Por Machado de Assis (1876)
— Será possível que ela despreze agora o meu amor? perguntava ele a si mesmo ao sair da casa da namorada.
Esta idéia irritou-o profundamente. Não sabendo que pensar daquilo, resolveu escrever lhe, e nessa mesma noite redigiu uma carta em que expunha lealmente todas as dúvidas do seu coração.
Lucinda recebeu a carta no dia seguinte às 10 horas da manhã; leu-a, releu-a, e pensou muito antes de responder. Ia lançar as primeiras linhas da resposta, quando seu pai entrou na saleta onde ela se achava.
Lucinda escondeu à pressa o papel.
— Que é isso?
— Vamos lá; uma filha não pode ter segredos para seu pai. Aposto que é alguma carta de Gaspar? Pretendente demitido é realmente...
Lucinda dera-lhe a carta, que o pai abriu e leu.
— Tolices! disse ele. Dás-me licença?
Dizendo isto, rasgou a carta e aproximou-se da filha.
— Verás mais tarde, que eu sou mais teu amigo do que pareço.
— Perdão, papai, disse a moça; eu ia responder que não pensasse mais em mim. — Ah!
— Não foi o seu conselho?
O pai refletiu algum tempo.
— A resposta era decerto boa, observou ele; mas a melhor resposta é nenhuma. Em ele desenganando por si mesmo, não insiste mais...
Tal é a explicação da falta de resposta à carta de Gaspar. O pobre namorado esperou dois dias, até que desenganado foi à casa do comendador. A família tinha ido passar alguns dias fora da cidade.
— A sorte persegue-me! exclamou furioso o sobrinho do finado capitão. Um de nós há de vencer!
Para matar a tristeza e ajudar o duelo com o destino, procurou fumar um charuto; meteu a mão na algibeira e não achou nenhum. A carteira apresentava a mesma solidão. Gaspar deixou cair os braços com desânimo.
Nunca mais negra e viva se lhe apresentara ante os olhos a sua situação. Sem emprego, sem dinheiro, sem namorada e sem esperanças, tudo era perdido para ele. O pior é que sentia-se incapaz de domar o destino, apesar do desafio que lhe arremessara pouco antes. Pela primeira vez a idéia dos trezentos contos do tio lhe reluziu ao longo como uma plausibilidade. A visão era deliciosa, mas o único ponto negro apareceu logo dentro de um carro que parou a poucos passos dele. Dentro do carro ia D. Mônica; ele viu-a inclinar-se pela portinhola e chamá-lo.
Acudiu como bom sobrinho que era.
— Que fazes aí?
— Ia para casa.
— Anda jantar comigo.
Gaspar não podia trocar uma realidade por uma hipótese, e aceitou o conselho da tia. Entrou no carro. O carro partiu.
Seria ilusão ou realidade? D. Mônica pareceu-lhe nessa ocasião menos velha do que antes a achava. Ou fosse da toilette, ou de seus olhos, a verdade é que Gaspar viu-se obrigado a reformar um pouco o juízo anterior. Não a achou moça; mas a velhice pareceu-lhe mais fresca, a conversa mais agradável, o sorriso mais meigo e o olhar menos apagado.
Estas boas impressões foram bom tempero ao jantar, que aliás era excelente. D. Mônica mostrava-se, como sempre, carinhosa e boa; Gaspar demorou-se ali até perto das dez horas da noite.
Voltando à casa, refletiu que, se porventura pudesse casar com outra pessoa que não fosse Lucinda, casaria com D. Mônica, sem nenhum pesar nem arrependimento. — Não é moça, pensou ele, mas é boa e são trezentos contos.
Trezentos contos! Este algarismo perturbou o sono do rapaz. Primeiramente custou-lhe a dormir; ele via trezentos contos em cima do travesseiro, no teto, nos portais; via-os transformados em lençóis, em cortinados, em cachimbo turco. Quando conseguiu dormir, não conseguiu livrar-se dos trezentos contos. Sonhou com eles a noite inteira; sonhou que os comia, que os cavalgava, que os dançava, que os aspirava, que os gozava, em suma, por todos os modos possíveis e impossíveis.
Acordou e reconheceu que tudo fora sonho.
Suspirou.
— E tudo isto sacrifico eu por causa dela! exclamou ele. Merece-lo-á? Merecerá que eu padeça tantas privações, que abra mão de um bom casamento para ser desprezado deste modo?
Não lhe respondendo ninguém a esta pergunta, fê-lo ele próprio, e a resposta foi que a moça não merecia tamanho sacrifício.
— Contudo, sacrificar-me-ei! concluiu ele.
Neste ponto das reflexões recebeu uma carta da tia:
Gaspar.
Creio que arranjo empenho para que se te dê algum lugar muito breve, em outra secretaria.
Gaspar estremeceu de prazer.
— Boa tia! disse ele. Ah! como lhe tenho pago com ingratidões!
A necessidade de agradecer e a conveniência de não aumentar a conta no hotel foram as duas razões que levaram o ex-empregado a ir almoçar com a tia. D. Mônica recebeu-o com o carinho do costume, disse-lhe o que pretendia fazer para empregá-lo de novo e deixou-o nadando em reconhecimento.
— Ah! minha tia! Quanto lhe devo!
— Nada me deves, respondeu D. Mônica, só me deves amizade.
— Oh! a maior! a mais profunda! a mais santa!
D. Mônica louvou os sentimentos do sobrinho e prometeu fazer por ele tudo o que fosse possível fazer por... por um neto, é o que ela devia dizer: mas ficou na vaga expressão — por uma pessoa cara.
(continua...)
ASSIS, Machado de. D. Mônica. Jornal das Famílias, 1876.