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#Contos#Literatura Brasileira

Nem uma nem outra

Por Machado de Assis (1862)

Apaziguado o conflito e dadas as explicações, seguiu Vicente pela rua adiante e deu acordo de si em frente da casa de tio.

A casa estava cheia.

De longe viu sentados em um sofá Correia e Delfina. A moça estava radiante de beleza. Vicente mordeu o lábio até deitar sangue.

Contemplou aquela cena durante alguns instantes e seguiu adiante absorto em suas meditações.

Justamente na ocasião em que principiou ele a andar, bateu-lhe em cheio a luz de um lampião, e Correia disse baixinho à noiva:

— O primo passou agora ali.

— Deveras? perguntou ela.

— Veio ver-nos.

— Vê um par feliz, disse a moça.

— Felicíssimo! exclamou Correia.

A festa do casamento foi esplêndida; durou até alta noite.

Vicente não quis saber mais nada; dirigiu-se para casa.

Ia triste, abatido, envergonhado. O pior mal era não poder atirar a culpa para cima de ninguém: o culpado era ele.

Entrou em casa pelas dez horas da noite.

Contra o costume, Clara não o esperava na sala, posto houvesse luz. Vicente vinha morto por cair-lhe aos pés e dizer-lhe:

— Sou teu eternamente, porque tu és a única mulher que me tiveste amor! Não a encontrando na sala, foi à alcova e não a viu. Chamou e ninguém lhe apareceu. Andou a casa toda e não viu ninguém.

Voltou à sala de visitas e achou um bilhete, assim concebido:

Meu caro, não sirvo para irmã de caridade de corações aflitos. Viva! Deixo ao espírito do leitor o cuidado de imaginar o furor de Vicente; de um só lance perdera tudo.

Um ano depois as situações dos personagens deste romance eram as seguintes: Correia, a mulher e o sogro estavam na fazenda; todos felizes. O capitão por ver a filha casada; a filha por amar o marido; e Correia porque, tendo alcançado a desejada fortuna pagara-a com ser bom marido.

Júlia e Castrioto também eram felizes; neste casal o marido era governado pela mulher que se tornara uma rainha em casa. O único desafogo que o marido tinha era escrever furtivamente alguns romances e colaborar num jornalzinho literário que se chamava: O Girassol.

Quanto a Vicente, julgando a regra pelas exceções, e lançando à conta de todos as culpas suas, não queria mais amigos nem amores. Escrevia numa casa comercial, e vivia como um anacoreta. Ultimamente consta que tenciona casar com uma velha... de duzentos contos.

Um amigo, que o encontrou, interrogou-o a esse respeito.

— É verdade, respondeu ele, creio que se efetua o casamento.

— Mas uma velha...

— É melhor; é a hipótese de ser feliz, porque as velhas têm uma fidelidade incomparável e sem exemplo.

— Qual?

— A fidelidade da ruína.

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