Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Epopeias#Literatura Brasileira

Feitos de Mem de Sá

Por José de Anchieta (1563)

de teu amado pai? que sofras tu morte horrorosa,

por nossa vida? que sejas pasto do cruel inimigo,

e não nos confranjam a nós tuas chagas doridas,

nem esse sangue que te escorre pela fronte robusta?

Nós, esquecidos de tanto sacrifício? Tanto nos acobarda

o amor desta luz transitória e a paixão egoísta

de viver, que não nos deixa vingar tua morte

em merecida desforra? Ah! vingar-nos-emos!”

Abalados por tais pensamentos, sinais de funda tristeza

deram todos . Prestam as últimas honras ao chefe

e aos companheiros mortos, e as exéquias preparam.

Mães piedosas, virgens inocentes, meninos e adultos,

velhos vergados ao peso dos anos, dirigem-se à igreja.

Junto do altar, coberto e velado por pano de luto,

está uma essa: bela faixa branca em forma de cruz

abraça o ataúde em todo o seu comprimento.

Cobrem-se de panos pretos também os altares sagrados.

Círios em profusão enchem as luzes dos templos.

Segundo o costume dos cristãos recitam o símbolo

dos Apóstolos e os mandamentos: então o ministro sagrado

envergando paramentos negros oferece preces e súplicas

ao Pai celeste e imola qual cordeiro inocente,

o corpo de Jesus, vítima das culpas dos homens,

que de mãos e de pés os cravos cruéis trespassaram

e a morte abateu sanguinolentemente.

Daqui e dali, gemidos e soluços ressoam, e prantos

entrecortados por gritos de mulheres; lágrimas correm

em rios pelas faces, em altas vozes invocam a bondade

do Pai onipotente. Justamente sentidos , abalam

com súplicas os excelsos palácios celestes.

Os próprios homens deixam correr pelas faces esquálidas

grossas bagas. Arrancam suspiros do fundo do peito

e com merecidas honras, os tristes funerais acompanham.

Cumpre o sacerdote quanto exige o rito piedoso:

oferece pelas almas do chefe e colegas os supremos sufrágios

e ajudando-os com uma última prece, faz o giro da essa,

asperge-a com a água santa e pronuncia as derradeiras

palavras, pedindo o descanso deles na eternidade serena.

A lua resplendente erguera por detrás do oceano

seu rosto e completara uma só vez o disco brilhante.

Os guerreiros que tão duros combates e riscos tinham corrido

por terra e por mar, retemperam exaustos os membros

e refazem as forças. Cicatrizam as feridas abertas

pelas setas velozes, essas feridas inumeráveis

recebidas ao lado do chefe, enquanto com as espadas

dizimavam o inimigo. Todos os cidadãos e tropas amigas,

num só coração e num só grito, arrojam-se à guerra

jurando vingar a morte cruel de Fernão, o valente,

e aniquilar as hordas selvagens que cercavam a cidade.

O inimigo erguera junto aos muros vastas trincheiras,

e outras fortificações. Reunira inumerável exército,

para desafogar sua raiva louca e ódio descomedido,

exterminar o povo cristão em sangrenta matança

e saciar as negras fauces e os ventres sedentos de sangue.

Sem perda de tempo dirigem à força de remos

as rápidas canoas contra a corrente. Distendem-se

os duros braços e os músculos saltam. Sulcando

as ondas contrárias, voam e em porfiada corrida

atracam no local inimigo, e de um salto ágil

os pelotões fogosos pulam das barcas, palmilham

os litorais adversos, com altos brados invocam

o poder onipotente e arrojam-se contra o inimigo.

Nem valas, nem homens sustêm o assalto dos nossos

ainda que os embarque e fira a chuva das flechas.

Encarniçam-se, e rompendo por sendas impraticáveis,

abatem quanto se lhes ergue diante e acossam os bárbaros,

crivando-os de feridas e juncando de mortos o campo.

Também os nossos levam o peito varado de setas.

Seria longo repetir os golpes de cada um dos guerreiros,

as vidas que despenharam nos abismos da terra.

As armas lançaram no inimigo extermínios medonho.

O sangue correu em riachos que espumejavam:

muitos tombaram passados ao fio da espada,

muitos, de mãos e pescoço presos, carregaram cadeias.

Domado ficou assim seu furor indomável.

Cessou finalmente o terror, a altivez e ameaças

dos bárbaros; e voltou aos lusos a paz suspirada.

Só depois que as guerras findaram de todo, deixaram

os guerreiros as aldeias dos cristãos, bem seguras,

com pleno sucesso. Largam as velas ao vento propício.

A terra se afasta e as popas no oceano se engolfam.

Chegam finalmente à presença do ínclito governador.

Como é fácil de imaginar, estava ele ansioso

pela sorte do filho e pela dos companheiros.

Ao Pai onipotente orava com fervor dia e noite

livrasse os povos cristãos das fauces da morte

e exterminasse o furor do feroz inimigo.

Logo que soube da morte cruel do filho extremoso,

ainda que o amor sublime de pai lhe estremecia no peito

e lhe rasgava a alma com golpe profundo,

escondeu no nobre coração a imensa desgraça.

A virtude invencível dominou o sofrimento

ainda que atroz e consolou o amor dolorido,

porque a morte do filho salvou a vida de muitos.

Tão digno foi do filho esse pai e do pai esse filho!


LIVRO II


Mas já as obras que pela honra divina empreendeste

e teu entusiasmo operoso estão de mim exigindo

os louvores justamente merecidos, ó grande

governador lusitano! O Senhor tos dará generoso

e coroará teus trabalhos com honras celestes,

fiquem embora nossos cantos aquém de tua grandeza.

Pois quem lembrará o tempo das tribos ferozes

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...678910...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →