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#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

O boi, substantivo masculino, com que nós acudimos às urgências do estômago, pai do rosbife, rival da garoupa, ente pacífico e filantrópico, não é justo que viva. . . isto é, que morra obscuramente nos matadouros. De quando em quando, dá-lhe para vir perfilar-se entre as nossas preocupações, como uma sombra de Bânquo, e faz bem. Não o comemos? É justo que o discutamos. 

Veio o boi quando gozávamos — com os ouvidos as vozes do tenor Gayarre, — e com os olhos a nova mutação da cena em Constantinopla; veio, estacou as pernas, agitou a cauda e olhou fixamente para a opinião pública. 

II 

A opinião pública detesta o boi... sem batatas fritas; e nisto, como em outras coisas, parece-se a opinião pública com o estômago. Vendo o boi a fitá-la, a opinião estremeceu; estremeceu e perguntou o que queria. Não tendo o boi o uso da palavra, olhou melancolicamente para a vaca; a vaca olhou para Minas; Minas olhou para o Paraná; o Paraná olhou para a sua questão de limites; a questão de limites olhou para o alvará de 1749; o alvará olhou para a opinião pública; a opinião olhou para o boi. O qual olhou para a vaca; a vaca olhou para Minas; e assim iríamos até a consumação dos séculos se não interviesse a vitela, em nome de seu pai e de sua mãe. 

A verdade fala pela boca dos pequeninos. Verificou-se ainda uma vez esta observação, espeitorando a vitela estas reflexões, tão sensatas quanto bovinas: . 

—Gênero humano! Eu li há dias no Jornal do Comércio um artigo em que se fala dos interesses do produtor, do consumidor e do intermediário; falta falar do interesse do boi, que deve pesar alguma coisa na balança da República. O interesse do produtor é vendê-lo, o do consumidor é comprá-lo, o do intermediário é impingi-lo; o do boi é justamente contrário a todos três. Ao boi importa pouco que o matem em nome de um princípio ou de outro , da livre concorrência ou do monopólio. Uma vez que o matem, ele vê nisso, não um princípio, mas um fim, e um fim de que não há meio de escapar. Gênero humano! não zombeis esta pobre espécie. Quê! Virgílio serve-se-nos para suas comparações poéticas; os pintores não deixam de incluir-nos em seus emblemas da agricultura; e não obstante esse préstimo elevado e estético, vós trazei-nos ao matadouro, como se fôssemos simples recrutas! Que diríeis vós se, em uma república de touros, um deles se lembrasse de convidar os outros a comer os homens? Por Ceres! poupai-nos por algum tempo! 

III

Conheço um homem que anda meio desconfiado de que não há guerra da Sérvia nem império turco; conseqüentemente, que não há sultões caídos, nem suicidados. Mas que são as notícias com que os paquetes vêm perturbar nossas digestões? Diz ele que é uma ópera de Wagner e que os jornais desta corte traduzem mal as notícias que acham nos estrangeiros. 

A ópera, segundo este meu amigo, intitula-se Os três Sultões ou o Sonho do Grão-Vizir, música de Wagner e libreto de Gortchakoff. Tem numerosos quadros. A introdução no estilo herzegoviano é um primor, conquanto fosse ouvida sem grande atenção por parte do público. A atenção começou quando rompeu o dueto entre Milano e Abdul-Aziz, e depois o coro do softas , que derrocam Abdul... O mais sabemos todos. A este meu amigo, replico eu dizendo que a coisa não é ópera, mas guerra; sendo prova disso o telegrama há dias publicado ,que trouxe a notícia de achar-se em começo de paz. Respondeu-me que é ilusão minha. "há decerto um coro que entra cantando: Pace, pace, mas é um coro. Que queres tu? 

Antigamente as óperas eram música, hoje são isso e muita coisa mais. Vê os Huguenotes, com a descarga de tiros no fim. Pois é a mesma coisa a nova composição de Wagner. Há tiros, batalhões , mulheres estripadas, crianças partidas ao meio, aldeias reduzidas a cinzas, mas é tudo ópera. 

IV 

Daquela ópera ao Salvador Rosa a transição é fácil; mas, enquanto meu talentoso colega dos teatros falará mais detidamente da composição de Carlos Gomes e da companhia, eu quero daqui dar um aperto de mão ao inspirado maestro brasileiro, cujo nome cresce na estima e na veneração da Itália e da Europa. 

Não se iludam os que desde os primeiros dias confiaram nele. Ele paga hoje essa confiança com os louros de que cerca o nome brasileiro. 

Sinto não poder manifestar iguais sentimentos à companhia Torresi, mas tenho aqui um calo no pé... Ui! 

Começaram a aparecer mulheres santas e milagrosas. 

Na Bahia aparece uma que não come. Não comer é sinal vivo da santidade, donde eu concluo que o hotel é estrada real do inferno. 

A mulher de que se trata tem-se visto tonta com as romarias dos seus devotos, que já são muitos. Dizem os jornais que a polícia foi obrigada a mandar soldados para pôr alguma ordem nas visitas espirituais à mulher santa. Algumas supõem que a mulher não come por moléstia, e não falta quem diga que ela come às escondidas. 

Pobre senhora! 

De outro lado, não me lembra em que província, apareceu uma velha milagrosa. Cura doenças incuráveis com ervas misteriosas. Isto com alguns coros e um tenor dá meio ato de uma ópera à Meyerbeer. Só a entrada da velha, que deve ter por força queixo comprido, visto que as velhas fantásticas não usam queixo curto, só a entrada era de arrepiar as carnes e enlevar os espíritos. 

Io sono una gran mèdica 

Dottora enciclopèdica.

(continua...)

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