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#Comédias#Literatura Brasileira

Lição de Botânica

Por Machado de Assis (1906)

BARÃO, cumprimentando

— Minha senhora! (Caminha até a porta e pára.) Não transporei mais esta porta?

D. HELENA

— Já a fechou por suas próprias mãos.

BARÃO

— A chave está nas suas.

D. HELENA, olhando para as mãos

— Nas minhas?

BARÃO, aproximando-se

— Decerto.

D. HELENA

— Não a vejo.

BARÃO

— É a esperança. Dê-me a esperança de que...

D. HELENA, depois de uma pausa

— A esperança de que....

BARÃO

— A esperança de que... a esperança de...

D. HELENA, que tem tirado uma flor do vaso

— Creio que lhe será mais fácil definir esta flor.

BARÃO

— Talvez.

D. HELENA

— Mas não é preciso dizer mais: adivinhei-o.

BARÃO, alvoroçado

— Adivinhou?

D. HELENA

— Adivinhei que queria a todo o transe11 ser meu mestre.

BARÃO, friamente

— É isso.

D. HELENA

— Aceito.

BARÃO

— Obrigado.

D. HELENA

— Parece-me que ficou triste?

BARÃO

— Fiquei, pois que só adivinhou metade do meu pensamento. Não adivinhou que eu... porque o não direi? Di-lo-ei francamente... Não adivinhou que...

D. HELENA

— Que...

BARÃO, depois de alguns esforços para falar

— Nada... nada...

D. LEONOR, dentro

— Não admito!

11 A todo o custo.

Cena XIV

D. Helena, Barão, D. Leonor, D. Cecília

D. CECÍLIA, entrando pelo fundo com D. Leonor

— Mas, titia...

D.LEONOR

— Não admito, já disse! Não te faltam casamentos. (Vendo o barão.) ainda aqui!

BARÃO

— Ainda e sempre, minha senhora.

D. LEONOR

— Nova originalidade.

BARÃO

— Oh! Não! A coisa mais vulgar do mundo. Refleti, minha senhora, e venho pedir para meu sobrinho a mão de sua encantadora sobrinha. (Gesto de Cecília.)

D. LEONOR

— A mão de Cecília!

D. CECÍLIA

— Que ouço!

BARÃO

— O que eu lhe pedia há pouco era uma extravagância, um ato de egoísmo e violência, além de descortesia que era, e que V. Exa. me perdoou, atendendo à singularidade das minhas maneiras. Vejo tudo isso agora...

D. LEONOR

— Não me oponho ao casamento, se for do agrado de Cecília.

CECÍLIA , baixo a D. Helena

— Obrigada! Foste tu...

D. LEONOR

— Vejo que o Sr. Barão refletiu.

BARÃO

— Não foi só reflexão, foi também resolução.

D. LEONOR

— Resolução?

BARÃO, gravemente

— Minha senhora, atrevo-me a fazer outro pedido.

D. LEONOR

— Ensinar botânica a Helena? Já me deu vinte e quatro horas para responder.

BARÃO — Peço-lhe mais do que isso; V. Exa. que é, por assim dizer, irmã mais velha de sua sobrinha, pode intervir junto dela para... (Pausa.)

D. LEONOR — Para...

D. HELENA

— Acabo eu. O que o Sr. Barão deseja é a minha mão.

BARÃO

— Justamente!

D. LEONOR, espantada

— Mas... não compreendo nada.

BARÃO

— Não é preciso compreender; basta pedir.

D. HELENA

— Não basta pedir; é preciso alcançar.

BARÃO

— Não alcançarei?

D. HELENA

— Dê-me três meses de reflexão.

BARÃO

— Três meses é a eternidade.

D. HELENA

— Uma eternidade de noventa dias.

BARÃO

— Depois dela, a felicidade ou o desespero?

D. HELENA, estendendo-lhe a mão

— Está nas suas mãos a escolha. (A D. Leonor.) Não se admire tanto, titia; tudo isto é botânica aplicada.

FIM

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