrependera-se e confessava tudo. A influência dela acabara por abatê-lo. 

- Abatê-lo! disse ela; não compreendo. A que influência alude? 

- Bem sabe; à influência da sua beleza, do seu amor... Não suponha que lhe estou mentindo. Sinto-me hoje tão apaixonado que era capaz de cometer um crime! 

- Um crime? 

- Não é crime o suicídio? De que me serviria a vida sem o seu amor? Vamos, fale! 

A moça olhou para ele durante alguns instantes sem dizer palavra. O rapaz ajoelhou-se. 

- Ou seja a morte, ou seja a felicidade, disse ele, quero recebê-la de joelhos. Adelaide sorriu e soltou lentamente estas palavras: 

- Trezentos contos! É muito dinheiro para comprar um miserável. E deu-lhe as costas. 

Soares ficou petrificado. Durante alguns minutos conservou-se na mesma posição, com os olhos fitos na moça que se afastava lentamente. O rapaz dobrava-se ao peso da humilhação. Não previra tão cruel desforra da parte de Adelaide. Nem uma palavra de ódio, nem um indício de raiva; apenas um calmo desdém, um desprezo tranqüilo e soberano. Soares sofrera muito quando perdeu a fortuna; mas agora que o seu orgulho foi humilhado, a sua dor foi infinitamente maior. 

Pobre rapaz! 

A moça foi para dentro. Parece que contava com aquela cena; porque entrando em casa, foi logo procurar o tio, e declarou-lhe que, apesar de quanto venerava a memória do pai, não podia obedecer-lhe, e desistia do casamento.

- Mas não o amas tu? perguntou-lhe o major. 

- Amei-o. 

- Amas a outro? 

- Não. 

- Então explica-te. 

Adelaide expôs francamente o procedimento de Soares desde que ali entrara, a mudança que fizera, a sua ambição, a cena do jardim. O major ouviu atentamente a moça, procurou desculpar o sobrinho, mas no fundo ele acreditava que Soares era um mau caráter. 

Este, depois que pôde refrear a sua cólera, entrou em casa e foi despedir-se do tio até o dia seguinte. 

Pretextou que tinha um negócio urgente. 


Capítulo VI 


Adelaide contou miudamente ao amigo de seu pai os sucessos que a obrigavam a não preencher a condição da carta póstuma confiada a Anselmo. Em conseqüência desta recusa, a fortuna devia ficar com Anselmo; a moça contentava-se com o que tinha. 

Não se deu Anselmo por vencido, e antes de aceitar a recusa foi ver se sondava o espírito de Luís Soares. 

Quando o sobrinho do major viu entrar por casa o fazendeiro suspeitou que alguma cousa houvesse a respeito do casamento. Anselmo era perspicaz; de modo que, apesar da aparência de vítima com que Soares lhe aparecera, compreendeu ele que Adelaide tinha razão. 

Assim pois tudo estava acabado. Anselmo dispôs-se a partir para a Bahia, e assim o declarou à família do major. 

Nas vésperas de partir achavam-se todos juntos na sala de visitas, quando Anselmo soltou estas palavras: 

- Major, está ficando melhor e forte; eu creio que uma viagem à Europa lhe fará bem. Esta moça também gostará de ver a Europa, e creio que a Sra. D. Antônia, apesar da idade, lá quererá ir. Pela minha parte sacrifico a Bahia e vou também. Aprovam o conselho? 

- Homem, disse o major, é preciso pensar... 

- Qual pensar! Se pensarem não embarcarão. Que diz a menina? 

- Eu obedeço ao tio, respondeu Adelaide. 

(continua...)

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