Por Machado de Assis (1861)
Pela Europa quase nada; a maior parte do tempo gastei em atravessar o Oriente.
PEDRO ALVES
Sempre realizou a sua idéia?
LUÍS
É verdade, vi tudo o que a minha fortuna podia oferecer aos meus instintos artísticos.
PEDRO ALVES
Que de impressões havia de ter! muito turco, muito árabe, muita mulher bonita, não? Diga-me uma coisa, há também ciúmes por lá?
LUÍS
Há.
PEDRO ALVES
Contar-me-á a sua viagem por extenso.
LUÍS
Sim, com mais descanso. Está de saúde a senhora D. Clara Alves?
PEDRO ALVES
De perfeita saúde. Tenho muito que lhe dizer respeito ao que se passou depois que se foi embora.
LUÍS
Ah!
PEDRO ALVES
Passei estes cinco anos no meio da mais completa felicidade. Ninguém melhor saboreou as delícias do casamento. A nossa vida conjugal pode-se dizer que é um céu sem nuvens. Ambos somos felizes, e ambos nos desvelamos por agradar um ao outro.
LUÍS
É uma lua-de-mel sem ocaso.
PEDRO ALVES
E lua cheia.
LUÍS
Tanto melhor! Folgo de vê-los felizes. A felicidade na família é uma cópia, ainda que pálida, da bem-aventurança celeste. Pelo contrário, os tormentos domésticos representam na terra o purgatório.
PEDRO ALVES
Apoiado!
LUÍS
Por isso estimo que acertasse com a primeira.
PEDRO ALVES
Acertei. Ora, do que eu me admiro não é do acerto, mas do modo por que de pronto me habituei à vida conjugal. Parece-me incrível. Quando me lembro da minha vida de solteiro, vida de borboleta, ágil e incapaz de pousar definitivamente sobre uma flor...
LUÍS
A coisa explica-se. Tal seria o modo por que o enredaram e pregaram com o competente alfinete no fundo desse quadro chamado - lar doméstico!
PEDRO ALVES
Sim, creio que é isso.
LUÍS
De maneira que hoje é pelo casamento?
PEDRO ALVES
De todo o coração.
LUÍS
Está feito, perdeu-se um folgazão, mas ganhou-se um homem de bem.
PEDRO ALVES
Ande lá. Aposto que também tem vontade de romper a cadeia do passado?
LUÍS
Não será difícil.
PEDRO ALVES
Pois é o que deve fazer.
LUÍS
Veja o que é o egoísmo humano. Como renegou da vida de solteiro, quer que todos professem a religião do matrimônio.
PEDRO ALVES
Escusa moralizar.
LUÍS
É verdade que é uma religião tão doce!
PEDRO ALVES
Ah!... Sabe que estou deputado?
LUÍS
Sei e dou-lhe os meus parabéns.
PEDRO ALVES
Alcancei um diploma na última eleição. Na minha idade ainda é tempo de começar a vida política, e nas circunstâncias eu não tinha outra a seguir mais apropriada. Fugindo às antigas parcialidades políticas, defendo os interesses do distrito que represento, e como o governo mostra zelar esses interesses, sou pelo governo.
LUÍS
É lógico.
PEDRO ALVES
Graças a esta posição independente, constituí-me um dos chefes da maioria da câmara.
LUÍS
Ah! ah!
PEDRO ALVES
Acha que vou depressa? Os meus talentos políticos dão razão da celeridade da minha carreira. Se eu fosse uma nulidade, nem alcançaria um diploma. Não acha?
LUÍS
Tem razão.
PEDRO ALVES
Por que não tenta a política?
LUÍS
Porque a política é uma vocação e quando não é vocação é uma especulação. Acontece muitas vezes que, depois de ensaiar diversos caminhos para chegar ao futuro, depara-se finalmente com o da política para o qual convergem as aspirações íntimas. Comigo não se dá isso. Quando mesmo o encontrasse juncado de flores, passaria por ele para tomar outro mais modesto. Do contrário seria fazer política de especulação.
PEDRO ALVES
Pensa bem.
LUÍS
Prefiro a obscuridade ao remorso que me ficaria de representar um papel ridículo.
PEDRO ALVES
Gosto de ouvir falar assim. Pelo menos, é franco e vai logo dando o nome às coisas. Ora, depois de urna ausência de cinco anos parece que há vontade de passar algumas horas juntos, não? Fique para jantar conosco.
Cena IV
CLARA, PEDRO ALVES, LUÍS
PEDRO ALVES
Clara, aqui está um velho amigo que não vemos há cinco anos.
CLARA
Ah! o Sr. Luís de Melo!
LUÍS
Em pessoa, minha senhora.
CLARA
Seja muito bem-vindo! Causa-me uma surpresa agradável.
LUÍS
V. Exa. honra-me.
CLARA
Venha sentar-se. O que nos conta?
LUÍS
(conduzindo-a para uma cadeira)
Para contar tudo fora preciso um tempo interminável.
CLARA
Cinco anos de viagem!
LUÍS
Vi tudo quanto se pode ver nesse prazo. Diante de V. Exa. está um homem que acampou ao pé das pirâmides.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Desencantos: fantasia dramática. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1861.