Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

D. Mônica

Por Machado de Assis (1876)

— Não sei. A barca está a chegar e nós vamos separar-nos. Deixe-me dar-lhe um conselho: case com sua tia. 

— Uma velha! 

— Trezentos contos. 

— Amando a outra! 

— Trezentos contos. 

A barca chegou; o desconhecido despediu-se. 

Gaspar ficou só, a refletir no infinito número de homens interesseiros que há no mundo. A barca voltou daí a pouco à cidade. Gaspar viu entrar entre os passageiros um homem ainda moço pelo braço de uma senhora idosa, que ele supôs ser sua mãe, mas que soube ser sua mulher quando o rapaz a apresentou a um amigo. Vestiam com luxo. O marido, tendo de tirar um cartão de visita da algibeira, mostrou uma carteira recheada de dinheiro. 

Gaspar suspirou. 

Chegando à cidade foi à casa da tia; D. Mônica achou-o ainda muito triste, e lhe disse. — Vejo que amas loucamente essa moça. Queres casar com ela?. 

— Titia... 

— Farei o mais que posso; tentarei vencer o pai. 

Gaspar ficou estupefato. 

— Oh! disse ele consigo; eu sou indigno desta generosidade. 

VI 

O almoço no dia seguinte foi mais triste que de costume. Gaspar abriu os jornais para passar os olhos por eles; a primeira coisa que leu foi a sua demissão. Vociferou contra a prepotência do ministro, a cruel severidade dos usos burocráticos, a exigência descomunal do comparecimento na Secretaria. 

— É indigno! exclamava ele, é infame! 

Veloso, que entrou daí a pouco, não achou tão censurável o ato do ministro; teve até a franqueza de lhe declarar que não havia outra solução, e que o primeiro que o demitira fora ele mesmo. 

Passada a primeira explosão, examinou Gaspar a situação em que o deixava o ato ministerial, e compreendeu (o que não era difícil) que o casamento com Lucinda era cada vez mais problemático. Veloso foi da mesma opinião, e concluiu que um único meio lhe restava: era casar com D. Mônica. 

Gaspar foi nesse mesmo dia à casa de Lucinda. O desejo de a ver era forte; muito mais forte era a curiosidade de conhecer de que maneira recebera ela a notícia da sua demissão. Achou-a um pouco triste, mas ainda mais fria que triste. Três vezes procurou estar a sós com ela, ou pelo menos falar-lhe sem que pudessem ouvi-los. A moça parecia esquivar-se aos desejos do rapaz. 

— Será possível que ela despreze agora o meu amor? perguntava ele a si mesmo ao sair da casa da namorada. 

Esta idéia irritou-o profundamente. Não sabendo que pensar daquilo, resolveu escrever lhe, e nessa mesma noite redigiu uma carta em que expunha lealmente todas as dúvidas do seu coração. 

Lucinda recebeu a carta no dia seguinte às 10 horas da manhã; leu-a, releu-a, e pensou muito antes de responder. Ia lançar as primeiras linhas da resposta, quando seu pai entrou na saleta onde ela se achava.

Lucinda escondeu à pressa o papel. 

— Que é isso? 

— Vamos lá; uma filha não pode ter segredos para seu pai. Aposto que é alguma carta de Gaspar? Pretendente demitido é realmente... 

Lucinda dera-lhe a carta, que o pai abriu e leu. 

— Tolices! disse ele. Dás-me licença? 

Dizendo isto, rasgou a carta e aproximou-se da filha. 

— Verás mais tarde, que eu sou mais teu amigo do que pareço. 

— Perdão, papai, disse a moça; eu ia responder que não pensasse mais em mim. — Ah! 

— Não foi o seu conselho? 

O pai refletiu algum tempo. 

— A resposta era decerto boa, observou ele; mas a melhor resposta é nenhuma. Em ele desenganando por si mesmo, não insiste mais... 

Tal é a explicação da falta de resposta à carta de Gaspar. O pobre namorado esperou dois dias, até que desenganado foi à casa do comendador. A família tinha ido passar alguns dias fora da cidade. 

— A sorte persegue-me! exclamou furioso o sobrinho do finado capitão. Um de nós há de vencer! 

Para matar a tristeza e ajudar o duelo com o destino, procurou fumar um charuto; meteu a mão na algibeira e não achou nenhum. A carteira apresentava a mesma solidão. Gaspar deixou cair os braços com desânimo. 

Nunca mais negra e viva se lhe apresentara ante os olhos a sua situação. Sem emprego, sem dinheiro, sem namorada e sem esperanças, tudo era perdido para ele. O pior é que sentia-se incapaz de domar o destino, apesar do desafio que lhe arremessara pouco antes. Pela primeira vez a idéia dos trezentos contos do tio lhe reluziu ao longo como uma plausibilidade. A visão era deliciosa, mas o único ponto negro apareceu logo dentro de um carro que parou a poucos passos dele. Dentro do carro ia D. Mônica; ele viu-a inclinar-se pela portinhola e chamá-lo. 

Acudiu como bom sobrinho que era. 

— Que fazes aí? 

— Ia para casa. 

— Anda jantar comigo. 

Gaspar não podia trocar uma realidade por uma hipótese, e aceitou o conselho da tia. Entrou no carro. O carro partiu. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...678910Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →