ASSIS, Machado de. Linha reta e linha curva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1871.
Por Machado de Assis (1871)
- Não diga isso. É certo que podem acontecer casos desses; mas serão todos assim? Não admite uma exceção? Aprofunde mais os corações alheios se quiser encontrar a verdade... e há de encontrar.
- Qual! disse Tito abaixando a cabeça e batendo com a bengala na ponta do pé.
- Posso afirmá-lo, disse Emília.
- Duvido.
- Tenho pena de uma criatura assim, continuou a viúva. Não conhecer o amor é não conhecer a vida! Há nada igual à união de duas almas que se adoram? Desde que o amor entra no coração, tudo se transforma, tudo muda, a noite parece dia, a dor assemelha-se ao prazer... Se não conhece nada disto, pode morrer, porque é o mais infeliz dos homens.
- Tenho lido isso nos livros, mas ainda não me convenci... - Já reparou na minha sala?
- Já vi alguma cousa.
- Reparou naquela gravura?
Tito olhou para a gravura que a viúva lhe indicava.
- Se me não engano, disse ele, aquilo é o Amor domando as feras. - Veja e convença-se.
- Com a opinião do desenhista? perguntou Tito. Não é possível. Tenho visto gravuras vivas. Tenho servido de alvo a muitas setas; crivam-me todo, mas eu tenho a fortaleza de S. Sebastião; afronto, não me curvo.
- Que orgulho!
- O que pode fazer dobrar uma altivez destas? A beleza? Nem Cleópatra. A castidade? Nem Susana. Resuma, se quiser, todas as qualidades em uma só criatura, e eu não mudarei... É isto e nada mais.
Emília levantou-se e dirigiu-se para o piano.
- Não aborrece a música? perguntou ela abrindo o piano.
- Adoro-a, respondeu o moço sem se mover; agora quanto aos executantes só gosto dos bons. Os maus dá-me ímpetos de enforcá-los.
Emília executou ao piano os prelúdios de uma sinfonia. Tito ouvia-a com a mais profunda atenção. Realmente a bela viúva tocava divinamente.
- Então, disse ela levantando-se, devo ser enforcada?
- Deve ser coroada. Toca perfeitamente.
- Outro ponto em que não é original. Toda a gente me diz isso.
- Ah! eu também não nego a luz do sol.
Neste momento entrou na sala a tia de Emília. Esta apresentou-lhe Tito. A conversa tomou então um tom pessoal e reservado; durou pouco, aliás, porque Tito, travando repentinamente do chapéu, declarou que tinha que fazer.
- Até quando?
- Até sempre.
Despediu-se e saiu.
Emília ainda o acompanhou com os olhos por algum tempo, da janela da casa. Mas Tito, como se o caso não fosse com ele, seguiu sem olhar para trás.
Mas, exatamente no momento em que Emília voltava para dentro, Tito encontrava o velho Diogo.
Diogo ia na direção da casa da viúva. Tinha um ar pensativo. Tão distraído ia que chegou quase a esbarrar com Tito.
- Onde vai tão distraído? perguntou Tito.
- Ah! é o senhor? Vem da casa de D. Emília?
- Venho.
- Eu para lá vou. Coitada! há de estar muito impaciente com a minha demora.
- Não está, não senhor, respondeu Tito com o maior sangue-frio. Diogo lançou-lhe um olhar de despeito.
A isso seguiu-se um silêncio de alguns minutos, durante o qual Diogo brincava com a corrente do relógio, e Tito lançava ao ar novelos de fumaça de um primoroso havana. Um desses novelos foi desenrolar-se na cara de Diogo. O velho tossiu e disse a Tito:
- Apre lá, Sr. Tito! É demais!
- O quê, meu caro senhor? perguntou o rapaz.
- Até a fumaça!
- Foi sem reparar. Mas eu não compreendo as suas palavras...
- Eu me faço explicar, disse o velho tomando um ar risonho. Dê-me o seu braço...
- Pois não!
E os dous seguiram conversando como dous amigos velhos.
- Estou pronto a ouvir a sua explicação.
- Lá vai. Sabe o que eu quero? É que seja franco. Não ignora que eu suspiro aos pés da viúva. Peço-lhe que não discuta o fato, admita-o simplesmente. Até aqui tudo ia caminhando bem, quando o senhor chegou a Petrópolis.
- Mas...
- Ouça-me silenciosamente. Chegou o senhor a Petrópolis, e sem que eu lhe tivesse feito mal algum, entendeu de si para si que me havia de tirar do lance. Desde então começou a corte...
- Meu caro Sr. Diogo, tudo isso é uma fantasia. Eu não faço a corte a D. Emília, nem pretendo fazer-lha. Vê-me acaso freqüentar a casa dela?
- Acaba de sair de lá.
- É a primeira vez que a visito.
- Quem sabe?
- Demais, ainda ontem não ouviu em casa de Azevedo as expressões com que ela se despediu de mim? Não são de mulher que...
- Ah! isso não prova nada. As mulheres, e sobretudo aquela, nem sempre dizem o que sentem...
- Então acha que aquela sente alguma cousa por mim?...
- Se não fosse isso, não lhe falaria.
- Ah! ora eis aí uma novidade.
- Suspeito apenas. Ela só me fala do senhor; indaga-me vinte vezes por dia de sua pessoa, dos seus hábitos, do seu passado e das suas opiniões... Eu, como há de acreditar, respondo a tudo que não sei, mas vou criando um ódio ao senhor, do qual não me poderá jamais criminar.
- É culpa minha se ela gosta de mim? Ora, vá descansado, Sr. Diogo. Nem ela gosta de mim, nem eu gosto dela. Trabalhe desassombradamente e seja feliz.
(continua...)