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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

Emília morava com uma tia velha. Era uma boa senhora, amiga da sobrinha, e inteiramente escrava da sua vontade. Isto quer dizer que não havia em Emília o menor receio que a boa tia não assinasse de antemão. 

Na sala em que Tito foi recebido não estava ninguém. Ele teve portanto tempo de sobra para examiná-la à vontade. Era uma sala pequena, mas mobiliada e adornada com gosto. Móveis leves, elegantes e ricos; quatro finíssimas estatuetas, copiadas de Pradier, um piano de Erard, tudo disposto e arranjado com vida. 

Tito gastou o primeiro quarto de hora no exame da sala e dos objetos que a enchiam. Esse exame devia influir muito no estudo que ele quisesse fazer do espírito da moça. Dize-me como moras, dir-te-ei quem és. 

Mas o primeiro quarto de hora correu sem que aparecesse viva alma, nem que se ouvisse rumor de natureza alguma. Tito começou a impacientar-se. Já sabemos que espírito brusco era ele, apesar da suprema delicadeza que todos lhe reconheciam. Parece, porém, que a sua rudeza, quase sempre exercida contra Emília, era antes estudada que natural. O que é certo é que no fim de meia hora, aborrecido pela demora, Tito murmurou consigo: 

- Quer tomar desforra! 

E tomando o chapéu que havia posto numa cadeira ia dirigindo-se para a porta quando ouviu um farfalhar de sedas. Voltou a cabeça; Emília entrava. 

- Fugia? 

- É verdade. 

- Perdoe a demora. 

- Não há que perdoar; não podia vir, era natural que fosse por algum motivo sério. Quanto a mim não tenho igualmente de que pedir perdão. Esperei, estava cansado, voltaria em outra ocasião. Tudo isto é natural. 

Emília ofereceu uma cadeira a Tito e sentou-se num sofá. 

- Realmente, disse ela acomodando o balão, o Sr. Tito é um homem original. 

- É a minha glória. Não imagina como eu aborreço as cópias. Fazer o que muita gente faz, que mérito há nisso? Não nasci para esses trabalhos de imitação. 

- Já uma cousa fez como muita gente. 

- Qual foi? 

- Prometeu-me ontem esta visita e veio cumprir a promessa. 

- Ah! minha senhora, não lance isto à conta das minhas virtudes. Podia não vir; vim; não foi vontade, foi... acaso. 

- Em todo caso, agradeço-lhe. 

- É o meio de me fechar a sua porta. 

- Por quê? 

- Porque eu não me dou com esses agradecimentos; nem creio mesmo que eles possam acrescentar nada à minha admiração pela pessoa de Vossa Excelência. Fui visitar muitas vezes as estátuas dos museus da Europa, mas se elas se lembrassem de me agradecer um dia, dou-lhe a minha palavra que não voltava lá. 

A estas palavras seguiu-se um silêncio de alguns segundos. Emília foi quem falou primeiro. 

- Há muito tempo que se dá com o marido de Adelaide? 

- Desde criança, respondeu Tito. 

- Ah! foi criança? 

- Ainda hoje sou. 

- É exatamente o tempo das minhas relações com Adelaide. Nunca me arrependi. 

- Nem eu. 

- Houve um tempo, prosseguiu Emília, em que estivemos separadas; mas isso não trouxe mudança alguma às nossas relações. Foi no tempo do meu primeiro casamento. 

- Ah! foi casada duas vezes? 

- Em dous anos. 

- E por que enviuvou da primeira? 

- Porque meu marido morreu, disse Emília rindo-se. 

- Mas eu pergunto outra cousa. Por que se fez viúva, mesmo depois da morte de seu primeiro marido? Creio que poderia continuar casada. 

- De que modo? perguntou Emília com espanto. 

- Ficando mulher do finado. Se o amor acaba na sepultura acho que não vale a pena de procurá-lo neste mundo. 

- Realmente o Sr. Tito é um espírito fora do comum. 

- Um tanto. 

- É preciso que o seja para desconhecer que a nossa vida não importa essas exigências da eterna fidelidade. E demais, pode-se conservar a lembrança dos que morrem sem renunciar às condições da nossa existência. Agora é que eu lhe pergunto por que me olha com olhos tão singulares?... 

- Não sei se são singulares, mas são os meus. 

- Então, acha que eu cometi uma bigamia? 

- Eu não acho nada. Ora, deixe-me dizer-lhe a última razão da minha incapacidade para os amores. 

- Sou toda ouvidos. 

- Eu não creio na fidelidade. 

- Em absoluto? 

- Em absoluto. 

- Muito obrigada. 

- Ah! eu sei que isto não é delicado; mas em primeiro lugar, eu tenho a coragem das minhas opiniões, e em segundo foi Vossa Excelência quem me provocou. É infelizmente verdade, eu não creio nos amores leais e eternos. Quero fazê-la minha confidente. Houve um dia em que eu tentei amar; concentrei todas as forças vivas do meu coração; dispus-me a reunir o meu orgulho e a minha ilusão na cabeça do objeto amado. Que lição mestra! O objeto amado, depois de me alimentar as esperanças, casou-se com outro que não era nem mais bonito, nem mais amante. 

- Que prova isso? perguntou a viúva. 

- Prova que me aconteceu o que pode acontecer e acontece diariamente aos outros. 

- Ora... 

- Há de me perdoar, mas eu creio que é uma cousa já metida na massa do sangue... 

(continua...)

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