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#Contos#Literatura Brasileira

Dívida Extinta

Por Machado de Assis (1878)

Há de desculpar o leitor se lhe dou esta cena de pugilato; mas, repare bem, e verá que ela é romântica, de um romântico baixo. Na Idade Média, as coisas não se passavam de outro modo. A diferença é que os cavaleiros lutavam com outras armas e outra solenidade, e a castelã era diferente de uma vulgar namoradeira. Mas só o quadro era outro; o fundo era o mesmo. 

A castelã da Gamboa assistiu à luta dos dois pretendentes meio penalizada, meio lisonjeada e meio remordida. Viu ir pelos ares o chapéu branco de Anacleto, desfazer-se lhe a cabeleira, desarranjar-se-lhe a gravata. Adriano, por sua parte, recebia algum pontapé avulso do adversário e pagava-lho em bons cachaqões. Rolaram os dois por terra, no meio da gente que se juntava e que não podia ou não ousava separá-los; um gritava, outro bufava; os vadios riam, a poeira cercava-os a todos, como uma espécie de nuvem misteriosa. 

No fim de dez minutos, conseguiram os passantes separar os dois inimigos. Um e outro tinham sangue. Anacleto perdera um dente; Adriano recebera uma mordidela na face. Assim desfeitos, feridos, empoeirados, apanharam os chapéus e estiveram a ponto de travarem nova luta. Dois estranhos caridosos impediram a repetição e levaram-nos para casa. 

Carlota não pudera ver o resto; retirara-se para dentro, acusando-se a si própria. Foi dali rezar a uma imagem de Nossa Senhora, pedindo-lhe a reconciliação dos dois e prometendo não atender a mais nenhum deles para os não irritar um contra o outro. Ao mesmo tempo em que ela solicitava a reparação do mal que fizera, cada um deles jurava entre si matar o outro. 

VII 

Aquele lance da Praia da Gamboa foi motivo das palestras do bairro durante alguns dias. A causa da luta foi logo conhecida; e, como é natural em tais casos, aos fatos reais vieram juntar-se muitas circunstâncias de pura imaginação. O principal é que os belos olhos de Carlota tinham tornado irreconciliáveis inimigos os dois primos. Haverá melhor anúncio do que este? 

Bento Fagundes soube do caso e do motivo. Pesaroso, quis reconciliar os rapazes, falou lhes com autoridade e com brandura; mas nem um nem outro modo, nem conselhos nem pedidos, tiveram que fazer com eles. Cada um dos dois meditava a morte do outro, e só recuavam diante dos meios e da polícia. 

— Tio Bento, dizia Anacleto Monteiro; eu não poderei decentemente viver enquanto aquele mau coração palpitar... 

— Perdoa-lhe... 

— Não há perdão para semelhante monstro! 

Bento Fagundes ficara aflito, ia de um para outro, sem alcançar mais resultado com este que com aquele; caía-lhe o rosto, sombreava-se-lhe o espírito; terrível sintoma: o gamão foi posto de lado. 

Enquanto não punham em execução o plano trágico, cada um dos dois rivais lançou mão de outro, menos trágico e mais seguro: a calúnia. Anacleto escreveu a Carlota dizendo que Adriano, se se casasse com ela, pôr-lhe-ia às costas quatro filhos que já tinha de uma

mulher íntima. Adriano denunciou o primo à namorada como um dos mais insignes beberrões da cidade. 

Carlota recebeu as cartas no mesmo dia, e não soube desde logo se devia crer ou não. Inclinou-se ao segundo alvitre, mas os dois rivais não ganharam com esta disposição da moça, porque, recusando dar crédito aos filhos de um e ao vinho do outro, acreditou somente que ambos tinham sentimentos morais singularmente rasteiros. — Creio que são dois peraltas, disse ela com seus colchetes. 

Esta foi a oração fúnebre dos dois namorados. 

Posto que ambos os primos calcassem o pó da Praia da Gamboa para ver a moça e disputá-la, perdiam o tempo, porque Carlota teimava em não aparecer. O caso irritou-os ainda mais um contra o outro, e por pouco não vieram de novo às mãos. Nisto interveio um terceiro namorado, que em poucos dias deu conta da mão, casando com a bela Carlota. Ocorreu o fato três semanas depois do duelo manual dos dois parentes. A notícia foi um pouco mais de combustível lançado na fogueira de ódios acesos entre eles; nenhum dos dois acusou Carlota ou o destino, mas o adversário. A morte da sra. D. Leonarda trouxe um intervalo às dissensões domésticas da casa de Bento Fagundes, cujos últimos dias eram assim bastante amargurados; mas foram apenas tréguas. 

O desgosto profundo, de mãos dadas com uma víscera inflamada, puseram o pobre boticário na cama um mês depois do casamento de Carlota e na sepultura cinqüenta dias mais tarde. A doença de Bento Fagundes foram novas tréguas e desta vez mais sinceras, porque a coisa era mais importante. 

Prostrado na cama, o boticário via os dois sobrinhos servirem-no com muita docilidade e brandura, mas via também que um abismo os separava eternamente. Esta dor era a que mais o pungia naquela ocasião. Quisera reconciliá-los, mas não tinha esperança de o conseguir. 

— Vou morrer, dizia ele a Anacleto Monteiro, e levo a maior mágoa... — Tio Bento, deixe-se de idéias negras. 

— Negras são, é verdade; bem negras, e assim... 

— Qual morrer! Há de ir comigo passar uns dias na Tijuca... 

— Contigo e o Adriano, dizia Bento Fagundes, cravando no sobrinho uns olhos perscrutadores. 

Aqui fechava-se o rosto de Anacleto, onde o ódio, só o ódio, transluzia com um reflexo infernal. 

Bento Fagundes suspirava. 

A Adriano dizia ele: 

(continua...)

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