Por Machado de Assis (1866)
A decepção de Fernanda foi grande. Mas pôde dissimulá-la algum tempo; Soares vendo o conteúdo da carta e acreditando que sua mulher apenas quisera entretê-lo com um engano, pagou-lhe em beijos e carícias a felicidade que semelhante descoberta lhe deu. É inútil dizer que Fernanda não foi assistir ao casamento de Fernando e Teresa. Pretextou moléstia e lá não pôs os pés. Nem por isso a festa foi menos brilhante. Madalena estava feliz e contente vendo o contentamento e a felicidade de seu filho. Daí para cá, vai para três anos, o casamento de Fernando e Teresa é um paraíso, em que ambos, novo Adão e nova Eva, gozam da paz do espírito, sem intervenção da serpente nem conhecimento do fruto do mal.
Não menos feliz é o casal Soares, ao qual voltaram, depois de algum tempo, os dias saudosos da pieguice e da puerilidade.
Se algum leitor achar esta história muito nua de interesse, reflita nestas palavras que Fernando repete aos amigos que costumam visitá-lo:
— Consegui uma das coisas mais raras no mundo: a perfeita conformidade das intenções e dos sentimentos entre duas criaturas, tão longe educadas e tanto tempo separadas e desconhecidas uma para outra. É que aprenderam na escola do infortúnio. Vê-se, ao menos nisto, uma máxima em ação.
ASSIS, Machado de. Fernando e Fernanda. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1866.