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#Contos#Literatura Brasileira

Não é mel para a boca do asno

Por Machado de Assis (1868)

Meneses era um homem feliz. Amava e era amado. Estava no começo da vida, e ia fundar uma família. Sentia-se cheio de força e disposto a ser completamente feliz. Poucos dias depois de chegarem à corte, Marques apareceu repentinamente no escritório de Meneses.

O primeiro encontro compreende-se que devia ser um tanto estranho. Meneses, que estava na plena consciência dos seus atos, recebeu Marques com um sorriso. Este procurou afetar uma alegria desmedida.

— Cheguei, meu caro Meneses, há quinze dias; e tive ímpetos de ir a Petrópolis; mas não pude. É inútil dizer que ia a Petrópolis para dar-te os meus sinceros parabéns.

— Senta-te, disse Meneses.

— Estás casado, disse Marques sentando-se, e casado com a minha noiva. Se eu fosse outro zangar-me-ia; mas, graças a Deus, tenho algum juízo. Acho que fizeste muito bem. — Creio que sim, respondeu Meneses.

— Bem pesadas as coisas eu não amava a minha noiva como convinha que ela fosse amada. Não poderia fazê-la feliz, nem o seria eu próprio. Contigo é outra coisa.

— Então recebes assim alegremente...

— Pois então! Não há entre nós uma rivalidade; nenhuma competência nos separou. Foi apenas um episódio na minha vida que eu estimo ver que tivesse este desenlace. Em suma, tu vales mais do que eu; és mais digno dela...

— Fizeste boa viagem? atalhou Meneses.

— Magnífica.

E Marques entrou na exposição minuciosa da viagem, até que um abençoado procurador de causas veio interrompê-lo.

Meneses apertou a mão do amigo, oferecendo-lhe a casa.

— Lá irei, lá irei, mas peço que convenças a tua mulher de que não me há de receber acanhadamente. O que passou, passou: eu é que não valho nada.

— Adeus!

— Adeus!

XI

Não tardou muito que Marques fosse à casa de Meneses, onde Hortênsia lhe preparara uma recepção fria.

Contudo uma coisa era planear, outra era executar.

Depois de ter amado tão ardentemente o rapaz, a moça não podia deixar de sentir um primeiro abalo.

Sentiu, mas dominou-se.

Pela sua parte, o preterido moço, que realmente nada sentia, pôde representar tranqüilamente o seu papel.

O que ele queria (por que não dizê-lo?) era reconquistar no coração da moça o terreno perdido.

Mas como?

Apenas chegado de fora do país, vendo a sua noiva casada com outro, Marques não recebe impressão alguma, e longe de fugir àquela mulher que lhe lembrava uma felicidade perdida, entra friamente por aquela casa que não é dele, e fala tranqüilamente à noiva que já lhe não pertence.

Tais eram as reflexões de Hortênsia.

Entretanto, Marques persistia no seu plano, e empregava na execução dele uma habilidade que ninguém lhe supunha.

Um dia em que se achou só com Hortênsia, ou antes em que lá foi à casa dela na certeza que Meneses estava fora, Marques dirigiu a conversa para os tempos dos antigos amores.

Hortênsia não o acompanhou nesse terreno; mas ele insistiu, e como ela lhe declarasse que tudo aquilo estava morto, Marques prorrompeu nestas palavras:

— Morto! para a senhora, é possível; mas não para mim; para mim que nunca a esqueci, e se por uma fatalidade, que eu ainda hoje não posso revelar, fui obrigado a partir para fora, nem por isso a esqueci. Cuidei que houvesse feito o mesmo, e desembarquei com a doce esperança de ser seu esposo. Por que motivo não esperou por mim? Hortênsia não respondeu; não fez o menor gesto, não disse uma palavra. Levantou-se daí a alguns segundos, e encaminhou-se altivamente para a porta do interior. Marques ficou na sala até que apareceu um moleque dizendo-lhe que tinha ordem de fazê-lo retirar.

A humilhação era grande. Nunca houve mais triste Sadowa nas guerras de el-rei Cupido. — Fui um asno! disse Marques no outro dia quando a cena lhe voltou à lembrança, eu devia esperar dois anos.

Quanto a Hortênsia, logo depois da saída de Marques, entrou no quarto e verteu duas lágrimas, duas apenas, as últimas que lhe restavam para chorar aquele amor tão grande e tão mal posto.

As primeiras lágrimas foram-lhe arrancadas pela dor; estas duas exprimiam a vergonha. Hortênsia já se envergonhava de ter amado aquele homem.

De todas as derrotas do amor, esta é decerto a pior. O ódio é cruel, mas a vergonha é aviltante.

Quando Meneses voltou para casa achou Hortênsia alegre e ansiosa por vê-lo; sem nada contar-lhe, Hortênsia disse-lhe que tinha necessidade de apertá-lo ao seio, e que mais uma vez agradecia a Deus a circunstância que os levou ao casamento. Estas palavras, e a ausência de Marques durante oito dias, fez compreender ao feliz marido que alguma coisa houvera.

Mas nada perguntou.

Naquele casal aliava-se tudo o que é nobre: o amor e a confiança. É este o segredo dos casamentos felizes.

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