Por Machado de Assis (1878)
Era noite quando Luís Garcia saiu da casa de Valéria. Ia aborrecido de tudo, da mãe e do filho, — de suas relações naquela casa, das circunstâncias em que se via posto. Galgando a ladeira a pé, detendo-se de quando em quando a olhar para baixo, ia como apreensivo do futuro, supersticioso, tomado de temores intermitentes e inexplicáveis. Não tardou a aparecer-lhe a luz da casa, e, daí a pouco, a ouvir a cantilena solitária do escravo e as notas rudimentais da marimba. Eram as vozes da paz; ele apertou o passo e refugiou-se na solidão.
Capítulo 3
Luís Garcia pouco trabalho teve no ânimo de Jorge. A resolução deste, uma vez declarada, não recuou mais. Não desconhecia o moço que a empresa a que metia ombros era crespa de dificuldades, repugnante a seus instintos, pejada de mortais conseqüências. Mas não recuou. Poucos dias depois foi oferecer seus serviços ao governo, que os aceitou, dando-lhe a patente de capitão de voluntários. A guerra, sobretudo depois do desastre de Curupaity, prometia durar muito; mas não havia desânimo, e o governo era auxiliado eficazmente pela população. Urgia preparar os elementos para a desforra e não dar golpe que não fosse seguro.
Vinte dias depois da conversa no terraço da Rua dos Inválidos, apresentou-se Jorge em Santa Teresa, fardado e pronto, de tal modo porém que era ainda difícil separar o casquilho do militar. A mesma tesoura que lhe cortava os fraques, talhara a farda de capitão, que lhe cingia o busto elegante e cheio. Apertava-lhe a cintura uma banda vermelha, cujas pontas caíam graciosamente ao lado. Calçava um botim reluzente, sobre o qual assentava a calça de fino pano. Inclinado levemente à direita, o boné não lhe desconcertava o cabelo, penteado ao estilo de todos os dias; o bigode tinha as mesmas guias longas, agudas e lustrosas.
Luís Garcia não pôde furtar-se a um sentimento de pena, ao vê-lo entrar fardado e prestes a seguir para o Sul. Pareceu-lhe descobrir por trás dele o perfil da morte, com o eterno sorriso sem lábios. Mas esse sentimento de comiseração passou; lembrou-lhe logo a última palavra da viúva, e não pôde deixar de condená-lo. Viu até, com certa repulsa, esse coração de vinte e quatro anos, que ia arriscar a vida própria, e talvez a de sua mãe, para não rejeitar um sentimento mau.
— Estou a seu gosto? perguntou Jorge com um ar de benévola ironia.
— Há de estar melhor o fim da guerra, Sr. general, respondeu o outro.
— General? Pode ser.
Dizendo isto, Jorge entrou a falar de suas esperanças e futuros. A imaginação começava a dissipar a melancolia. Ele via já naquilo uma aventura romanesca e misteriosa; sentia-se uma ressurreição de cavaleiro medievo, saindo a combater por amor de sua dama, castelã opulenta e formosa que o esperaria na varanda gótica, com a alma nos olhos e os olhos na ponte levadiça. A idéia da morte ou da mutilação não vinha agitar-lhe ao rosto suas asas pálidas e sangrentas. O que ele tinha diante de si eram os campos infinitos da esperança. Contudo, o momento era grave, e dificilmente podia o espírito esquivar-se à reflexão intermitente. Além disso, Jorge subira a Santa Teresa com a resolução de contar tudo a Luís Garcia, a fim de deixar um confidente austero e único de seus amores; mas a palavra não se atrevia a sair do coração. Ou a idade do outro ou a índole de suas relações tolhia essa confidência íntima; mas ainda mais do que uma e outra razão, havia naquele momento o gesto singularmente preocupado e duro de Luís Garcia. Jorge deu de mão ao projeto.
— Dê-me o abraço de despedida, disse ele; embarco amanhã.
— Já amanhã?
— Vim despedir-me do senhor.
Luís Garcia considerou-o silenciosamente durante dous ou três minutos; depois apertou-lhe as mãos.
— Vá, disse; trabalhe pela sua terra; entre na vida com um ato varonil; é o melhor meio de pagar os erros da mocidade. Não se poupe a trabalhos, mas não se exponha sem utilidade; em todo o caso, obedeça à disciplina, e não se esqueça um só dia de sua mãe.
Jorge saiu. O olho de diamante que primeiro levanta a pálpebra no azul do céu parecia fitar de lá o jovem capitão que descia a passo largo e trêmulo na direção da rua de D. Luísa. A meio caminho parou, como se quisesse tomar outra direção; ergueu os ombros e prosseguiu. Ia mergulhar em si mesmo, e só deu acordo ao parar diante de uma casa daquela rua.
Antes de lá entrar, vejamos quem eram os moradores.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.